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Um Zíper no Peito

Havia dias em que Eduarda andava pela casa como quem carrega água dentro do corpo — qualquer movimento mais brusco e tudo parecia transbordar. Não era uma dor que começava em algum lugar exato. Não vinha do peito, nem da garganta, nem dos olhos. Era pior. Parecia morar entre os ossos, ocupando os espaços silenciosos que ninguém vê. Ela continuava fazendo café, dobrando roupas, respondendo mensagens com frases curtas demais para explicarem alguma coisa. As pessoas olhavam e viam uma mulher funcionando. Só Eduarda sabia do esforço absurdo que existia em conseguir abrir as janelas pela manhã sem desabar junto com elas. À noite, quando a casa finalmente silenciava, ela se sentava no chão do quarto e apoiava as costas na cama, como fazia desde menina quando alguma tristeza parecia maior que o próprio corpo. Havia algo quase infantil naquele hábito, mas também alguma espécie de sobrevivência. Porque o chão, ao menos, não fingia. Foi numa dessas noites que pensou no zíper. Imaginou um...

Bolha de Sabão

Havia alguma coisa de teimoso naquela mulher que continuava voltando ao mesmo banco da praça, sempre no fim da tarde, quando o sol já começava a desistir devagar das fachadas antigas e os pombos caminhavam como velhos donos do mundo. Sentava-se com cuidado, ajeitando a saia sobre os joelhos, e carregava na bolsa um pequeno frasco de plástico azul, desses baratos, comprados em lojas de brinquedo. As crianças já a conheciam. — A senhora das bolhas. Ela sorria sem mostrar todos os dentes. Depois mergulhava a haste no líquido e soprava devagar, enchendo o ar de bolhas de sabão que subiam tortas, frágeis, coloridas por um arco-íris que só existia por segundos. Algumas explodiam imediatamente. Outras viajavam mais longe, atravessando pedaços de luz, ombros distraídos, bicicletas, cachorros, pensamentos. E ela observava cada uma como quem acompanha destinos. Ninguém sabia exatamente por que fazia aquilo todos os dias. Havia quem dissesse que perdera um filho. Outros juravam que ...

Mundo Que se Desfaz

O mundo dela não começou a desaparecer de forma visível. Nada caiu no chão com estrondo. Não houve diagnóstico acompanhado de música triste, nem um instante exato capaz de ser apontado no calendário como o início da ruína. O que aconteceu foi mais silencioso — e justamente por isso mais cruel. Primeiro vieram as pequenas falhas. Uma palavra esquecida no meio da frase. Uma panela no fogo. O nome da vizinha desaparecendo por segundos longos demais. No início todos trataram aquilo com delicadeza. A idade, diziam. O excesso de preocupação. O cansaço acumulado. E ela própria ajudava a encobrir os buracos. Ria quando confundia objetos. Inventava desculpas rápidas. Desenvolveu uma habilidade silenciosa para mudar de assunto antes que percebessem que sua memória começava a falhar como uma lâmpada antiga. Mas havia momentos em que o mundo se tornava estranho. Não triste. Estranho. A disposição dos móveis parecia levemente alterada, como se alguém entrasse na casa durante a ma...

Várias Dentro de Uma

A mulher é um “bicho” estranho mesmo, como escreveu Fabrício Carpinejar. Sangra todos os meses e continua. O corpo avisa dor, cansaço, mudança, peso, cólica, silêncio… e ainda assim ela levanta, prende o cabelo, coloca um curativo invisível na própria vulnerabilidade e sai para o mundo como quem não teve escolha além de seguir. E segue. Vai dirigir ônibus, pilotar avião, dar aula, operar alguém numa sala cirúrgica, limpar corredores de hospital, vender pão, julgar processos, recolher lixo da cidade, escrever livros, atender telefone, cuidar de idosos, apagar incêndios, servir café, administrar empresas, cuidar dos filhos das outras, estudar madrugada adentro, carregar filhos no colo e preocupações na alma. Há mulheres que salvam vidas. Há mulheres que organizam vidas. Há mulheres que sustentam vidas inteiras sem que ninguém perceba o peso que carregam nos ombros. E mesmo quando o mundo diminui tudo isso à palavra “sensibilidade”, quase nunca enxergam o quanto existe de resi...

A Ordem Invisível das Coisas

A casa não estava suja. A bagunça era outra. As gavetas continuavam fechando direito, os pratos ainda ocupavam o mesmo armário, as toalhas dobradas permaneciam alinhadas como soldados cansados cumprindo uma disciplina antiga. Quem olhasse de fora talvez dissesse que ali morava um homem organizado. E morava. Durante muitos anos, Augusto havia aprendido a manter tudo no lugar porque acreditava que a ordem das coisas protegia a vida de desabar. As contas pagas antes do vencimento. As chaves sempre no mesmo gancho. Os domingos reservados para o almoço em família. As palavras escolhidas com cuidado para não ferir ninguém. Só que existem tempestades que não entram pela janela. Elas atravessam gente. E quando atravessam, não derrubam vasos nem arrancam telhados. Desorganizam certezas. Tudo começou a sair do eixo na semana em que Clara foi embora. Não houve gritos, pratos quebrados ou portas batendo. Talvez Augusto tivesse suportado melhor se houvesse violência suficiente para jus...

A Luz Que Ficou Acesa

Havia dias em que a saudade chegava sem fazer barulho, como quem conhece tão bem a casa que já não precisa bater à porta. Entrava pelos corredores da tarde, sentava-se na cadeira vazia da cozinha, mexia nas cortinas com um vento leve e ficava ali, espalhada entre os objetos que continuavam existindo apesar da ausência. Ela às vezes pensava em escrever. Não cartas longas, nem despedidas atrasadas — apenas uma frase pequena, quase tímida: queria muito falar contigo mais uma vez, saber de ti, do teu dia a dia, se realmente estás brincando de viver. Mas não escrevia. Deixava as palavras descansando dentro dela como roupas dobradas que ninguém usa, embora ainda guardem perfume. A vida ao redor insistia em continuar com uma certa falta de delicadeza. O pão precisava ser comprado, as plantas pediam água, os lençóis secavam ao sol como bandeiras brancas penduradas nas varandas dos outros. As pessoas falavam de trânsito, de previsão do tempo, de séries novas, enquanto ela carregava no peito...

Sessão de Terapia

A cadeira era macia demais para quem não queria afundar. Ainda assim, ela se acomodava como quem aceita um acordo silencioso: ficar ali por cinquenta minutos e não fugir de si mesma — pelo menos não completamente. — Pode começar quando quiser — disse a terapeuta, com aquela voz que não empurrava nem puxava, apenas deixava. Ela olhou para as mãos. Sempre começava por elas, como se fossem outro corpo, menos comprometido com o que doía. — Eu não sei exatamente o que dizer. E havia verdade nisso, mas também um cansaço antigo de saber demais e não conseguir organizar nada em palavras. As frases vinham como móveis arrastados dentro da cabeça, fazendo barulho, sem nunca se encaixarem no lugar certo. O relógio na parede não fazia som, mas ela sentia o tempo passando como um líquido lento, espesso, quase visível. Pensou em quantas vezes já tinha estado ali, repetindo versões diferentes da mesma ausência. — Minha casa é silenciosa — disse, por fim. A terapeuta a olhou, incentivando...