Desconstrução
Durante muitos anos, ela acreditou que uma casa era feita de paredes. Só depois entendeu que não. Uma casa era feita de ruídos: o portão abrindo no fim da tarde, a chave girando duas vezes na fechadura, o copo pousado sobre a mesa, o chuveiro ligado enquanto alguém cantava desafinado no banheiro. Era feita também das coisas que ninguém via — dos silêncios depois de uma discussão, das esperas, dos planos adiados, das pequenas concessões que, somadas, acabavam parecendo uma vida inteira. A casa deles estava sendo demolida numa terça-feira de setembro. Ela ficou do outro lado da rua, olhando. A primeira parede caiu às dez e vinte. Não sentiu nada. Ou talvez tenha sentido tudo de uma vez e, por isso, não tenha conseguido identificar coisa alguma. O homem que operava a máquina fez um gesto para o ajudante, e mais uma parte da sala desapareceu. Atrás dos tijolos, surgiu o papel de parede antigo, ainda preso em alguns pedaços. Era azul-claro. Ela quase sorriu. Tinha esco...