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Mostrando postagens de setembro, 2025

Você é Um Belo Desastre

Ela o conheceu numa noite em que a cidade parecia suspensa no ar, como se houvesse um segredo por trás de cada luz acesa nas janelas. Não esperava nada, não buscava ninguém, mas havia algo nele que a prendeu de imediato — não o rosto, não a voz, mas aquela sensação de que tudo ao redor estava prestes a desmoronar. Ele era intensidade. Falava como quem inventava mundos, tocava como quem quebrava vidros. Não havia meio-termo: ou se afundava nele, ou fugia. Ela escolheu afundar. Os dias seguintes foram um turbilhão. Riam alto demais, brigavam por nada, faziam as pazes como se fosse a última vez. Ele a conduzia a lugares onde nunca estivera dentro de si mesma: vertigens, corredores secretos, fendas escondidas. Cada beijo parecia um abismo, cada silêncio, um terremoto. Ela sabia — desde o início sabia — que havia algo de perigoso. Ele não cabia em mapas, não respeitava fronteiras, ria das regras como quem rasga papéis inúteis. Era impossível contê-lo. E no entanto, havia beleza. Uma...

Os "Loops" do Cotidiano

O dia a dia não anda em linha reta; prefere desenhar voltas. Voltas miúdas — como quem retorna ao mesmo café, senta-se na mesma mesa, mas encontra outra luz na vidraça. Às vezes imagino a rotina como o metrô de Lausanne: sobe, desce, dobra nas ladeiras, reaparece duas ruas adiante. Parece repetição, mas muda o passo, muda o fôlego, muda o olhar. O Léman, quando está liso, engana: por baixo, há correntes secretas que empurram a água para lugares que a superfície não confessa. Assim também a vida: quieta por fora, móvel por dentro. Os loops do cotidiano são espirais. Passamos novamente pela esquina conhecida — o cheiro do pão, o aceno do vizinho, o bonde que range — e mesmo assim não somos os mesmos de ontem. Uma palavra dita com cuidado, um atraso de dois minutos, um céu que decide abrir entre nuvens: pequenas variações que deslocam o eixo do dia. E é aí que moram as surpresas. O sorriso inesperado de um estranho no meio da pressa. O telefone que toca trazendo notícias que não es...

Te amo Too Much

Ela sempre foi excesso. Nunca aprendeu o meio-termo, nem quis aprender. Amava como quem se joga no mar sem saber nadar: inteira, ofegante, sem calcular a correnteza. Ria alto, chorava como tempestade, caminhava como se o chão fosse palco, falava como se cada palavra fosse definitiva. E quando amava, ah, quando amava... era too much . — Amor... I love you too much! — gritava no meio da rua, no café, na cama, no silêncio. Às vezes dizia rindo, às vezes chorando, às vezes cuspindo a frase entre os dentes, como quem ameaça e implora ao mesmo tempo. Ele se acostumara com o furacão. Sabia que ser amado por ela significava também ser esmagado. Entre beijos que queimavam, havia unhas que arranhavam; entre abraços sufocantes, palavras que o diminuíam até quase sumir. Mas depois, sempre depois, ela se derramava novamente em juras e lágrimas, e ele se deixava afogar. O dia a dia deles era feito de exageros. De manhã, ela o vigiava dormir como se pudesse impedir que desaparecesse no sono....

Não Olhe Pra Trás

Caminhar sem olhar para trás pode parecer um ato de coragem, mas às vezes é apenas um modo silencioso de negar a própria história. Não há como existir sem passado, sem o eco dos passos que já demos, sem as marcas que deixamos — e que nos deixaram. Tudo o que realmente nos pertence não é o que ainda vamos conquistar, mas aquilo que já vivemos. São as lembranças, mesmo as mais ásperas, que se transformam em carne e pensamento dentro de nós. Andar para frente, por sua vez, é reconhecer que ainda há chão. É aceitar que, por baixo das camadas de lembranças que pesam sobre os ombros, existe um corpo que respira, um coração que insiste. Não é fácil. Viver não é um manual de instruções nem um caminho pavimentado; é um campo irregular onde tropeçamos, nos levantamos, e seguimos — às vezes arrastando os próprios fantasmas, às vezes abraçando-os. A vida não se oferece pronta, nem justa. É feita de idas e voltas, de ausências e presenças, de perdas e recomeços. Mas é nesse vai e vem, nessa ten...

