Camas Separadas
Ana e Murilo não falavam muito à noite. Cada um se deitava em sua cama — duas estruturas iguais, paralelas, separadas por um corredor estreito de silêncio. As cobertas, sempre bem esticadas, não se encontravam nunca.
Foi escolha dos dois. Não
dita, não assinada em contrato, mas construída aos poucos, como quem ergue um
muro de tijolos invisíveis entre os corpos. Primeiro foi o cansaço das jornadas
longas; depois, a desculpa da insônia dela e do ronco dele; em seguida, a
justificativa de que era “mais prático” cada um ter seu espaço. E assim, sem
perceberem, trocaram a intimidade pelo conforto, o abraço pelo travesseiro.
Ana olhava o teto e se
perguntava quando exatamente deixara de desejar o calor de Murilo ao lado.
Murilo, de costas para ela, se encolhia dentro de si, fingindo que dormir era
mais urgente do que conversar.
As manhãs chegavam, e eles
continuavam juntos — café, listas de supermercado, planos sobre a casa. No
entanto, era como se cada um carregasse dentro de si um quarto secreto, fechado
por chave, onde o outro não entrava mais.
Naquela noite, um vento
forte abriu a janela. As cortinas dançaram fazendo que Ana e Murilo acordassem
ao mesmo tempo. Entre as duas camas, o ar frio se espalhou como um convite.
Murilo se levantou para fechar a janela, mas hesitou. Voltou-se para ela. Ana,
sem dizer palavra, afastou um pouco a coberta.
Foi só um gesto, pequeno,
mas que atravessou o abismo. Murilo deitou-se ao lado dela. O espaço parecia
apertado, quase estranho, mas o calor de um corpo contra o outro devolveu algo
esquecido — não o amor dos primeiros tempos, talvez, mas a lembrança de que
ainda havia escolha.
Na manhã seguinte, as camas
continuavam separadas. Mas já não eram muros: eram apenas duas ilhas entre as
quais uma ponte poderia ser construída, se ambos quisessem.
Silvia Marchiori Buss
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