A Lua Parecia Oceano
A lua parecia oceano. Não pela cor, nem pelo brilho. Parecia oceano porque carregava profundezas. Da janela do apartamento, Clara observava o céu. A cidade diminuía de volume à medida que a noite avançava. Um ônibus passava ao longe. Uma porta se fechava em algum lugar. Um cachorro latia sem convicção. No alto, a lua derramava sobre os telhados uma luz tão serena que as casas pareciam embarcações ancoradas num mar imóvel. Clara apoiou os braços no peitoril. Havia noites em que a saudade chegava como tempestade. Naquela, veio como maré. Devagar. Sem anúncio. Apenas chegou tomando seu espaço entre um pensamento e outro. O vento da madrugada entrou pela janela e tocou seus cabelos. Ela fechou os olhos por um instante. A memória tem seus próprios caminhos. Às vezes atravessa décadas para devolver um gesto. Às vezes escolhe uma frase qualquer e a deposita no presente como quem devolve algo perdido. Quando abriu os olhos, a lua continuava lá. Redonda. Imensa. ...