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Quando o Amor Traz Dor

Amor também estraga. Essa frase parece quase uma heresia, porque nos ensinaram a falar do amor como quem fala de uma coisa sagrada. Como se amar fosse sempre bonito, generoso, redentor. Não é. Às vezes, amar é uma péssima ideia. A gente entrega a alguém o lugar exato onde pode ser ferido. E ainda chama isso de confiança. Foi assim com ela. Durante muito tempo, acreditou que o pior do amor era perdê-lo. Depois descobriu que não. O pior podia ser continuar amando alguém que já não estava ali para receber aquilo. Era uma espécie de desperdício. Amor sobrando dentro de uma pessoa. Ela tinha raiva disso. Raiva das músicas que insistiam em transformar ausência em poesia. Raiva das fotografias. Raiva das lembranças que chegavam sem serem convidadas e ocupavam a mesa, a cama, o domingo. Até das coisas boas ela tinha raiva. Porque tudo podia virar prova de que aquilo existira. E existira. Esse era o problema. Não havia como apagar uma história apenas porque ela ter...

Nas Curvas da Palavra

Há pessoas que dirigem bem. Outras escrevem bem. Júlia nunca teve certeza de qual das duas coisas fazia melhor. Gostava de estradas. Não das retas intermináveis, onde a paisagem parece desistir de surpreender, mas das curvas. Curvas obrigam a diminuir a velocidade. Fazem a gente prestar atenção. Exigem respeito. Com as palavras acontecia a mesma coisa. Quando era jovem, acreditava que escrever era chegar logo ao fim da história. Cortava caminho. Explicava sentimentos. Dava respostas antes mesmo que as perguntas terminassem de nascer. O tempo lhe ensinou outra coisa. As melhores palavras eram justamente as que faziam uma pequena curva antes de chegar ao destino. Numa tarde qualquer, enquanto organizava uma gaveta antiga, encontrou um maço de cartas. Algumas tinham mais de quarenta anos. Outras nunca haviam sido enviadas. Sorriu ao perceber que conhecia perfeitamente a mulher que escrevera aquelas páginas, mas já não falava como ela. Havia exageros. Promessas eternas. C...

A Gente Se Encontra Pra Outra "Folia"

Hoje eu quis escrever para você. Não sei para onde vão as cartas que a gente escreve para quem já morreu. Talvez não cheguem a lugar nenhum. Talvez fiquem aqui mesmo, fazendo companhia para quem escreve. Não importa. Hoje eu precisava falar com você. A vida continuou. Você sabe disso, porque, de algum jeito, eu ainda conto as coisas para você. Às vezes até em pensamento, como se você estivesse aqui, sentado na sua cadeira, me ouvindo enquanto eu falo das coisas mais simples. E quando penso na nossa vida, me vem uma palavra: folia. Foi uma folia. Uma longa folia, dessas que começam sem a gente saber onde vão dar. Nós dois éramos jovens quando tudo começou. Tínhamos planos, alguns sonhos e muitas certezas que depois descobrimos que não valiam grande coisa. A vida foi nos ensinando no caminho. Vieram os filhos. E com eles vieram as noites maldormidas, as preocupações, as alegrias que não cabiam no peito, as contas, as doenças, as festas, as férias, as pequenas brigas e...

O Que Fica Quando Nada Fica

Ela acordou cedo. A casa estava quieta. Foi até a cozinha, abriu a janela e colocou água para o café. Por alguns segundos, procurou a segunda xícara no armário. Parou. Pegou apenas uma. Sentou-se à mesa. A cadeira em frente continuava no mesmo lugar. Tomou o café devagar. Na rua, o padeiro passou de carrocinha. Uma mulher caminhava com um cachorro. Um ônibus parou na esquina. Ela saiu. Caminhou pela praça. Crianças corriam atrás de uma bola. Um homem alimentava os pombos. Duas mulheres conversavam num banco. Sentou-se. O sol apareceu entre as árvores. Ficou ali até sentir calor no rosto. Depois continuou andando. Passou diante de uma loja. Viu seu reflexo no vidro. Parou. Arrumou os cabelos e seguiu. Em casa, abriu a gaveta da sala. Encontrou uma fotografia. Os dois estavam na praia. Ele sorria. Ela também. Ficou olhando por alguns instantes. Virou a fotografia. Não havia nada escrito atrás. Guardou-a novamente. À tarde, fez café. ...

A Cadeira ao Lado

Ela sempre escolhia a mesa perto da janela. Não porque gostasse especialmente daquela mesa, mas porque dali podia olhar a rua sem precisar participar dela. Pessoas passavam apressadas, algumas carregando sacolas, outras falando ao telefone, quase todas com algum destino definido. Ela gostava disso. Sentava, pedia um café pequeno e permanecia ali por algum tempo, mesmo depois de terminar. Havia dias em que levava um livro. Em outros, apenas ficava olhando o movimento. Naquela manhã, a cadeira em frente estava ocupada por uma senhora que ela nunca tinha visto. — Posso? A pergunta veio acompanhada de um gesto em direção à cadeira. Ela fez que sim. A mulher colocou sobre a mesa uma xícara de café e uma fatia de bolo. — Aqui é mais tranquilo — disse. — É. Ficaram em silêncio. Não era um silêncio desconfortável. Era desses que não exigem explicação. Depois de alguns minutos, a senhora abriu a bolsa, tirou um envelope e ficou olhando para ele. — Estou adiando isso ...

A Pretensão de Querer o Outro à Nossa Imagem

Há uma pretensão silenciosa que, às vezes, carregamos sem perceber: a de querer que o outro seja como nós gostaríamos que ele fosse. Queremos que pense como pensamos, que reaja como reagiríamos, que escolha o que escolheríamos. Queremos que tenha os nossos valores, os nossos hábitos, os nossos silêncios e até as nossas maneiras de demonstrar afeto. E, quando o outro não corresponde ao que imaginamos, nos decepcionamos. Como se ele tivesse falhado conosco. Mas talvez a falha esteja justamente aí. Que direito temos de esperar que alguém seja uma extensão daquilo que somos? Cada pessoa carrega uma história que não conhecemos inteiramente. Foi criada em outros lugares, atravessou outras dores, fez escolhas que não faríamos e aprendeu a sobreviver de maneiras que talvez nunca entenderemos. O outro não veio ao mundo para confirmar as nossas certezas. É uma espécie de pretensão achar que sabemos como alguém deveria ser. Podemos discordar. Podemos não gostar. Podemos escolher a d...

Depois de Tudo...

Havia coisas que ela já não conseguia explicar. Não era tristeza. Também não era exatamente saudade. Era uma espécie de deslocamento. Como se, depois de determinada idade, algumas certezas perdessem o direito de continuar sendo certezas. Ela percebeu isso num dia qualquer, ao preencher um formulário. Nome. Data de nascimento. Estado civil. Parou no terceiro item. Ficou olhando para aquelas duas palavras durante alguns segundos, como se fossem uma pergunta indevida. Viúva. Era uma palavra objetiva, quase administrativa. Cabia numa linha. Não dizia nada sobre os anos vividos, sobre os projetos interrompidos, sobre as brigas que terminavam em riso, sobre a intimidade de duas pessoas que aprenderam a se conhecer também pelo silêncio. Ainda assim, era a palavra correta. Assinalou-a. E continuou preenchendo o formulário. Foi somente depois que percebeu o absurdo. Durante décadas, ela havia sido tantas coisas: filha, mulher, mãe, profissional, amiga, amante, cúmp...