Os Medos que Chegam à Noite

Ana apagou a última luz da casa. O relógio marcava quase meia-noite quando ela se deitou, esperando que o sono viesse rápido, como um visitante de confiança. Mas o sono sempre se atrasava, e no lugar dele vinham outros hóspedes — os medos.

Eles não batiam à porta; escorregavam pelas frestas da memória, pelas sombras das paredes, pelo silêncio que se instalava no quarto. Primeiro vinham pequenos, como ruídos distantes. Depois, cresciam.

O medo da perda era o mais voraz. Na escuridão, Ana revivia despedidas que nunca aconteceram, mas que se repetiam todas as noites em sua imaginação. Via os rostos de filhos, netos, amigos, um a um, desvanecendo como se a madrugada fosse capaz de roubá-los todos de uma vez.

Outro medo, persistente e cruel, era o do próprio corpo. Diante da penumbra, sentia-se pequena, frágil, como se seus ossos pudessem se desfazer no silêncio. O tempo, com sua pressa escondida, sussurrava que o dia seguinte poderia ser o último em que teria forças para levantar.

Também havia o medo do acaso: um telefone que pudesse tocar com más notícias, uma porta que, por descuido, ficasse mal fechada, um som estranho na rua que ganhava forma de presságio. À noite, tudo se tornava exagero; cada detalhe era um abismo, cada sombra, um sinal de perigo.

Mas quando a manhã chegava, os mesmos medos se recolhiam. O sol entrava tímido pelas cortinas e devolvia proporção ao que parecia gigante. Ana se levantava devagar, preparava o café e o cheiro quente da bebida a abraçava como um velho amigo.

O medo da perda, ainda presente, se escondia nos gestos de cuidado. Ao falar com os filhos pelo telefone, sua voz carregava um tom de ternura mais demorado; ao abraçar os netos, apertava-os contra o peito como quem deseja congelar o instante. Era amor, mas também era medo disfarçado.

O medo do corpo envelhecido se disfarçava em pequenos rituais. Ao se olhar no espelho, passava o batom vermelho que sempre usara em juventude e sorria para si mesma, quase como desafio: “ainda estou aqui”. O riso diante da própria imagem era, na verdade, uma batalha vencida contra a voz da noite.

O medo do acaso dormia junto com a claridade. Nas ruas, caminhando entre vizinhos e cumprimentos breves, Ana fingia esquecer que, na véspera, cada barulho parecia ameaça. O mundo lhe parecia mais seguro sob o olhar do sol, ainda que, no fundo, soubesse que não havia garantias.

Assim, os dias de Ana seguiam como um acordo silencioso entre ela e os próprios medos: durante a manhã, ela fingia não os ver; durante a noite, eles se vingavam, voltando mais fortes. E talvez fosse justamente esse ciclo que a mantinha desperta, lembrando-lhe, a cada madrugada, que viver também é conviver com o que não se pode expulsar.

 

 

 

Silvia Marchiori Buss

 

 

 

 

 

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