Tudo Fora do Lugar
A casa respirava um silêncio torto. À primeira vista, parecia inteira, mas bastava olhar além da poeira da rotina para perceber: estava tudo fora do lugar.
O relógio da parede,
cansado, havia parado entre o ontem e o nunca. As horas, que sempre marcharam
com arrogância, agora se encolhiam, presas num intervalo sem retorno. Os
livros, esquecidos na estante, permaneciam abertos como feridas, cada página
uma lembrança suspensa que se recusava a cicatrizar.
O vento atravessava a
janela aberta, brincando com as cortinas como quem brinca com a alma de alguém
distraído. E, em cada dobra de tecido, parecia cochichar: a ordem é uma ilusão,
e a vida se move no descompasso.
Ela caminhava pelo espaço
como quem atravessa um sonho desmontado. A xícara lascada ainda guardava a
pressa dos dias. O tapete torto lembrava passos que nunca aprenderam a seguir o
compasso certo. A gaveta entreaberta guardava segredos que insistiam em respirar,
mesmo depois de enterrados. Na pia, os pratos empilhados esperavam sem pressa,
como se soubessem que jamais seriam lavados a tempo; os talheres, manchados de
restos, tilintavam levemente quando o vento entrava pela janela, produzindo uma
música frágil, quase involuntária — um concerto de abandono. Cada objeto
parecia guardar um suspiro próprio, como se a casa inteira fosse feita de
esperas.
Era assim também com a
vida: um armário aberto onde as memórias caem umas sobre as outras, sem que
nunca possamos organizá-las. Um mosaico imperfeito, feito de peças que se
recusam a encaixar.
Talvez fosse nisso que
morasse a beleza: no desalinho das coisas, no improviso dos dias, no detalhe
que escapa da ordem e nos força a olhar de novo.
Ela fechou os olhos e, por
um instante, deixou-se atravessar pelo caos. Não procurou resposta. Apenas
escutou o rumor discreto de tudo o que permanecia fora do lugar — e sorriu.
Silvia Marchiori Buss
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