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Mostrando postagens de fevereiro, 2026

Bem Próximo da Janela

Ela ficava bem próximo da janela, como se aquele pedaço de parede fosse o único lugar da casa onde o ar ainda circulava inteiro. A moldura de alumínio já perdera o brilho de anos atrás. Havia pequenas marcas no vidro — respingos de chuva antiga, poeira que o pano não alcançava totalmente, um risco fino quase invisível que só aparecia quando o sol batia de lado. A cortina, leve demais para ser cortina, ondulava com a fresta sempre aberta, mesmo no frio. Ela mantinha a fresta. Vestia uma blusa de linho bege, já macia de tanto uso, marcada nos punhos como se ali repousassem seus cotovelos todas as tardes. A saia azul descia até os tornozelos, discreta, com a barra um pouco gasta. Os pés descalços buscavam o chão frio como quem confirma que ainda há chão. O cabelo estava preso sem intenção de ficar bonito. Algumas mechas escapavam e tocavam o rosto, e ela não as afastava. Deixava que o vento resolvesse. O semblante era amplo. Não era o rosto de quem espera, nem o de quem desistiu...

O Mundo Está Muito Ordinário

Ordinário. No dicionário, significa comum. Aquilo que acontece todos os dias. O que é habitual, corriqueiro, simples. Mas, na boca das pessoas, ordinário quase sempre vira ofensa. Algo vulgar. Sem nobreza. De má qualidade. Pequeno. Talvez o problema não esteja na palavra. Talvez esteja no nosso olhar. O mundo está muito ordinário, dizem. E está mesmo. Acordamos, rolamos a tela, repetimos opiniões prontas, nos irritamos com desconhecidos, julgamos em quinze segundos aquilo que não entenderíamos em quinze anos. As conversas estão mais rasas. As indignações, mais baratas. O afeto, apressado. O mundo anda ordinário no pior sentido: perdeu delicadeza. Mas também está ordinário no melhor sentido possível. O padeiro abre a porta às seis da manhã como sempre abriu. A senhora rega as plantas na varanda. Um pai leva a filha à escola segurando a mochila maior que ela. O ônibus passa no mesmo horário. A chuva insiste em cair nos mesmos meses. O café continua quente quando a gente pre...

A Dor Tira o Brilho dos Olhos

Helena não chorou no velório. As pessoas interpretaram aquilo como força. Comentavam baixo: “Que mulher firme.” Ela ouvia como quem escuta uma conversa em outro cômodo. Apertava mãos, agradecia presenças, aceitava abraços demorados. Repetia “obrigada” como quem aprende uma nova profissão. O corpo sabia o que fazer. O corpo sempre sabe. A dor, quando é grande demais, não faz cena. Foi dias depois que algo mudou. Não no jeito de andar. Não na voz. No olhar. Ela acordava cedo. Lavava o rosto. Preparava café para uma xícara só. Sentava à mesa e ficava alguns minutos olhando a cadeira vazia à frente. Não pensava nada específico. Só permanecia. O mundo continuava funcionando com uma eficiência irritante. O padeiro abria às seis. A vizinha regava as plantas às sete. O ônibus passava no mesmo horário. Crianças iam para a escola arrastando mochilas maiores do que o corpo. Helena participava de tudo como quem cumpre uma tarefa. Mas os olhos não acompanhavam. Não estavam vermelh...

Oito Andares Acima do Juizo

O toc-toc na porta se manteve insistente por alguns minutos. Forte. Decisivo. De alguém que não aceitaria um “não vou abrir” como resposta. Ela acordou num susto que lhe colocou o coração na boca. Sentou-se na cama, arrumou os cabelos que se espalhavam pelo rosto. Sentiu um gosto amargo subir pela garganta até alcançar a boca. Pigarreou. Entendeu que as incessantes batidas eram algo sério. Correu até a porta, seguida pelo eco que se dilatava na cozinha de ladrilhos azuis e brancos. Abriu. Estendeu a mão. Puxou-o para dentro e o agasalhou num abraço. Era o rapaz do 201. O cheiro dele — sabonete barato misturado a algo mais quente, mais masculino — entrou primeiro, antes mesmo do corpo. Ela sentiu a respiração dele ainda acelerada contra o seu pescoço. Jovem demais, pensou. Jovem demais para o que acordava nela. Morava no 804 havia quinze anos. O apartamento alto, com janelas abertas para a cidade que não dormia, era seu território seguro. Separada havia tempo suficiente para q...

