Vestida de Saudade
Ela abriu o guarda-roupa sem pressa. As roupas se enfileiravam em silêncio, esperando ser escolhidas. Havia vestidos de flores, camisas que ainda guardavam cheiros de viagens, casacos de invernos longos. Mas naquela manhã, nenhum tecido servia. Nenhum corte, nenhum tom. O que ela precisava vestir não estava ali.
Pegou o vazio com as duas
mãos, como se fosse um tecido invisível, e o passou sobre o corpo. Era a
saudade que se moldava nela, sem precisar de costura. Tinha a leveza do linho,
mas também o peso da lã molhada. Tinha cor de ausência, uma paleta entre o cinza
e o azul desbotado. Vestida de saudade, saiu de casa.
Na rua, os outros não viam.
Apenas ela sentia o arrasto da barra roçando no chão, a gola apertando no
pescoço. Caminhava entre pessoas vestidas de rotina, de compromissos, de
indiferença. Ela, não. Ela trazia a saudade como segunda pele, como se cada ponto
do tecido fosse bordado de lembranças.
Havia um assobio na
esquina, e ela parou. Por um instante, acreditou que era ele — o de sempre, o
que anunciava chegada, o que enchia a casa de pequenas bolhas de sol. Mas era
apenas o vento, zombando da sua esperança. Ajustou melhor a saudade sobre os ombros
e seguiu.
No café da praça, pediu
duas xícaras. O garçom não estranhou. Ela bebeu sozinha, mas deixou a outra
esfriar devagar, como se esperasse o atraso de alguém que não viria. Olhou a
cadeira vazia à frente e sorriu de leve, porque era assim que sempre faziam: uma
risada breve antes de qualquer palavra.
Vestida de saudade,
caminhou até o fim do dia. Quando a noite chegou, deitou-se ainda com ela. O
vestido não se rasgava, não se despia. A saudade, costurada à alma, era roupa
de todos os dias. Mas, naquele instante entre o sono e o sonho, jurou sentir a mão
dele passando no tecido, ajeitando as dobras, como quem diz em silêncio: fica
bonita assim.
Silvia Marchiori Buss
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