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Quando a Desculpa é o Tempo...

Vivemos dizendo que o tempo está curto. Que o dia precisava ter mais horas. Que a semana voou. O tempo acabou virando o responsável por quase tudo o que deixamos de fazer. "Não tive tempo de ligar." "Não consegui passar aí." "Depois eu faço." Essas frases saem da boca com tanta facilidade que já nem pensamos no que realmente significam. É verdade que a vida exige muito. Trabalho, contas, compromissos, preocupações. Há dias em que mal conseguimos respirar entre uma tarefa e outra. Mas existe uma diferença entre não poder e não escolher. Todos recebemos as mesmas vinte e quatro horas. O que muda é a importância que damos às coisas. Encontramos tempo para o que realmente ocupa um lugar na nossa vida. Para uma série de televisão, para as redes sociais, para resolver assuntos que julgamos urgentes. Enquanto isso, uma ligação fica para amanhã. A visita aos pais espera o próximo fim de semana. O café prometido a um amigo vai sendo adiado de mês em...

A Vida Passou Por Aqui

Rosa encontrou a caixa quando procurava outra coisa. Era uma daquelas caixas de papelão reforçado que sobrevivem a mudanças, reformas, nascimentos, despedidas. Na tampa, escrito com uma caneta já desbotada, apenas duas palavras: Rosa e Edmundo. Sorriu sem perceber. Sentou-se no chão da sala e abriu. Em cima de tudo havia um mapa de estrada dobrado tantas vezes que já não obedecia às mãos. Depois vieram recibos de hotéis simples, ingressos de cinema, uma concha trazida de uma praia qualquer, um guardanapo com o nome de um restaurante onde haviam prometido voltar. Nunca voltaram. Também apareceu uma fotografia em que os dois riam de alguma coisa que ninguém mais seria capaz de explicar. Não era uma pose bonita. Ela estava com os cabelos bagunçados pelo vento. Ele tinha os olhos quase fechados de tanto rir. Era justamente por isso que era bonita. Rosa foi colocando cada lembrança sobre o tapete. Ali estava a vida. Não os grandes acontecimentos que costumam aparecer nos...

Isso Também Passará

Helena tinha vinte e poucos anos quando ganhou um pequeno medalhão de prata. Foi presente de uma tia muito querida, dessas mulheres que falam pouco, mas parecem enxergar um pouco mais longe que os outros. De um lado, a prata era lisa. Do outro, havia apenas três palavras gravadas: Isso também passará. — Não é um enfeite — disse a tia, ao prendê-lo em um cordão. — É para os dias em que você esquecer que o tempo nunca para. Helena sorriu, sem dar muita importância. Achou a frase bonita, embora um tanto enigmática. Colocou o cordão no pescoço e saiu para viver, como fazem os jovens quando acreditam que o futuro será sempre generoso. Os anos passaram. O medalhão estava ali no dia do casamento. Estava ali quando nasceu a primeira filha, entre o medo e o espanto de descobrir que um coração podia bater fora do próprio corpo. Aparecia, discreto, em algumas fotografias de férias, escondido sob um lenço ou refletindo um raio de sol. Às vezes Helena o segurava entre os dedos. Lia ...

A Janela Aberta

Dizem que a vida gosta de surpreender. Eu, durante muito tempo, achei que isso fosse apenas uma frase bonita para confortar quem perdera o rumo. Depois descobri que era exatamente o contrário: a vida não avisa porque não precisa. Ela simplesmente acontece. Todas as manhãs, Helena abria a janela antes mesmo do café. Não esperava ninguém. Não havia cartas, visitas nem telefonemas. Ainda assim, olhava a rua como quem aguarda uma notícia capaz de mudar tudo. Os vizinhos imaginavam que ela vivia presa ao passado. Não sabiam que ela apenas aprendera a respeitar o futuro. Depois da morte do marido, quase cinquenta anos de casamento haviam se transformado em fotografias, receitas escritas à mão e uma cadeira vazia diante da mesa. A casa continuava inteira, mas o silêncio ocupava mais espaço do que os móveis. Ainda assim, Helena recusava-se a fechar a porta para a vida. Plantava flores novas a cada primavera. Lia livros de autores desconhecidos. Fazia caminhos diferentes para voltar...

Era Pra Ser Assim...

No armário da cozinha havia uma gaveta que nunca fechava direito. Ceci prometia arrumá-la todos os anos. Tirava algumas coisas, organizava outras, mas bastava uma semana para a bagunça voltar. Elásticos sem par, pilhas gastas, chaves de portas que já nem existiam, receitas amareladas, uma fita métrica quebrada. Naquela tarde de chuva, resolveu esvaziá-la completamente. Foi espalhando tudo sobre a mesa e estranhou a quantidade de objetos que um dia tinham sido importantes. Guardara quase tudo pensando que ainda serviria para alguma coisa. A vida fazia o mesmo. Mantinha culpas antigas, planos vencidos, promessas que já não combinavam com a mulher que havia se tornado. Conservava sonhos pelo simples hábito de não jogá-los fora. A gaveta ficou vazia pela primeira vez em muitos anos. Ela passou um pano no fundo de madeira, fechou-a devagar e sorriu ao notar que deslizava sem esforço. Não havia acontecido nada extraordinário. A chuva continuava caindo. O café ainda estava m...

Os Cinquenta Tons de Cinza de Dona Catarina

  Dona Catarina nunca tinha lido o famoso livro dos cinquenta tons de cinza. Na verdade, nem sabia exatamente do que se tratava. Quando as amigas comentavam sobre a história, ela apenas sorria e fingia entender. — Deve ser sobre decoração... — pensava. — Cinza combina com tudo. Mas um dia, aos sessenta e sete, aconteceu uma coisa que ela julgava impossível: apaixonou-se. Não foi por um galã de novela. Nem por um milionário elegante. Nem por um poeta de cabelos brancos olhando o pôr do sol. Apaixonou-se por seu Anselmo, um senhor de setenta e oito anos que frequentava a mesma praça onde ela alimentava os pombos todas as tardes. Ele tinha uma barriga respeitável, um joelho que estalava ao sentar e um aparelho auditivo que insistia em falhar nos momentos mais importantes. Foi amor mesmo assim. Ou talvez justamente por isso. No começo, Catarina tentou resistir. Achava ridículo. Apaixonar-se naquela idade parecia uma travessura que a vida não deveria permit...

Como é o Cheiro Daí..

  Ela nunca acreditou que a memória morasse apenas nas fotografias. As fotografias guardavam rostos, roupas, lugares. Mas havia lembranças que escolhiam outros endereços. Os cheiros, por exemplo. Bastava passar por alguém usando um perfume parecido para que   uma tarde inteira voltasse no tempo. O banco de uma praça. Um casaco esquecido sobre a cadeira. Um abraço dado às pressas porque havia um trem para pegar, um voo, uma vida chamando. Foi numa dessas tardes comuns que a música tocou baixinho no rádio. "Como é o cheiro daí? O seu eu não esqueci." Ela sorriu antes mesmo de perceber que os olhos estavam úmidos. Nunca tinha pensado que a saudade pudesse ter cheiro. Sempre imaginara que ela morasse nas palavras, nas fotografias amareladas, nas cartas guardadas dentro de livros. Mas não. A saudade era mais esperta. Escondia-se onde ninguém conseguia prender. No travesseiro recém-trocado. Na camisa esquecida atrás da porta. No café passado bem cedo. Na terra...