O Gosto Amargo Que Ficou
O gosto apareceu tarde demais para ser associado a alguma coisa concreta. Não houve cena, nem marco, nem data. Apenas um dia em que ela percebeu que tudo o que levava à boca terminava igual: com um travo curto, persistente, impossível de localizar. Pensou em remédio. Depois em estômago. Depois em idade. Nada explicava. Continuou vivendo sem comentar com ninguém. Não parecia assunto. As pessoas falavam de dores maiores, de exames, de faltas mais evidentes. Um gosto estranho não justificava interrupções. No trabalho, mastigava devagar. Evitava balas, chicletes, qualquer coisa que prometesse disfarce. Aprendeu que o amargo não gostava de ser provocado. Quanto mais tentava combatê-lo, mais ele se fixava. Havia dias em que ele quase desaparecia. Nesses dias ela se permitia uma falsa normalidade: almoçava sem atenção, bebia café em goles largos, ria no tempo certo. Bastava um descuido — um silêncio prolongado, uma espera desnecessária — e lá estava ele de novo, discreto e f...