Aprendendo a Viver Sem Teus Aplausos

O palco ainda estava ali. As cortinas vermelhas, já gastas nas bordas, continuavam a abrir-se todas as noites. A madeira rangia sob os passos, os refletores acendiam como sóis obedientes. Mas faltava algo — ou melhor, faltava alguém.

Ela caminhava pelo centro iluminado como quem atravessa um campo de silêncio. Antes, bastava erguer a voz, mover os braços, lançar um olhar, e os aplausos vinham: primeiro tímidos, depois como ondas que a cobriam inteira. Não eram apenas palmas: eram a confirmação de que ela existia, de que sua presença podia mover o mundo de dentro para fora.

Mas agora, as mãos que batiam na plateia estavam longe. As tuas mãos. O som que mais a sustentava era aquele que não voltaria.

No início, tentou forçar o ouvido. Como quem chama um eco escondido nas paredes, fechava os olhos e imaginava que ainda estavas lá, sorrindo, orgulhoso, aplaudindo mais alto do que todos. Depois percebeu que não havia como prolongar fantasmas sem perder-se junto com eles.

Foi então que começou a escutar os silêncios. O ranger da madeira, o suspiro do pano das cortinas, até o bater das próprias asas do coração. Descobriu que, se permanecesse quieta, podia ouvir o murmúrio da sua própria respiração se misturando ao vazio. E esse vazio, aos poucos, já não parecia um inimigo: era o espaço onde ela podia se refazer.

Cada ensaio tornou-se um aprendizado de solidão. Cada apresentação, um diálogo com ausências. E, estranhamente, a ausência começou a aplaudi-la também — não com som, mas com uma presença invisível, como se cada gesto fosse observado por olhos que não precisavam mais de corpo para existir.

Ela não deixou o palco. Aprendeu a viver sem teus aplausos, mas não sem a lembrança deles. Porque eram eles que lhe ensinaram, um dia, que existir podia ser também um espetáculo — mesmo que a plateia já não estivesse inteira.

E quando as luzes se apagavam, era para ti que ainda se inclinava. Não para o público. Mas para ti, que, no fundo, nunca deixaste de estar sentado na primeira fila.

 

Silvia Marchiori Buss

 

 

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