Entre Três Pratos na Mesa

Na mesa sempre havia três pratos. Ele fazia questão disso, mesmo nos dias em que a comida era simples demais para ocupar tanto espaço. Dois copos pequenos, um maior, e a rotina de ajeitar talheres como se fosse um ritual secreto de pertencimento.

As meninas chegavam da escola despejando palavras como quem abre uma torneira: risos, reclamações, confidências. Ele aprendia a ouvir mais do que a responder. Carregava dentro de si um manual invisível, escrito às pressas a cada nova situação. Manual que nunca vinha pronto, mas que ele inventava com a pressa de quem não queria errar.

Era estranho ser um homem dividido em três: pai, mãe e ele mesmo. Muitas vezes esquecia desse último, e só lembrava quando o cansaço o encostava na parede do quarto. Ali, deitado, ouvia as respirações das filhas como música de fundo.

Não sabia cozinhar direito, mas as meninas adoravam quando ele improvisava uma sopa que tinha gosto de nada e de tudo ao mesmo tempo. Chamavam de “sopa do pai”, e riam ao dizer que ninguém no mundo saberia reproduzir aquele sabor confuso, nem mesmo um chef famoso. Ele ria junto, sabendo que, por trás da piada, havia uma memória em formação.

Às vezes, na sala, inventavam um acampamento: cadeiras cobertas por lençóis, lanternas improvisadas, histórias de medo que sempre terminavam em gargalhadas. Nessas horas, ele esquecia o peso do mundo. Não importava a pilha de contas na gaveta, nem a ausência que por vezes latejava no silêncio da casa. Importava apenas que, dentro daquele abrigo de pano, eram três contra tudo.

Ele nunca falava em futuro. As meninas também não perguntavam. Havia algo de sagrado no presente que os três habitavam. Um fio invisível, trançado com carinho e desajeito, que segurava cada passo.

E assim os dias seguiam: três pratos na mesa, três respirações na madrugada, três destinos que se cruzavam e se confundiam no mesmo teto. Sem promessa de eternidade, sem garantia alguma — apenas a entrega do agora, que bastava.

 

 

Silvia Marchiori Buss

 

 

 

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