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A Cada Dia, Uma Parte de Mim Sai à Sua Procura

  Hoje foi pela manhã. Não sei por quê. Talvez tenha sido a luz entrando pela janela do jeito que entrava quando você ainda estava aqui. Talvez o silêncio. Talvez aquele segundo, antes de lembrar, em que a casa pareceu a mesma. Fui até a cozinha e, por um instante, esperei ouvir o barulho da sua xícara sendo colocada sobre a mesa. Não ouvi. Fiquei ali, parada, olhando para uma coisa qualquer sobre a bancada, como quem esqueceu o que ia fazer. Depois ri de mim mesma. Uma risada pequena, sem graça. É assim agora. Você aparece onde não deveria. No cheiro de café. Numa camisa que não uso mais, mas também não consigo guardar. Numa música que eu poderia evitar e, mesmo assim, escuto até o fim. Aparece na maneira como alguém pronuncia uma palavra, num comentário que eu sei exatamente o que você diria. Outro dia, procurando uma chave, encontrei um papel seu dentro de uma gaveta. Não havia nada de importante escrito nele. Uma anotação qualquer, dessas que a gente faz sem i...

Me Leva Com Você

— Me leve com você. Ela disse quase sem voz, como se as palavras pudessem convencê-lo a ficar ou, quem sabe, abrir uma fresta por onde pudesse passar junto. Ele sorriu. Não era um sorriso de despedida. Era pior. Era aquele sorriso de quem já sabia que não havia argumento capaz de mudar o destino. Ela queria ir. Queria largar a casa, as gavetas cheias de coisas que já não usava, as fotografias, os compromissos, os nomes, as pequenas obrigações que foram se acumulando ao longo dos anos. Queria atravessar a porta com ele e descobrir o que existia depois dela. Mas precisava ficar. Ainda havia gente que precisava dela. Havia uma filha que ligaria amanhã. Havia netos que chegariam sem avisar e ocupariam a casa com vozes. Havia livros pela metade, plantas esperando água, uma história que ainda não tinha terminado de escrever. E havia a vida. Essa teimosa. A vida que, durante tantos anos, pareceu ter dois caminhos. A gente vai. Se não dá certo, volta. Vai para longe, ...

Leve Como Um Anjo

Quando um anjo abre as asas, o peso deixa de ser uma medida. Nas alturas, até aquilo que na terra parece impossível de carregar encontra um jeito de flutuar. As nuvens não perguntam quanto pesa um corpo. Apenas o recebem. Alguns amores comecem assim. Sem gravidade. A gente entra neles como quem sobe devagar para um lugar onde as coisas parecem mais fáceis. O outro chega sem fazer barulho e, de repente, há uma mão que encontra a nossa, uma voz que parece conhecer o caminho, uma presença que torna o mundo menos áspero. Sissa e Paulo tiveram esse começo. Durante algum tempo, viveram como se o chão estivesse muito distante. Havia domingos compridos, café tomado sem pressa, pequenas viagens, risadas no carro, planos escritos em guardanapos. Havia também os silêncios, mas eram silêncios confortáveis, desses que não exigem explicação. Ela achava bonito quando ele dormia. Ele gostava de vê-la escrevendo. Penso que o amor seja feito também dessas coisas que ninguém conta: a ...

Depois da Ceia

Depois da ceia, quando todos já tinham ido embora e a casa finalmente ficou em silêncio, Clara percebeu uma coisa estranha: a mesa continuava posta. Não havia pratos sujos, nem copos pela metade, nem farelos de pão sobre a toalha. Tudo permanecia exatamente como estava antes da primeira taça ser servida. Até as velas continuavam acesas, com suas pequenas chamas imóveis, como se o tempo tivesse esquecido de passar naquela sala. Clara se aproximou da janela. Do lado de fora, a rua havia desaparecido. No lugar das casas, dos postes e dos carros estacionados, havia um campo imenso, coberto por uma espécie de grama azulada que brilhava sob uma lua enorme. Árvores muito altas se moviam sem vento. E, ao longe, pequenas luzes passeavam pelo céu como se alguém tivesse soltado milhares de lanternas. Ela abriu a porta. Não sentiu frio. Nem medo. Apenas uma vontade inexplicável de continuar andando. O campo terminava diante de uma cidade que não tinha ruas. As pessoas caminhava...

O Filme Que Não Terminamos

A noite do dia 18 aconteceu como tantas outras fizemos nossa rotina, deitamos e, quase sem perceber, procuramos nossas mãos. Era assim que terminávamos os dias: encontrando um ao outro no escuro, como quem precisava confirmar que ainda estávamos ali. Assistimos a um filme que não terminamos. Um drama familiar, desses que misturam histórias, conflitos, afetos e pequenas tragédias. Algumas coisas nos pareciam tão conhecidas que comentávamos. Às vezes concordávamos, outras nem tanto. E estava tudo bem. Até nossas discordâncias faziam parte da intimidade que construímos. Nossas noites eram gostosas. Dormíamos agarrados. Às vezes eu te procurava durante a madrugada; outras, eras tu que me puxavas para perto. Havia uma espécie de conversa silenciosa entre nossos corpos, uma linguagem que quase cinquenta anos juntos haviam inventado sem que precisássemos aprender. O filme ficou pela metade. Não havia problema. Teríamos a noite do dia 19 para terminar. Amanhã, pensávamos. Sempre existe...

Metamorfose

Essa metamorfose ambulante que me tornei desde que você partiu quando, ora sou inteira, dona dos meus passos e das minhas escolhas, ora sou a sua metade que ficou, aquela parte de mim que ainda se movimenta pelo mundo carregando a marca de uma vida que foi nossa. Não é uma coisa simples. Há momentos em que me sinto inteira de verdade. Faço o que preciso fazer, converso, rio, encontro graça nas coisas, sigo a vida com a naturalidade de quem sabe que é preciso continuar. E há outros em que basta uma lembrança atravessar o pensamento para que tudo mude de lugar. A ausência não chega sempre como tristeza. Às vezes chega disfarçada de rotina. Está na cadeira que ninguém ocupa, numa música que eu não esperava ouvir, numa frase que você certamente teria comentado. Está em pequenos detalhes que ninguém mais percebe, mas que para mim ainda têm o seu nome. E eu sigo sendo essa mulher de muitas versões. A que aprendeu a resolver a própria vida e a que, de vez em quando, ainda procura você...

Quando o Amor Traz Dor

Amor também estraga. Essa frase parece quase uma heresia, porque nos ensinaram a falar do amor como quem fala de uma coisa sagrada. Como se amar fosse sempre bonito, generoso, redentor. Não é. Às vezes, amar é uma péssima ideia. A gente entrega a alguém o lugar exato onde pode ser ferido. E ainda chama isso de confiança. Foi assim com ela. Durante muito tempo, acreditou que o pior do amor era perdê-lo. Depois descobriu que não. O pior podia ser continuar amando alguém que já não estava ali para receber aquilo. Era uma espécie de desperdício. Amor sobrando dentro de uma pessoa. Ela tinha raiva disso. Raiva das músicas que insistiam em transformar ausência em poesia. Raiva das fotografias. Raiva das lembranças que chegavam sem serem convidadas e ocupavam a mesa, a cama, o domingo. Até das coisas boas ela tinha raiva. Porque tudo podia virar prova de que aquilo existira. E existira. Esse era o problema. Não havia como apagar uma história apenas porque ela ter...