Eu Acho Que Escolho o Caos
Na ordem, o despertador toca às 7h00, o café é preto, o pão tem crosta dourada e o mundo segue pontual.
No caos, o despertador uiva, o café é azul, o pão sangra migalhas no chão.
Na ordem, as filas se
alinham: senha, guichê, assinatura.
No caos, as senhas se multiplicam como coelhos, os guichês trocam de lugar, e o
atendente pergunta se o cliente veio buscar um rim ou devolver a própria alma.
Na ordem, os casamentos têm
alianças brilhantes, buquês de flores e discursos ensaiados.
No caos, a noiva se atrasa para sempre, o padre pede um gole do vinho de missa
e o noivo foge abraçado ao saxofonista da banda.
Na ordem, a cidade respira
com seus semáforos. Verde, amarelo, vermelho.
No caos, o verde fica roxo, o amarelo escorre no asfalto e o vermelho atravessa
apaixonado atrás de um gato.
Na ordem, as bibliotecas
são templos silenciosos.
No caos, os livros cospem verbetes, brigam entre si, poemas arrancam páginas de
romances e as enciclopédias se atiram das prateleiras em protesto.
Na ordem, a morte é
discreta: caixão, flores alinhadas, discursos previsíveis.
No caos, o morto levanta para reclamar do arranjo, a coroa de flores se lança
na plateia e a cova gargalha até desmoronar.
E quando alguém sussurra:
— Eu acho que escolho o caos.
As paredes da ordem
estremecem, os relógios derretem, as palavras se soltam das frases, correm pela
página como ratos. Os parágrafos se devoram uns aos outros, e o conto inteiro
começa a se despedaçar.
Até que não resta mais nada
além de ruído, fragmento, respingo de letra.
O texto se engole.
E aí já não há conto.
Só o caos.
Silvia Marchiori Buss
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