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Na Alegria e na Tristeza

O dia do casamento amanheceu com uma luz quase indecisa, como se o céu também hesitasse diante do que viria. Na igreja, as flores tentavam organizar a beleza, e havia um cuidado excessivo em cada detalhe — o véu alinhado, os bancos ocupados por expectativas, o padre repetindo com serenidade palavras antigas que atravessaram gerações. “Na alegria e na tristeza” não soava como promessa difícil naquele instante; era apenas uma sequência natural de sons, acolhida por quem acredita que o amor, uma vez declarado diante de testemunhas e de Deus, encontra sozinho o caminho de permanecer. Ele a observava como quem tenta guardar uma paisagem antes que a noite caia. Havia nela uma tranquilidade que não parecia ensaiada, um modo de segurar o próprio nome quando o padre o pronunciou, como se já o tivesse dito muitas vezes em silêncio. Quando respondeu “sim”, não houve tremor — e isso, naquele dia, foi tomado como força. A vida, depois, se encarregou de desfazer a ideia de que as promessas camin...

Pecado Compartilhado

Na rua de trás do mercado, aonde o movimento chegava cansado e sem pressa, havia um banco de madeira encostado num muro baixo. Era ali que tudo acontecia — sem nunca parecer que acontecia nada. Ela costumava chegar primeiro. Não olhava o relógio, mas sabia a hora exata em que o sol começava a escorregar pela parede descascada ao lado. Sentava-se sempre na mesma ponta, como se deixasse um espaço calculado para algo que ainda não tinha forma. Ele vinha depois. Sem anúncio. Sem atraso. Apenas surgia, como se tivesse estado ali o tempo todo e só agora se deixasse ver. No começo, não conversavam. Dividiam o banco como quem divide sombra. Cada um ocupado com o próprio silêncio, sem a obrigação de torná-lo leve. Às vezes, ele acendia um cigarro. Às vezes, ela observava o movimento mínimo das folhas no chão. E isso bastava. Havia uma espécie de acordo mudo naquela convivência: não perguntar, não explicar, não avançar. Foi por isso que, quando começaram a falar, demoraram a perc...

O Outro Lado da Moeda

A moeda ficou esquecida no fundo da bolsa, entre um lenço amarrotado e um papel onde já não se distinguia o que fora escrito. Não era rara, nem antiga, nem brilhava mais do que qualquer outra. Ainda assim, havia nela um peso que não vinha do metal. Sofia a encontrou por acaso, procurando algo que não lembrava exatamente o que era. Tirou-a com dois dedos, como quem recolhe um pequeno resto de mundo, e deixou-a repousar na palma da mão. Girou-a uma vez, sem olhar. O gesto automático de quem já decidiu tantas coisas no ar. Cara. Ou talvez não. A luz da tarde entrava enviesada pela janela, tocando o relevo gasto. De um lado, um rosto que já perdera a nitidez. Do outro, números quase apagados. Era difícil saber onde começava um e terminava o outro — como certas lembranças que, com o tempo, deixam de ter borda. Sofia apoiou a moeda na mesa. Ficou olhando, como se ela pudesse devolver alguma resposta que não havia sido feita em voz alta. Havia dias em que tudo parecia resolvido de...

Aquela Parte da Vida Que Não Volta

Não começou com uma lembrança. Começou com um erro pequeno — desses que não pedem atenção. Ela abriu a gaveta errada. Dentro, não estavam os talheres. Nem as contas atrasadas. Nem os remédios organizados por dia da semana. Havia uma meia só, um ingresso dobrado, uma chave que não servia mais para porta alguma e um cheiro muito específico — não de coisa guardada, mas de coisa interrompida. Fechou a gaveta com cuidado, como se pudesse acordar alguém ali dentro. Naquela manhã, tudo parecia deslocado alguns centímetros. A mesa, o barulho da rua, até o próprio corpo, como se tivesse sido colocado de volta no lugar com leve imprecisão. Caminhou pela casa testando os objetos com a ponta dos dedos — a cadeira firme, o vidro frio, a borda conhecida da pia. Nada cedia. Era só ela que não encaixava. Foi então que percebeu: havia uma parte da vida que não estava mais disponível. Não ausente como quem sai de viagem, mas retirada — como uma página arrancada de um livro que continua sendo ...

Não Lhe Prometo Sol Nem Lua Cheia

Ele disse isso sem levantar a voz, como quem coloca um copo na mesa e sabe que alguém vai encontrar depois. Não lhe prometo sol nem lua cheia. Ela não respondeu. Havia coisas que, quando ditas assim, sem enfeite, não pediam resposta — pediam espaço. E ela ficou ali, ocupando o espaço entre as palavras dele, como se coubesse inteira naquele intervalo. Era fim de tarde, mas não daquele tipo bonito que se descreve. A luz vinha meio atravessada, pegando os móveis de lado, revelando poeiras antigas que ninguém mais limpava direito. A casa tinha esse cansaço de quem já foi muito habitada. Ele estava de pé, perto da janela que não fechava bem. O vento entrava fino, insistente, mexendo na cortina como se procurasse alguma coisa que não estava mais ali. — E o que você promete? — ela perguntou depois de um tempo que não dava para medir. Ele demorou. Não porque pensasse muito, mas porque parecia escutar outra coisa antes de responder. Talvez o rangido do assoalho, talvez o próprio pei...

Entre Dois Lados de Mim

  Ela colecionava horários que não usava. Não eram compromissos. Eram horas exatas que ela guardava num caderno pequeno, de capa dura, onde anotava coisas como: 16h12 — a luz bateu na parede do corredor de um jeito que parecia outro lugar. Ou 07h43 — o café esfriou antes da primeira xícara terminar. Não havia explicação para aquilo. Nem tentativa de organizar. Apenas acumulava. Ninguém sabia. Durante o dia, ela funcionava como qualquer outra pessoa que cumpre o que precisa ser feito. Respondia mensagens, atravessava ruas, pagava contas, dizia “depois eu vejo isso” como quem realmente veria. Mas havia uma atenção paralela, quase invisível, que registrava desvios mínimos — coisas que não alteravam o rumo de nada, mas também não passavam ilesas. Foi assim que começou a perceber um atraso. Não no relógio. Em si. As coisas aconteciam e, segundos depois, chegavam nela. Como se houvesse um pequeno intervalo entre o mundo e a sua compreensão. Não era distração. Era um tipo de d...

Uma Quase Comédia Humana

Deram-lhe uma ficha de metal, sem nome, sem data, sem explicação. Apenas um número torto, gravado com pressa, como se até a eternidade andasse sem tempo. Ele quis perguntar alguma coisa, mas ninguém ali parecia encarregado de responder. Havia apenas um corredor longo, um balcão gasto, algumas portas entreabertas e uma fila que avançava com a solenidade das coisas absurdas. Não era um lugar de dor escancarada. Pior: era um lugar de procedimentos. Entrou na fila como quem entra num destino por engano. O chão, de tão pisado, perdera qualquer convicção. As paredes tinham uma cor indecisa, entre o encardido e o resignado. Acima das portas, placas modestas anunciavam setores que não prometiam nada de bom: Pendências Afetivas, Omissões Reincidentes, Orgulho de Pequeno Porte, Culpa Mal Declarada, Promessas Feitas em Voz Baixa. Ele leu duas ou três vezes, esperando que aquilo se tornasse menos ridículo. Não ficou. À sua frente, uma mulher segurava o próprio passado com as duas mãos, c...