Os Dias Seguintes

No primeiro dia seguinte, a casa ainda cheira a ele — um cheiro que não cabe em palavras, mistura de café antigo, roupas guardadas e a sombra de um riso. Silvia — ou qualquer nome que queira vestir — move-se como quem passa por dentro de um filme: as mãos sabem cada gesto, os sapatos seguem o trilho dos passos que eram dois. O corpo acusa a presença como se a pele ainda estivesse aquecida por um calor recente; por um momento, ao abrir a porta, espera encontrar o casaco pendurado, o barulho da chaleira anunciando um costume que não aprendera a deixar só.

À tarde, senta-se na poltrona onde costumavam se encostar. O corpo permanece quente, não pelo ar, mas pela memória do toque — o braço que descansava ao lado, o ombro que acolhia. Fechar os olhos não apaga a sensação de que ele virou apenas o rosto, atravessou um corredor e vai voltar. A mente teima em cada detalhe: o livro deixado aberto, o copo sobre a mesa, a cadeira que range só às vezes. A cada som inesperado o corpo se anima, como se convocasse a presença com um gesto involuntário.

No segundo dia, o calor começa a ceder. A casa já não finge; os objetos copiam a ausência sem ensaio. Há um espaço onde antes havia costume, e o tempo, que parecia viver mais denso entre os dois, estica-se demais. O coração protesta em pequenos ruídos que ninguém escuta, e a alma, essa moradora antiga de todas as despedidas, percebe a primeira verdade: as rotas agora são em linha única. Caminhar pela sala é mapear a distância do que não volta. À noite, o corpo ainda se lembra do cheiro no travesseiro e procura um contorno que não responde.

No terceiro dia, a cidade fora de casa segue indiferente. As luzes do entardecer pousam sobre fachadas que não guardam lembranças. Dentro, a casa torna-se um território de paisagens mudas: fotos que olham para trás, lembranças que se amontoam como roupas na cadeira. As mãos encontram correspondências — bilhetes que foram pequenos mapas de ternura — e leem-nas como se pudessem convocar uma voz. A voz, entretanto, não vem; vem apenas um eco, repetindo perguntas sem resposta: por que? como? quando deixamos de contar os minutos?

O corpo resfria mais rápido agora. Não é só temperatura: é a redução das certezas físicas. Os gestos que antes eram automáticos — acender uma luz, pôr a mesa, tirar o casaco — pedem um esforço maior, como se tivessem perdido a energia que vinha do outro. A alma pesa, mas não rui; permanece vigilante, recolhendo fragmentos. O coração, por sua vez, toma a forma de uma casa com janelas abertas ao vento: entra o ar frio, e com ele, a clareza cortante de que o sempre foi, em seu sentido absoluto, acabou.

No quarto dia, há uma clareza que dói pela honestidade. Não é alívio; é reconhecimento. A ilusão — tão necessária nos primeiros instantes — desvaneceu, e sobra o fato concreto: ele foi embora. A casa devolve a quem nela vive apenas o próprio eco. Há momentos de fúria sem destino: olhar para a pia cheia, para as roupas que ainda carregam um cheiro, e querer que o mundo seja injusto a ponto de permitir o retorno. Outras vezes, o pranto vem como chuva miúda, silenciosa, e molha o chão sem espetáculo.

No quinto dia, os dias começam a se ajeitar em filas. Não se curam feridas; apenas se aprende a abrir portas com menos acanhamento. O corpo já não queima nas lembranças como uma febre; esfria a olhos vistos, mas a lembrança mantém uma temperatura própria, outra espécie de calor possível. A alma e o coração, que antes se enganavam com promessas de retorno, agora conversam com o silêncio: uma negociação sem termos definitivos. Aceitam o fato sem celebrar, apenas para poder seguir.

Os dias seguintes — e são muitos, porque o tempo que sucede a um adeus não se conta em horas — trazem pequenas tarefas que funcionam como pontos de costura: regar a planta que ele gostava, dobrar a manta do sofá, ouvir uma música que antes dividiam. Cada gesto é um fio que tenta recompor o tecido. Às vezes, o corpo dói com saudade como se fosse um músculo usado depois de anos; outras, sorri sem saber por quê, surpreendido por um lampejo de memória que não pesa.

E, um a um, os dias acrescentam camadas. Nem cura, nem esquecimento — um novo modo de existir. As manhãs voltam a ter rotinas, mas a presença dele permanece como um livro lido e guardado: não se pode abrir sempre, mas a história ficou. A alma aprende a conversar com as lembranças sem esperar que respondam; o coração guarda, como quem cuida de um objeto frágil, a possibilidade de amar sem a certeza do reencontro.

Num desses dias, ao pôr a mesa para uma só, Silvia percebe que o calor que veio dele transformou-se. Não é mais o calor do corpo físico que se esvai; tornou-se algo que ela carrega consigo — um calor possível de distribuir, mesmo que pequenas porções, ao mundo que a cerca. Não é nenhum conforto grandioso. É apenas, finalmente, o reconhecimento de que existir continua, que a ausência molda agora seus passos, e que amar pode ser também viver com a falta, levando-a como se leva uma mala com pedras que, apesar do peso, ajuda a lembrar por que a estrada valeu.

Os dias seguintes não prometem finais redentores. Oferecem, isso sim, a dura e lenta aprendizagem de aceitar que nunca mais será igual — e, ainda assim, que há modo de seguir. E, no fim, talvez o mais surpreendente seja descobrir que a delicadeza possível entre o corpo que esfria e o coração que guarda é um tipo de fidelidade: a fidelidade de viver, mesmo quando tudo que restou é a memória incandescente de um calor que, agora, mora apenas nas coisas que se escolheu manter acesas.

 

Silvia Marchiori Buss

 

 

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