Entraram Como um Buraco no Chão
Entraram como um buraco no chão, como se entrassem na alma.
Ninguém percebeu. A sala estava cheia de vozes, copos tilintando, passos
arrastados, mas o instante em que eles cruzaram a porta foi como se o piso
cedesse. Não um desabamento ruidoso, desses que arrancam gritos e poeira, mas
um silêncio subterrâneo, íntimo, que só quem carrega fendas por dentro pode
ouvir.
Ela os reconheceu de
imediato, embora não soubesse seus nomes. Havia neles uma espécie de sombra
familiar, o tipo de sombra que não se vê no corpo, mas se sente nas lembranças.
Aproximaram-se devagar, e cada passo parecia abrir fissuras invisíveis no espaço,
fissuras que chegavam até a respiração dela.
Não era medo. Era outra
coisa. Como quando se olha para um espelho antigo e, atrás do próprio reflexo,
encontra os olhos de alguém que já se foi.
Eles não disseram nada. Não
precisavam. Ficaram parados diante dela, e o ar pareceu pesado demais para ser
respirado. No fundo, era como se sempre tivessem estado ali — como se a vida
inteira fosse apenas a preparação para aquele instante de encontro.
Quando estendeu a mão, não
sabia se tocaria um braço, uma lembrança, ou o vazio. Mas o gesto não
importava. Porque o que havia diante dela não era gente, nem fantasma, nem
sonho. Eram buracos. Buracos que se abrem na terra, na pele, na memória.
Buracos que não se fecham, apenas ficam ali, latejando no escuro, como se
guardassem um segredo que ainda não tem nome.
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