Os Espinhos e as Flores

Havia um jardim que parecia feito de contradições. As flores, abertas em cores vivas, exalavam perfumes que se espalhavam pelo ar como lembranças suaves. Mas, entre elas, erguia-se a rigidez dos espinhos, pontiagudos, prontos a ferir. Era como se a vida tivesse escolhido aquele lugar para revelar seu segredo: nada existe sem risco, nada se oferece por inteiro sem a marca da dor. Clara descobrira aquele jardim por acaso, numa manhã em que saiu sem rumo, apenas para escapar do peso das paredes de casa. Desde então, passou a voltar todos os dias, quase num ritual silencioso. O banco de madeira, gasto pelo tempo, tornou-se o espaço onde repousava as horas que não cabiam em nenhum outro lugar. Ali, Clara deixava que o passado a alcançasse. Algumas vezes, vinham primeiro os espinhos: a lembrança da última vez em que viu os olhos dele se fecharem, o telefonema que trouxe notícias de uma amiga que não voltaria, as palavras que nunca disse aos filhos por medo de fraquejar. Cada memória crav...

Conforme Tua Vontade

Somos feitos de água. Quase inteiros, quase rios ambulantes. Dentro de nós, correntes invisíveis circulam como afluentes, carregando nutrientes, íons, oxigênio. O corpo humano é uma represa em movimento: nunca estagnado, sempre fluindo. Cada célula é uma turbina, cada molécula de ATP um lampejo de energia que sustenta o espetáculo da vida. Essa usina quase perfeita mantém a engrenagem funcionando, mas não se resume ao trabalho físico. Há algo que interfere nesse motor silencioso: os pensamentos que escolhemos cultivar. Eles não nascem apenas da química; moldam-se na experiência, na memória, no olhar que lançamos sobre o mundo. Pensamentos são como as comportas da represa: podem abrir caminhos para que a água flua livre, ou bloquear o curso, criando pressões insuportáveis. Quando escolhemos alimentar o medo, a raiva ou a desesperança, o fluxo da energia se torna pesado, como uma turbina enferrujada. Mas, se optamos pela serenidade, pela coragem ou pela esperança, o movimento interno...

Quero Ser Seu Par

Ela nunca disse em voz alta. Nunca precisou. Mas a frase repousava em sua boca como um segredo que se oferece apenas ao vento: “quero ser seu par” . Ele caminhava alguns passos à frente, distraído com o desenho das pedras no chão, como se cada fissura fosse uma pausa onde pudesse descansar os pensamentos. Ela o acompanhava em silêncio, ajustando o compasso do corpo ao dele — não por submissão, mas pela delicada arte de encontrar harmonia onde dois mundos parecem distintos. Naquele instante, não eram apenas duas pessoas dividindo uma calçada. Eram como melodias soltas, buscando um encontro invisível. Havia uma música que não se ouvia, mas que se pressentia nos gestos: na forma como a sombra dele avançava sobre a dela, como quem protege sem ter consciência, ou no leve atraso com que ela se permitia seguir, prolongando cada intervalo entre os passos. Pensava que ser par não significava estar ao lado em todos os momentos, mas ser a presença que completa a ausência do outro. Como a lu...

Voo Perto do Sol

Quando menino, ele costumava subir nos muros altos da vizinhança. Os outros garotos corriam atrás de bolas, soltavam pipas, inventavam guerras de pedrinhas. Ele preferia o silêncio do vento contra o rosto. De braços abertos, equilibrava-se como quem ensaia um salto que nunca terminava. As mães da rua o chamavam de louco, diziam que um dia cairia de cabeça no chão. Mas ele insistia. Havia quem pensasse que fosse apenas distração, mania de criança. Não era. Já naquela época, o menino carregava um desassossego que não cabia nos brinquedos comuns. O céu lhe parecia menos distante do que as pessoas ao redor. Na adolescência, passou a sumir por horas. Encontravam-no no alto de torres, nos galpões abandonados, deitado nos telhados de zinco, olhando para o firmamento. Tinha nos olhos um brilho que misturava febre e sonho. Quando perguntavam o que fazia, respondia apenas: “Estou medindo a distância.” E assim se fez homem. Trabalhou quando necessário, vestiu roupas corretas, a prendeu a ...

Os Medos que Chegam à Noite

Ana apagou a última luz da casa. O relógio marcava quase meia-noite quando ela se deitou, esperando que o sono viesse rápido, como um visitante de confiança. Mas o sono sempre se atrasava, e no lugar dele vinham outros hóspedes — os medos. Eles não batiam à porta; escorregavam pelas frestas da memória, pelas sombras das paredes, pelo silêncio que se instalava no quarto. Primeiro vinham pequenos, como ruídos distantes. Depois, cresciam. O medo da perda era o mais voraz. Na escuridão, Ana revivia despedidas que nunca aconteceram, mas que se repetiam todas as noites em sua imaginação. Via os rostos de filhos, netos, amigos, um a um, desvanecendo como se a madrugada fosse capaz de roubá-los todos de uma vez. Outro medo, persistente e cruel, era o do próprio corpo. Diante da penumbra, sentia-se pequena, frágil, como se seus ossos pudessem se desfazer no silêncio. O tempo, com sua pressa escondida, sussurrava que o dia seguinte poderia ser o último em que teria forças para levantar. ...

