" O Imperativo Espiritual do Desejo"
Durante muito tempo ela acreditou que o desejo era apenas uma forma de querer alguma coisa. Querer um vestido novo, querer viajar, querer que o dia fosse mais leve que o anterior. Depois entendeu que não. O desejo verdadeiro não tem nada a ver com essas pequenas vontades que passam como vento em cortina aberta. O desejo verdadeiro permanece. Silencioso, teimoso, quase invisível — mas permanece. Foi numa manhã sem importância que ela percebeu isso. A casa estava quieta demais. Não havia nada urgente para fazer, nenhum compromisso marcado, nenhuma visita esperada. A chaleira fervia devagar no fogão, espalhando aquele vapor fino que parecia subir sem pressa para o teto. Ela sentou-se à mesa e ficou olhando a xícara vazia. Havia dias assim. Dias em que a vida parecia suspensa, como um trem parado entre duas estações. Nesses dias ela se perguntava para que continuar fazendo tantas coisas. Arrumar a casa, dobrar roupas, caminhar pelas mesmas ruas, dizer bom dia às mesmas ...