Os "Loops" do Cotidiano
O dia a dia não anda em linha reta; prefere desenhar voltas.
Voltas miúdas — como quem retorna ao mesmo café, senta-se na mesma mesa, mas
encontra outra luz na vidraça.
Às vezes imagino a rotina como o metrô de Lausanne:
sobe, desce, dobra nas ladeiras, reaparece duas ruas adiante. Parece repetição,
mas muda o passo, muda o fôlego, muda o olhar. O Léman, quando está liso,
engana: por baixo, há correntes secretas que empurram a água para lugares que a
superfície não confessa. Assim também a vida: quieta por fora, móvel por
dentro.
Os loops do cotidiano são espirais. Passamos novamente
pela esquina conhecida — o cheiro do pão, o aceno do vizinho, o bonde que range
— e mesmo assim não somos os mesmos de ontem. Uma palavra dita com cuidado, um
atraso de dois minutos, um céu que decide abrir entre nuvens: pequenas
variações que deslocam o eixo do dia.
E é aí que moram as surpresas. O sorriso inesperado de
um estranho no meio da pressa. O telefone que toca trazendo notícias que não
estavam no roteiro. A chuva que desaba no instante exato em que decidimos
caminhar sem guarda-chuva. O reencontro casual com alguém que parecia perdido
no tempo. Até mesmo um olhar demorado no espelho pode surpreender — ao mostrar
um rosto que não víamos há anos, escondido em nós mesmos.
Se tudo fosse calmo e retilíneo como uma fotografia do
lago, talvez faltasse pulso. A beleza está nesse improviso: naquilo que não se
planeja e, justamente por isso, nos obriga a abrir espaço. As surpresas não são
acidentes; são a prova de que a vida não cabe em linhas retas.
É a curva que acorda o corpo, o desvio que pede
atenção, o retorno que ensina. Nessas voltas, o tempo nos afina. E de surpresa
em surpresa, vamos descobrindo que cada dia carrega um instante capaz de virar
tudo do avesso — e, ao mesmo tempo, nos devolver inteiros.
Silvia Marchiori Buss
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