Aprendendo a Viver Sem Teus Aplausos

O palco ainda estava ali. As cortinas vermelhas, já gastas nas bordas, continuavam a abrir-se todas as noites. A madeira rangia sob os passos, os refletores acendiam como sóis obedientes. Mas faltava algo — ou melhor, faltava alguém. Ela caminhava pelo centro iluminado como quem atravessa um campo de silêncio. Antes, bastava erguer a voz, mover os braços, lançar um olhar, e os aplausos vinham: primeiro tímidos, depois como ondas que a cobriam inteira. Não eram apenas palmas: eram a confirmação de que ela existia, de que sua presença podia mover o mundo de dentro para fora. Mas agora, as mãos que batiam na plateia estavam longe. As tuas mãos. O som que mais a sustentava era aquele que não voltaria. No início, tentou forçar o ouvido. Como quem chama um eco escondido nas paredes, fechava os olhos e imaginava que ainda estavas lá, sorrindo, orgulhoso, aplaudindo mais alto do que todos. Depois percebeu que não havia como prolongar fantasmas sem perder-se junto com eles. Foi então qu...

Eu Acho Que Escolho o Caos

Na ordem, o despertador toca às 7h00, o café é preto, o pão tem crosta dourada e o mundo segue pontual. No caos, o despertador uiva, o café é azul, o pão sangra migalhas no chão. Na ordem, as filas se alinham: senha, guichê, assinatura. No caos, as senhas se multiplicam como coelhos, os guichês trocam de lugar, e o atendente pergunta se o cliente veio buscar um rim ou devolver a própria alma. Na ordem, os casamentos têm alianças brilhantes, buquês de flores e discursos ensaiados. No caos, a noiva se atrasa para sempre, o padre pede um gole do vinho de missa e o noivo foge abraçado ao saxofonista da banda. Na ordem, a cidade respira com seus semáforos. Verde, amarelo, vermelho. No caos, o verde fica roxo, o amarelo escorre no asfalto e o vermelho atravessa apaixonado atrás de um gato. Na ordem, as bibliotecas são templos silenciosos. No caos, os livros cospem verbetes, brigam entre si, poemas arrancam páginas de romances e as enciclopédias se atiram das prateleiras em prote...

O Muro e a Luz

Eles chegavam todos os dias ao mesmo lugar. Ninguém sabia dizer quando aquilo começara, mas já não lembravam de outro destino possível. O caminho era sempre o mesmo: passos arrastados, corpos curvados, olhares que evitavam o horizonte. E então, de repente, lá estava ele — o paredão cinzento, erguido como se fosse a própria continuação da terra. Não era apenas concreto. O muro parecia respirar uma frieza mineral, exalando um cheiro úmido de pedra molhada. Quem se aproximava sentia a aspereza rasgar a pele, como se fosse feito para repelir qualquer toque. Mas era contra ele que todos se reuniam, dia após dia, como quem participa de um culto que não compreende. O motivo estava no alto: uma fresta minúscula por onde escapava um raio de luz. A claridade descia fina, quase insolente, sem se deter em rosto algum. E era suficiente. Bastava aquele facho distante para que homens e mulheres se amontoassem na base do muro, tentando tocá-lo. As mulheres, murchas como flores secas, estendia...

O Dia Que Nunca Chegou

Na rua estreita do bairro antigo havia uma casa que todos chamavam de a casa da espera. Não era pela cor descascada das paredes, nem pela janela sempre entreaberta, mas porque dentro dela vivia uma mulher que parecia ter parado no tempo. Chamava-se Elisa. Todas as manhãs, preparava o café, que esfriava antes mesmo do primeiro gole, e se sentava perto da janela com uma caixa de cartas no colo. Eram bilhetes amarelados, postais riscados, envelopes com promessas escritas em letras que já se desfaziam com os anos. Entre elas, a palavra “logo” aparecia repetida, como um refrão de ausência. Elisa habitava esse “logo”: não no ontem, não no hoje, mas nesse futuro que nunca se transformava em presente. Na sala, um relógio antigo havia parado às oito e pouco. O ponteiro imóvel parecia respirar junto dela, lembrando que, dentro daquela casa, as horas não corriam como no resto do mundo. Os vizinhos observavam com curiosidade. Alguns apostavam que Elisa esperava um amor de juventude; outros, ...