Levanta os Ombros e Segue

Levanta os ombros e segue. Ela escutou isso numa manhã comum demais para comportar qualquer milagre. A água do café ainda não tinha fervido. A casa estava naquela suspensão entre o silêncio da madrugada e o barulho do dia que começa. Levanta os ombros e segue. Ela ficou parada diante da pia. Não sabia se era delírio ou realidade. Não sabia se tinha sonhado acordada. Mas a voz estava ali — não no ouvido, não no ar — estava dentro da memória dos ossos. A voz do marido. Clara. Direta. Sem dramatização. Ele sempre dizia isso quando algo quebrava, quando o carro não pegava, quando a conta vinha mais alta, quando a vida parecia maior do que as forças. Levanta os ombros e segue. Ela encostou as mãos na borda da pia. Olhou o reflexo no vidro escuro da janela. Os ombros estavam curvados. Pesados. Como se sustentassem não só o corpo, mas o tempo inteiro que viveram juntos. Anos e anos sempre juntos. O tempo tinha dilatado naquela vida. Cresceu em risadas na cozinha, em domingos de ...

Entre o Doce e o Amargo

  — Você sempre chega primeiro — disse o Amargo. — Não é verdade — respondeu o Doce. — Eu só fico mais tempo na memória. — Fica porque eu te preparo. Sem mim, você seria raso. — E sem mim, você seria insuportável. O Amargo riu baixo. Tinha riso de café forte, de casca de laranja mordida sem aviso. — As pessoas me evitam — ele disse. — Fazem careta quando me encontram. — Mas voltam — respondeu o Doce. — Sempre voltam. Porque você ensina. — Ensinar dói. — Nem sempre. Às vezes só acorda. O Amargo caminhou até a borda da xícara. Era madrugada. Havia uma mulher sozinha na cozinha, olhando para o nada enquanto segurava o café ainda quente. — Ela me conhece bem — murmurou o Amargo. — Eu moro na garganta dela desde aquele telefonema. O Doce encostou ao lado, silencioso. — Eu também moro ali — disse baixinho. — Só que apareço menos. Sou lembrança de risada antiga. Sou cheiro de bolo de domingo. Sou a mão que ainda aperta outra mão, mesmo que não esteja mais ali. O ...

A Pele do Tempo

Ela percebeu que o tempo não andava no relógio. Andava na pele. Foi no instante em que ele tocou o dorso da sua mão — não um toque apressado, mas aquele toque que pergunta antes de existir. E ali o mundo falhou. Não parou. Falhou. Como se alguém tivesse puxado o fio invisível que sustenta os minutos. O bar continuava cheio. Copos tilintavam. Uma criança chorava ao longe. Mas entre os dois havia uma espécie de redoma morna onde o ar ficava mais espesso. Respirar exigia consciência. Sorrir exigia coragem. E o tempo… o tempo se dilatava. Cabiam décadas dentro de um olhar. Cabiam histórias nunca vividas dentro de um segundo que não terminava. Ele dizia alguma coisa simples — qualquer coisa sobre o frio da noite, sobre o vinho, sobre nada — e a voz dele atravessava nela como se tivesse sido esperada há anos. Ela riu. E quando riu, o minuto abriu-se como uma fruta madura. O tempo dilata quando o corpo reconhece antes da razão. A cada toque leve no braço, a cada sorriso que de...

