Quero Ser Seu Par
Ela nunca disse em voz alta. Nunca precisou. Mas a frase repousava em sua boca como um segredo que se oferece apenas ao vento: “quero ser seu par”.
Ele caminhava alguns passos
à frente, distraído com o desenho das pedras no chão, como se cada fissura
fosse uma pausa onde pudesse descansar os pensamentos. Ela o acompanhava em
silêncio, ajustando o compasso do corpo ao dele — não por submissão, mas pela
delicada arte de encontrar harmonia onde dois mundos parecem distintos.
Naquele instante, não eram
apenas duas pessoas dividindo uma calçada. Eram como melodias soltas, buscando
um encontro invisível. Havia uma música que não se ouvia, mas que se pressentia
nos gestos: na forma como a sombra dele avançava sobre a dela, como quem
protege sem ter consciência, ou no leve atraso com que ela se permitia seguir,
prolongando cada intervalo entre os passos.
Pensava que ser par não
significava estar ao lado em todos os momentos, mas ser a presença que completa
a ausência do outro. Como a lua diante do mar: nunca toca a água, e, ainda
assim, a move em ondas.
Ele parou diante de uma
vitrine. Por um instante, os reflexos confundiram seus rostos no vidro: dois
perfis fundidos, duas histórias que, em silêncio, ensaiavam a hipótese de uma
mesma linha. Ela sorriu de leve, não pela imagem duplicada, mas pelo que carregava
consigo — esse desejo manso de ser o intervalo entre a respiração dele e o
silêncio da noite.
Seguiram adiante sem dizer
nada. Mas havia, entre eles, algo que já acontecia — invisível, mas presente,
como o gesto de duas mãos que ainda não se tocam e já sabem o calor que
guardam.
Silvia Marchiori Buss
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