As Mãos Que Falam

Numa das minhas andanças por Lausanne, precisei pegar o ônibus. Enquanto observava a disciplina quase silenciosa do transporte público suíço, pensei no quanto o Brasil pouco aproveita esse recurso tão essencial. Préjugé? Peut-être… mais ça, c’est pour un autre jour. Foi então que meus olhos pararam numa mulher em pé, perto da porta. Ela falava ao celular. Não escutava sua voz, mas bastava olhar para suas mãos para compreender: elas contavam a história inteira. Os dedos se erguiam como flechas, denunciando indignação. Talvez discutisse com o filho adolescente, aquele que sempre promete voltar cedo e nunca cumpre. Ou quem sabe fosse o marido, insistindo em adiar mais uma vez uma decisão que já não cabia no adiamento. Talvez fosse com a mãe, reclamando da saúde, e ela, impotente, sem conseguir estar por perto. Ou ainda com o médico, tentando arrancar uma resposta precisa e recebendo apenas evasivas. As mãos riscavam o ar como quem escreve no invisível. Ora subiam num gesto duro, ora...

O Coração Me Guia, As Pernas Me Levam

  É o coração que pulsa primeiro. Ele desenha uma rota invisível, uma trilha que não cabe em mapas. Depois, são as pernas que obedecem — firmes, hesitantes ou cansadas — levando-nos adiante como quem atravessa terrenos conhecidos e, de repente, se depara com a surpresa de um desfiladeiro. Na maior parte das vezes, coração e pernas andam em compasso. Há uma música secreta, quase inaudível, que conduz os passos com leveza, e sentimos que tudo está em harmonia. Outras vezes, o compasso se perde. O coração insiste em avançar, mas as pernas param diante de um abismo. Ficam ali, imóveis, como se soubessem que basta um passo em falso para que tudo se desfaça. Também existem os paredões: muros tão altos que parecem riscar o céu. Às vezes desistimos de escalá-los, preferindo a sombra da desistência; outras vezes encontramos razões para tentar. Nesses momentos, somos conduzidos por algo maior que a lógica — um desejo, uma lembrança, ou simplesmente a recusa em aceitar que aquele é o fim ...

Melancolia

  A melancolia é algo que gruda. Não se anuncia, não faz barulho. Surge devagar, quando ousamos atravessar o corredor estreito que leva às gavetas esquecidas dentro de nós. Essas gavetas, deixadas à sombra, são lugares de risco. Sabemos que estão lá, fechadas, e ainda assim fingimos não perceber. Algumas carregam cheiros de infância, outras escondem cartas que nunca escrevemos, gestos que não tivemos coragem de fazer, abraços que não demos. Há gavetas que guardam restos de amor, e há aquelas em que se acumulam arrependimentos como poeira grossa. O ato de abri-las é sempre um mergulho. Nunca sabemos o que vai se soltar — uma saudade que parecia adormecida e acorda com pressa, um silêncio que vira grito por dentro, ou a lembrança incômoda do que poderia ter sido e nunca foi. Ao puxar a alça dessas gavetas, não estamos apenas mexendo no passado: estamos mexendo em quem nos tornamos. E é nesse instante que a melancolia chega. Não como visita breve, mas como substância pegajosa,...

Pequenos Gestos, Grandes Mudanças

“Qu´est-ce qui dépend de moi pour que le monde soit différent”   Não é sempre pelas grandes revoluções que o mundo se transforma. Muitas vezes, é no quase invisível dos dias comuns que se escondem as sementes das mudanças. Um bom-dia oferecido sem pressa, a porta que se segura para alguém, o copo de água entregue antes que seja pedido, o silêncio respeitado quando o outro não encontra palavras. Pequenos gestos, quase banais, que passam despercebidos no corre-corre, mas que deixam marcas mais duradouras do que discursos inflamados. O mundo não gira apenas com inventos, teorias ou feitos grandiosos. Ele se move também na delicadeza do gesto que se repete. Aquele que não aparece nos jornais, mas que resiste no coração de quem o recebe. Talvez mudar o mundo seja justamente isso: não esperar por heróis ou marcos históricos, mas arriscar o pouco que cabe em nossas mãos. Uma gentileza, um cuidado, uma escuta. O cotidiano, afinal, é o palco de todas as revoluções silenciosas. ...

