A Bolha

Eu e ele vivíamos numa bolha. Invisível, sim, mas tão concreta para nós que moldava cada gesto do dia. Quando eu saía para a vida lá fora — trabalho, compromissos, ruas barulhentas — sentia o instante da ruptura: era como se a bolha se abrisse para que eu passasse, e o ar frio do mundo me atingisse no rosto. Eu suportava, mas já contava as horas para voltar.

Às cinco da tarde, tudo em mim queria estar em casa, fechada com ele de novo. Era um desejo quase físico, como sede ou fome. E quando finalmente chegava, havia sempre o assovio dele, leve, brincalhão, fazendo nascer pequenas bolhas ao redor, como se o ar se enchesse de fragmentos de vidro claro. Cada nota parecia suspender um fiapo de luz, lembrando aquelas esferas de sabão que o sol atravessa, mas que aqui não estouravam — apenas nos cercavam, cúmplices.

Era dentro delas que a vida se tornava suportável. Do lado de fora, o tempo corria apressado, cobrando urgências sem nome. Dentro, bastava o café passado por ele, uma palavra sussurrada, o silêncio bom. O mundo podia esperar.

Até que a bolha maior se rompeu. Não fez barulho, não deu aviso. Apenas se desfez, como se tivesse perdido a força de existir. E eu fiquei exposta, frágil, sem saber para onde correr. Agora, quando caminho pelas ruas, sinto a ausência dela: o ar cru, o peso dos rostos apressados, a falta de abrigo.

Mas carrego comigo pedaços desse tempo. Estão na pele como cacos transparentes que refletem o sol, lembrando os assovios dele, o barulho do café, o instante sagrado das cinco da tarde. Não é mais a bolha inteira — apenas ecos. Mas são eles que me sustentam.

Talvez eu nunca construa outra. Talvez precise aprender a respirar assim, sem paredes invisíveis ao redor. Mas sei que esses fragmentos ainda brilham. E mesmo que eu nunca mais os reúna num abrigo perfeito, eles são suficientes para me fazer seguir.

 

Silvia Marchiori Buss

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Energia na Parede

Navegando na Ausência

O Silêncio da Professora