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Entre Dois Lados de Mim

  Ela colecionava horários que não usava. Não eram compromissos. Eram horas exatas que ela guardava num caderno pequeno, de capa dura, onde anotava coisas como: 16h12 — a luz bateu na parede do corredor de um jeito que parecia outro lugar. Ou 07h43 — o café esfriou antes da primeira xícara terminar. Não havia explicação para aquilo. Nem tentativa de organizar. Apenas acumulava. Ninguém sabia. Durante o dia, ela funcionava como qualquer outra pessoa que cumpre o que precisa ser feito. Respondia mensagens, atravessava ruas, pagava contas, dizia “depois eu vejo isso” como quem realmente veria. Mas havia uma atenção paralela, quase invisível, que registrava desvios mínimos — coisas que não alteravam o rumo de nada, mas também não passavam ilesas. Foi assim que começou a perceber um atraso. Não no relógio. Em si. As coisas aconteciam e, segundos depois, chegavam nela. Como se houvesse um pequeno intervalo entre o mundo e a sua compreensão. Não era distração. Era um tipo de d...

Uma Quase Comédia Humana

Deram-lhe uma ficha de metal, sem nome, sem data, sem explicação. Apenas um número torto, gravado com pressa, como se até a eternidade andasse sem tempo. Ele quis perguntar alguma coisa, mas ninguém ali parecia encarregado de responder. Havia apenas um corredor longo, um balcão gasto, algumas portas entreabertas e uma fila que avançava com a solenidade das coisas absurdas. Não era um lugar de dor escancarada. Pior: era um lugar de procedimentos. Entrou na fila como quem entra num destino por engano. O chão, de tão pisado, perdera qualquer convicção. As paredes tinham uma cor indecisa, entre o encardido e o resignado. Acima das portas, placas modestas anunciavam setores que não prometiam nada de bom: Pendências Afetivas, Omissões Reincidentes, Orgulho de Pequeno Porte, Culpa Mal Declarada, Promessas Feitas em Voz Baixa. Ele leu duas ou três vezes, esperando que aquilo se tornasse menos ridículo. Não ficou. À sua frente, uma mulher segurava o próprio passado com as duas mãos, c...

Fora de Quatro Paredes

O vento era o primeiro a tocar. Chegava antes das mãos, antes das palavras, antes mesmo de qualquer decisão. Levantava os cabelos dela com uma intimidade antiga, dessas que não pedem licença porque já conhecem o caminho. Eles não tinham marcado nada. Nem hora, nem gesto, nem o que fariam com o encontro. Apenas saíram — cada um de um lado da cidade — como se obedecessem a um chamado que não vinha de fora. Ela o viu primeiro. Encostado no parapeito de pedra, olhando o lago como quem tenta decifrar uma superfície calma demais. Não parecia esperar por alguém. E talvez não estivesse. Havia nele uma quietude que não era solidão, mas escolha. Ela se aproximou sem pressa. Os passos não denunciavam urgência — havia, antes, uma curiosidade leve, quase um cuidado em não quebrar o instante antes de tocá-lo. — Você sempre olha assim? — perguntou, parando ao lado dele. Ele não se virou imediatamente. — Assim como? — Como se o mundo estivesse prestes a dizer alguma coisa… e você não...

"Whos`s Holding Donna Now....Quem Está Com Você agora.."

O rádio não tocava alto. Nunca mais. Ficava ali, numa altura suficiente para não preencher o quarto inteiro — só um canto dele, como se a música também tivesse aprendido a não invadir. A primeira vez que aquela canção voltou, ela não prestou atenção no início. Estava na cozinha, abrindo e fechando gavetas sem precisar de nada específico. O som veio como vêm certas lembranças: sem pedir licença, mas sem força suficiente para ser impedido. Foi só no refrão que o corpo reconheceu antes da cabeça. Uma frase repetida, simples demais para não doer. Ela parou com a mão dentro da gaveta. Ficou assim por alguns segundos, como se estivesse esperando que a música passasse sozinha, como passam os carros na rua. Mas não passou. Continuou ali, insistente. Who’s holding Donna now? — Quem está com você agora? Who’s heart is she gonna take? — Quem ocupa o meu lugar? Does she still care? — Será que ainda existe um pedaço de nós em algum lugar? Ela fechou a gaveta devagar. Encostou n...

As Coisas Que Não Dizemos

O jantar já tinha esfriado quando Laís percebeu que Vitor não viria à mesa. Não era atraso. Era ausência — dessas que começam pequenas, quase educadas, e vão ficando mais largas com o tempo. Ele estava no outro cômodo, ela sabia. O som baixo da televisão atravessava o corredor, junto com aquela sensação antiga de que havia algo entre eles que não cabia mais em palavra nenhuma. Ela não chamou. Antes, chamava. Dizia o nome dele com uma naturalidade que hoje parecia pertencer a outra casa, outra mulher. Agora, ficou sentada, olhando o prato, como se ainda esperasse que o gesto de esperar resolvesse alguma coisa. Vitor, do outro lado, também sabia que ela estava ali. Pensou em levantar. Pensou em dizer qualquer coisa simples — “já vou”, “me espera”, “estou cansado hoje”. Não disse. Ficou onde estava, com o controle remoto na mão, mudando de canal sem realmente ver nada. Não era falta de assunto. Era o contrário. Havia coisas demais acumuladas entre eles. O dia em que ele es...

A Conta Que Não Fecha

Chamaram de acerto de contas, mas ninguém soube dizer com quem. Veio num papel fino, dobrado em três, sem timbre, sem assinatura — apenas uma frase: comparecer com o que deve . Arnaldo levou aquilo para a mesa do almoço como quem leva sal. Leu em voz alta, mastigando devagar, como se as palavras fossem parte da comida. — Devo o quê? — perguntou, mais para o prato do que para a mulher. Lúcia não respondeu. Estava ocupada em retirar uma espinha invisível do peixe, gesto minucioso que não resolvia nada. O filho, no canto, ria de um vídeo qualquer. A vida, ali, seguia com uma desenvoltura quase ofensiva. Arnaldo dobrou o papel com cuidado, guardou no bolso da camisa e saiu. Não disse para onde. Nem ele sabia. Na rua, o dia tinha uma luz limpa demais para quem carregava cobranças. As pessoas passavam com sacolas, compromissos, pequenos destinos resolvidos. Ele andou sem direção, como quem tenta lembrar um endereço que nunca teve. Parou diante de uma igreja. Não por fé — por somb...

Inteira Demais para Caber no Agora

Nossa vida foi tão boa que doía — não enquanto acontecia, mas agora, que sobra inteira dentro de mim. Não era perfeita. Nunca foi. Havia dias ásperos, silêncios que demoravam mais do que deviam, pequenas impaciências espalhadas pela casa como objetos fora do lugar. Mas nada disso pedia conserto. Era só o modo como a vida respirava entre nós. Eu não tiraria nada. Nem os atrasos, nem as discussões bobas sobre coisas que hoje nem lembro direito. Nem o jeito como você deixava a luz acesa no corredor, como se a casa precisasse de vigília. Nem as manhãs em que o café esfriava porque a conversa tinha mais urgência do que o tempo. Tudo cabia. Talvez seja isso que pesa. Porque agora não há mais onde colocar o que ainda vive. As lembranças não diminuem com o tempo — elas se organizam melhor, ocupam menos espaço visível, mas ficam mais densas. Como se cada detalhe aprendido ao seu lado tivesse criado raiz. Tem dias em que quase não penso. Sigo. Faço o que precisa ser feito. Abro janel...