Entre Passos

A cada caminhada por Lausanne —às vezes junto ao Léman, outras subindo as colinas que me conhecem pelo nome— minha cabeça fervilha. Pensamentos entram e saem como estações: há momentos em que me fazem rir sozinha, outros em que me fazem chorar sem que eu note quem passa ao meu lado. Rio e choro, e o mundo segue, indiferente ao pequeno tumulto que carrego no peito. Se penso na vida, logo me vem a imagem dos trens que cortam a paisagem em alta velocidade. Compramos uma passagem com a esperança de sermos felizes; imaginamos vagões inteiros dedicados à alegria, outros à segurança. E, ainda assim, às vezes o trem passa batido por aquela plataforma onde esperávamos desembarcar — provoca o caos, deixa malas espalhadas, e só então percebemos que nada ali estava garantido. A vida, por aqui, é breve como um apito que some na névoa; exige que a gente escolha estações, mesmo sem certeza do destino. E qual é, então, o sentido dessa viagem? Filósofos explicam, dividem, constroem mapas e labirint...

Por Baixo dos Panos

  Na pequena cidade onde todos se conheciam mais pelo sobrenome do que pelo rosto, havia um segredo compartilhado: a lavanderia da Dona Alzira. Oficialmente, ela lavava roupas. Extraoficialmente, era o centro nervoso das fofocas mais frescas, das transações mais discretas e, sobretudo, do que ficava escondido — por baixo dos panos. Dona Alzira tinha mãos rápidas. Em menos de cinco minutos, separava roupas íntimas das camisas sociais, embrulhava o que precisava desaparecer e entregava o que precisava aparecer, como se nunca tivesse saído dali. — Aqui é lavanderia, não confessionário! — dizia sempre que alguém arriscava chorar em cima do balcão. Mas ouvia tudo, guardava tudo e, claro, lavava a alma junto da roupa. Um dia, Seu Gentil, o farmacêutico, entrou aflito. Não trazia lençóis, mas um embrulho mal disfarçado. O pano escondia uma batina. — Por favor, Alzira... não diga a ninguém. Caiu vinho... vinho de missa — justificou-se, vermelho até as orelhas. — Missa em boteco a...

Camas Separadas

  Ana e Murilo não falavam muito à noite. Cada um se deitava em sua cama — duas estruturas iguais, paralelas, separadas por um corredor estreito de silêncio. As cobertas, sempre bem esticadas, não se encontravam nunca. Foi escolha dos dois. Não dita, não assinada em contrato, mas construída aos poucos, como quem ergue um muro de tijolos invisíveis entre os corpos. Primeiro foi o cansaço das jornadas longas; depois, a desculpa da insônia dela e do ronco dele; em seguida, a justificativa de que era “mais prático” cada um ter seu espaço. E assim, sem perceberem, trocaram a intimidade pelo conforto, o abraço pelo travesseiro. Ana olhava o teto e se perguntava quando exatamente deixara de desejar o calor de Murilo ao lado. Murilo, de costas para ela, se encolhia dentro de si, fingindo que dormir era mais urgente do que conversar. As manhãs chegavam, e eles continuavam juntos — café, listas de supermercado, planos sobre a casa. No entanto, era como se cada um carregasse dentro de s...

Entre Três Pratos na Mesa

Na mesa sempre havia três pratos. Ele fazia questão disso, mesmo nos dias em que a comida era simples demais para ocupar tanto espaço. Dois copos pequenos, um maior, e a rotina de ajeitar talheres como se fosse um ritual secreto de pertencimento. As meninas chegavam da escola despejando palavras como quem abre uma torneira: risos, reclamações, confidências. Ele aprendia a ouvir mais do que a responder. Carregava dentro de si um manual invisível, escrito às pressas a cada nova situação. Manual que nunca vinha pronto, mas que ele inventava com a pressa de quem não queria errar. Era estranho ser um homem dividido em três: pai, mãe e ele mesmo. Muitas vezes esquecia desse último, e só lembrava quando o cansaço o encostava na parede do quarto. Ali, deitado, ouvia as respirações das filhas como música de fundo. Não sabia cozinhar direito, mas as meninas adoravam quando ele improvisava uma sopa que tinha gosto de nada e de tudo ao mesmo tempo. Chamavam de “sopa do pai”, e riam ao dizer ...

