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Sessão de Terapia

A cadeira era macia demais para quem não queria afundar. Ainda assim, ela se acomodava como quem aceita um acordo silencioso: ficar ali por cinquenta minutos e não fugir de si mesma — pelo menos não completamente. — Pode começar quando quiser — disse a terapeuta, com aquela voz que não empurrava nem puxava, apenas deixava. Ela olhou para as mãos. Sempre começava por elas, como se fossem outro corpo, menos comprometido com o que doía. — Eu não sei exatamente o que dizer. E havia verdade nisso, mas também um cansaço antigo de saber demais e não conseguir organizar nada em palavras. As frases vinham como móveis arrastados dentro da cabeça, fazendo barulho, sem nunca se encaixarem no lugar certo. O relógio na parede não fazia som, mas ela sentia o tempo passando como um líquido lento, espesso, quase visível. Pensou em quantas vezes já tinha estado ali, repetindo versões diferentes da mesma ausência. — Minha casa é silenciosa — disse, por fim. A terapeuta a olhou, incentivando...

La Belle de Jour - A Bela do Dia

Ninguém ali parecia saber exatamente o que aquilo queria dizer, e talvez por isso repetiam. Soava bem na boca, escorria com uma elegância que não exigia explicação. Foi assim que passaram a chamá-la. Ela chegou ao hotel numa tarde que não se comprometia com nada — nem sol, nem chuva, apenas uma claridade suspensa, como se o dia ainda estivesse decidindo se valia a pena acontecer. Trouxe uma mala pequena demais para quem dizia não saber quanto tempo ficaria. Não pediu ajuda. Também não explicou. O recepcionista tentou confirmar a reserva. — Nome? Ela hesitou o tempo de um gesto que quase acontece. — Pode deixar assim — disse, apontando para o livro aberto sobre o balcão, como se o próprio papel resolvesse. E resolveu. Escreveram ali: La belle de jour. O quarto ficava no terceiro andar, de frente para um pátio interno onde nada de fato acontecia, mas tudo parecia estar prestes a acontecer. Havia uma cadeira junto à janela, dessas que convidam o corpo a permanecer mesmo quan...

Nós e os "Outros"

Chamavam de os “outros” com uma naturalidade que não era crueldade, mas também não era cuidado. Era uma palavra que servia para separar, como uma porta entreaberta que nunca se fecha nem se escancara. Do lado de cá, nós — as cuidadoras, as mulheres de uniforme claro, os visitantes ocasionais que vinham mais por curiosidade do que por afeto. Do lado de lá, eles — os “outros” — habitantes de um tempo próprio, onde os dias não tinham as mesmas horas. O lugar tinha cheiro de roupa fervida e sabão de soda. As janelas altas deixavam entrar uma luz filtrada, como se o mundo lá fora precisasse pedir licença antes de atravessar aqueles vidros. Nos corredores, passos ecoavam com um atraso leve, como se cada som demorasse um pouco mais para se decidir a existir. As cuidadoras aprenderam cedo a linguagem do gesto: um toque leve no ombro, uma xícara colocada sempre no mesmo lugar, o cuidado de não corrigir o que não precisava ser corrigido. E, entre uma rotina e outra, havia dias em que os “out...

História de Um Casamento

  No início, eles não tinham propriamente um plano — tinham horários que coincidiam, um certo modo de olhar o mundo e a disposição de não fazer perguntas demais. Foi assim que começaram a dividir pequenas coisas: o caminho até o mercado, a escolha do vinho barato, o silêncio confortável depois do jantar. O apartamento era modesto, mas havia uma janela que pegava o sol da tarde. Ela gostava de deixar as cortinas entreabertas, não por gosto de luz, mas pelo hábito de acompanhar o dia mudando de cor. Ele, mais prático, dizia que aquilo desbotava os móveis. Ainda assim, nunca as fechava completamente. Com o tempo, foram acumulando objetos que não tinham grande valor, mas que ocupavam lugares precisos: uma tigela rachada que ninguém jogava fora, livros lidos pela metade, uma cadeira que rangia sempre no mesmo ponto. A vida deles se organizava nesses detalhes — não no que diziam, mas no que permanecia. Houve uma fase em que riam muito. Não de coisas importantes, mas de distrações: ...

Saudades e Bilhetes Perdidos

Não era falta de alguém. Era a ausência exata dele — com o peso do nome, do jeito, das pequenas manias que não se substituem. Ela descobriu isso aos poucos, enquanto a casa ainda insistia em parecer inteira. No primeiro dia, escreveu um bilhete curto e deixou sobre a mesa da cozinha, preso sob o copo que ele costumava usar. “Voltei mais cedo hoje.” A frase não fazia sentido sozinha, mas fazia sentido para quem conhecia a rotina interrompida. Para quem saberia que, naquele dia, ela tinha inventado um motivo qualquer para não ficar mais tempo fora. No segundo dia, deixou outro, dobrado ao meio, apoiado no braço da poltrona. “Comprei aquele pão que você gosta.” Não comprou. Escreveu como se tivesse. Como se a escrita pudesse antecipar a realidade, ou talvez corrigir o que já não podia ser corrigido. Os bilhetes começaram a se espalhar pela casa com uma disciplina silenciosa. Na beira da pia, ao lado do espelho, entre as páginas de um livro que ele nunca terminou. Ela escre...

A Lente Entre o Mundo e Eu

  Havia sempre algo entre ela e o que via. Não era exatamente um obstáculo, nem proteção — era uma lente. Invisível aos outros, presente demais para que ela pudesse esquecer. No início, pensou que fosse apenas distração. Um jeito próprio de olhar. Mas, com o tempo, percebeu: o mundo chegava até ela já alterado, ligeiramente deslocado do lugar onde todos pareciam encontrá-lo. As cores, por exemplo, nunca eram inteiras. O azul do céu vinha com um cansaço quase imperceptível. O verde das árvores carregava uma sombra que não vinha da luz, mas de dentro. Nada era falso — apenas não era exatamente o que diziam que era. As pessoas também atravessavam essa lente. Um sorriso, quando chegava até ela, já vinha com o eco do que não foi dito. Um gesto simples carregava camadas que ninguém parecia notar. Às vezes, ela invejava a leveza dos outros — a forma como aceitavam o mundo na superfície, sem a necessidade de tocar o fundo de tudo. Mas havia dias em que a lente se tornava mais den...

Na Alegria e na Tristeza

O dia do casamento amanheceu com uma luz quase indecisa, como se o céu também hesitasse diante do que viria. Na igreja, as flores tentavam organizar a beleza, e havia um cuidado excessivo em cada detalhe — o véu alinhado, os bancos ocupados por expectativas, o padre repetindo com serenidade palavras antigas que atravessaram gerações. “Na alegria e na tristeza” não soava como promessa difícil naquele instante; era apenas uma sequência natural de sons, acolhida por quem acredita que o amor, uma vez declarado diante de testemunhas e de Deus, encontra sozinho o caminho de permanecer. Ele a observava como quem tenta guardar uma paisagem antes que a noite caia. Havia nela uma tranquilidade que não parecia ensaiada, um modo de segurar o próprio nome quando o padre o pronunciou, como se já o tivesse dito muitas vezes em silêncio. Quando respondeu “sim”, não houve tremor — e isso, naquele dia, foi tomado como força. A vida, depois, se encarregou de desfazer a ideia de que as promessas camin...