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O Cérebro Aprende Caminhos

  Há alguns anos, a ciência começou a falar com mais clareza sobre a plasticidade do cérebro. Um nome complicado para uma ideia bastante simples: o cérebro muda. Ele cria novos caminhos, fortalece aqueles que usamos com frequência e vai se adaptando ao modo como vivemos, pensamos e sentimos. É como uma estrada de terra. Quanto mais carros passam por ela, mais marcada ela fica. Depois de algum tempo, quase ninguém pensa em abrir outro caminho. Todos seguem pelos mesmos sulcos. Com o cérebro acontece algo parecido. Se, todos os dias, alimentamos apenas a dor, a perda, a preocupação ou a solidão, não é que esses sentimentos sejam inventados. Eles existem, são legítimos. Mas o cérebro vai aprendendo que esse é o lugar para onde deve voltar. Ele passa a reconhecer esse território como familiar. E aquilo que era um sentimento começa, pouco a pouco, a ocupar espaço demais. É por isso que duas pessoas vivendo situações semelhantes podem reagir de maneiras tão diferentes. Não porque...

Olhos Verdes

Havia um tempo em que as pessoas comentavam sobre os olhos dela. Não eram apenas verdes. Eram vivos. Tinham o verde das folhas depois da chuva, das uvas ainda no pé, das águas rasas onde o sol consegue tocar o fundo. Quem conversava com ela tinha a impressão de que aqueles olhos sorriam antes da boca. Ela nunca deu importância a isso. Achava exagero. Os anos passaram carregando o que os anos sempre carregam. Vieram os filhos, o trabalho, as preocupações pequenas que ocupam dias inteiros e as grandes que ocupam noites. Vieram as despedidas. Algumas discretas, outras capazes de dividir a vida em antes e depois. Sem perceber, deixou de olhar demoradamente para as pessoas. Olhava para os relógios, para as contas, para o celular, para o chão. Continuava enxergando tudo, mas já não demorava o olhar em nada. Certa manhã, enquanto esperava sua vez no consultório, uma menina sentou-se ao seu lado. Devia ter uns seis anos. Observou-a por alguns segundos e perguntou, com a sinceridade...

Feito Água Enfrentando Pedra

  Há quem imagine que a força faz barulho. Que chega batendo portas, levantando a voz, impondo presença. Mas a natureza nunca pareceu pensar assim. Basta olhar um rio. Ele não discute com a pedra. Não a desafia. Não tenta vencê-la de uma vez. Apenas continua. Lúcia demorou muitos anos para entender esse movimento. Durante boa parte da vida acreditou que viver era enfrentar tudo de frente, sem recuar um passo. Brigou pelo casamento, pelos filhos, pelo trabalho, pelos pais doentes. Defendia o que amava com unhas e dentes. Ceder, para ela, tinha gosto de derrota. Até aparecer uma pedra grande demais. Não havia argumento, coragem ou insistência que fosse capaz de tirá-la do caminho. Nos primeiros tempos, fez o que sempre soubera fazer: insistiu. Bateu contra aquela realidade até perder as forças. Quanto mais tentava mudar o que não dependia dela, mais se machucava. Com o passar dos meses, algumas atitudes foram mudando, quase sem que percebesse. Parou de empurrar ...

O Nome Que Faltava

A primeira palavra desapareceu numa terça-feira de chuva fina, dessas que deixam a cidade inteira com cheiro de pano úmido e café recém-passado. Helena percebeu por que o livro aberto sobre a mesa parecia ter engolido um pedaço da frase. “Ele a olhou como quem ______ pela última vez.” Ela piscou. Pensou que fosse cansaço. Aproximou os óculos do rosto, limpou as lentes na barra do casaco, voltou a ler. Nada. O espaço permanecia ali, branco e quieto, como um dente arrancado. Passou os dedos pela página. Procurou a palavra na memória. Sabia que existia uma palavra exata para aquilo. Uma palavra antiga, usada demais, talvez até desgastada. Ainda assim necessária. Mas não vinha. Tentou outra frase. “Minha mãe sempre dizia que ninguém morre enquanto for ______.” Vazio. Abriu um dicionário. As páginas estavam intactas, exceto por pequenas ausências que começavam a aparecer como ferrugem invisível. Verbos inteiros haviam sumido. Substantivos delicados tinham deixado apena...

Saiu à Francesa

Há pessoas que atravessam a vida fazendo   muito barulho. Outras, não. Trabalham, constroem, amam, erram, recomeçam e, quando se vão, deixam um silêncio que pesa mais do que qualquer discurso. Alberto era assim. Começou pequeno. O primeiro escritório cabia numa sala emprestada, os primeiros sonhos, num bolso apertado. Trabalhou mais horas do que contou, perdeu noites, ganhou respeito. Nunca fez questão de ser o homem mais conhecido da cidade; preferia ser aquele em quem se podia confiar. A empresa cresceu. Vieram funcionários, clientes, viagens, contratos. Vieram também as contas, as preocupações e as alegrias miúdas que só quem constrói conhece. Em casa, criou os filhos sem manual. Ensinou mais pelo exemplo do que pelas palavras. Mostrou que compromisso não se anuncia, se cumpre. Nunca foi de falar de si. Quando elogiavam seu sucesso, desviava a conversa. Achava que a vida seguia em frente rápido demais para perder tempo admirando o próprio caminho. Envelheceu sem perc...

Quando o Céu Escolhe a Mesma Cor da Saudade

Existem dias em que o sol pesa. Parece estranho dizer isso. Fomos ensinados a desejar manhãs claras, céu azul, janelas abertas, gente sorrindo. Como se a felicidade tivesse uma cor oficial e ela fosse sempre luminosa. Mas quem vive uma ausência profunda sabe que nem sempre. Há dias em que a saudade prefere as nuvens. Não porque a gente deseje tristeza para o mundo. Muito pelo contrário. Que todos tenham dias claros, alegres, cheios de risos e de encontros. A dor que carregamos já basta. Ela não precisa ser dividida nem multiplicada. Mas, às vezes, o coração procura um céu que se pareça com ele. Depois de tantos anos vivendo ao lado da pessoa que se ama, a ausência não ocupa apenas um lugar da casa. Ela ocupa o corpo. Caminha junto. Dorme ao lado. Senta-se à mesa. E há momentos em que ela se torna quase física. Dói nos ombros, aperta o peito, cansa as pernas, como se a saudade tivesse aprendido a morar nos músculos. Durante muito tempo, pensei que as lembranças seriam um r...

Às Vezes

Às vezes, ela tinha a impressão de viver na estreita faixa entre duas margens. Não porque acreditasse em milagres ou esperasse algum sinal extraordinário. Também não imaginava que um dia ouviria passos no corredor ou sentiria uma mão pousar sobre a sua. Era apenas uma sensação difícil de explicar. Como quem mora à beira de um rio e, mesmo nas manhãs em que a neblina escondia tudo, sabia que a outra margem continuava existindo. A casa permanecia quase igual. Os livros ocupavam as mesmas estantes. As fotografias continuavam espalhadas pelos móveis, sem ordem alguma. A xícara preferida dele seguia no armário, misturada às demais, como sempre estivera. Ela nunca transformou a ausência em altar. Aprendera, aos poucos, que algumas lembranças respiram melhor quando permanecem no lugar de onde vieram. Mesmo assim, conversava com ele. Nunca em voz alta. As palavras surgiam enquanto dobrava roupas recém-passadas, regava as plantas da varanda ou escolhia tomates na feira. — Hoje fez...