O Muro e a Luz

Eles chegavam todos os dias ao mesmo lugar. Ninguém sabia dizer quando aquilo começara, mas já não lembravam de outro destino possível. O caminho era sempre o mesmo: passos arrastados, corpos curvados, olhares que evitavam o horizonte. E então, de repente, lá estava ele — o paredão cinzento, erguido como se fosse a própria continuação da terra. Não era apenas concreto. O muro parecia respirar uma frieza mineral, exalando um cheiro úmido de pedra molhada. Quem se aproximava sentia a aspereza rasgar a pele, como se fosse feito para repelir qualquer toque. Mas era contra ele que todos se reuniam, dia após dia, como quem participa de um culto que não compreende. O motivo estava no alto: uma fresta minúscula por onde escapava um raio de luz. A claridade descia fina, quase insolente, sem se deter em rosto algum. E era suficiente. Bastava aquele facho distante para que homens e mulheres se amontoassem na base do muro, tentando tocá-lo. As mulheres, murchas como flores secas, estendia...

Rodas, Idiomas e Solavancos

Viver em Lausanne é como se aventurar num carrossel de idiomas: francês, alemão, inglês, italiano, espanhol — e eu, com meu português teimoso, que insiste em não abrir espaço. A cada esquina, uma nova língua me desafia, e eu entro na roda como quem dança fora do ritmo. Outro dia, numa padaria, o vendedor perguntou qualquer coisa em francês. Eu, cheia de convicção, respondi em português: — Um pãozinho, por favor. Ele sorriu com aquela expressão educada de quem não entendeu nada, mas quis ser simpático. Achei que tinha dado certo, até ele voltar com um croissant, um sanduíche de atum e um brioche. Paguei em silêncio. Quem sou eu para contrariar a lógica suíça do mal-entendido? E as bicicletas? Aqui pedalar é quase esporte olímpico. Não é passeio de domingo, é corrida da Fórmula 1. As subidas parecem paredes, as descidas lembram autódromos, e os ciclistas passam como flechas — capacete, roupa justa e cara séria. Só falta a bandeirada final. Eu, que mal consigo equilibrar o francês d...

Tudo Fora do Lugar

A casa respirava um silêncio torto. À primeira vista, parecia inteira, mas bastava olhar além da poeira da rotina para perceber: estava tudo fora do lugar. O relógio da parede, cansado, havia parado entre o ontem e o nunca. As horas, que sempre marcharam com arrogância, agora se encolhiam, presas num intervalo sem retorno. Os livros, esquecidos na estante, permaneciam abertos como feridas, cada página uma lembrança suspensa que se recusava a cicatrizar. O vento atravessava a janela aberta, brincando com as cortinas como quem brinca com a alma de alguém distraído. E, em cada dobra de tecido, parecia cochichar: a ordem é uma ilusão, e a vida se move no descompasso. Ela caminhava pelo espaço como quem atravessa um sonho desmontado. A xícara lascada ainda guardava a pressa dos dias. O tapete torto lembrava passos que nunca aprenderam a seguir o compasso certo. A gaveta entreaberta guardava segredos que insistiam em respirar, mesmo depois de enterrados. Na pia, os pratos empilhados es...

Um Brinco de Pérola

Naquela manhã, ao abrir a gaveta onde guardava papéis esquecidos, moedas antigas e pequenos objetos que nunca jogara fora, ele encontrou uma caixinha de veludo azul. Não lembrava de tê-la visto antes, ou talvez apenas tivesse se acostumado a ignorar sua presença silenciosa entre tantas quinquilharias. Abriu-a. Dentro, repousava um único brinco de pérola. Era simples, redondo, sem adornos ao redor. Uma esfera de luz discreta, como se o mar tivesse guardado em segredo um fragmento de eternidade e agora, de repente, o entregasse a ele. Segurou-o entre os dedos e ficou parado, como se o mundo inteiro tivesse encolhido para caber naquele ponto de brilho. A pérola refletia a claridade da manhã que entrava pela janela, mas parecia, ao mesmo tempo, retê-la em sua superfície lisa. Tudo se resumia àquele mínimo detalhe que, ainda assim, continha um oceano. Pensou em colocá-lo na própria orelha. Não o fez. Apenas aproximou-o do rosto e sentiu o frio da esfera contra a pele. Estranhamente,...

Entraram Como um Buraco no Chão

  Entraram como um buraco no chão, como se entrassem na alma. Ninguém percebeu. A sala estava cheia de vozes, copos tilintando, passos arrastados, mas o instante em que eles cruzaram a porta foi como se o piso cedesse. Não um desabamento ruidoso, desses que arrancam gritos e poeira, mas um silêncio subterrâneo, íntimo, que só quem carrega fendas por dentro pode ouvir. Ela os reconheceu de imediato, embora não soubesse seus nomes. Havia neles uma espécie de sombra familiar, o tipo de sombra que não se vê no corpo, mas se sente nas lembranças. Aproximaram-se devagar, e cada passo parecia abrir fissuras invisíveis no espaço, fissuras que chegavam até a respiração dela. Não era medo. Era outra coisa. Como quando se olha para um espelho antigo e, atrás do próprio reflexo, encontra os olhos de alguém que já se foi. Eles não disseram nada. Não precisavam. Ficaram parados diante dela, e o ar pareceu pesado demais para ser respirado. No fundo, era como se sempre tivessem estado ali —...

