Você é Um Belo Desastre
Ela o conheceu numa noite em que a cidade parecia suspensa no ar, como se houvesse um segredo por trás de cada luz acesa nas janelas. Não esperava nada, não buscava ninguém, mas havia algo nele que a prendeu de imediato — não o rosto, não a voz, mas aquela sensação de que tudo ao redor estava prestes a desmoronar.
Ele era intensidade. Falava
como quem inventava mundos, tocava como quem quebrava vidros. Não havia
meio-termo: ou se afundava nele, ou fugia. Ela escolheu afundar.
Os dias seguintes foram um
turbilhão. Riam alto demais, brigavam por nada, faziam as pazes como se fosse a
última vez. Ele a conduzia a lugares onde nunca estivera dentro de si mesma:
vertigens, corredores secretos, fendas escondidas. Cada beijo parecia um
abismo, cada silêncio, um terremoto.
Ela sabia — desde o início
sabia — que havia algo de perigoso. Ele não cabia em mapas, não respeitava
fronteiras, ria das regras como quem rasga papéis inúteis. Era impossível
contê-lo.
E no entanto, havia beleza.
Uma beleza cortante, como vidro sob a lua: feria, mas ao mesmo tempo revelava
desenhos que só existiam no instante da dor. Ele era um desastre, sim. Mas um
desastre luminoso, daqueles que arrastam tudo e ainda assim deixam rastros de
pó estelar.
Com o tempo, ela entendeu:
não se podia compreendê-lo, apenas atravessá-lo. E atravessá-lo era também
deixar-se ruir, para depois erguer novas arquiteturas em cima das próprias
ruínas.
Na última vez que o viu,
ele sorriu como quem zomba do mundo e, ainda assim, a convida a ficar. Ela não
respondeu. Apenas guardou o riso dele dentro de si, sabendo que era um convite
impossível de aceitar por inteiro — mas também impossível de recusar de fato.
Silvia Marchiori Buss
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