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Sentimentos Que Se Entrelaçam

Naquela rua onde as árvores pareciam inclinar os galhos umas em direção às outras, como quem compartilha segredos antigos, viviam pessoas que desconheciam o quanto habitavam a vida umas das outras. Dona Celina acordava cedo todos os dias. Regava as flores da varanda, varria a calçada e observava o movimento da rua despertar lentamente. Guardava dentro de si uma espera antiga. Não esperava alguém. Esperava sentir novamente que ainda ocupava um lugar na lembrança de alguém. Do outro lado da rua, Augusto passava as manhãs sentado em um banco da praça. Levava um livro debaixo do braço, mas raramente lia uma página inteira. Preferia observar as pessoas. Via rostos, gestos, silêncios, e imaginava as histórias que cada um carregava. Talvez porque a sua própria história ainda tivesse capítulos que ele não conseguia compreender. Mais adiante, Ana caminhava todos os dias para o trabalho. Cumprimentava os vizinhos, sorria para os conhecidos e nunca chegava atrasada. Havia, porém, uma tris...

Quando Tudo Se Torna Verdade

Houve um tempo em que Manoela acreditava que a vida acontecia primeiro na imaginação. Quando menina, inventava histórias para tudo. Dava nomes às nuvens, conversava com árvores e tinha certeza de que algumas estrelas escolhiam pessoas para acompanhar. Não porque alguém lhe tivesse contado isso, mas porque certas fantasias pareciam mais verdadeiras do que o mundo que enxergava. Com o passar dos anos, disseram-lhe que crescesse. E crescer, descobriu, significava abandonar algumas certezas invisíveis. As árvores voltaram a ser árvores. As estrelas viraram corpos celestes. As nuvens passaram a ser apenas nuvens. Ou assim lhe ensinaram. A vida seguiu seu caminho. Vieram os amores, os desencontros, as contas para pagar, os compromissos, as alegrias pequenas e as dores que ninguém vê quando passa por nós na rua. Manoela aprendeu a viver entre verdades. A verdade do relógio. A verdade dos documentos. A verdade dos exames médicos. A verdade dos adeuses. Mas havia noi...

Noite Nervosa

Quando Pedro começou a dormir virado para o lado da parede, Helena entendeu que alguma coisa dentro do casamento havia adoecido antes mesmo de os dois perceberem. Não aconteceu de uma vez. Nenhuma relação longa termina numa explosão cinematográfica, como as pessoas gostam de imaginar. O fim, quase sempre, começa em detalhes pequenos demais para receber atenção: o café esquecido sobre a mesa, os silêncios depois do jantar, a falta de assunto no carro, o hábito de responder “hum” sem realmente escutar. Helena ainda tentava salvar certas delicadezas. Comprava o pão de que ele gostava aos domingos. Lavava suas camisas separadamente porque sabia que ele implicava com tecido áspero. Às vezes, observava-o dormindo e procurava naquele rosto cansado algum vestígio do homem que atravessara cidades apenas para vê-la por vinte minutos antes de voltar ao trabalho. Mas havia noites em que Pedro parecia morar tão longe dela quanto em outro país. Naquela noite específica, a chuva batia contr...

A Lua Parecia Oceano

A lua parecia oceano. Não pela cor, nem pelo brilho. Parecia oceano porque carregava profundezas. Da janela do apartamento, Clara observava o céu. A cidade diminuía de volume à medida que a noite avançava. Um ônibus passava ao longe. Uma porta se fechava em algum lugar. Um cachorro latia sem convicção. No alto, a lua derramava sobre os telhados uma luz tão serena que as casas pareciam embarcações ancoradas num mar imóvel. Clara apoiou os braços no peitoril. Havia noites em que a saudade chegava como tempestade. Naquela, veio como maré. Devagar. Sem anúncio. Apenas chegou tomando seu espaço entre um pensamento e outro. O vento da madrugada entrou pela janela e tocou seus cabelos. Ela fechou os olhos por um instante. A memória tem seus próprios caminhos. Às vezes atravessa décadas para devolver um gesto. Às vezes escolhe uma frase qualquer e a deposita no presente como quem devolve algo perdido. Quando abriu os olhos, a lua continuava lá. Redonda. Imensa. ...

Perfuma, Dor e Saudade

O perfume da saudade não vinha de frascos caros nem de flores raras. Morava em lugares absurdamente pequenos. Num travesseiro esquecido do lado esquerdo da cama. Numa camisa antiga pendurada atrás da porta. Na toalha dobrada do jeito que ele deixava, mesmo depois de tantos meses sem voltar para buscá-la. Ela descobriu isso numa tarde silenciosa, quando abriu uma gaveta procurando pilhas novas para o controle remoto. Não encontrou as pilhas. Encontrou um lenço. E junto dele veio aquele cheiro impossível de explicar. Nem perfume masculino exatamente. Nem sabonete. Era apenas presença. A lembrança química de alguém que já havia partido, mas que ainda insistia em ocupar o ar da casa. Sentou-se no chão sem perceber. A saudade tinha dessas violências delicadas. Não gritava. Não quebrava copos. Não derrubava portas. Apenas atravessava o peito devagar, como água fria entrando por uma rachadura invisível. Lá fora, as pessoas seguiam vivendo normalmente. Ônibus passavam. Crianças corriam...

De Longe Tudo é Pequeno

  Raquel demorou para encontrar a própria casa. Do alto do morro, os telhados se confundiam numa sucessão de formas irregulares, e a rua onde passara tantos anos parecia apenas um risco atravessando a paisagem. Havia qualquer coisa de desconcertante naquela distância. Como se o mundo tivesse encolhido sem avisar ninguém. Ela continuou procurando. Ali estava a praça. Ou talvez outra parecida. Ali o prédio de janelas azuis. Ou algum vizinho dele. As referências que, vistas de perto, pareciam tão sólidas agora vacilavam diante dos olhos. Sentou-se sobre uma pedra aquecida pelo sol da tarde. O vento passava lento e suave. Lá embaixo, centenas de vidas seguiam acontecendo. Alguém preparava o jantar. Alguém voltava do trabalho. Alguém fechava uma porta acreditando que nunca mais a abriria. Alguém ria de alguma bobagem que seria esquecida antes da manhã seguinte .Alguém nascia e alguém morria. Dali de cima, ninguém parecia carregar tragédias. Ninguém parecia guardar segred...

Aquilo Que o Tempo Não Consegue Segurar

  Há quem diga que o mais importante da vida é viver o presente. Mas talvez o presente seja justamente a única coisa que nunca conseguimos alcançar completamente. Porque agora… neste exato instante… enquanto esta frase termina de ser dita… ela já pertence ao passado. O tempo não espera sequer o fim de um pensamento. Desde o momento em que me sentei diante do computador para escrever este texto, aquele instante deixou de existir. O movimento das mãos, o silêncio da casa, a luz entrando pela janela, a respiração entre uma frase e outra… tudo já ficou para trás. E talvez seja por isso que a vida humana seja feita muito mais de lembranças do que de presente. Porque o presente escapa. Sempre escapou. Tentamos segurá-lo com fotografias, vídeos, cartas antigas, objetos guardados em gavetas, perfumes esquecidos em roupas antigas… mas nada impede o tempo de seguir adiante. O instante passa. O corpo envelhece. As pessoas partem. As vozes silenciam. E o que sobra? As l...