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Quando és Tua Própria Salvação

  Naquela manhã, ela acordou antes do despertador. Ficou alguns minutos olhando para o teto, sem vontade de levantar e sem conseguir voltar a dormir. A casa estava silenciosa. Na cozinha, havia uma xícara esquecida na pia desde a noite anterior e, sobre a mesa, um papel com duas coisas escritas: pagar a conta de luz e ligar para o banco. Era pouco. Naquele momento, parecia muito. Levantou devagar, abriu a janela e deixou entrar o ar frio da manhã. Fez café para uma pessoa. Durante anos, tinha feito café para duas. Ainda demorava alguns segundos para lembrar que não precisava mais colocar a segunda xícara. Sentou-se à mesa. O telefone tocou. Ela olhou, mas não atendeu. Sabia quem era. Sabia também o que ouviria: perguntas, conselhos, preocupação. Não estava com disposição para explicar como tinha passado a noite. Depois de alguns minutos, o telefone parou. Ela terminou o café, lavou a xícara e foi tomar banho. Vestiu uma calça antiga, uma blusa azul e penteou...

O Direito de Ir Embora

  Ela tinha começado a desconfiar da própria saudade. Não porque amasse menos. Era justamente o contrário. Amava tanto que já não sabia distinguir a lembrança da obrigação de lembrar. A casa continuava cheia dele. Não apenas das coisas que ficaram, mas daquilo que ela fazia questão de conservar: o lado da cama, as fotografias, as músicas, os lugares, as histórias repetidas até perderem a novidade e ganharem a solenidade das coisas sagradas. Ela alimentava a saudade. Dava-lhe café. Dava-lhe música. Dava-lhe fotografias. Dava-lhe as conversas que já não podiam acontecer. E a saudade, agradecida, crescia. Havia dias em que ela passava horas reconstruindo o homem dentro da cabeça. O jeito de andar. A voz. Uma frase qualquer. O movimento da mão. O riso. O modo de entrar numa sala. Reconstruía tudo. Depois sofria porque ele não estava ali. Começou a perceber a crueldade daquilo. Estava fabricando a presença para sofrer com a ausência. Foi procurar uma mu...

Quando o Tempo Muda de Lugar

Não sei mais se empurro o tempo ou se o tempo me empurra. Só sei que, em algum momento da vida, começamos a sentir o tempo batendo diferente à nossa porta. E, quando ele bate, traz consigo emoções amontoadas, algumas que reconhecemos, outras que nem sabemos nomear. Nossa geração atravessou quase todos os tempos. Conhecemos o tempo em que não havia nada. Ou quase nada. O rádio era companhia, o telefone tinha fio, a televisão chegou depois, ocupando um lugar de honra na sala. As fotografias precisavam ser reveladas, as cartas esperavam dias para chegar, e a gente sabia esperar. Depois vieram as máquinas de escrever, as calculadoras, os primeiros computadores. Passamos do papel para a tela, do telefone com fio para o celular, da fotografia guardada em álbuns para milhares de imagens que cabem dentro de um pequeno aparelho. Vimos nascer a internet e, com ela, um mundo que parecia impossível. De repente, podíamos falar com alguém do outro lado do planeta sem esperar uma carta, v...

Desconstrução

Durante muitos anos, ela acreditou que uma casa era feita de paredes. Só depois entendeu que não. Uma casa era feita de ruídos: o portão abrindo no fim da tarde, a chave girando duas vezes na fechadura, o copo pousado sobre a mesa, o chuveiro ligado enquanto alguém cantava desafinado no banheiro. Era feita também das coisas que ninguém via — dos silêncios depois de uma discussão, das esperas, dos planos adiados, das pequenas concessões que, somadas, acabavam parecendo uma vida inteira. A casa deles estava sendo demolida numa terça-feira de setembro. Ela ficou do outro lado da rua, olhando. A primeira parede caiu às dez e vinte. Não sentiu nada. Ou talvez tenha sentido tudo de uma vez e, por isso, não tenha conseguido identificar coisa alguma. O homem que operava a máquina fez um gesto para o ajudante, e mais uma parte da sala desapareceu. Atrás dos tijolos, surgiu o papel de parede antigo, ainda preso em alguns pedaços. Era azul-claro. Ela quase sorriu. Tinha esco...

Nossos Setembros

Setembro tinha uma mania curiosa: nunca chegava sozinho. Trazia sempre alguma coisa debaixo do braço. Uma lembrança, uma ausência, uma fotografia que ninguém lembrava de ter tirado. Às vezes trazia apenas um cheiro — de terra molhada, de roupa guardada, de café passado cedo demais. Eu nunca sabia o que ele deixaria. Talvez por isso tivesse aprendido a desconfiar das manhãs de setembro. Naquele tempo, você ainda estava aqui. Nós não dizíamos “nossos setembros”. Não havia necessidade. Setembro era apenas setembro, como qualquer outro mês. A gente vivia dentro dele sem perceber que estava construindo alguma coisa que, muitos anos depois, teria nome. Havia setembro na toalha florida da mesa. No rádio ligado enquanto você fazia a barba. Na roupa estendida no quintal. Na janela que você esquecia aberta. Em certas tardes, havia setembro até no silêncio entre uma palavra e outra. E havia você. Principalmente você. Depois, os anos fizeram aquilo que os anos sabem faz...

Os Domingos Também Podem Ser Assim...

Às dez da manhã, ela ainda estava de pijama. Não havia pressa. Ninguém chegaria para o almoço, ninguém telefonaria perguntando a que horas a mesa estaria posta, ninguém precisava saber o que ela faria naquele dia. Abriu a geladeira. Havia meio mamão, dois ovos, um pedaço de queijo e uma garrafa de vinho aberta desde a quinta-feira. — Dá para o domingo — disse, falando sozinha. E deu. Comeu o mamão diretamente do prato, tomou café sem açúcar e deixou a louça na pia. Na casa ao lado, alguém já tinha começado o churrasco. A fumaça entrava pela janela e trazia aquele cheiro de domingo que ela conhecia tão bem. Por alguns minutos, ficou ali, respirando. Não sentiu saudade. Ou talvez sentisse, mas não daquela maneira que as pessoas imaginam quando falam em saudade. Era uma saudade sem lágrimas, quase doméstica, dessas que aparecem enquanto a gente procura alguma coisa numa gaveta. Ela fechou a janela. Tomou banho. Escolheu uma roupa bonita. Não porque fosse sair...

Os Dias Que Se Repetiam

  Naquela terça-feira, Helena acordou às 6h17. Não era uma terça-feira qualquer. Ela sabia disso porque o rádio, antes mesmo de o locutor dizer bom-dia, anunciou a temperatura: dezenove graus. Depois veio a música que ela não gostava, aquela em que uma mulher cantava sobre voltar para casa. Helena desligou o rádio. Na cozinha, encontrou uma xícara sobre a mesa. Não era a sua. Era uma xícara branca, pequena, com uma lasca na borda. Dentro havia café ainda morno. Ela ficou olhando. Morava sozinha havia onze anos. Jogou o café fora, lavou a xícara e não pensou mais no assunto. Às 8h40, saiu para o trabalho. Na esquina, um homem de camisa azul deixou cair uma pasta cheia de papéis. Helena ajudou a recolhê-los. Um dos papéis tinha uma fotografia de uma menina de vestido amarelo. — Obrigado — disse o homem. — Não há de quê. Às 12h15, no restaurante de sempre, o garçom colocou diante dela o prato errado. — Filé com batatas — disse ele. — Eu pedi peixe. O ...