Bem Próximo da Janela
Ela ficava bem próximo da janela, como se aquele pedaço de parede fosse o único lugar da casa onde o ar ainda circulava inteiro. A moldura de alumínio já perdera o brilho de anos atrás. Havia pequenas marcas no vidro — respingos de chuva antiga, poeira que o pano não alcançava totalmente, um risco fino quase invisível que só aparecia quando o sol batia de lado. A cortina, leve demais para ser cortina, ondulava com a fresta sempre aberta, mesmo no frio. Ela mantinha a fresta. Vestia uma blusa de linho bege, já macia de tanto uso, marcada nos punhos como se ali repousassem seus cotovelos todas as tardes. A saia azul descia até os tornozelos, discreta, com a barra um pouco gasta. Os pés descalços buscavam o chão frio como quem confirma que ainda há chão. O cabelo estava preso sem intenção de ficar bonito. Algumas mechas escapavam e tocavam o rosto, e ela não as afastava. Deixava que o vento resolvesse. O semblante era amplo. Não era o rosto de quem espera, nem o de quem desistiu...