Rodas, Idiomas e Solavancos
Viver em Lausanne é como se aventurar num carrossel de idiomas: francês, alemão, inglês, italiano, espanhol — e eu, com meu português teimoso, que insiste em não abrir espaço. A cada esquina, uma nova língua me desafia, e eu entro na roda como quem dança fora do ritmo.
Outro dia, numa padaria, o
vendedor perguntou qualquer coisa em francês. Eu, cheia de convicção, respondi
em português:
— Um pãozinho, por favor.
Ele sorriu com aquela expressão educada de quem não entendeu nada, mas quis ser
simpático. Achei que tinha dado certo, até ele voltar com um croissant, um
sanduíche de atum e um brioche. Paguei em silêncio. Quem sou eu para contrariar
a lógica suíça do mal-entendido?
E as bicicletas? Aqui
pedalar é quase esporte olímpico. Não é passeio de domingo, é corrida da
Fórmula 1. As subidas parecem paredes, as descidas lembram autódromos, e os
ciclistas passam como flechas — capacete, roupa justa e cara séria. Só falta a
bandeirada final. Eu, que mal consigo equilibrar o francês da aula, já imagino
a tragédia de equilibrar uma bike nessas ladeiras: certamente acabaria no lago
Léman, manchete internacional garantida — Brasileira confunde ciclovia com
pista de esqui aquático.
Mas o clímax da minha
tragicomédia são mesmo os ônibus. No Brasil, eu não tinha esse costume: carro,
carona, improviso. Aqui, é o contrário: andar de ônibus é como desfilar num
Mercedes zero. Eles chegam no horário exato, percorrem todos os lugares da cidade,
e todo mundo sobe e desce com a naturalidade de quem nasceu sobre rodas. Eu,
porém, sigo levando solavancos, entregue à lei da física. Não vou ao chão
porque sempre aparece uma mão amiga que me segura no último segundo.
Isso já virou rotina: pego
o ônibus para ir à academia ou para a école, sempre no horário de pico,
quando o estacionamento lota e a cidade se entrega ao transporte coletivo. E,
como se não bastassem os solavancos, ainda tropeço nas palavras: tento falar
francês, escorrego para o espanhol perdido na memória e termino com um
“bonjour, obrigada” que arranca olhares curiosos. O ônibus inteiro deve rir
comigo — ou de mim. Mas tudo bem. Em Lausanne, rodar entre línguas e solavancos
já virou meu jeito oficial de chegar a qualquer lugar.
Silvia Marchiori Buss
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