Levanta os Ombros e Segue
Levanta os ombros e segue. Ela escutou isso numa manhã comum demais para comportar qualquer milagre. A água do café ainda não tinha fervido. A casa estava naquela suspensão entre o silêncio da madrugada e o barulho do dia que começa. Levanta os ombros e segue. Ela ficou parada diante da pia. Não sabia se era delírio ou realidade. Não sabia se tinha sonhado acordada. Mas a voz estava ali — não no ouvido, não no ar — estava dentro da memória dos ossos. A voz do marido. Clara. Direta. Sem dramatização. Ele sempre dizia isso quando algo quebrava, quando o carro não pegava, quando a conta vinha mais alta, quando a vida parecia maior do que as forças. Levanta os ombros e segue. Ela encostou as mãos na borda da pia. Olhou o reflexo no vidro escuro da janela. Os ombros estavam curvados. Pesados. Como se sustentassem não só o corpo, mas o tempo inteiro que viveram juntos. Anos e anos sempre juntos. O tempo tinha dilatado naquela vida. Cresceu em risadas na cozinha, em domingos de ...