" O Anel Era de Vidro"...
O anel era vidro e se quebrou numa tarde tão silenciosa que até os móveis pareciam escutar alguma coisa. Não caiu de uma grande altura. Não houve grito. Nem aquelas cenas exageradas que os filmes gostam de usar quando querem convencer alguém de que o amor acabou. Foi apenas um pequeno som. Quase delicado. Como uma taça fina, aquela que conheceu tantos lábios, desistindo de continuar inteira. Ela ainda segurava a sacola de pão contra o peito quando percebeu os fragmentos espalhados no chão da cozinha. Alguns brilhavam perto da janela. Outros tinham deslizado para baixo da mesa, como bichos assustados procurando esconderijo. Curioso como certas coisas escolhem morrer exatamente em dias comuns. Do lado de fora, o céu tinha a cor das cartas antigas. O ônibus passava cheio. Uma mulher caminhava carregando flores amarelas. Em algum apartamento distante, alguém ria alto demais. E ali, entre migalhas invisíveis do cotidiano, estava o anel. Vidro. Nunca diamante. Nunca our...