"Se Essa Rua Fosse Minha"

A rua não tinha nome raro. Chamava-se Rua das Acácias, embora nenhuma acácia resistisse inteira ao vento do sul. Era estreita, com casas de janelas baixas e cortinas que respiravam junto com a tarde. Helena morava na terceira casa à esquerda. Miguel, na última esquina, onde a rua parecia pensar duas vezes antes de continuar. Eles não sabiam exatamente quando começaram a se amar. Talvez tenha sido no dia em que ele segurou a bicicleta dela enquanto ela fingia não precisar de ajuda. Ou na tarde em que a chuva veio de repente e os dois se abrigaram sob a mesma marquise, rindo como se a vida fosse apenas aquilo: respingos e proximidade. A rua assistiu a tudo. Assistiu aos silêncios demorados no portão. Aos bilhetes dobrados quatro vezes, deixados sob a pedra solta perto do meio-fio. Aos domingos em que caminhavam devagar, inventando assuntos para que o trajeto nunca terminasse. Helena, às vezes, cantarolava distraída: — “Se essa rua, se essa rua fosse minha…” Miguel sorria. —...

Entre Água e Pedra

  Quando Clara disse aquilo, foi quase num sussurro: — Se eu não te amasse tanto assim… Miguel não respondeu. Ele estava na varanda, apoiado no parapeito do apartamento antigo da Rua das Laranjeiras, olhando a cidade como se ela pudesse explicar alguma coisa. Era noite, mas não chovia. O mundo estava indeciso, como eles. Clara repetiu, agora mais firme: — Se eu não te amasse tanto assim, seria mais simples. Ele virou o rosto devagar. Não havia raiva. Havia cansaço. Eles não eram um casal de tempestades. Eram de silêncios. De café passado às seis da manhã. De dividir o último pedaço de pão como se fosse uma decisão diplomática. De lembrar datas que ninguém mais lembrava. O problema nunca foi falta de amor. O problema era excesso. Miguel tinha o hábito de ir embora antes de ir embora. Ficava distante mesmo sentado ao lado. Guardava medos em caixas invisíveis. Clara, ao contrário, queria abrir tudo, ventilar, mexer nas feridas até que cicatrizassem. Ele dizia: — N...

O Gosto Amargo Que Ficou

  O gosto apareceu tarde demais para ser associado a alguma coisa concreta. Não houve cena, nem marco, nem data. Apenas um dia em que ela percebeu que tudo o que levava à boca terminava igual: com um travo curto, persistente, impossível de localizar. Pensou em remédio. Depois em estômago. Depois em idade. Nada explicava. Continuou vivendo sem comentar com ninguém. Não parecia assunto. As pessoas falavam de dores maiores, de exames, de faltas mais evidentes. Um gosto estranho não justificava interrupções. No trabalho, mastigava devagar. Evitava balas, chicletes, qualquer coisa que prometesse disfarce. Aprendeu que o amargo não gostava de ser provocado. Quanto mais tentava combatê-lo, mais ele se fixava. Havia dias em que ele quase desaparecia. Nesses dias ela se permitia uma falsa normalidade: almoçava sem atenção, bebia café em goles largos, ria no tempo certo. Bastava um descuido — um silêncio prolongado, uma espera desnecessária — e lá estava ele de novo, discreto e f...

Meu Melhor "Namorado"

  Ele foi meu melhor namorado. Não o mais intenso, não o mais difícil, não o mais inesquecível no sentido exagerado da palavra. O melhor. Com ele, as coisas não precisavam de legenda. O silêncio não era vazio, o riso não era esforço, o cotidiano não era espera. Havia uma naturalidade rara, dessas que a gente só percebe depois, quando já passou. Eu fui sempre sua. Não por promessa, nem por medo de perder. Fui porque era simples ficar. Porque não havia disputa, nem dúvida, nem ensaio. Era presença sem vigilância. No passado, antes dele, houve outros, namoro e paixões “avassaladoras” da adolescência... Claro que houve. Mas quando penso neles agora, é como lembrar de sabores que não ficaram. Tinham gosto de nada — ou quase nada. Um amargor rápido, um azedo educado. Limão com gengibre: acorda a boca, mas não alimenta. Não sustenta. Não fica. Ele, não. Ele tinha gosto de coisa que se reconhece sem precisar nomear. Algo que não cansa o paladar, que não pede correção, que não p...

