A Janela Aberta
Dizem que a vida gosta de surpreender. Eu, durante muito tempo, achei que isso fosse apenas uma frase bonita para confortar quem perdera o rumo. Depois descobri que era exatamente o contrário: a vida não avisa porque não precisa. Ela simplesmente acontece. Todas as manhãs, Helena abria a janela antes mesmo do café. Não esperava ninguém. Não havia cartas, visitas nem telefonemas. Ainda assim, olhava a rua como quem aguarda uma notícia capaz de mudar tudo. Os vizinhos imaginavam que ela vivia presa ao passado. Não sabiam que ela apenas aprendera a respeitar o futuro. Depois da morte do marido, quase cinquenta anos de casamento haviam se transformado em fotografias, receitas escritas à mão e uma cadeira vazia diante da mesa. A casa continuava inteira, mas o silêncio ocupava mais espaço do que os móveis. Ainda assim, Helena recusava-se a fechar a porta para a vida. Plantava flores novas a cada primavera. Lia livros de autores desconhecidos. Fazia caminhos diferentes para voltar...