Voo Perto do Sol

Quando menino, ele costumava subir nos muros altos da vizinhança. Os outros garotos corriam atrás de bolas, soltavam pipas, inventavam guerras de pedrinhas. Ele preferia o silêncio do vento contra o rosto. De braços abertos, equilibrava-se como quem ensaia um salto que nunca terminava. As mães da rua o chamavam de louco, diziam que um dia cairia de cabeça no chão. Mas ele insistia.

Havia quem pensasse que fosse apenas distração, mania de criança. Não era. Já naquela época, o menino carregava um desassossego que não cabia nos brinquedos comuns. O céu lhe parecia menos distante do que as pessoas ao redor.

Na adolescência, passou a sumir por horas. Encontravam-no no alto de torres, nos galpões abandonados, deitado nos telhados de zinco, olhando para o firmamento. Tinha nos olhos um brilho que misturava febre e sonho. Quando perguntavam o que fazia, respondia apenas: “Estou medindo a distância.”

E assim se fez homem. Trabalhou quando necessário, vestiu roupas corretas, a

prendeu a manter a compostura nos lugares onde exigiam silêncio. Mas nada apagava o rumor que trazia por dentro: o bater de asas invisíveis. Era como se o corpo obedecesse à terra, mas a alma continuasse se inclinando para o ar.

Com o tempo, passou a falar do sol. Não o sol que aquece os dias comuns, mas o outro, escondido na claridade: o risco, a promessa, a chama que consome o que não serve. Muitos riam, outros o evitavam, alguns até temiam. Ele não se importava. Sabia que havia um chamado para além do entendimento.

Numa madrugada, simplesmente partiu. Não houve porta aberta nem despedida. Apenas o silêncio deixado em seu quarto e, dias depois, um risco luminoso atravessando o céu.

Alguns disseram que era estrela cadente, outros juraram que era reflexo de avião. Mas havia quem reconhecesse naquele traço o menino que jamais aceitou os pés firmes na terra.

E desde então, quando o sol nasce mais abrasado do que deveria, há quem pense que não é o astro que queima — é ele, ainda voando perto demais, sem nunca decidir se vai cair, ou se vai permanecer.

 

 

Silvia Marchiori Buss

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