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O Que Não é Maleável Quebra

Há coisas que nascem com a pretensão de durar para sempre. Não por força, mas por rigidez. Como se permanecer fosse sinônimo de não ceder, de não dobrar, de não escutar o movimento do mundo. Ela pensava assim — sem dizer em voz alta, mas vivendo como quem sustenta uma linha invisível dentro do peito. Gostava das certezas bem alinhadas, das respostas prontas, dos gestos que não mudam de direção. Havia um certo conforto em saber exatamente onde colocar os pés, mesmo quando o chão já não era o mesmo. Foi assim nas relações. Amou como quem constrói uma casa de paredes muito firmes. Bonita, por fora. Segura, aparentemente. Mas sem janelas largas o suficiente para o vento entrar. Sem espaço para que o outro pudesse, às vezes, ser diferente do que se esperava. E o mundo, como sempre faz, não pediu licença. Mudou os horários, os humores, os afetos. Trouxe silêncios onde antes havia palavras. Aproximou distâncias que pareciam definitivas e afastou presenças que pareciam eternas. Nada vi...

Quarto 317

O hotel não tinha nada de memorável à primeira vista. Carpete neutro, luz amarelada nos corredores, um silêncio que parecia treinado. Era o tipo de lugar onde as pessoas chegam com malas pequenas e histórias grandes demais para carregar à mostra. Ela chegou primeiro. Não por ansiedade — ainda que houvesse — mas por hábito. Gostava de chegar antes, observar o espaço, escolher o lado da cama mesmo quando a cama não lhe pertencia. Deixou a bolsa sobre a poltrona, abriu a janela apenas o suficiente para sentir o ar da rua e depois fechou de novo, como quem testa a possibilidade de ir embora antes mesmo de ficar. Ele atrasou dezessete minutos. O suficiente para que ela pensasse em sair duas vezes e desistisse nas duas. Quando a porta finalmente se abriu, não houve surpresa — apenas um reconhecimento silencioso, como se ambos soubessem que aquele encontro não começava ali. — Você veio — ele disse, baixo, sem entusiasmo ensaiado. Ela sorriu de um jeito quase lateral, sem pressa de...

A Lentidão das Coisas Vivas

O caminho não levava exatamente a lugar nenhum que pudesse ser nomeado. Era mais um intervalo entre pontos — uma faixa de terra batida que atravessava o campo como quem aceita passar sem permanecer. Ela o percorria com frequência suficiente para que o corpo já soubesse onde pisar, mas nunca a ponto de torná-lo hábito. Havia sempre um leve estranhamento, como se o campo mudasse de intenção a cada dia. Naquela manhã, o ar ainda guardava um resto de frio. Não o frio que afasta, mas o que se infiltra devagar pelas roupas, pedindo atenção ao próprio movimento. O sol estava presente, mas não se impunha — espalhava-se em camadas finas, como quem prefere tocar do que iluminar. Ela parou antes da curva. Ali, onde a terra se abria um pouco e deixava ver a extensão irregular do terreno, havia uma árvore. Não particularmente grande, nem bonita no sentido fácil. O tronco inclinado, os galhos mais baixos carregando marcas antigas — cortes, talvez, ou apenas o desgaste de estações repetidas. ...

O Que Ficou nos Caminhos

  Não foi de repente que ela começou a procurar. Também não havia um ponto exato de partida — como se a busca tivesse nascido antes dela, e apenas a tivesse escolhido para continuar. Ela caminhava muito. Não por gosto. Por necessidade de não ficar. Havia ruas que já sabiam seu passo, vitrines que refletiam sempre a mesma figura um pouco deslocada, e bancos de praça onde o corpo pousava sem descanso. Dizia para si mesma que procurava alguém. Mas nunca soube descrever quem. Às vezes, era um rosto entrevisto no reflexo de uma janela à noite. Outras, um gesto — a forma como alguém segurava uma xícara, ou virava o rosto ao ouvir o próprio nome. Pequenos sinais que faziam o coração avançar um passo à frente do corpo. E então, nada. Ela seguiu assim por estações inteiras. Aprendeu o frio que não vem do clima, o calor que não consola. Guardava detalhes inúteis: o som de uma porta fechando ao longe, o cheiro de roupa limpa em um corredor desconhecido, a cor exata de um fim de ta...

Dois Estranhos Quase Reais

Eles se encontraram numa noite em que a casa estava silenciosa demais. Ela não buscava ninguém. Apenas clicava. Rolava a tela como quem passa os dedos numa estante de livros sem intenção de escolher. Ele escreveu primeiro — uma frase simples, quase burocrática. Mas havia um ritmo naquela frase. Um cuidado. Ela respondeu. No começo, eram horários desencontrados. Ele acordava quando ela já pensava em dormir. Ela escrevia quando ele estava no intervalo do trabalho. Eram mensagens que se cruzavam como aviões no céu noturno: não se viam, mas sabiam que o outro estava ali, em algum ponto da escuridão. Não trocaram fotos de imediato. Nem vozes. Era melhor assim. Havia uma liberdade no desconhecimento. Ele podia imaginá-la com o cabelo preso ou solto, rindo com a cabeça inclinada para trás. Ela podia inventar o timbre da voz dele — grave, talvez, ou com um riso contido no canto da frase. Falavam de coisas pequenas. Café forte demais. A chuva que demorava a chegar. Um filme antigo vis...

As Janelas Que Permanecem Acesas

O nome da cidade nunca foi o que mais importou, mas havia um rio que a atravessava com uma calma quase distraída, como se levasse consigo histórias que ninguém mais lembrava de contar. As margens tinham árvores antigas, de troncos largos e sombra fresca, e um caminho de pedras onde as pessoas passavam todos os dias sem perceber que ali também se acumulavam pequenos mundos. Catarina cresceu ali. Loira, de olhos azuis que não sabiam ficar em silêncio. Havia algo neles que parecia sempre à beira de dizer — como se as palavras se formassem antes mesmo de existir voz. Quem olhava por mais de alguns segundos tinha a sensação de que estava sendo lido, não o contrário. Ela carregava uma caneta. Não era exatamente diferente das outras, ao menos não para quem via de fora. Corpo simples, tinta comum. Mas, quando tocava o papel, alguma coisa se deslocava. Como se a ponta não escrevesse sozinha, como se abrisse pequenas passagens. Catarina escrevia sentada perto do rio, com os pés quase t...

Cordas em Desalinho

Há dias em que tudo parece fora de tom. Não é algo que se veja. Não está no corpo de maneira evidente, nem nos objetos ao redor. Mas há uma espécie de desalinho que percorre o dia — nas palavras que não encaixam, nos gestos que chegam tarde, nos silêncios que pesam mais do que deveriam. Talvez seja isso que chamam de desajuste das cordas. Gosto de imaginar que somos como um instrumento antigo, desses que atravessam gerações. Não nascemos prontos. Vamos sendo afinados pelo toque do tempo, pelas mãos que nos encontram, pelas ausências que nos atravessam. Cada encontro puxa um pouco uma corda. Cada perda afrouxa outra. E, mesmo sem perceber, vamos vibrando. Há quem diga — e não parece absurdo — que estamos ligados por fios invisíveis. Como se cada pessoa que passa por nós deixasse um pequeno nó, uma tensão, uma memória que continua vibrando mesmo depois da despedida. Não se trata de algo místico demais. É quase físico. Basta lembrar de alguém para que algo em nós se mova. Uma ...