Raízes Que Ninguém Vê
“O que a gente viveu, ninguém rouba”. Fica entranhado na pele, nos ossos, no jeito de olhar o mundo. Fica no modo como se segura uma xícara, como se dobra uma camisa, como se chama alguém pelo nome. A morte veio — e veio sem avisar, simplesmente chegou. Levou quem era casa. Levou quem era riso fácil na cozinha, quem sabia o caminho das minhas mãos no escuro, quem dividia o silêncio sem precisar preenchê-lo. Levou o pai dos meus filhos, o homem que me acompanhou na travessia inteira de quase meio século. Levou meu amor. E eu fiquei. Fiquei como árvore em terreno aberto depois da tempestade. A raiz principal arrancada, a terra revolvida, o ar entrando por dentro das fibras. Por alguns dias — ou meses, ou anos, porque o tempo depois da perda não sabe mais se organizar — pensei que tombaria também. Porque era daquela raiz grossa que eu retirava a seiva. Era dela que vinha o sustento invisível, a força silenciosa que me mantinha de pé sem que eu percebesse. Sem ela, o mu...