Entre Dois Lados de Mim
Ela colecionava horários que não usava. Não eram compromissos. Eram horas exatas que ela guardava num caderno pequeno, de capa dura, onde anotava coisas como: 16h12 — a luz bateu na parede do corredor de um jeito que parecia outro lugar. Ou 07h43 — o café esfriou antes da primeira xícara terminar. Não havia explicação para aquilo. Nem tentativa de organizar. Apenas acumulava. Ninguém sabia. Durante o dia, ela funcionava como qualquer outra pessoa que cumpre o que precisa ser feito. Respondia mensagens, atravessava ruas, pagava contas, dizia “depois eu vejo isso” como quem realmente veria. Mas havia uma atenção paralela, quase invisível, que registrava desvios mínimos — coisas que não alteravam o rumo de nada, mas também não passavam ilesas. Foi assim que começou a perceber um atraso. Não no relógio. Em si. As coisas aconteciam e, segundos depois, chegavam nela. Como se houvesse um pequeno intervalo entre o mundo e a sua compreensão. Não era distração. Era um tipo de d...