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A Ordem Invisível das Coisas

A casa não estava suja. A bagunça era outra. As gavetas continuavam fechando direito, os pratos ainda ocupavam o mesmo armário, as toalhas dobradas permaneciam alinhadas como soldados cansados cumprindo uma disciplina antiga. Quem olhasse de fora talvez dissesse que ali morava um homem organizado. E morava. Durante muitos anos, Augusto havia aprendido a manter tudo no lugar porque acreditava que a ordem das coisas protegia a vida de desabar. As contas pagas antes do vencimento. As chaves sempre no mesmo gancho. Os domingos reservados para o almoço em família. As palavras escolhidas com cuidado para não ferir ninguém. Só que existem tempestades que não entram pela janela. Elas atravessam gente. E quando atravessam, não derrubam vasos nem arrancam telhados. Desorganizam certezas. Tudo começou a sair do eixo na semana em que Clara foi embora. Não houve gritos, pratos quebrados ou portas batendo. Talvez Augusto tivesse suportado melhor se houvesse violência suficiente para jus...

A Luz Que Ficou Acesa

Havia dias em que a saudade chegava sem fazer barulho, como quem conhece tão bem a casa que já não precisa bater à porta. Entrava pelos corredores da tarde, sentava-se na cadeira vazia da cozinha, mexia nas cortinas com um vento leve e ficava ali, espalhada entre os objetos que continuavam existindo apesar da ausência. Ela às vezes pensava em escrever. Não cartas longas, nem despedidas atrasadas — apenas uma frase pequena, quase tímida: queria muito falar contigo mais uma vez, saber de ti, do teu dia a dia, se realmente estás brincando de viver. Mas não escrevia. Deixava as palavras descansando dentro dela como roupas dobradas que ninguém usa, embora ainda guardem perfume. A vida ao redor insistia em continuar com uma certa falta de delicadeza. O pão precisava ser comprado, as plantas pediam água, os lençóis secavam ao sol como bandeiras brancas penduradas nas varandas dos outros. As pessoas falavam de trânsito, de previsão do tempo, de séries novas, enquanto ela carregava no peito...

Sessão de Terapia

A cadeira era macia demais para quem não queria afundar. Ainda assim, ela se acomodava como quem aceita um acordo silencioso: ficar ali por cinquenta minutos e não fugir de si mesma — pelo menos não completamente. — Pode começar quando quiser — disse a terapeuta, com aquela voz que não empurrava nem puxava, apenas deixava. Ela olhou para as mãos. Sempre começava por elas, como se fossem outro corpo, menos comprometido com o que doía. — Eu não sei exatamente o que dizer. E havia verdade nisso, mas também um cansaço antigo de saber demais e não conseguir organizar nada em palavras. As frases vinham como móveis arrastados dentro da cabeça, fazendo barulho, sem nunca se encaixarem no lugar certo. O relógio na parede não fazia som, mas ela sentia o tempo passando como um líquido lento, espesso, quase visível. Pensou em quantas vezes já tinha estado ali, repetindo versões diferentes da mesma ausência. — Minha casa é silenciosa — disse, por fim. A terapeuta a olhou, incentivando...

La Belle de Jour - A Bela do Dia

Ninguém ali parecia saber exatamente o que aquilo queria dizer, e talvez por isso repetiam. Soava bem na boca, escorria com uma elegância que não exigia explicação. Foi assim que passaram a chamá-la. Ela chegou ao hotel numa tarde que não se comprometia com nada — nem sol, nem chuva, apenas uma claridade suspensa, como se o dia ainda estivesse decidindo se valia a pena acontecer. Trouxe uma mala pequena demais para quem dizia não saber quanto tempo ficaria. Não pediu ajuda. Também não explicou. O recepcionista tentou confirmar a reserva. — Nome? Ela hesitou o tempo de um gesto que quase acontece. — Pode deixar assim — disse, apontando para o livro aberto sobre o balcão, como se o próprio papel resolvesse. E resolveu. Escreveram ali: La belle de jour. O quarto ficava no terceiro andar, de frente para um pátio interno onde nada de fato acontecia, mas tudo parecia estar prestes a acontecer. Havia uma cadeira junto à janela, dessas que convidam o corpo a permanecer mesmo quan...

Nós e os "Outros"

Chamavam de os “outros” com uma naturalidade que não era crueldade, mas também não era cuidado. Era uma palavra que servia para separar, como uma porta entreaberta que nunca se fecha nem se escancara. Do lado de cá, nós — as cuidadoras, as mulheres de uniforme claro, os visitantes ocasionais que vinham mais por curiosidade do que por afeto. Do lado de lá, eles — os “outros” — habitantes de um tempo próprio, onde os dias não tinham as mesmas horas. O lugar tinha cheiro de roupa fervida e sabão de soda. As janelas altas deixavam entrar uma luz filtrada, como se o mundo lá fora precisasse pedir licença antes de atravessar aqueles vidros. Nos corredores, passos ecoavam com um atraso leve, como se cada som demorasse um pouco mais para se decidir a existir. As cuidadoras aprenderam cedo a linguagem do gesto: um toque leve no ombro, uma xícara colocada sempre no mesmo lugar, o cuidado de não corrigir o que não precisava ser corrigido. E, entre uma rotina e outra, havia dias em que os “out...

História de Um Casamento

  No início, eles não tinham propriamente um plano — tinham horários que coincidiam, um certo modo de olhar o mundo e a disposição de não fazer perguntas demais. Foi assim que começaram a dividir pequenas coisas: o caminho até o mercado, a escolha do vinho barato, o silêncio confortável depois do jantar. O apartamento era modesto, mas havia uma janela que pegava o sol da tarde. Ela gostava de deixar as cortinas entreabertas, não por gosto de luz, mas pelo hábito de acompanhar o dia mudando de cor. Ele, mais prático, dizia que aquilo desbotava os móveis. Ainda assim, nunca as fechava completamente. Com o tempo, foram acumulando objetos que não tinham grande valor, mas que ocupavam lugares precisos: uma tigela rachada que ninguém jogava fora, livros lidos pela metade, uma cadeira que rangia sempre no mesmo ponto. A vida deles se organizava nesses detalhes — não no que diziam, mas no que permanecia. Houve uma fase em que riam muito. Não de coisas importantes, mas de distrações: ...

Saudades e Bilhetes Perdidos

Não era falta de alguém. Era a ausência exata dele — com o peso do nome, do jeito, das pequenas manias que não se substituem. Ela descobriu isso aos poucos, enquanto a casa ainda insistia em parecer inteira. No primeiro dia, escreveu um bilhete curto e deixou sobre a mesa da cozinha, preso sob o copo que ele costumava usar. “Voltei mais cedo hoje.” A frase não fazia sentido sozinha, mas fazia sentido para quem conhecia a rotina interrompida. Para quem saberia que, naquele dia, ela tinha inventado um motivo qualquer para não ficar mais tempo fora. No segundo dia, deixou outro, dobrado ao meio, apoiado no braço da poltrona. “Comprei aquele pão que você gosta.” Não comprou. Escreveu como se tivesse. Como se a escrita pudesse antecipar a realidade, ou talvez corrigir o que já não podia ser corrigido. Os bilhetes começaram a se espalhar pela casa com uma disciplina silenciosa. Na beira da pia, ao lado do espelho, entre as páginas de um livro que ele nunca terminou. Ela escre...