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O Barulho do Meu Silêncio

Ela acordava às quatro e dezessete. Não precisava de despertador. O corpo abria os olhos como quem atende a um chamado que não vem de fora. A casa ainda estava inteira no escuro. O prédio, quieto. Só o elevador, às vezes, gemia lá embaixo, como se alguém também tivesse perdido o sono. Ela ficava deitada por alguns minutos, olhando o teto que mal se distinguia da sombra. Havia uma pequena rachadura perto do canto. Conhecia o desenho dela de memória. Seguia com os olhos aquela linha torta como se fosse um caminho. Quando levantava, o chão estava frio. A cozinha guardava o cheiro do café do dia anterior. Ela não acendia todas as luzes — deixava apenas a do fogão, fraca, suficiente para não tropeçar na própria rotina. O silêncio da casa não era vazio. Tinha pequenos ruídos: a madeira dilatando, a água descendo em algum encanamento distante, o motor da geladeira iniciando e parando. E, por baixo disso tudo, havia outra coisa. Uma vibração que não vinha dos objetos. Durante o dia...

O Peso da Saudade

A casa de Laura tinha um silêncio particular. Não era o silêncio das casas abandonadas, onde o pó se acumula e as portas rangem com o vento. Era um silêncio mais doméstico, feito de pequenos sons que ainda insistiam em existir: o relógio da sala marcando os segundos com uma paciência infinita, a chaleira que às vezes estalava sozinha no fogão já desligado, o leve arrastar da cortina quando o ar da tarde entrava pela janela. Laura morava ali havia muitos anos. Tempo suficiente para que os móveis se acomodassem à sua maneira de passar pelos cômodos. Tempo suficiente para que cada objeto soubesse, sem esforço, o lugar onde deveria estar. Na estante da sala havia livros que já não eram abertos com frequência. Alguns tinham anotações nas margens, escritas com uma letra que parecia mais firme do que a de agora. Entre eles, uma fotografia antiga — duas pessoas sentadas num banco de praça, inclinadas uma para a outra como quem compartilha um segredo qualquer. Laura raramente olhava dir...

O Silêncio Entre Dois Dias

Na rua onde morava Helena, as manhãs chegavam devagar. Não era uma rua movimentada. Havia uma padaria pequena na esquina, uma árvore antiga que parecia conhecer todas as estações e algumas casas antigas que resistiam ao tempo com uma dignidade cansada. Helena costumava acordar antes que a cidade estivesse completamente desperta. Não por necessidade. Era um hábito que a vida lhe ensinara. Levantava-se com cuidado, como se o chão ainda estivesse adormecido. Colocava água no fogo, preparava café e abria a janela da cozinha. O ar da manhã entrava com aquela mistura de frio leve e cheiro de terra molhada que às vezes vinha do jardim do vizinho. O primeiro som do dia quase sempre era o mesmo: passos. Miguel passava pela rua por volta das seis e quinze. Caminhava sem pressa, com um casaco escuro e um jeito de quem não tinha destino urgente. Helena nunca soube exatamente para onde ele ia. Talvez ao trabalho, talvez apenas caminhar. No começo, ela apenas o notava. Depois passou a ...

" O Imperativo Espiritual do Desejo"

Durante muito tempo ela acreditou que o desejo era apenas uma forma de querer alguma coisa. Querer um vestido novo, querer viajar, querer que o dia fosse mais leve que o anterior. Depois entendeu que não. O desejo verdadeiro não tem nada a ver com essas pequenas vontades que passam como vento em cortina aberta. O desejo verdadeiro permanece. Silencioso, teimoso, quase invisível — mas permanece. Foi numa manhã sem importância que ela percebeu isso. A casa estava quieta demais. Não havia nada urgente para fazer, nenhum compromisso marcado, nenhuma visita esperada. A chaleira fervia devagar no fogão, espalhando aquele vapor fino que parecia subir sem pressa para o teto. Ela sentou-se à mesa e ficou olhando a xícara vazia. Havia dias assim. Dias em que a vida parecia suspensa, como um trem parado entre duas estações. Nesses dias ela se perguntava para que continuar fazendo tantas coisas. Arrumar a casa, dobrar roupas, caminhar pelas mesmas ruas, dizer bom dia às mesmas ...

Juntando os Pedaços

Ela chegou aos sessenta e cinco anos sem perceber exatamente quando a vida tinha passado da pressa para o silêncio. Não foi num aniversário específico. Não houve trombetas, nem conclusões definitivas. Apenas um dia em que, ao dobrar uma roupa já limpa, percebeu que havia vivido muitas vidas dentro de uma só. Algumas ficaram inteiras. Outras, espalhadas. Durante anos ela acreditou que a vida era uma linha contínua. Nascer, crescer, amar, perder, seguir. Mas aos sessenta e cinco entendeu outra coisa: A vida era mais parecida com uma mesa depois de uma longa viagem — cheia de objetos esquecidos. Havia ali a menina que corria descalça pela infância, convencida de que o mundo era grande demais para caber dentro de uma casa. Havia a jovem que acreditava que o amor resolvia tudo. Havia a mulher que trabalhou, cuidou, lutou, segurou muitas pontas ao mesmo tempo. E havia também as perdas. Algumas chegaram devagar. Outras atravessaram a vida como um vento que abre todas as ...

Alma!

Sabe aquele dia em que acordamos sentindo que falta um pedaço? Pois bem… hoje é um desses dias. Nada aconteceu de especial. A casa está no mesmo lugar, os móveis obedientes ao silêncio, a manhã entrou pela janela como entra todos os dias. Ainda assim, há uma pequena ausência circulando pelo ar, como se alguma coisa tivesse saído durante a noite sem avisar. Não é dor exatamente. É mais como um espaço. Um espaço dentro do peito onde antes havia alguma coisa — talvez uma alegria distraída, talvez uma certeza qualquer, talvez apenas aquela sensação simples de estar inteiro. E então a gente se pergunta: o que será que falta? Será que é um pedaço da alma? Ou, a alma inteira... Mas aí vem outra pergunta, dessas que ninguém responde com segurança: onde fica a alma? Alguns dizem que mora no coração, batendo junto com o sangue, escondida entre as lembranças e os afetos. Outros juram que ela não tem endereço fixo, que anda pelo corpo como um vento leve, passando pelos pensamento...

Essas Mulheres Encantadoras

Naquela terça-feira chovia fino, daquele jeito que não molha direito nem vai embora. O toldo da cafeteria pingava num balde de plástico colocado ali sem muita esperança de resolver o problema. O barulho era ritmado: uma gota, outra, depois duas juntas. Helena estava sentada perto da janela. Não esperava ninguém, mas também não parecia alguém que estivesse sozinha. Havia uma calma estranha no modo como ela segurava a xícara. Não bebia. Apenas deixava o café esfriar enquanto olhava a rua. As pessoas passavam rápido, como quem tem medo de perder alguma coisa que ainda não aconteceu. Helena tinha aprendido a não correr mais atrás de nada. Do outro lado da rua, uma mulher hesitou antes de atravessar. Parecia decidir se entrava ou se continuava caminhando. Acabou entrando. Ela sacudiu o guarda-chuva na porta, pediu um café curto e procurou lugar para sentar. Não havia mesas livres. Exceto a de Helena. — Posso? Helena levantou os olhos como se já soubesse. — Claro. A...