Eu Quero Crer
Não sei exatamente quando comecei a conversar com a ausência. Talvez tenha sido numa manhã qualquer, diante de duas xícaras de café, quando percebi que uma delas já não precisava ser colocada sobre a mesa. A casa continuava a mesma. Os móveis, os quadros, os objetos que escolhemos juntos ao longo de tantos anos. Até o silêncio parecia conhecer os nossos hábitos. Mas havia alguma coisa diferente no ar, uma espécie de espera que não terminava. Passei boa parte da vida confiando na ciência. Sou bióloga, aprendi sobre a vida, sobre as transformações da matéria, sobre os ciclos que começam e acabam. Sei que o corpo tem seus limites, que a morte faz parte da existência. Sei tudo isso. Ou penso que sei. Porque uma coisa é estudar a morte. Outra, muito diferente, é segurar nos braços a pessoa com quem dividimos quase cinquenta anos e compreender que aquele corpo amado já não responde ao nosso toque. Naquele momento, nenhum conhecimento me preparou. Os dias passaram. As pessoas vo...