Os Equilibristas

No centro do picadeiro, a lona estendida como céu de pano abrigava a respiração suspensa da plateia. Não havia palmas ainda, tampouco música: apenas o silêncio expectante de quem sabe que algo frágil e grandioso está prestes a acontecer. Dois equilibristas entraram. Não se deram as mãos, mas seus passos carregavam a memória de outros passos, de outras travessias. Olhavam para a corda esticada como quem encara um destino inevitável: fina, tensa, vibrando com o ar da noite. Ela subiu primeiro. Os pés descalços reconheceram a textura áspera do fio, e cada centímetro percorrido lembrava o risco da queda. Ele veio logo atrás, mas não para alcançá-la — caminhava ao seu próprio compasso, como se a corda fosse longa o bastante para abrigar duas solidões paralelas. A plateia prendia o fôlego. Os corpos lá embaixo queriam aplaudir, mas sabiam que o menor gesto poderia desviar o passo, a mínima interrupção bastaria para que tudo se desfizesse. Assim, observavam em silêncio, como quem vigia ...

Os Dias Seguintes

No primeiro dia seguinte, a casa ainda cheira a ele — um cheiro que não cabe em palavras, mistura de café antigo, roupas guardadas e a sombra de um riso. Silvia — ou qualquer nome que queira vestir — move-se como quem passa por dentro de um filme: as mãos sabem cada gesto, os sapatos seguem o trilho dos passos que eram dois. O corpo acusa a presença como se a pele ainda estivesse aquecida por um calor recente; por um momento, ao abrir a porta, espera encontrar o casaco pendurado, o barulho da chaleira anunciando um costume que não aprendera a deixar só. À tarde, senta-se na poltrona onde costumavam se encostar. O corpo permanece quente, não pelo ar, mas pela memória do toque — o braço que descansava ao lado, o ombro que acolhia. Fechar os olhos não apaga a sensação de que ele virou apenas o rosto, atravessou um corredor e vai voltar. A mente teima em cada detalhe: o livro deixado aberto, o copo sobre a mesa, a cadeira que range só às vezes. A cada som inesperado o corpo se anima, com...

Um Ano Depois...

Um ano depois, descubro que, além da saudade, existe algo ainda mais duro: a pena de mim. De como me vi, sem escolha, diante daquela intrusa faminta. Ela chegou sem aviso, sentou-se à mesa, abriu as mãos vazias exigindo tudo. E ali estava eu, com o meu amor inteiro entre os braços, tendo que entregá-lo à desconhecida que nunca o conhecera. Foi injusto. Foi brutal. Ela não quis saber das histórias que escrevemos juntos, das manhãs de café, dos silêncios cúmplices. Não quis ouvir sobre os filhos, os netos, as pequenas vitórias, as perdas atravessadas de mãos dadas. Não quis nada — só tomou. E eu, frágil como nunca, tive de ceder. Não havia opção: ou ela o levava, ou eu me despedaçava antes. Fiquei com a ausência, com a casa que ecoa sua falta, com a cama maior do que devia. Fiquei com a memória, com a respiração entrecortada, com o consolo possível de ainda poder chamá-lo dentro de mim. Mas não fiquei sozinha. Nesse vazio que parecia não ter fundo, surgiram mãos que me segurara...

Carta ao Meu Eterno Amor

Meu amor, Hoje faz um ano. Um ano sem teu riso, sem tua voz, sem o calor da tua mão encontrando a minha como quem sabe o caminho de olhos fechados. O tempo, que dizem curar, não sabe nada de feridas que não cicatrizam. Ele apenas se acumula, camada sobre camada, feito pó que se deposita nos móveis, e eu sigo tentando soprá-lo, na esperança de te ver surgir inteiro outra vez. Um ano sem você é como viver num quarto com janelas abertas, mas sem vento. A vida entra, passa, acontece — mas não move, não preenche, não acende. Guardo teus gestos como quem guarda tesouros invisíveis. Cada detalhe teu ainda me visita: o assovio distraído, o jeito de ajeitar as coisas sem pressa, o olhar que dizia mais do que qualquer palavra. Sinto tua falta em tudo. E, ao mesmo tempo, te sinto em tudo: no nascer do dia, nas sombras da noite, no intervalo entre uma respiração e outra. Um ano sem você… e continuo contigo. Porque o amor, ao contrário da presença, não conhece partida. Sempre tua, Silvia

