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A Casa das Janelas Tortas

Diziam que aquela era a casa mais estranha da rua. As janelas não eram alinhadas. Algumas fechavam mal, outras deixavam entrar vento mesmo quando estavam trancadas. O telhado carregava marcas do tempo, e a pintura descascada denunciava anos de chuva, calor e tempestades. Ainda assim, havia flores na varanda. Quem morava ali era Aurora, uma mulher que já colecionara mais despedidas do que aniversários. Perdera sonhos, amores, oportunidades e pessoas que julgava insubstituíveis. Em alguns períodos da vida, acreditou que a felicidade fosse um endereço reservado aos outros. Certa tarde, uma jovem que passava pela rua perguntou: — A senhora nunca pensou em reformar essa casa? Aurora sorriu. — Pensei muitas vezes. — E por que não fez? Ela olhou para as paredes irregulares. — Porque cada rachadura me ensinou alguma coisa. A moça não entendeu. Aurora apontou para uma marca escura próxima à porta. — Ali foi o ano em que perdi meu marido. Depois indicou uma janela emp...

Sob o "Cabo do Medo"

Desde pequena, Sofia carregava um medo que não cabia no tamanho de seu corpo. Enquanto outras crianças temiam trovões, escuro ou monstros escondidos sob a cama, ela tinha medo das despedidas. Medo de perder quem amava. Medo de que a mãe demorasse demais para voltar do mercado. Medo de que o pai não retornasse de uma viagem. Medo de que os avós, tão velhos aos seus olhos de menina, desaparecessem durante a noite. Ninguém entendia completamente. Ela mesma não entendia. Às vezes acordava assustada e caminhava pela casa em silêncio apenas para ouvir a respiração das pessoas dormindo. Era uma forma de conferir se o mundo continuava no lugar. Os anos passaram. Sofia cresceu, estudou, trabalhou, apaixonou-se. Mas os medos cresceram junto com ela. Aprendeu a escondê-los sob sorrisos educados e uma aparente independência. Tornou-se aquela mulher que resolvia problemas, organizava a vida de todos, cuidava dos amigos, dos filhos e dos pais. Quem a observava de fora via força. Por ...

Um Nome Escrito no Espelho

Quando Helena percebeu o nome pela primeira vez, pensou que fosse uma brincadeira da própria imaginação. Estava saindo do banho. O vapor ainda cobria o espelho do banheiro quando ela viu as letras surgirem aos poucos, como se alguém as desenhasse por trás da névoa. Miguel. Ela ficou imóvel. Passou a mão sobre o vidro e o nome desapareceu junto com a umidade. Sorriu de si mesma. Aos sessenta e cinco anos, morando sozinha havia quase uma década, conhecia bem as peças que a memória pregava. Às vezes acordava certa de ter ouvido a voz da mãe chamando da cozinha. Outras vezes jurava ter visto o marido sentado na poltrona da sala. Miguel. O nome, porém, não lhe dizia nada. Não conhecia nenhum Miguel importante. Nenhum amor antigo, nenhum parente esquecido. No dia seguinte, o nome apareceu novamente. E no outro também. Sempre da mesma forma. Miguel. Durante uma semana, Helena tentou ignorar. Na segunda semana, começou a fotografar. Na terceira, decidiu investig...

Até Quando..

Às 22h15, Agnes morreu. Pelo menos era o que dizia o papel amarelado que segurava entre os dedos. Seu nome completo estava ali. O número do registro também. E, logo abaixo, numa letra firme e inquestionável: Hora da morte: 22h15. Ela leu uma vez. Leu outra. Depois uma terceira. Mas não se sentia morta. Passou a mão pelo próprio rosto. Sentiu a pele. Tocou os cabelos. Ouviu o som da própria respiração. Se estava morta, por que ainda sentia o peso do corpo? E se ainda sentia o corpo, por que alguém havia decretado sua morte? Ao levantar os olhos, percebeu que não estava sozinha. Havia uma discussão. Uma discussão antiga, feroz, quase cansada. De um lado, vozes afirmavam: — Ela merece o céu. Do outro: — Não. Ela merece o inferno. Agnes olhou em volta procurando quem falava. Não viu rostos. Apenas presenças. — Posso saber do que estão falando? — perguntou. Ninguém respondeu diretamente. Em vez disso, começaram a surgir cenas. Uma após outra. Como...

Deixa Eu Te Abraçar de Novo

— Deixa eu te abraçar de novo... Ela pedia baixinho, como quem teme que a própria voz espante o milagre. — Não te afasta... não me deixa... E ele sorria. Os braços dele tinham o cheiro das manhãs tranquilas, dos cafés demorados, das estradas percorridas sem pressa. Quando a envolvia, o mundo parecia caber naquele espaço exato entre um coração e outro. Viveram anos. Ou talvez dias. Ou talvez apenas o tempo que os sonhos permitem. Viajaram. Riram de coisas sem importância. Discutiram sobre bobagens e fizeram as pazes antes que a noite terminasse. Envelheceram um pouco. Depois rejuvenesceram nas fotografias imaginárias que nunca foram tiradas. Ela conheceu cada curva do rosto dele. Aprendeu o som dos seus passos no corredor. Sabia quando ele estava feliz apenas pelo jeito como colocava as chaves sobre a mesa. Às vezes acordava dentro daquele sonho e encontrava-o olhando pela janela. — O que foi? — perguntava. — Nada. Estou guardando este momento. E ela acredi...

O Brilho dos Outros

  Durante muito tempo, Selminha acreditou que não tinha brilho. Não dizia isso para ninguém. Guardava aquela impressão como quem guarda uma fotografia antiga dentro de um livro. Estava lá, entre as páginas dos dias, aparecendo de vez em quando. Via brilho em toda parte. Na amiga que chegava a uma festa e logo reunia gente ao redor. Na irmã que parecia saber exatamente o que fazer da vida. Na vizinha que estudava, viajava, aprendia coisas novas e tinha sempre uma história interessante para contar. Selminha admirava essas pessoas. E, sem perceber, colocava-se um degrau abaixo delas. Afinal, o que tinha para mostrar? Levava uma vida comum. Criou filhos, trabalhou durante anos, ajudou os pais quando envelheceram, acompanhou amigos em momentos difíceis, fez bolos para aniversários, cuidou de plantas, acolheu visitas inesperadas, ofereceu café e escutou desabafos. Mas aquilo lhe parecia apenas a vida acontecendo. Nada que merecesse destaque. Nada que pudesse ser cha...

Enquanto Você Não Vem

  Desde os cinquenta anos, Helena tinha adquirido um hábito estranho. Conversava com a morte. Não em voz alta. Não em cemitérios. Não diante de fotografias antigas. Conversava com ela enquanto dobrava roupas, regava plantas, esperava o café passar ou observava a chuva bater na janela. — Ainda não — dizia às vezes. E a morte, em sua imaginação, sentava-se numa cadeira qualquer da cozinha, cruzava as pernas e respondia: — Não estou com pressa. Helena gostava daquela resposta. Não porque desejasse a visita, mas porque lhe dava a sensação de que ainda havia tempo. Tempo para organizar gavetas. Não as da casa. As da vida. Havia pessoas com quem precisava conversar. Pessoas que não lhe deviam desculpas, mas explicações. Pessoas a quem ela própria devia perdão. Também precisava terminar algumas coisas. Não livros nem projetos grandiosos. Precisava terminar silêncios. Fechar perguntas. Arrumar lembranças que continuavam espalhadas dentro dela como roupas...