A Mulher Que Sabia Voar
Quando diziam que Clara sabia voar, muita gente ria. Quem a conhecia há pouco imaginava alguma história inventada pela vizinhança, dessas que atravessam gerações até perderem o sentido. Os mais velhos apenas davam de ombros. Não confirmavam nem desmentiam. Diziam que havia coisas que só podiam ser vistas por quem não estivesse com tanta pressa. Clara morava numa casa pequena, de janelas azuis, onde o vento parecia chegar antes das visitas. Nunca viveu cercada de grandes acontecimentos. Dava aulas durante muitos anos, regava as plantas antes do café e tinha o costume de conversar com os passarinhos sem esperar resposta. O curioso era que ela desaparecia. Não por dias. Às vezes por alguns minutos. Outras vezes por uma tarde inteira. Alguém passava em frente à casa e a encontrava vazia. O bule ainda morno, um livro aberto sobre a mesa, os óculos esquecidos ao lado da poltrona. Mais tarde, ela voltava como quem apenas havia ido até a esquina comprar pão. — Onde esteve? — Po...