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Meu Melhor "Namorado"

  Ele foi meu melhor namorado. Não o mais intenso, não o mais difícil, não o mais inesquecível no sentido exagerado da palavra. O melhor. Com ele, as coisas não precisavam de legenda. O silêncio não era vazio, o riso não era esforço, o cotidiano não era espera. Havia uma naturalidade rara, dessas que a gente só percebe depois, quando já passou. Eu fui sempre sua. Não por promessa, nem por medo de perder. Fui porque era simples ficar. Porque não havia disputa, nem dúvida, nem ensaio. Era presença sem vigilância. No passado, antes dele, houve outros, namoro e paixões “avassaladoras” da adolescência... Claro que houve. Mas quando penso neles agora, é como lembrar de sabores que não ficaram. Tinham gosto de nada — ou quase nada. Um amargor rápido, um azedo educado. Limão com gengibre: acorda a boca, mas não alimenta. Não sustenta. Não fica. Ele, não. Ele tinha gosto de coisa que se reconhece sem precisar nomear. Algo que não cansa o paladar, que não pede correção, que não p...

Mabel Na Cidade dos Sussurros

  A cidade não tinha nome nos mapas. Chamavam-na de Cidade dos Sussurros porque ninguém ali falava alto — as palavras eram ditas como quem sopra sobre a água para não formar ondas. Mabel chegou numa manhã fria, com uma mala pequena e um medo grande. Não sabia exatamente o que procurava, mas sabia o que havia perdido. E às vezes isso basta para que os pés escolham um caminho. As ruas eram estreitas, as janelas altas, e das frestas escapavam murmúrios. Não eram vozes claras. Eram quase lembranças. Um “fica”, um “volta”, um “ainda estou aqui”. Mabel parava diante das portas como se pudesse reconhecer, entre tantos sussurros, aquele que lhe pertencia. Desde pequena, Mabel aprendera a escutar o que os outros não ouviam. No orfanato onde cresceu — um prédio antigo que respirava à noite — ela distinguia o ranger das tábuas do suspiro do vento. E sabia quando o silêncio estava pesado demais para ser apenas silêncio. Na Cidade dos Sussurros, o silêncio era uma língua. No primeiro ...

Desassossego

O desassossego não chega fazendo estardalhaço. Ele se instala como um copo fora do lugar na pia. Como uma cadeira levemente torta na sala. Como um silêncio que respira mais alto do que deveria. A gente acorda e ele já está sentado à beira da cama, olhando. Não diz nada. Mas pesa. Tem dias em que o desassossego é quase elegante — uma inquietação fina, que nos faz rearrumar livros, trocar móveis de lugar, abrir janelas antes do café. Nesses dias, ele parece motor. Move. Empurra. Sussurra que ainda há algo por fazer, por escrever, por amar. Mas há dias em que ele é pedra. Nesses dias, tudo parece fora de eixo. O corpo anda, mas por dentro algo não acompanha. As conversas acontecem, mas chegam com atraso. A cidade segue seu ritmo — ônibus, mercados, gente comprando pão — e nós, levemente desalinhados, como se estivéssemos vivendo meio centímetro ao lado da própria vida. O desassossego não gosta de multidão. Ele prefere o entardecer. Gosta da hora em que a luz enfraquece e as som...

Raízes Que Ninguém Vê

  “O que a gente viveu, ninguém rouba”. Fica entranhado na pele, nos ossos, no jeito de olhar o mundo. Fica no modo como se segura uma xícara, como se dobra uma camisa, como se chama alguém pelo nome. A morte veio — e veio sem avisar, simplesmente chegou. Levou quem era casa. Levou quem era riso fácil na cozinha, quem sabia o caminho das minhas mãos no escuro, quem dividia o silêncio sem precisar preenchê-lo. Levou o pai dos meus filhos, o homem que me acompanhou na travessia inteira de quase meio século. Levou meu amor. E eu fiquei. Fiquei como árvore em terreno aberto depois da tempestade. A raiz principal arrancada, a terra revolvida, o ar entrando por dentro das fibras. Por alguns dias — ou meses, ou anos, porque o tempo depois da perda não sabe mais se organizar — pensei que tombaria também. Porque era daquela raiz grossa que eu retirava a seiva. Era dela que vinha o sustento invisível, a força silenciosa que me mantinha de pé sem que eu percebesse. Sem ela, o mu...

O Tempo Não Cura Tudo

Dizem que o tempo cura. Dizem com a tranquilidade de quem nunca precisou aprender a conviver com uma ausência sentada à mesa. O tempo, na verdade, não cura. Ele apenas ensina onde dói menos tocar. No começo, a dor é um quarto sem portas. Tudo ecoa. O barulho do mundo entra como se fosse o dono de tudo, sem nem mesmo pedir licença: risos alheios, músicas que não combinam, manhãs claras demais. O tempo passa por ali como um visitante constrangido — não arruma nada, só observa. Depois, algo muda. Não melhora. Muda. A ferida continua ali, mas cria crostas frágeis. A gente aprende a caminhar desviando. Aprende que certos dias pedem silêncio, que certas lembranças exigem cadeira e água doce por perto. Aprende a reconhecer o cheiro da saudade antes que ela chegue — como quem sente chuva antes do primeiro trovão. O tempo não apaga o que foi. Ele não apaga nomes, nem vozes, nem o jeito exato de alguém dizer nosso nome quando estava feliz ou cansado. O tempo apenas torna possível respira...

Depois da Ferida

A ferida “apareceu” num dia comum, exatamente como todos. Daquelas que não prometem nada e cumprem o que prometem. Olga estava na cozinha quando sentiu que alguma coisa tinha saído do lugar. Não foi uma dor que se aponta com o dedo, não foi um susto. Foi um vazio repentino — como quando a luz apaga e a gente demora alguns segundos para entender que não é noite. O telefone ainda estava na mão. Do outro lado, a voz já tinha parado de falar. Ela desligou sem perceber e se sentou. Ficou olhando para a mesa como se ali estivesse escondida a parte que faltava do mundo. O copo com água tinha marcas de dedos. A toalha tinha uma dobra torta. O relógio, na parede, seguia no mesmo som de sempre, e isso era quase ofensivo. Nos dias seguintes, Olga fez o que precisava ser feito. Banho, roupa, rua, compras, respostas curtas. Dizia “tudo bem” com a mesma boca que não acreditava. Existia um atraso dentro dela, como se a vida estivesse sempre dois passos à frente. As pessoas falavam, as buzina...

Qualquer Domingo a Gente se Vê

Ela disse, quase distraída, como quem marca algo que já existe: — Qualquer domingo a gente se vê. Não escolheu data. Domingo é esse dia frouxo, sem compromisso com o tempo, onde tudo pode acontecer ou não. Ele concordou com a cabeça, mas por dentro guardou o domingo como se guarda um endereço escrito a lápis. Ela chegou sem pressa. Domingo não cobra horário. O mundo parecia suspenso: lojas fechadas, ruas vazias, o sino distante marcando horas que não diziam mais   nada. Ela atravessou a praça como quem atravessa um limiar — não havia pressa porque não havia retorno. Ele já estava lá. Sentado no banco de sempre, embora ela nunca tivesse visto aquele banco antes. Havia folhas secas ao redor, mesmo não sendo outono. Algumas coisas envelhecem fora do calendário. Ele não sorriu. Esperar altera algumas coisas que não voltam para o lugar. Ela   sentou ao lado dele, e por um instante achou que não estava totalmente ali. Como se seus pés tocassem o chão, mas o resto flutua...