Vento Morno
Ela chegou à janela da pequena casa ainda cedo. Abriu-a e sentiu um vento morno tocar seu rosto. Era o vento da primavera, chegando devagar, já nas primeiras horas da manhã. Por um instante, fechou os olhos. Sentiu-se abraçada. Acarinhada. Quase feliz. O vento passou pelo seu corpo e ela, sem perceber, abraçou a si mesma. Fez o movimento que tantas vezes fizera quando era envolvida pelos braços dele. Não era um abraço apertado. Era daqueles que protegiam. Quase paternal. Um abraço que dizia, sem palavras, que estava tudo bem. E ela se arrepiou. Desde que se conheceram, Paulo tinha esse jeito de cuidar dela. Um cuidado que não fazia barulho. Estava nas pequenas coisas, no modo de olhar, de perguntar se ela tinha comido, se estava com frio, se precisava de alguma coisa. Ela costumava dividir a própria vida em duas partes. AP e DP. Antes de Paulo. Depois de Paulo. Paulo tinha sido uma linha divisória. Antes dele, havia o pai. O homem do colo, do dengo, da proteção. O...