O Café que Esfriava por Nós Dois
Havia uma parte da casa que continuava esperando por ele. Não era o quarto, nem a poltrona perto da janela, nem o lado vazio da cama onde ela aprendera a dormir encolhida para não tocar o espaço que sobrara. Era algo menos visível. Um tipo de silêncio que só existia porque um dia alguém respirou ali durante muitos anos. Lívia descobriu isso numa manhã comum, enquanto colocava água para o café e separava duas xícaras sem perceber. Ficou olhando para elas sobre a mesa como quem encara um erro impossível de corrigir. Não chorou. O choro já não vinha com facilidade. A dor antiga, quando envelhece dentro da gente, perde o escândalo. Aprende a andar pela casa devagar, quase sem barulho, como alguém que conhece cada canto. Lavou uma das xícaras e abriu a janela. Lá fora, a cidade seguia acontecendo com uma crueldade distraída. Ônibus passavam. Pessoas discutiam ao telefone. Um rapaz corria atrás do cachorro que escapara da guia. Uma mulher equilibrava flores amarelas no braço c...