Te amo Too Much
Ela sempre foi excesso. Nunca aprendeu o meio-termo, nem quis aprender. Amava como quem se joga no mar sem saber nadar: inteira, ofegante, sem calcular a correnteza. Ria alto, chorava como tempestade, caminhava como se o chão fosse palco, falava como se cada palavra fosse definitiva.
E quando amava, ah, quando amava... era too much.
— Amor... I love you too much! — gritava no
meio da rua, no café, na cama, no silêncio. Às vezes dizia rindo, às vezes
chorando, às vezes cuspindo a frase entre os dentes, como quem ameaça e implora
ao mesmo tempo.
Ele se acostumara com o furacão. Sabia que ser amado
por ela significava também ser esmagado. Entre beijos que queimavam, havia
unhas que arranhavam; entre abraços sufocantes, palavras que o diminuíam até
quase sumir. Mas depois, sempre depois, ela se derramava novamente em juras e
lágrimas, e ele se deixava afogar.
O dia a dia deles era feito de exageros. De manhã, ela
o vigiava dormir como se pudesse impedir que desaparecesse no sono. Tocava-o
com dedos possessivos, às vezes apertava demais, como se quisesse marcá-lo.
Servia o café com risadas altas e amor declarado em cada gole. À tarde, bastava
um silêncio dele para que ela estremecesse: “Você não me ama mais?”,
perguntava. E antes que ele respirasse, já emendava: “Eu te amo too much
e você não me acompanha!”. Ele tentava explicar que o amor também podia ser
tranquilo, mas ela não acreditava em calmarias. Para ela, o mar só era
verdadeiro se tivesse ondas prontas a destruir os barcos.
As noites eram ainda mais intensas. O amor
transformava-se em súplica, febre, delírio. Ela o beijava até doer, chorava sem
motivo, gritava promessas e ameaças no mesmo fôlego. Às vezes acordava no meio
da madrugada em prantos, convencida de que ele sumiria, de que a morte o
levaria, de que outra mulher o arrancaria de seus braços. Ele, cansado, apenas
murmurava: “Estou aqui…”. Mas ela não ouvia. Ouvia apenas o barulho de dentro
dela, um coração batendo rápido demais, confundindo amor com medo.
Amava tanto que já não distinguia mais o que era real
do que era delírio. Para ela, o amor era febre, era vertigem, era prisão. Para
ele, era resistência.
Até que, um dia, ele não estava mais.
Morte? Desaparecimento? Abandono? Ela nunca soube — ou nunca quis saber.
Preferiu acreditar que havia sido abduzido, tragado por alguma força cósmica
que invejou tamanha intensidade e o levou.
Sozinha, continuou a gritar:
— Amor... I
love you too much!
Mas agora era para o vento, para o travesseiro, para a
própria sombra. Amava tanto que o amor transbordava sem recipiente, escorria
pelas paredes, pingava do teto. A casa inteira cheirava a exagero.
E desde então, passou a viver num intervalo confuso
entre lembrança e invenção. Revivia os dias de risos como se ainda estivessem
acontecendo, e transformava as noites de ciúmes em fantasmas que vinham
visitá-la.
Dizem que as pessoas comuns vivem no equilíbrio, no
“nem tanto”. Ela não. Ela ardia no demasiado. Odiava como amava: com a mesma
fúria, com a mesma abundância.
E talvez por isso tivesse acabado assim: ele, sumido,
evaporado, levado; ela, permanecida, abundante demais até para caber no próprio
corpo.
Porque quem ama too much nunca fica só com o
amor.
Fica também com o peso de carregar, no peito, aquilo que nem dois corações
juntos dariam conta.
Silvia Marchiori Buss
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