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Essas Mulheres Encantadoras

Naquela terça-feira chovia fino, daquele jeito que não molha direito nem vai embora. O toldo da cafeteria pingava num balde de plástico colocado ali sem muita esperança de resolver o problema. O barulho era ritmado: uma gota, outra, depois duas juntas. Helena estava sentada perto da janela. Não esperava ninguém, mas também não parecia alguém que estivesse sozinha. Havia uma calma estranha no modo como ela segurava a xícara. Não bebia. Apenas deixava o café esfriar enquanto olhava a rua. As pessoas passavam rápido, como quem tem medo de perder alguma coisa que ainda não aconteceu. Helena tinha aprendido a não correr mais atrás de nada. Do outro lado da rua, uma mulher hesitou antes de atravessar. Parecia decidir se entrava ou se continuava caminhando. Acabou entrando. Ela sacudiu o guarda-chuva na porta, pediu um café curto e procurou lugar para sentar. Não havia mesas livres. Exceto a de Helena. — Posso? Helena levantou os olhos como se já soubesse. — Claro. A...

Todas as Mulheres Dentro de Mim

Há dias em que ela se percebe cheia. Não cheia de tarefas, nem de pensamentos — cheia de mulheres. Algumas aparecem de repente, sem aviso. Outras caminham com ela há tanto tempo que já se confundem com o próprio jeito de andar. De manhã, por exemplo, quando prende o cabelo ainda úmido e olha a cidade pela janela, surge a menina que um dia acordava cedo só para ver o mundo começar. Aquela que acreditava que cada dia escondia alguma coisa inédita. A menina ainda mora ali, curiosa, perguntando silenciosamente o que o dia pretende fazer com elas. Mais tarde, quando atravessa a rua distraída, aparece a jovem que caminhava sem medir as consequências. A que achava que tudo era possível, inclusive os amores que não duravam. Essa jovem ainda ri dentro dela — um riso meio ousado, meio ingênuo. Às vezes surge também a mulher que aprendeu a ficar em silêncio. Ela aparece quando a casa está calma demais ou quando alguém fala algo que não precisa de resposta. Essa mulher não tem pressa. ...

" E La Nave Va"

O mar estava quieto naquela manhã. Não quieto de ausência, mas quieto como quem pensa. Do cais, a nave parecia imensa. Não pelo tamanho — havia navios maiores —, mas pela quantidade de histórias que parecia carregar. Havia algo na pintura levemente descascada do casco, na corda grossa que ainda prendia o navio ao porto, no modo como as janelas refletiam o céu, que dava a impressão de que aquela nave já conhecia o mundo. As pessoas subiam a bordo com pressa. Carregavam malas, promessas, lembranças que não cabiam em lugar nenhum. Alguns falavam alto, como se quisessem convencer o destino de que estavam prontos. Outros caminhavam devagar, como quem atravessa uma despedida. Entre eles estava ela. Não trazia mala grande. Apenas uma bolsa de couro antigo e um silêncio dentro do peito. Parou um instante antes de subir a prancha. Olhou o mar como quem consulta um velho amigo. O horizonte estava distante e calmo, aquela linha onde o céu aprende a tocar a água sem fazer barulho. Su...

Vamos Ver o Que a Vida Nos Reserva

Eva andava em volta do novo namorado como quem aprende de novo a caminhar depois de muito tempo parada. Não era exatamente amor ainda. Era uma espécie de incêndio tranquilo. Ela ria mais do que de costume. Tocava o próprio cabelo sem perceber. Às vezes passava diante de um vidro qualquer — vitrine, porta, espelho esquecido — e se olhava com surpresa, como se estivesse reencontrando uma mulher que havia ficado guardada em alguma gaveta da vida. Sentia-se desejada. E esse sentimento tinha uma força antiga. Como uma maré que retorna. Caminhavam perto da água naquele fim de tarde. Eva tirou os sapatos e deixou os pés entrarem no mar raso. A água fria subia pelos tornozelos enquanto o vento desarrumava seus cabelos. Ela tinha os pés na água. E a cabeça em fogo. O namorado falava qualquer coisa — histórias, planos, frases soltas — mas Eva escutava apenas metade. A outra metade dela estava longe, vagando por um céu imaginário onde tudo parecia possível. Sua cabeça andava n...

Nossas Vidas

Há quem pense que a vida começa no grito. Mas talvez ela comece na luz. O amanhecer da vida é um quarto meio escuro, alguém abrindo a janela devagar, um choro que não sabe ainda o que significa. Não é sempre claro. Há amanhecer com sol filtrado pela cortina, cheiro de leite morno e colo. Mas há também amanhecer com temporal — incubadoras, sustos, mães exaustas, pais aprendendo a ter medo. A primeira infância é essa claridade instável. A criança ri como se o mundo fosse uma promessa, mas também cai, rala o joelho, descobre que o não existe. O céu pode estar azul e, de repente, trovejar. Ainda assim, ela insiste. Anda cambaleando. Aprende a falar. Aprende que a ausência dói e que o abraço resolve quase tudo. Depois vem o entardecer — que é a juventude e também a fase adulta. É quando o sol não está mais nascendo, mas ainda está alto o suficiente para nos fazer acreditar que temos tempo. A juventude tem a luz dourada dos planos. Amores que parecem definitivos. Revoltas que parece...

Um Ruido Dentro de Mim

Na terceira madrugada seguida, acordei com o barulho. Não era sonho. Também não era insônia. Era um som miúdo, metálico, como se alguém, do lado de dentro do peito, estivesse desmontando uma máquina antiga peça por peça. Fiquei imóvel. O quarto escuro parecia respirar junto comigo. O ponteiro do relógio avançava com sua disciplina indiferente. Mas o ruído não obedecia a horário. Vinha em ondas. Pequenos estalos, como gelo rachando sob um lago invisível. Passei a mão sobre o peito, como quem verifica um bolso esquecido. Nada. No dia seguinte, fui ao médico. Ele auscultou, franziu a testa, pediu para eu inspirar fundo. Não encontrou defeito algum. Meu coração estava regular, meus pulmões obedientes. “Ansiedade”, disse, com a delicadeza dos que nomeiam o que não veem. Voltei para casa com uma palavra e o ruído intacto. À tarde, enquanto descascava uma maçã, ele reapareceu — um clique seco, depois outro. A faca escorregou da minha mão e caiu na pia. Por um segundo tive certez...

A Mulher que Caminhava Sobre as Nuvens

Julinha nunca foi leve por falta de peso. Foi leve por excesso de sonho. Quem a via andando pela rua — a bolsa pendendo do ombro, o vestido simples, os cabelos presos às pressas — talvez não percebesse nada de extraordinário. Mas havia um detalhe: ela não pisava exatamente no chão. Havia entre seus pés e o asfalto uma distância invisível, como se o mundo não conseguisse retê-la por completo. Julinha já sofrera. Sofrera o amor que parte sem aviso, a amizade que esfria, a palavra que machuca mais do que deveria. Sofrera também as pequenas perdas: a xícara favorita quebrada, o domingo que termina cedo demais, o silêncio depois de uma casa cheia. Mas, em vez de endurecer, ela aprendera outra coisa. Aprendera a subir. Não era fuga. Era escolha. Quando a tristeza vinha — e ela vinha, sempre vinha — Julinha não a negava. Sentava-se ao lado dela como quem conversa com uma visita inconveniente, mas necessária. Chorava quando precisava. Sentia o peso no peito, a garganta apertada...