O Dia Que Nunca Chegou

Na rua estreita do bairro antigo havia uma casa que todos chamavam de a casa da espera. Não era pela cor descascada das paredes, nem pela janela sempre entreaberta, mas porque dentro dela vivia uma mulher que parecia ter parado no tempo.

Chamava-se Elisa. Todas as manhãs, preparava o café, que esfriava antes mesmo do primeiro gole, e se sentava perto da janela com uma caixa de cartas no colo. Eram bilhetes amarelados, postais riscados, envelopes com promessas escritas em letras que já se desfaziam com os anos. Entre elas, a palavra “logo” aparecia repetida, como um refrão de ausência. Elisa habitava esse “logo”: não no ontem, não no hoje, mas nesse futuro que nunca se transformava em presente.

Na sala, um relógio antigo havia parado às oito e pouco. O ponteiro imóvel parecia respirar junto dela, lembrando que, dentro daquela casa, as horas não corriam como no resto do mundo.

Os vizinhos observavam com curiosidade. Alguns apostavam que Elisa esperava um amor de juventude; outros, que era um filho desaparecido. Cada um inventava sua versão, como se o mistério fosse necessário para dar sentido àquela espera interminável.

Um dia, Elisa decidiu que faria da espera o centro de tudo. Arrastou a poltrona ainda mais perto da janela, abriu todas as cartas e as empilhou no colo, uma sobre a outra, como se fossem degraus que a conduzissem ao dia que nunca chegava. Não atenderia ao carteiro, nem à vizinha, nem ao mundo comum. Era como se dissesse: “Estou pronta. Que venha, enfim, o que tiver de vir.”

E então esperou.

O bairro seguiu seu curso: crianças rabiscaram o chão com giz, o casal de braços entrelaçados atravessou a rua como sempre, dois meninos brigaram por um pacote de bolinhos esquecido no degrau. Nada de extraordinário aconteceu. Apenas pequenos movimentos: a persiana que balançou sozinha, um guardanapo que se soltou da mesa, o perfume de terra molhada trazido pelo vento, como se a própria rua respirasse dentro da casa.

Elisa abriu a última carta. Dentro, apenas uma frase curta, quase um sussurro:
“Se você ainda estiver aí, sorria.”

E ela sorriu.

A persiana tremeu como se tivesse visto, o vento atravessou a sala carregando o cheiro da rua. Depois, tudo se aquietou.

O relógio seguiu parado às oito e pouco. A casa permaneceu em silêncio.
Na janela, porém, quem passava jurava ter visto um movimento — talvez uma sombra, talvez apenas a oscilação da luz.

E foi só isso, ou talvez fosse tudo.

 

Silvia Marchiori Buss

 

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