Depois de Tudo...
Havia coisas que ela já não conseguia explicar. Não era tristeza. Também não era exatamente saudade. Era uma espécie de deslocamento. Como se, depois de determinada idade, algumas certezas perdessem o direito de continuar sendo certezas. Ela percebeu isso num dia qualquer, ao preencher um formulário. Nome. Data de nascimento. Estado civil. Parou no terceiro item. Ficou olhando para aquelas duas palavras durante alguns segundos, como se fossem uma pergunta indevida. Viúva. Era uma palavra objetiva, quase administrativa. Cabia numa linha. Não dizia nada sobre os anos vividos, sobre os projetos interrompidos, sobre as brigas que terminavam em riso, sobre a intimidade de duas pessoas que aprenderam a se conhecer também pelo silêncio. Ainda assim, era a palavra correta. Assinalou-a. E continuou preenchendo o formulário. Foi somente depois que percebeu o absurdo. Durante décadas, ela havia sido tantas coisas: filha, mulher, mãe, profissional, amiga, amante, cúmp...