O Coração Me Guia, As Pernas Me Levam

 É o coração que pulsa primeiro. Ele desenha uma rota invisível, uma trilha que não cabe em mapas. Depois, são as pernas que obedecem — firmes, hesitantes ou cansadas — levando-nos adiante como quem atravessa terrenos conhecidos e, de repente, se depara com a surpresa de um desfiladeiro.

Na maior parte das vezes, coração e pernas andam em compasso. Há uma música secreta, quase inaudível, que conduz os passos com leveza, e sentimos que tudo está em harmonia. Outras vezes, o compasso se perde. O coração insiste em avançar, mas as pernas param diante de um abismo. Ficam ali, imóveis, como se soubessem que basta um passo em falso para que tudo se desfaça.

Também existem os paredões: muros tão altos que parecem riscar o céu. Às vezes desistimos de escalá-los, preferindo a sombra da desistência; outras vezes encontramos razões para tentar. Nesses momentos, somos conduzidos por algo maior que a lógica — um desejo, uma lembrança, ou simplesmente a recusa em aceitar que aquele é o fim da estrada.

E quando nos arriscamos, descobrimos que não há garantias. Alguns muros se deixam escalar, outros devolvem apenas arranhões. O coração, teimoso, continua a indicar direções, e as pernas, mesmo doloridas, continuam a procurar chão.

A vida e os relacionamentos se constroem nesse vai e vem entre impulso e limite. Nem sempre acertamos o caminho, e talvez seja justamente isso que nos mantém vivos: a certeza de que cada passo pode revelar algo inesperado — um horizonte, uma queda, um recomeço.

E seguimos. O coração guia, as pernas levam. O resto, ninguém sabe.

 

Silvia Marchiori Buss

 

 

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