Entre Passos

A cada caminhada por Lausanne —às vezes junto ao Léman, outras subindo as colinas que me conhecem pelo nome— minha cabeça fervilha. Pensamentos entram e saem como estações: há momentos em que me fazem rir sozinha, outros em que me fazem chorar sem que eu note quem passa ao meu lado. Rio e choro, e o mundo segue, indiferente ao pequeno tumulto que carrego no peito.

Se penso na vida, logo me vem a imagem dos trens que cortam a paisagem em alta velocidade. Compramos uma passagem com a esperança de sermos felizes; imaginamos vagões inteiros dedicados à alegria, outros à segurança. E, ainda assim, às vezes o trem passa batido por aquela plataforma onde esperávamos desembarcar — provoca o caos, deixa malas espalhadas, e só então percebemos que nada ali estava garantido. A vida, por aqui, é breve como um apito que some na névoa; exige que a gente escolha estações, mesmo sem certeza do destino.

E qual é, então, o sentido dessa viagem? Filósofos explicam, dividem, constroem mapas e labirintos de palavras. Uns dizem que há um sentido universal; outros, que cada um desenha o seu. Eu, caminhando por ruas que já viram tantas voltas minhas, penso que talvez sentido não seja uma verdade pronta, mas um gesto que repetimos: o cuidado com outro, a palavra que acalma, a coragem de subir um degrau quando o corpo quer ficar. Às vezes colocamos a fé num Deus —seja qual for o nome que lhe damos— e ali depositamos o fio que nos une a algo maior; outras vezes, a fé nasce das pequenas constâncias: uma xícara de café, um sorriso, um livro emprestado.

Não quero, no entanto, fingir respostas definitivas. O que sei é isso: temos bilhetes nas mãos e cabe a nós decidir quando e como embarcar. Podemos cantar no corredor do trem, segurar a mão de quem divide o banco, olhar pela janela e contar as estações que passam sem pressa. E quando o trem passa batido —quando o caos chega— resta-nos recolher as peças, aprender com o descarrilar e, se for possível, voltar a comprar outra passagem.

Volto para casa com o vento no rosto e o lago brilhando como se dissesse: “a vida não precisa ser inteira para ser verdadeira”. Caminho sabendo que não preciso ter o mapa pronto; basta ter pés dispostos, olhos atentos e a coragem de seguir, estação após estação. Afinal, talvez o sentido esteja menos na chegada e mais na forma como contamos a viagem.

 

Silvia Marchiori Buss

 

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