Perfuma, Dor e Saudade
O perfume da saudade não vinha de frascos caros nem de flores raras. Morava em lugares absurdamente pequenos. Num travesseiro esquecido do lado esquerdo da cama. Numa camisa antiga pendurada atrás da porta. Na toalha dobrada do jeito que ele deixava, mesmo depois de tantos meses sem voltar para buscá-la. Ela descobriu isso numa tarde silenciosa, quando abriu uma gaveta procurando pilhas novas para o controle remoto. Não encontrou as pilhas. Encontrou um lenço. E junto dele veio aquele cheiro impossível de explicar. Nem perfume masculino exatamente. Nem sabonete. Era apenas presença. A lembrança química de alguém que já havia partido, mas que ainda insistia em ocupar o ar da casa. Sentou-se no chão sem perceber. A saudade tinha dessas violências delicadas. Não gritava. Não quebrava copos. Não derrubava portas. Apenas atravessava o peito devagar, como água fria entrando por uma rachadura invisível. Lá fora, as pessoas seguiam vivendo normalmente. Ônibus passavam. Crianças corriam...