De Longe Tudo é Pequeno
Raquel demorou para encontrar a própria casa. Do alto do morro, os telhados se confundiam numa sucessão de formas irregulares, e a rua onde passara tantos anos parecia apenas um risco atravessando a paisagem. Havia qualquer coisa de desconcertante naquela distância. Como se o mundo tivesse encolhido sem avisar ninguém. Ela continuou procurando. Ali estava a praça. Ou talvez outra parecida. Ali o prédio de janelas azuis. Ou algum vizinho dele. As referências que, vistas de perto, pareciam tão sólidas agora vacilavam diante dos olhos. Sentou-se sobre uma pedra aquecida pelo sol da tarde. O vento passava lento e suave. Lá embaixo, centenas de vidas seguiam acontecendo. Alguém preparava o jantar. Alguém voltava do trabalho. Alguém fechava uma porta acreditando que nunca mais a abriria. Alguém ria de alguma bobagem que seria esquecida antes da manhã seguinte .Alguém nascia e alguém morria. Dali de cima, ninguém parecia carregar tragédias. Ninguém parecia guardar segred...