Tente Esquecer Esses Anos
Foi numa tarde de domingo que ela pediu. Não houve discussão. Não havia ninguém chorando, nem portas batendo. Estavam sentadas na varanda, diante de duas xícaras de café, e o assunto vinha de longe, atravessando anos que nenhuma das duas tinha coragem de contar em voz alta. — Tente esquecer esses anos — disse a irmã. Ela olhou para o jardim. A roseira estava cheia de folhas, mas poucas rosas. Era assim havia algum tempo. A mãe costumava dizer que algumas plantas precisavam sofrer um pouco para voltar a florir. Ela nunca acreditou muito nessas explicações. Plantas tinham suas razões, pessoas tinham outras. — Quais anos? — perguntou. A irmã não respondeu. Talvez porque soubesse que não eram apenas aqueles anos de brigas, de silêncio, de doença, de dinheiro contado e de visitas que terminavam antes da hora. Eram também os outros. Os anos bons. Os aniversários. As viagens de carro. O pai vivo. A mãe fazendo bolo na cozinha. As crianças correndo pelo corredor. O irmão chegan...