A Mulher que Colecionava Amanhãs
Quando perguntavam por que guardava tantas coisas, Clara respondia sem pensar: — Um dia ainda vou precisar. A frase servia para um vestido comprado e nunca usado, para uma caixa de botões herdada da mãe, para um livro com páginas amareladas e para uma xícara rachada que já não combinava com nenhuma outra. Quem entrava em sua casa tinha a impressão de que tudo estava em ordem. As estantes eram limpas, os armários fechavam sem esforço, as cortinas deixavam a luz entrar na medida certa. Nada parecia excesso. Mas cada objeto ocupava um lugar reservado para um amanhã. Havia o caderno onde escreveria suas memórias quando tivesse tempo. A máquina de costura que voltaria a funcionar depois da aposentadoria. O mapa da Patagônia comprado numa livraria de aeroporto, dobrado com cuidado havia mais de dez anos. Um par de botas para as caminhadas que começariam assim que o joelho melhorasse. Fotografias ainda sem moldura porque, mais adiante, reformaria a sala. Clara nunca dizia "nu...