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Raízes Que Ninguém Vê

  “O que a gente viveu, ninguém rouba”. Fica entranhado na pele, nos ossos, no jeito de olhar o mundo. Fica no modo como se segura uma xícara, como se dobra uma camisa, como se chama alguém pelo nome. A morte veio — e veio sem avisar, simplesmente chegou. Levou quem era casa. Levou quem era riso fácil na cozinha, quem sabia o caminho das minhas mãos no escuro, quem dividia o silêncio sem precisar preenchê-lo. Levou o pai dos meus filhos, o homem que me acompanhou na travessia inteira de quase meio século. Levou meu amor. E eu fiquei. Fiquei como árvore em terreno aberto depois da tempestade. A raiz principal arrancada, a terra revolvida, o ar entrando por dentro das fibras. Por alguns dias — ou meses, ou anos, porque o tempo depois da perda não sabe mais se organizar — pensei que tombaria também. Porque era daquela raiz grossa que eu retirava a seiva. Era dela que vinha o sustento invisível, a força silenciosa que me mantinha de pé sem que eu percebesse. Sem ela, o mu...

O Tempo Não Cura Tudo

Dizem que o tempo cura. Dizem com a tranquilidade de quem nunca precisou aprender a conviver com uma ausência sentada à mesa. O tempo, na verdade, não cura. Ele apenas ensina onde dói menos tocar. No começo, a dor é um quarto sem portas. Tudo ecoa. O barulho do mundo entra como se fosse o dono de tudo, sem nem mesmo pedir licença: risos alheios, músicas que não combinam, manhãs claras demais. O tempo passa por ali como um visitante constrangido — não arruma nada, só observa. Depois, algo muda. Não melhora. Muda. A ferida continua ali, mas cria crostas frágeis. A gente aprende a caminhar desviando. Aprende que certos dias pedem silêncio, que certas lembranças exigem cadeira e água doce por perto. Aprende a reconhecer o cheiro da saudade antes que ela chegue — como quem sente chuva antes do primeiro trovão. O tempo não apaga o que foi. Ele não apaga nomes, nem vozes, nem o jeito exato de alguém dizer nosso nome quando estava feliz ou cansado. O tempo apenas torna possível respira...

Depois da Ferida

A ferida “apareceu” num dia comum, exatamente como todos. Daquelas que não prometem nada e cumprem o que prometem. Olga estava na cozinha quando sentiu que alguma coisa tinha saído do lugar. Não foi uma dor que se aponta com o dedo, não foi um susto. Foi um vazio repentino — como quando a luz apaga e a gente demora alguns segundos para entender que não é noite. O telefone ainda estava na mão. Do outro lado, a voz já tinha parado de falar. Ela desligou sem perceber e se sentou. Ficou olhando para a mesa como se ali estivesse escondida a parte que faltava do mundo. O copo com água tinha marcas de dedos. A toalha tinha uma dobra torta. O relógio, na parede, seguia no mesmo som de sempre, e isso era quase ofensivo. Nos dias seguintes, Olga fez o que precisava ser feito. Banho, roupa, rua, compras, respostas curtas. Dizia “tudo bem” com a mesma boca que não acreditava. Existia um atraso dentro dela, como se a vida estivesse sempre dois passos à frente. As pessoas falavam, as buzina...

Qualquer Domingo a Gente se Vê

Ela disse, quase distraída, como quem marca algo que já existe: — Qualquer domingo a gente se vê. Não escolheu data. Domingo é esse dia frouxo, sem compromisso com o tempo, onde tudo pode acontecer ou não. Ele concordou com a cabeça, mas por dentro guardou o domingo como se guarda um endereço escrito a lápis. Ela chegou sem pressa. Domingo não cobra horário. O mundo parecia suspenso: lojas fechadas, ruas vazias, o sino distante marcando horas que não diziam mais   nada. Ela atravessou a praça como quem atravessa um limiar — não havia pressa porque não havia retorno. Ele já estava lá. Sentado no banco de sempre, embora ela nunca tivesse visto aquele banco antes. Havia folhas secas ao redor, mesmo não sendo outono. Algumas coisas envelhecem fora do calendário. Ele não sorriu. Esperar altera algumas coisas que não voltam para o lugar. Ela   sentou ao lado dele, e por um instante achou que não estava totalmente ali. Como se seus pés tocassem o chão, mas o resto flutua...

O Peso Exato do Edredom

A nevasca não batia — insistia. O vento empurrava a montanha como quem testa a firmeza de uma casa antiga. Do lado de dentro, porém, havia outro tempo: madeira aquecida, o cheiro leve de chá esquecido sobre a mesa, a lareira respirando baixo, como um animal doméstico. A cama ficava encostada na janela, por escolha. Eles gostavam de ver o mundo acontecer enquanto permaneciam. Lençóis grossos, pesados, desses que não apenas cobrem, mas acolhem. O edredom tinha o peso exato de um abraço que não aperta. Ela estava de lado, o joelho encaixado no espaço entre as pernas dele — não por acaso. Nunca era. O corpo aprende caminhos que a cabeça não explica. Ele passou os dedos pelo braço dela como quem lê algo em voz baixa: devagar, atento às pausas, respeitando as pequenas interrupções da pele. O antebraço. O pulso. A curva discreta antes da mão. Ela reconheceu o toque como se reconhece uma música antiga: não surpreende, mas sempre toca. Virou o rosto, encostou a testa no pescoço dele....

Como Não Querer Você

Eu tentei. Não foi um gesto heroico, nem um juramento solene — foi mais como fechar uma janela acreditando que o vento obedeceria. Tentei não querer você do mesmo modo que se tenta não ouvir um relógio num quarto silencioso. Apaguei rastros: palavras que quase enviei, caminhos que quase percorri, músicas que quase toquei. Fiz silêncio por fora. Por dentro, você continuava andando, abrindo portas que eu jurava trancadas. Há pessoas que não batem. Entram. Como não querer você se o seu nome aparece quando não estou pensando em nada? Se ele surge entre um gole de café e outro, entre um passo e o seguinte, como uma sombra que não se explica pela luz? Eu não pensei em você — e, ainda assim, você estava ali, sentado no canto da tarde, observando meu esforço de parecer normal. Dizem que o tempo ensina. Comigo, conspirou. Fez de você um detalhe recorrente: no cheiro de chuva que antecede a noite, no jeito lento com que as coisas se quebram, na pausa entre duas frases mal ditas. Você viro...

Joga a Chave Fora

Quando Adélia jogou a chave fora, não foi por raiva. Foi por higiene. A chave estava ali, em cima da mesa da cozinha, ao lado de um limão cortado ao meio e de um copo esquecido com restos de gin aguado. A mesma mesa onde, por anos, eles dividiram cafés apressados, listas de mercado rabiscadas em guardanapos, silêncios confortáveis de domingo. Tudo parecia simbólico demais naquele instante, então Adélia empurrou o pensamento para debaixo do tapete e focou no gesto prático: pegar a chave, abrir a janela, mirar o pátio interno e tlim. Um som curto, seco, metálico. Como se algo tivesse finalmente decidido cair. Ela e Rafael já tinham rido daquela janela. Já tinham jogado ali migalhas de pão para pássaros que nunca voltaram. Já tinham ficado nus, apoiados no parapeito, inventando futuros improváveis. A chave sempre voltava para o mesmo lugar depois disso. Sempre. Rafael dizia “calma” como quem joga água num incêndio achando que é vela. Dizia “depois a gente vê”. Dizia “não é bem assi...