No Reflexo dos Espelhos
Os espelhos daquela casa antiga nunca devolviam exatamente a mesma imagem. Talvez fosse por causa da prata gasta atrás do vidro, talvez pela umidade que subia das paredes nos invernos longos, ou talvez porque certas dores modificassem discretamente o jeito como o rosto repousa sobre os ossos. Havia dias em que Clara passava diante do espelho do corredor e se enxergava quase menina, com os cabelos ainda pesados de juventude e os olhos cheios daquela confiança absurda de quem acredita que o amor é um lugar aonde se chega e permanece. Em outros dias, bastava inclinar um pouco a cabeça para encontrar no reflexo uma mulher cansada, feita de silêncios acumulados e noites dormidas pela metade. Ela nunca comentou isso com ninguém. As pessoas têm medo de quem olha demais para dentro das coisas. O primeiro espelho estava no hall da entrada. Alto, estreito, cercado por madeira escura já rachada nos cantos. Fora presente de casamento. Clara ainda lembrava do caminhão descarregando os móvei...