Mabel Na Cidade dos Sussurros

  A cidade não tinha nome nos mapas. Chamavam-na de Cidade dos Sussurros porque ninguém ali falava alto — as palavras eram ditas como quem sopra sobre a água para não formar ondas. Mabel chegou numa manhã fria, com uma mala pequena e um medo grande. Não sabia exatamente o que procurava, mas sabia o que havia perdido. E às vezes isso basta para que os pés escolham um caminho. As ruas eram estreitas, as janelas altas, e das frestas escapavam murmúrios. Não eram vozes claras. Eram quase lembranças. Um “fica”, um “volta”, um “ainda estou aqui”. Mabel parava diante das portas como se pudesse reconhecer, entre tantos sussurros, aquele que lhe pertencia. Desde pequena, Mabel aprendera a escutar o que os outros não ouviam. No orfanato onde cresceu — um prédio antigo que respirava à noite — ela distinguia o ranger das tábuas do suspiro do vento. E sabia quando o silêncio estava pesado demais para ser apenas silêncio. Na Cidade dos Sussurros, o silêncio era uma língua. No primeiro ...

Desassossego

O desassossego não chega fazendo estardalhaço. Ele se instala como um copo fora do lugar na pia. Como uma cadeira levemente torta na sala. Como um silêncio que respira mais alto do que deveria. A gente acorda e ele já está sentado à beira da cama, olhando. Não diz nada. Mas pesa. Tem dias em que o desassossego é quase elegante — uma inquietação fina, que nos faz rearrumar livros, trocar móveis de lugar, abrir janelas antes do café. Nesses dias, ele parece motor. Move. Empurra. Sussurra que ainda há algo por fazer, por escrever, por amar. Mas há dias em que ele é pedra. Nesses dias, tudo parece fora de eixo. O corpo anda, mas por dentro algo não acompanha. As conversas acontecem, mas chegam com atraso. A cidade segue seu ritmo — ônibus, mercados, gente comprando pão — e nós, levemente desalinhados, como se estivéssemos vivendo meio centímetro ao lado da própria vida. O desassossego não gosta de multidão. Ele prefere o entardecer. Gosta da hora em que a luz enfraquece e as som...

Raízes Que Ninguém Vê

  “O que a gente viveu, ninguém rouba”. Fica entranhado na pele, nos ossos, no jeito de olhar o mundo. Fica no modo como se segura uma xícara, como se dobra uma camisa, como se chama alguém pelo nome. A morte veio — e veio sem avisar, simplesmente chegou. Levou quem era casa. Levou quem era riso fácil na cozinha, quem sabia o caminho das minhas mãos no escuro, quem dividia o silêncio sem precisar preenchê-lo. Levou o pai dos meus filhos, o homem que me acompanhou na travessia inteira de quase meio século. Levou meu amor. E eu fiquei. Fiquei como árvore em terreno aberto depois da tempestade. A raiz principal arrancada, a terra revolvida, o ar entrando por dentro das fibras. Por alguns dias — ou meses, ou anos, porque o tempo depois da perda não sabe mais se organizar — pensei que tombaria também. Porque era daquela raiz grossa que eu retirava a seiva. Era dela que vinha o sustento invisível, a força silenciosa que me mantinha de pé sem que eu percebesse. Sem ela, o mu...

O Tempo Não Cura Tudo

Dizem que o tempo cura. Dizem com a tranquilidade de quem nunca precisou aprender a conviver com uma ausência sentada à mesa. O tempo, na verdade, não cura. Ele apenas ensina onde dói menos tocar. No começo, a dor é um quarto sem portas. Tudo ecoa. O barulho do mundo entra como se fosse o dono de tudo, sem nem mesmo pedir licença: risos alheios, músicas que não combinam, manhãs claras demais. O tempo passa por ali como um visitante constrangido — não arruma nada, só observa. Depois, algo muda. Não melhora. Muda. A ferida continua ali, mas cria crostas frágeis. A gente aprende a caminhar desviando. Aprende que certos dias pedem silêncio, que certas lembranças exigem cadeira e água doce por perto. Aprende a reconhecer o cheiro da saudade antes que ela chegue — como quem sente chuva antes do primeiro trovão. O tempo não apaga o que foi. Ele não apaga nomes, nem vozes, nem o jeito exato de alguém dizer nosso nome quando estava feliz ou cansado. O tempo apenas torna possível respira...