Como Não Querer Você
Eu tentei. Não foi um gesto heroico, nem um juramento solene — foi mais como fechar uma janela acreditando que o vento obedeceria. Tentei não querer você do mesmo modo que se tenta não ouvir um relógio num quarto silencioso. Apaguei rastros: palavras que quase enviei, caminhos que quase percorri, músicas que quase toquei. Fiz silêncio por fora. Por dentro, você continuava andando, abrindo portas que eu jurava trancadas. Há pessoas que não batem. Entram. Como não querer você se o seu nome aparece quando não estou pensando em nada? Se ele surge entre um gole de café e outro, entre um passo e o seguinte, como uma sombra que não se explica pela luz? Eu não pensei em você — e, ainda assim, você estava ali, sentado no canto da tarde, observando meu esforço de parecer normal. Dizem que o tempo ensina. Comigo, conspirou. Fez de você um detalhe recorrente: no cheiro de chuva que antecede a noite, no jeito lento com que as coisas se quebram, na pausa entre duas frases mal ditas. Você viro...