Um Lugar Chamado Nós
Dizem que o amor mora no coração. Nunca acreditei muito nisso. O coração é inquieto. Acelera, desacelera, se assusta, se engana. O amor parece preferir lugares menos barulhentos. Talvez ele more na cadeira que continua voltada para a janela porque ninguém teve coragem de mudá-la de lugar. Na caneca fantasiada de coelhinho que atravessou tantas manhãs que já não combina com a louça nova. Na árvore que alguém plantou sem imaginar que um dia faria sombra para quem viesse depois. Há lugares que não aparecem nos mapas. São feitos de vozes, de esperas, de risos interrompidos pelo cheiro do café, de silêncios que nunca pesaram. Chamam-se "nós". É uma palavra pequena para abrigar tanta coisa. Dentro dela cabem os invernos que enfrentamos de mãos dadas e os verões em que abríamos as janelas antes do amanhecer. Cabem as perdas, porque elas também aprendem o caminho de casa. Cabem as chegadas inesperadas, as despedidas breves, os reencontros que fingem acontecer por ...