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O Coração Que Não Queria Sentir

  Havia um coração cansado de sentir. Não era tristeza. Tristeza ele conhecia bem. Também conhecia a saudade, o medo, a espera, aquelas pequenas alegrias que chegam nem mais nem menos, e vão embora antes que a gente consiga segurá-las. O problema era outro. Ele estava farto de sentir tudo. Um dia, resolveu se esconder. Não dentro do peito, porque ali seria fácil demais encontrá-lo. Escondeu-se atrás de uma costela, num lugar estreito e escuro onde nem o próprio dono costumava prestar atenção. Ali ficou. Parou de responder às lembranças. Quando alguém dizia um nome conhecido, ele permanecia quieto. Quando uma música antiga atravessava a casa, não acelerava. Quando uma mão procurava outra no meio da noite, ele não fazia nada. Era quase confortável. Quase. Com o passar dos dias, o corpo percebeu que alguma coisa estava errada. Caminhava, comia, conversava, dormia. Fazia tudo o que se esperava de uma pessoa. Mas havia um vazio estranho entre uma coisa e outr...

O Vento Que Ficou

Ele chegou como uma rajada de vento. Eu estava em um lugar qualquer, entre pessoas que não conhecia direito, quando ele apareceu. Não houve anúncio, nem aquela cena bonita que às vezes inventamos depois que uma história dá certo. Ele simplesmente chegou. Falava com alguém, ria, gesticulava. De vez em quando olhava para o meu lado. Eu também olhei. Naquele dia, não aconteceu nada de extraordinário. Conversamos pouco. Eu nem lembro direito sobre o que. Lembro que, quando fui embora, pensei nele. No dia seguinte, ele apareceu de novo. Depois, encontramos um motivo para conversar. E outro. E outro. Aos poucos, os encontros foram ficando mais frequentes. Um café depois do trabalho. Um jantar que deveria ser rápido e terminava tarde. Uma caminhada sem destino. Um telefonema que começava com uma pergunta qualquer e, quando percebíamos, já tinha passado uma hora. Eu gostava de ouvi-lo falar. Ele tinha um jeito próprio de contar as coisas. Às vezes exagerava, às ve...

A Mágica das Mãos

Acho que uma das partes mais bonitas do corpo humano são as mãos. Talvez eu ache isso porque as minhas nunca foram bonitas. São grandes, finas, compridas. “Mãos de gringa”, dizia minha mãe. Nunca consegui ter aquelas unhas longas, bem-feitas, pintadas de vermelho, vinho, azul, essas cores que deixam as mãos tão femininas. As minhas unhas quase sempre foram cor de unha mesmo. E eu nunca tive muita paciência para transformá-las em outra coisa. Mas gosto de olhar para as mãos. Gosto de reparar nelas. Há alguma coisa de mágico naquele conjunto de dedos que se movimenta e, sem dizer uma palavra, consegue conversar. As mãos inventaram uma espécie de idioma que não precisa de tradução. Um aceno pode dizer “oi”, “tchau”, “vem”, “vai embora”. Um polegar levantado pode significar que está tudo bem. Dois dedos podem formar um V, e dependendo do lugar, da época e da intenção, aquilo pode dizer coisas diferentes. Uma mão sobre o peito pode agradecer. Duas mãos juntas podem pedir...

Rosa e Espinho

Dizem que uma roseira sabe mais da vida do que muita gente. Ela nasce pequena, quase sem chamar atenção. Depois cresce. Um galho. Dois. E começam a aparecer os espinhos. Ninguém conta quantos são. Eles simplesmente estão lá. Há épocas em que a roseira parece esquecer das flores. Só espinhos. Espinhos nos galhos, entre as folhas, escondidos onde a mão não espera. São os dias difíceis. Os dias de perda. De medo. De espera. De silêncio. Depois, sem aviso, aparece uma rosa. Uma. Depois outra. E mais uma. E a gente se aproxima devagar, porque já sabe dos espinhos. Mas a rosa está ali. Vermelha. Aberta. Inteira. Há anos em que a roseira fica carregada de flores. A vida também. Amores que chegam. Filhos que crescem. Netos. Amizades. Uma casa cheia. Uma viagem esperada. Uma notícia boa. Um café tomado sem pressa. Há outros anos em que quase não há rosas. E os espinhos parecem ocupar tudo. Mas eles não duram para sempre...

Quase Feliz

Há lugares em que a gente percebe que está em outro país antes mesmo de sair do aeroporto. Na Suíça, a organização chama atenção. Não sei dizer exatamente o que é. Talvez o silêncio. Talvez o jeito tranquilo de as pessoas se movimentarem, sem aquela pressa que parece fazer parte dos aeroportos. Pessoas elegantes passam com suas malas e mochilas, numa finesse que dá gosto de ver. Não vou comparar com outros lugares. Nem precisa. Depois vem o saguão de saída. E logo ali, o trem. Um trem de primeira. Silencioso, cheiroso, confortável. As pessoas falam baixo. Algumas olham o celular, outras conversam, outras simplesmente ficam olhando pela janela. E há nos rostos uma espécie de leveza. Pode ser impressão minha. Mas parecem felizes. O fim de semana está chegando. O sol também. Os últimos dias de um possível veranico se anunciam por aqui e, pelo jeito, vai dar praia. Eu gosto dessas pequenas promessas do tempo. Chego em casa e volto a respirar feliz. Quase feliz. ...

Nossas Sombras

Todos nós temos sombras. Algumas nasceram de coisas que vivemos. Outras, de coisas que não conseguimos viver. Há as que vieram de uma perda, de uma despedida, de uma palavra que ouvimos quando ainda éramos pequenos e nunca esquecemos. E há aquelas que nós mesmos criamos. Escondemos o medo porque precisamos parecer fortes. Escondemos a tristeza porque não queremos preocupar ninguém. Escondemos a raiva, o ciúme, a culpa, a saudade. Guardamos desejos que julgamos inadequados e sentimentos que não combinam com a pessoa que acreditamos precisar ser. Vamos escondendo. Uma coisa sobre a outra. Até que tudo isso começa a formar uma sombra. Ela não aparece de imediato. Vai crescendo nos cantos, silenciosamente. Às vezes se manifesta numa irritação que não entendemos, numa tristeza que chega sem convite, numa vontade inexplicável de fugir de um lugar, de uma pessoa ou até de nós mesmos. E seguimos escondendo. Porque é mais fácil dizer que estamos bem do que admitir que algu...

A Lista das Criaturas

Um dia aprendemos que a vida tem três movimentos. Nascer. Viver. Morrer. Aprendemos isso tão cedo que parece uma informação simples, dessas que cabem numa frase de livro escolar. Mas, quando crescemos, descobrimos que não é uma regra feita para nós. É para tudo que vive. Uma árvore nasce de uma semente, cresce, enfrenta o sol, a chuva, o frio, produz flores ou frutos e, um dia, deixa de existir. Um pássaro nasce, aprende a voar, procura alimento, encontra outro pássaro, constrói um ninho. Vive o tempo que lhe foi dado. Uma formiga passa a vida inteira carregando coisas que, para nós, parecem insignificantes. Um cachorro envelhece ao nosso lado. Uma flor abre pela manhã e pode não estar mais ali alguns dias depois. E nós também. A diferença é que recebemos uma coisa que nenhum de nós sabe muito bem o que fazer com ela: a capacidade de pensar sobre tudo isso. Pensamos sobre a vida enquanto estamos vivos. Pensamos sobre a morte enquanto ela ainda não chegou. Guardamo...