Chuva e Lágrimas
Ela descia a Avenida Paulista no mesmo compasso em que as lágrimas banhavam seu rosto. A chuva caía fina, insistente, dessas que não assustam ninguém, mas acabam molhando tudo. Os guarda-chuvas coloridos formavam uma procissão apressada. Pessoas entravam e saíam de prédios, atravessavam ruas, falavam ao telefone, carregavam sacolas, protegiam os cabelos. Ninguém prestava atenção nela. E aquilo era um alívio. Havia dias em que a solidão pesava mais quando alguém perguntava se estava tudo bem. Os sapatos já estavam encharcados. A barra da calça colava nas pernas. Os cabelos escuros escorriam sobre os ombros como fios de tinta. Ainda assim, ela continuava andando. Passou por uma banca de jornal. Pelo cheiro de café que escapava de uma cafeteria. Pelo músico de rua que insistia em tocar um saxofone sob uma marquise estreita. A cidade seguia seu ritmo indiferente. Ela também já fora assim. Correndo de reunião em reunião, reclamando do trânsito, consultando o relógio mais v...