Um Ano Depois...

Um ano depois, descubro que, além da saudade, existe algo ainda mais duro: a pena de mim.

De como me vi, sem escolha, diante daquela intrusa faminta. Ela chegou sem aviso, sentou-se à mesa, abriu as mãos vazias exigindo tudo. E ali estava eu, com o meu amor inteiro entre os braços, tendo que entregá-lo à desconhecida que nunca o conhecera.

Foi injusto. Foi brutal.
Ela não quis saber das histórias que escrevemos juntos, das manhãs de café, dos silêncios cúmplices. Não quis ouvir sobre os filhos, os netos, as pequenas vitórias, as perdas atravessadas de mãos dadas. Não quis nada — só tomou.

E eu, frágil como nunca, tive de ceder.
Não havia opção: ou ela o levava, ou eu me despedaçava antes. Fiquei com a ausência, com a casa que ecoa sua falta, com a cama maior do que devia. Fiquei com a memória, com a respiração entrecortada, com o consolo possível de ainda poder chamá-lo dentro de mim.

Mas não fiquei sozinha.
Nesse vazio que parecia não ter fundo, surgiram mãos que me seguraram, vozes que me chamaram pelo nome, olhares que me lembraram de que eu ainda existia. Amigos e amigas vieram como quem acende pequenas lamparinas em um quarto escuro. Cada gesto, cada palavra, cada silêncio compartilhado foi um modo de dizer: “estamos aqui, você não precisa enfrentar essa desconhecida sozinha”.

E hoje, enquanto escrevo estas linhas, caminho pela beira do Lago Léman. As montanhas me assistem, imóveis e eternas, enquanto ao redor tantas pessoas falam, falam em idiomas que às vezes não compreendo, mas que me lembram da diversidade do mundo. Às vezes choro enquanto escrevo, outras vezes sorrio. É assim que a vida se revela: num sopro de dor e, logo adiante, num respiro de beleza.

Preciso desabafar da única maneira que sei: escrevendo.
E faço isso diante do cenário mais lindo, aquele que eu tanto queria partilhar contigo. Queria tua mão entrelaçada na minha, teu assobio brincando com o vento, tua presença me dizendo baixinho que tudo ainda fazia sentido.

Hoje percebo que não foi apenas você quem partiu. Fui eu também, naquela entrega forçada.
E a pena que sinto não é só da mulher viúva que sigo sendo, mas da mulher que, sem querer, teve de dar ao desconhecido o que era sagrado.

Ainda assim, sigo.
Entre lágrimas e sorrisos, entre amigos que me lembram de mim mesma, entre idiomas que me atravessam como música, sigo.
Porque, mesmo roubado, o amor não pode ser desfeito.

 

Silvia Marchiori Buss

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