As Mãos Que Falam
Numa das minhas andanças por Lausanne, precisei pegar o ônibus. Enquanto observava a disciplina quase silenciosa do transporte público suíço, pensei no quanto o Brasil pouco aproveita esse recurso tão essencial. Préjugé? Peut-être… mais ça, c’est pour un autre jour.
Foi então que meus olhos
pararam numa mulher em pé, perto da porta. Ela falava ao celular. Não escutava
sua voz, mas bastava olhar para suas mãos para compreender: elas contavam a
história inteira.
Os dedos se erguiam como
flechas, denunciando indignação. Talvez discutisse com o filho adolescente,
aquele que sempre promete voltar cedo e nunca cumpre. Ou quem sabe fosse o
marido, insistindo em adiar mais uma vez uma decisão que já não cabia no adiamento.
Talvez fosse com a mãe, reclamando da saúde, e ela, impotente, sem conseguir
estar por perto. Ou ainda com o médico, tentando arrancar uma resposta precisa
e recebendo apenas evasivas.
As mãos riscavam o ar como
quem escreve no invisível. Ora subiam num gesto duro, ora desciam com pesar,
como se segurassem o peso da conversa. Os olhos mantinham-se firmes, mas era no
movimento das mãos que se revelava a urgência da alma.
Naquele ônibus silencioso,
onde cada passageiro parecia viver dentro de si mesmo, foram as mãos dela que
falaram por todos nós: que às vezes é preciso gritar sem voz, que a indignação
se expande para além da boca, e que as mãos carregam segredos que a boca não
ousa dizer.
E eu, que apenas observava,
fiquei pensando em quantas histórias já me escaparam por não ter prestado
atenção no que as mãos das pessoas diziam.
Silvia Marchiori Buss
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