Metamorfose
Essa metamorfose ambulante que me tornei desde que você partiu quando, ora sou inteira, dona dos meus passos e das minhas escolhas, ora sou a sua metade que ficou, aquela parte de mim que ainda se movimenta pelo mundo carregando a marca de uma vida que foi nossa. Não é uma coisa simples. Há momentos em que me sinto inteira de verdade. Faço o que preciso fazer, converso, rio, encontro graça nas coisas, sigo a vida com a naturalidade de quem sabe que é preciso continuar. E há outros em que basta uma lembrança atravessar o pensamento para que tudo mude de lugar. A ausência não chega sempre como tristeza. Às vezes chega disfarçada de rotina. Está na cadeira que ninguém ocupa, numa música que eu não esperava ouvir, numa frase que você certamente teria comentado. Está em pequenos detalhes que ninguém mais percebe, mas que para mim ainda têm o seu nome. E eu sigo sendo essa mulher de muitas versões. A que aprendeu a resolver a própria vida e a que, de vez em quando, ainda procura você...