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Ranhuras do que Permanece

  Nada se repete — nem quando parece. Há uma tendência em tratar as coisas como se voltassem ao lugar exato de antes. Como se houvesse um ponto fixo esperando pacientemente por nós. Não há. O que existe é uma aproximação, às vezes bem feita, às vezes torta, quase sempre silenciosa. O vaso caiu numa manhã qualquer. Não houve dramatização, nem gesto largo. Caiu como caem certas coisas: por um descuido mínimo, uma distração que ninguém consegue nomear depois. O som foi seco, breve, e terminou rápido demais para caber arrependimento. Juntar os cacos não foi difícil. Difícil foi reconhecer cada pedaço como parte de algo que já não existia inteiro. Havia bordas que não encaixavam mais com a precisão de antes, pequenas falhas que exigiam um pouco de insistência, outras que pediam desistência imediata. Nem tudo voltou. Nem tudo quis voltar. Ainda assim, colado, ele permaneceu vaso. Não o mesmo — isso fica evidente quando a luz bate de lado e revela as linhas finas atravessando a ...

Morte Seguida de Breve Alívio

  Não foi um acontecimento, exatamente. Foi mais como quando o vento muda sem avisar — e, de repente, as cortinas deixam de inflar. Naquela casa, havia muito tempo que o ar parecia gasto. Não por falta de janelas, mas por excesso de permanência. Tudo ficava. O cheiro do café da manhã de ontem, a cadeira ligeiramente torta, a marca de um copo esquecido na mesa. Havia também um silêncio antigo, desses que não começam nem terminam — apenas se instalam. Ela caminhava pelos cômodos como quem não quer acordar nada nem ninguém, apesar de viver sozinha. Os objetos já não pediam uso. Apenas existiam. E existir, ali dentro, tinha um peso específico, quase sólido. Era preciso atravessar o ar com cuidado, como se cada gesto pudesse esbarrar em alguma coisa invisível. Às vezes, ela parava no meio do caminho — entre a sala e o corredor — sem lembrar exatamente por que tinha saído de um lugar para chegar ao outro. Não era esquecimento. Era uma espécie de suspensão. Como se o tempo, al...

As Águas de Março e o Que Fica

As águas de março sempre chegam como quem sabe o caminho. Não pedem licença — apenas caem, escorrem, atravessam os dias e vão fechando o verão com uma espécie de despedida bonita, dessas que não fazem barulho, mas deixam tudo diferente. Eu aprendi a olhar para esse tempo como quem abre uma caixa antiga. Não qualquer caixa — uma dessas guardadas com cuidado, onde a gente coloca o que não pode perder. Um porta-joias da vida. Porque março, para mim, não é só chuva. É encontro. É quando percebo, com mais nitidez, quantas vidas caminham junto comigo. Filho. Filha. Amigo. Neta. Irmã. Nomes que não são apenas nomes — são presenças. São pequenos brilhos que, de tão habituais, às vezes a gente esquece de olhar com o devido espanto. E então chove. E é como se cada gota lembrasse: olha bem o que você tem. No meio desse cair manso, quase consigo ouvir — como um fundo antigo de rádio — “É pau, é pedra, é o fim do caminho…” e tudo parece fazer sentido dentro dessa mistura de co...

As Músicas Que Ficaram Sem Ele

Depois que ele morreu, a casa ficou sem som. Não foi decisão. Foi acontecendo. O rádio permaneceu desligado. A televisão muda. Até os ruídos pequenos — o arrastar de uma cadeira, o abrir de uma gaveta — pareciam exagerados dentro daquele espaço. Ela passou a se mover com cuidado, como se qualquer barulho pudesse quebrar alguma coisa que ainda restava. Mas o silêncio cresceu. Entrava pelos cantos, ficava mais tempo do que devia, acompanhava até os gestos mais simples. Havia momentos em que ele parecia maior do que a própria casa. Foi por isso que, um dia, ela ligou o som. Sem escolher muito. Sem procurar uma música específica. Apenas ligou. E deixou. A canção que veio não tinha nada de especial. Era uma dessas que já tinham passado tantas vezes que ninguém mais prestava atenção. Mas ela prestou. Sentou. Ficou. Antes, quando uma música começava, ele parava. Não importava o que estivesse fazendo. Havia um instante em que ele se entregava — inclinava a cabeça,...

O Que é Real..

Às vezes a vida parece simples demais para ser compreendida — e complicada demais para ser explicada. A gente vive cercado de relações. Marido e mulher tentando entender um ao outro depois de anos olhando para o mesmo rosto. Pais e filhos atravessando as mesmas salas da casa, mas muitas vezes falando idiomas diferentes. Irmãos que cresceram sob o mesmo teto e ainda assim guardam lembranças completamente distintas da mesma infância. Amigos que juram conhecer nossas histórias e, mesmo assim, se surpreendem com aquilo que não dissemos. Então surge uma pergunta silenciosa: o que, afinal, é real? Será que o que aconteceu foi exatamente como lembramos? Ou aquilo já passou tantas vezes pelo filtro das emoções que virou outra coisa? A verdade é que cada pessoa carrega uma versão própria do mundo. Um marido lembra da discussão como um mal-entendido pequeno. A esposa lembra da mesma noite como uma ferida aberta. O filho acha que os pais foram duros demais. Os pais pensam que apena...

Aprender a Caber no Inacabado

  Ela não entendia quando diziam que o luto era diferente para cada pessoa. Parecia uma frase pronta, dessas que se dizem para preencher o silêncio quando não há o que dizer. Dor, pensava ela, era dor. Perder era perder. Como poderia caber diferença em algo que rasga do mesmo jeito? No começo, tudo parecia igual para todos: o susto, o corpo que não acredita, o gesto automático de procurar quem já não está. A casa muda de lugar, mesmo sem sair do lugar. Os objetos permanecem, mas perdem a função de antes — viram lembranças pousadas sobre a superfície das coisas. Mas depois… depois o tempo começa a se comportar de maneiras estranhas. Há quem chore todos os dias, como se cada manhã reabrisse a perda. Há quem não chore nunca, como se o corpo tivesse escolhido endurecer para não desmoronar. Há quem fale o nome em voz alta, para manter vivo. E há quem não consiga pronunciá-lo, como se o nome ainda ferisse. Ela começou a perceber que o luto não é uma estrada. É um terren...

Aquilo Que Vive por Dentro

Há dias em que o coração de uma pessoa não é um lugar calmo. É como uma casa onde muitas coisas continuam vivendo ao mesmo tempo. Nenhuma bate à porta. Nenhuma anuncia chegada. Elas simplesmente estão ali. Dentro, lembranças caminham pelos corredores como gente antiga que voltou sem avisar. Uma música esquecida aparece no meio da tarde. O cheiro de café lembra uma cozinha que já não existe mais. Uma frase dita anos atrás retorna inteira, como se tivesse ficado guardada atrás de um móvel. E então alguma coisa começa a se mover. Não é exatamente tristeza. Também não é alegria. É aquilo que vive por dentro. Por fora, nada parece diferente. A pessoa responde mensagens. Arruma a casa. Cumpre pequenas tarefas do dia. Sorri quando alguém conta alguma coisa banal. Mas por dentro pequenas coisas continuam respirando. Uma saudade que não terminou. Um gesto antigo que ainda aquece. Um medo discreto que insiste em permanecer. Um sonho que parecia esquecido, mas que de v...