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Dois Estranhos Quase Reais

Eles se encontraram numa noite em que a casa estava silenciosa demais. Ela não buscava ninguém. Apenas clicava. Rolava a tela como quem passa os dedos numa estante de livros sem intenção de escolher. Ele escreveu primeiro — uma frase simples, quase burocrática. Mas havia um ritmo naquela frase. Um cuidado. Ela respondeu. No começo, eram horários desencontrados. Ele acordava quando ela já pensava em dormir. Ela escrevia quando ele estava no intervalo do trabalho. Eram mensagens que se cruzavam como aviões no céu noturno: não se viam, mas sabiam que o outro estava ali, em algum ponto da escuridão. Não trocaram fotos de imediato. Nem vozes. Era melhor assim. Havia uma liberdade no desconhecimento. Ele podia imaginá-la com o cabelo preso ou solto, rindo com a cabeça inclinada para trás. Ela podia inventar o timbre da voz dele — grave, talvez, ou com um riso contido no canto da frase. Falavam de coisas pequenas. Café forte demais. A chuva que demorava a chegar. Um filme antigo vis...

As Janelas Que Permanecem Acesas

O nome da cidade nunca foi o que mais importou, mas havia um rio que a atravessava com uma calma quase distraída, como se levasse consigo histórias que ninguém mais lembrava de contar. As margens tinham árvores antigas, de troncos largos e sombra fresca, e um caminho de pedras onde as pessoas passavam todos os dias sem perceber que ali também se acumulavam pequenos mundos. Catarina cresceu ali. Loira, de olhos azuis que não sabiam ficar em silêncio. Havia algo neles que parecia sempre à beira de dizer — como se as palavras se formassem antes mesmo de existir voz. Quem olhava por mais de alguns segundos tinha a sensação de que estava sendo lido, não o contrário. Ela carregava uma caneta. Não era exatamente diferente das outras, ao menos não para quem via de fora. Corpo simples, tinta comum. Mas, quando tocava o papel, alguma coisa se deslocava. Como se a ponta não escrevesse sozinha, como se abrisse pequenas passagens. Catarina escrevia sentada perto do rio, com os pés quase t...

Cordas em Desalinho

Há dias em que tudo parece fora de tom. Não é algo que se veja. Não está no corpo de maneira evidente, nem nos objetos ao redor. Mas há uma espécie de desalinho que percorre o dia — nas palavras que não encaixam, nos gestos que chegam tarde, nos silêncios que pesam mais do que deveriam. Talvez seja isso que chamam de desajuste das cordas. Gosto de imaginar que somos como um instrumento antigo, desses que atravessam gerações. Não nascemos prontos. Vamos sendo afinados pelo toque do tempo, pelas mãos que nos encontram, pelas ausências que nos atravessam. Cada encontro puxa um pouco uma corda. Cada perda afrouxa outra. E, mesmo sem perceber, vamos vibrando. Há quem diga — e não parece absurdo — que estamos ligados por fios invisíveis. Como se cada pessoa que passa por nós deixasse um pequeno nó, uma tensão, uma memória que continua vibrando mesmo depois da despedida. Não se trata de algo místico demais. É quase físico. Basta lembrar de alguém para que algo em nós se mova. Uma ...

Sabrina

Sabrina aprendeu cedo a atravessar os dias como quem atravessa um rio que nem sempre se mostra por inteiro, porque havia trechos em que o fundo aparecia com clareza e outros em que a água escurecia sem aviso, exigindo mais do corpo do que ela imaginava ter, e talvez por isso tenha crescido com esse hábito silencioso de olhar primeiro para dentro antes de dar qualquer passo. Morava numa casa de paredes claras, dessas que guardam o calor do sol até o início da noite, e tinha uma janela voltada para uma rua tranquila, onde as tardes se alongavam entre passos lentos e vozes baixas, e era ali que costumava ficar, apoiando os braços no parapeito, observando o movimento pequeno do mundo como quem tenta reconhecer alguma coisa que não se explica, mas insiste. Havia dias em que Sabrina parecia caber perfeitamente dentro de si, como se cada pensamento encontrasse o seu lugar e cada silêncio fosse apenas um intervalo natural entre uma respiração e outra, e havia dias em que tudo se deslocava ...

Descompasso

  Havia um leve atraso em tudo que dizia respeito a ela, mas não era o tipo de atraso que se explica com relógio — era mais fundo, mais discreto, quase um desvio interno que não se via de fora. Durante um tempo, ela tentou ajustar. Adiantava passos, respondia antes, chegava no horário certo, ocupava os espaços como se ainda soubesse onde colocar as mãos, o olhar, o silêncio. Funcionava o suficiente para que ninguém estranhasse. Funcionava o suficiente para que ela mesma demorasse a perceber. Ele ainda estava ali. Mas havia sempre um pequeno intervalo entre o que ele dizia e o que nela acontecia. Não era distração. Era como se as palavras precisassem atravessar uma distância maior do que antes — um caminho que, em algum momento, tinha se alongado sem aviso. Ela continuava escutando. E respondia, quase sempre. Com cuidado. Com uma atenção que beirava o cálculo. Não por frieza, mas porque qualquer gesto em falso parecia capaz de denunciar aquilo que ainda não tinha nome. O...

Quando a Chuva Molha e Machuca

A chuva começou sem muito barulho. Começou quase sem avisar... Fina, quase leve, dessas que parecem não pedir abrigo. A cidade seguiu — passos apressados, portas se fechando, gente se protegendo do que, à primeira vista, não parecia grande coisa. Ela não correu. Caminhava como quem não precisa chegar, apenas continuar. O casaco já escurecido pela água, o cabelo preso à testa, os sapatos absorvendo o dia com um desconforto lento. Foi numa rua comum que o corpo reconheceu antes do pensamento. Uma padaria ainda acesa, o banco de sempre, a calçada que já tinha sido cenário de outra coisa — riso, talvez, ou promessa. Nada ali indicava importância, mas havia. A chuva mudou ali. Não no céu. Nela. As gotas passaram a encontrar lugares mais fundos, onde o tempo não encosta com frequência. Não era dor grande. Era exata. Ela reduziu o passo. Ao redor, ninguém via. Cada um ocupado em atravessar o próprio dia, desviando da água como quem evita atraso. Havia uma pressa que não era dela. ...

Todos os Dias, Outra Vez

  Acordar e não ter você é como nascer todos os dias — sem parteira, sem anúncio, sem ninguém ao lado para confirmar que é mesmo um começo. Ela já não esperava mais o milagre de abrir os olhos e encontrar o corpo dele ocupando o outro lado da cama. Ainda assim, havia um segundo — curto, quase invisível — em que o mundo hesitava. Um intervalo em que tudo podia ser como antes. Era nesse instante que ela permanecia imóvel, os olhos fechados, como quem segura a respiração para não espantar alguma presença que talvez ainda estivesse ali. Mas o quarto sempre acabava voltando a ser apenas um quarto. O lençol frio, o travesseiro sem marca, o silêncio inteiro. Levantar era outra coisa. Não tinha mais nada de automático naquele gesto. Não havia rotina que desse conta. Era escolha — dura, repetida, às vezes quase ofensa. Levantar significava aceitar que o dia viria mesmo assim, com ou sem ele, com sol atravessando a cortina ou com a chuva fina que riscava o vidro como se escrevesse ...