A Ordem Invisível das Coisas
A casa não estava suja. A bagunça era outra. As gavetas continuavam fechando direito, os pratos ainda ocupavam o mesmo armário, as toalhas dobradas permaneciam alinhadas como soldados cansados cumprindo uma disciplina antiga. Quem olhasse de fora talvez dissesse que ali morava um homem organizado. E morava. Durante muitos anos, Augusto havia aprendido a manter tudo no lugar porque acreditava que a ordem das coisas protegia a vida de desabar. As contas pagas antes do vencimento. As chaves sempre no mesmo gancho. Os domingos reservados para o almoço em família. As palavras escolhidas com cuidado para não ferir ninguém. Só que existem tempestades que não entram pela janela. Elas atravessam gente. E quando atravessam, não derrubam vasos nem arrancam telhados. Desorganizam certezas. Tudo começou a sair do eixo na semana em que Clara foi embora. Não houve gritos, pratos quebrados ou portas batendo. Talvez Augusto tivesse suportado melhor se houvesse violência suficiente para jus...