Não Olhe Pra Trás
Caminhar sem olhar para trás pode parecer um ato de coragem, mas às vezes é apenas um modo silencioso de negar a própria história. Não há como existir sem passado, sem o eco dos passos que já demos, sem as marcas que deixamos — e que nos deixaram. Tudo o que realmente nos pertence não é o que ainda vamos conquistar, mas aquilo que já vivemos. São as lembranças, mesmo as mais ásperas, que se transformam em carne e pensamento dentro de nós.
Andar para frente, por sua
vez, é reconhecer que ainda há chão. É aceitar que, por baixo das camadas de
lembranças que pesam sobre os ombros, existe um corpo que respira, um coração
que insiste. Não é fácil. Viver não é um manual de instruções nem um caminho
pavimentado; é um campo irregular onde tropeçamos, nos levantamos, e seguimos —
às vezes arrastando os próprios fantasmas, às vezes abraçando-os.
A vida não se oferece
pronta, nem justa. É feita de idas e voltas, de ausências e presenças, de
perdas e recomeços. Mas é nesse vai e vem, nessa tensão entre o ontem e o
agora, que descobrimos quem somos. E cada passo dado à frente, mesmo lento,
mesmo tremido, é um gesto de afirmação: ainda estamos aqui. Ainda somos
capazes. Ainda caminhamos.
Silvia Marchiori Buss
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