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Te Querendo Mais e Mais

  Ela disse isso numa terça-feira, enquanto descascava uma laranja. Não havia música tocando, ninguém havia ido embora, nenhuma fotografia sobre a mesa, nenhuma lembrança especialmente bonita naquele instante. Apenas uma laranja. E ela. Com os dedos molhados de sumo, percebeu de repente que ainda queria. Aquilo a surpreendeu. Depois de certa idade, a gente aprende a diminuir o verbo querer. Queremos menos açúcar, menos barulho, menos explicações, menos gente entrando em nossa casa sem avisar. Aprendemos a escolher o restaurante, a cadeira mais confortável, o caminho mais curto. Ela também havia aprendido. Mas naquela manhã alguma coisa dentro dela se recusava a envelhecer no mesmo ritmo do corpo. Queria mais. Não sabia exatamente o quê. Talvez fosse isso que a deixava tão inquieta. Durante anos, imaginara que conhecer a vida era finalmente saber nomear as coisas. Agora descobria o contrário: havia uma liberdade enorme em não saber. Vestiu uma roupa que n...

Tudo Virou Pó

Na manhã em que o mundo virou pó, ninguém tossiu. A poeira não vinha das ruas. Saía das pessoas. A primeira foi uma senhora na fila do banco. Enquanto procurava a identidade, uma lembrança escapou pelo punho da blusa como cinza de cigarro. Ela não percebeu. Foi atendida, agradeceu, voltou para casa um pouco mais leve — não de corpo, mas de infância. À tarde, um menino esqueceu o cheiro do pai. Não o rosto. O cheiro. Aquela mistura de graxa, café e chuva que fazia qualquer abraço parecer abrigo. Quando tentou lembrar, abriu-se um espaço branco. Uma fresta sem nome. No terceiro dia, as cidades ficaram cobertas por uma camada fina de pó acinzentado. Os jornais culparam a seca. Depois as fábricas. Depois algum país distante. Erraram. Era a erosão da memória. Descobriram isso quando um arqueólogo encontrou um vaso romano intacto e, ao tocá-lo, o objeto se desmanchou inteiro. Não porque fosse frágil. Porque ninguém mais se lembrava das mãos que o haviam moldado. Foi então...

A Cada Dia, Uma Parte de Mim Sai à Sua Procura

  Hoje foi pela manhã. Não sei por quê. Talvez tenha sido a luz entrando pela janela do jeito que entrava quando você ainda estava aqui. Talvez o silêncio. Talvez aquele segundo, antes de lembrar, em que a casa pareceu a mesma. Fui até a cozinha e, por um instante, esperei ouvir o barulho da sua xícara sendo colocada sobre a mesa. Não ouvi. Fiquei ali, parada, olhando para uma coisa qualquer sobre a bancada, como quem esqueceu o que ia fazer. Depois ri de mim mesma. Uma risada pequena, sem graça. É assim agora. Você aparece onde não deveria. No cheiro de café. Numa camisa que não uso mais, mas também não consigo guardar. Numa música que eu poderia evitar e, mesmo assim, escuto até o fim. Aparece na maneira como alguém pronuncia uma palavra, num comentário que eu sei exatamente o que você diria. Outro dia, procurando uma chave, encontrei um papel seu dentro de uma gaveta. Não havia nada de importante escrito nele. Uma anotação qualquer, dessas que a gente faz sem i...

Me Leva Com Você

— Me leve com você. Ela disse quase sem voz, como se as palavras pudessem convencê-lo a ficar ou, quem sabe, abrir uma fresta por onde pudesse passar junto. Ele sorriu. Não era um sorriso de despedida. Era pior. Era aquele sorriso de quem já sabia que não havia argumento capaz de mudar o destino. Ela queria ir. Queria largar a casa, as gavetas cheias de coisas que já não usava, as fotografias, os compromissos, os nomes, as pequenas obrigações que foram se acumulando ao longo dos anos. Queria atravessar a porta com ele e descobrir o que existia depois dela. Mas precisava ficar. Ainda havia gente que precisava dela. Havia uma filha que ligaria amanhã. Havia netos que chegariam sem avisar e ocupariam a casa com vozes. Havia livros pela metade, plantas esperando água, uma história que ainda não tinha terminado de escrever. E havia a vida. Essa teimosa. A vida que, durante tantos anos, pareceu ter dois caminhos. A gente vai. Se não dá certo, volta. Vai para longe, ...

Leve Como Um Anjo

Quando um anjo abre as asas, o peso deixa de ser uma medida. Nas alturas, até aquilo que na terra parece impossível de carregar encontra um jeito de flutuar. As nuvens não perguntam quanto pesa um corpo. Apenas o recebem. Alguns amores comecem assim. Sem gravidade. A gente entra neles como quem sobe devagar para um lugar onde as coisas parecem mais fáceis. O outro chega sem fazer barulho e, de repente, há uma mão que encontra a nossa, uma voz que parece conhecer o caminho, uma presença que torna o mundo menos áspero. Sissa e Paulo tiveram esse começo. Durante algum tempo, viveram como se o chão estivesse muito distante. Havia domingos compridos, café tomado sem pressa, pequenas viagens, risadas no carro, planos escritos em guardanapos. Havia também os silêncios, mas eram silêncios confortáveis, desses que não exigem explicação. Ela achava bonito quando ele dormia. Ele gostava de vê-la escrevendo. Penso que o amor seja feito também dessas coisas que ninguém conta: a ...

Depois da Ceia

Depois da ceia, quando todos já tinham ido embora e a casa finalmente ficou em silêncio, Clara percebeu uma coisa estranha: a mesa continuava posta. Não havia pratos sujos, nem copos pela metade, nem farelos de pão sobre a toalha. Tudo permanecia exatamente como estava antes da primeira taça ser servida. Até as velas continuavam acesas, com suas pequenas chamas imóveis, como se o tempo tivesse esquecido de passar naquela sala. Clara se aproximou da janela. Do lado de fora, a rua havia desaparecido. No lugar das casas, dos postes e dos carros estacionados, havia um campo imenso, coberto por uma espécie de grama azulada que brilhava sob uma lua enorme. Árvores muito altas se moviam sem vento. E, ao longe, pequenas luzes passeavam pelo céu como se alguém tivesse soltado milhares de lanternas. Ela abriu a porta. Não sentiu frio. Nem medo. Apenas uma vontade inexplicável de continuar andando. O campo terminava diante de uma cidade que não tinha ruas. As pessoas caminhava...

O Filme Que Não Terminamos

A noite do dia 18 aconteceu como tantas outras fizemos nossa rotina, deitamos e, quase sem perceber, procuramos nossas mãos. Era assim que terminávamos os dias: encontrando um ao outro no escuro, como quem precisava confirmar que ainda estávamos ali. Assistimos a um filme que não terminamos. Um drama familiar, desses que misturam histórias, conflitos, afetos e pequenas tragédias. Algumas coisas nos pareciam tão conhecidas que comentávamos. Às vezes concordávamos, outras nem tanto. E estava tudo bem. Até nossas discordâncias faziam parte da intimidade que construímos. Nossas noites eram gostosas. Dormíamos agarrados. Às vezes eu te procurava durante a madrugada; outras, eras tu que me puxavas para perto. Havia uma espécie de conversa silenciosa entre nossos corpos, uma linguagem que quase cinquenta anos juntos haviam inventado sem que precisássemos aprender. O filme ficou pela metade. Não havia problema. Teríamos a noite do dia 19 para terminar. Amanhã, pensávamos. Sempre existe...