Amanheceres de Lausanne

  Tenho assistido a muitos amanheceres aqui em Lausanne. Morando no quarto andar, de frente para o Léman e para as montanhas, percebo um privilégio raro: o céu não se esconde atrás de prédios gigantescos como em São Paulo, onde é preciso se contorcer para encontrar um fiapo de azul. Aqui, basta abrir a janela — e o horizonte inteiro me responde. Os dias começam com cores que parecem ter sido inventadas apenas para este pedaço do mundo. Às vezes douradas, às vezes azuis profundas, outras vezes um cinza suave que anuncia silêncio. É nesse espetáculo que a vida se infiltra em mim, mesmo quando chega acompanhada de saudade. Há um fio de dor, sim, mas também um sopro de alívio: o amanhecer não me pede nada, apenas me oferece. E eu aceito, inteira, o que ele traz. Porque nesses instantes compreendo que, apesar de tudo, sigo recebendo a dádiva da vida.   Silvia Marchiori Buss      

A Bolha

Eu e ele vivíamos numa bolha. Invisível, sim, mas tão concreta para nós que moldava cada gesto do dia. Quando eu saía para a vida lá fora — trabalho, compromissos, ruas barulhentas — sentia o instante da ruptura: era como se a bolha se abrisse para que eu passasse, e o ar frio do mundo me atingisse no rosto. Eu suportava, mas já contava as horas para voltar. Às cinco da tarde, tudo em mim queria estar em casa, fechada com ele de novo. Era um desejo quase físico, como sede ou fome. E quando finalmente chegava, havia sempre o assovio dele, leve, brincalhão, fazendo nascer pequenas bolhas ao redor, como se o ar se enchesse de fragmentos de vidro claro. Cada nota parecia suspender um fiapo de luz, lembrando aquelas esferas de sabão que o sol atravessa, mas que aqui não estouravam — apenas nos cercavam, cúmplices. Era dentro delas que a vida se tornava suportável. Do lado de fora, o tempo corria apressado, cobrando urgências sem nome. Dentro, bastava o café passado por ele, uma palavra ...

Vestida de Saudade

Ela abriu o guarda-roupa sem pressa. As roupas se enfileiravam em silêncio, esperando ser escolhidas. Havia vestidos de flores, camisas que ainda guardavam cheiros de viagens, casacos de invernos longos. Mas naquela manhã, nenhum tecido servia. Nenhum corte, nenhum tom. O que ela precisava vestir não estava ali. Pegou o vazio com as duas mãos, como se fosse um tecido invisível, e o passou sobre o corpo. Era a saudade que se moldava nela, sem precisar de costura. Tinha a leveza do linho, mas também o peso da lã molhada. Tinha cor de ausência, uma paleta entre o cinza e o azul desbotado. Vestida de saudade, saiu de casa. Na rua, os outros não viam. Apenas ela sentia o arrasto da barra roçando no chão, a gola apertando no pescoço. Caminhava entre pessoas vestidas de rotina, de compromissos, de indiferença. Ela, não. Ela trazia a saudade como segunda pele, como se cada ponto do tecido fosse bordado de lembranças. Havia um assobio na esquina, e ela parou. Por um instante, acreditou qu...

As Pérolas da Riviera Suiça

A apenas dezoito quilômetros de Lausanne, repousa Vevey — uma pequena joia incrustada nas margens do lago Léman, tão serena e cintilante que lhe deram o título de pérola da Riviera Suíça . Ali, onde as águas parecem espelho dos Alpes e o vento sopra histórias em tom de eternidade, escolheu viver por vinte e cinco anos aquele que foi, ele mesmo, uma pérola rara do cinema: Charles Chaplin. Chaplin encontrou em Vevey um palco silencioso depois de tantas luzes. E não poderia ser diferente: a cidade é um cenário pronto, bucólico e delicado, como se tivesse sido escrita para um de seus filmes. Sua mansão, cercada de verde e hoje transformada em museu ( Chaplins’ World) , guarda não apenas objetos, mas o sopro de sua genialidade — o ator que fez do silêncio uma sinfonia e dos gestos uma língua universal - Quem não recorda de O Garoto , em que um homem pobre e um menino abandonado criam juntos um universo de ternura? Ou de Em Busca do Ouro , onde a fome se transforma em comédia sublime? E ...