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Todos os Dias, Outra Vez

  Acordar e não ter você é como nascer todos os dias — sem parteira, sem anúncio, sem ninguém ao lado para confirmar que é mesmo um começo. Ela já não esperava mais o milagre de abrir os olhos e encontrar o corpo dele ocupando o outro lado da cama. Ainda assim, havia um segundo — curto, quase invisível — em que o mundo hesitava. Um intervalo em que tudo podia ser como antes. Era nesse instante que ela permanecia imóvel, os olhos fechados, como quem segura a respiração para não espantar alguma presença que talvez ainda estivesse ali. Mas o quarto sempre acabava voltando a ser apenas um quarto. O lençol frio, o travesseiro sem marca, o silêncio inteiro. Levantar era outra coisa. Não tinha mais nada de automático naquele gesto. Não havia rotina que desse conta. Era escolha — dura, repetida, às vezes quase ofensa. Levantar significava aceitar que o dia viria mesmo assim, com ou sem ele, com sol atravessando a cortina ou com a chuva fina que riscava o vidro como se escrevesse ...

Antes de Voltar- ou de Não Voltar

  Não foi um lugar que a escolheu. Foi uma espécie de sossego áspero, desses que não acolhem com delicadeza, mas também não expulsam. Havia, acima das trilhas mais conhecidas, um trecho da montanha onde o vento mudava de maneira. Não cessava. Apenas perdia a pressa, como se ali até o ar entendesse que certas coisas não se atravessam sem cuidado. Entre pedras irregulares, manchas de neve antiga e um silêncio que parecia ter idade, ela costumava parar. Não era uma paisagem fácil. Nada ali oferecia conforto no sentido comum da palavra. O chão exigia atenção. As subidas castigavam os joelhos. As mãos, às vezes, precisavam tocar a rocha gelada para que o corpo encontrasse equilíbrio. Quem subia até aquele ponto não ia por distração. Era preciso querer. Ou então já não saber muito bem para onde ir e, por isso mesmo, continuar. Ela subia. Nem sempre no mesmo dia da semana, nem sempre à mesma hora. Subia quando o mundo de baixo lhe apertava as costelas com sua soma de ruídos, o...

Antes de ser Nome Ela era Neve

Nas manhãs em que o mundo ainda não havia decidido o que seria, ela já estava de pé. Não por disciplina, nem por pressa — mas porque a neve chamava. E havia um tipo de chamado que não se ignora, apenas se escuta com o corpo inteiro. A casa onde vivia parecia ter nascido ali por engano e permanecido por teimosia. Pequena, de madeira escurecida, com o telhado sempre um pouco mais branco do que o restante da paisagem, como se quisesse se misturar ao que não era feito de gente. As janelas raramente estavam completamente fechadas. O frio entrava sem pedir licença, mas ela nunca o tratou como invasor. Havia aprendido cedo que o frio não fere quem não luta contra ele. Caminhava pela neve com uma calma que não era lentidão, era entendimento. Cada passo afundava e desaparecia, mas ela não olhava para trás. Sabia que a montanha não guarda rastros — apenas aceita presenças. Os cabelos, quase sempre soltos, acumulavam pequenos cristais de gelo que não derretiam de imediato. Às vezes, par...

Ranhuras do que Permanece

  Nada se repete — nem quando parece. Há uma tendência em tratar as coisas como se voltassem ao lugar exato de antes. Como se houvesse um ponto fixo esperando pacientemente por nós. Não há. O que existe é uma aproximação, às vezes bem feita, às vezes torta, quase sempre silenciosa. O vaso caiu numa manhã qualquer. Não houve dramatização, nem gesto largo. Caiu como caem certas coisas: por um descuido mínimo, uma distração que ninguém consegue nomear depois. O som foi seco, breve, e terminou rápido demais para caber arrependimento. Juntar os cacos não foi difícil. Difícil foi reconhecer cada pedaço como parte de algo que já não existia inteiro. Havia bordas que não encaixavam mais com a precisão de antes, pequenas falhas que exigiam um pouco de insistência, outras que pediam desistência imediata. Nem tudo voltou. Nem tudo quis voltar. Ainda assim, colado, ele permaneceu vaso. Não o mesmo — isso fica evidente quando a luz bate de lado e revela as linhas finas atravessando a ...

Morte Seguida de Breve Alívio

  Não foi um acontecimento, exatamente. Foi mais como quando o vento muda sem avisar — e, de repente, as cortinas deixam de inflar. Naquela casa, havia muito tempo que o ar parecia gasto. Não por falta de janelas, mas por excesso de permanência. Tudo ficava. O cheiro do café da manhã de ontem, a cadeira ligeiramente torta, a marca de um copo esquecido na mesa. Havia também um silêncio antigo, desses que não começam nem terminam — apenas se instalam. Ela caminhava pelos cômodos como quem não quer acordar nada nem ninguém, apesar de viver sozinha. Os objetos já não pediam uso. Apenas existiam. E existir, ali dentro, tinha um peso específico, quase sólido. Era preciso atravessar o ar com cuidado, como se cada gesto pudesse esbarrar em alguma coisa invisível. Às vezes, ela parava no meio do caminho — entre a sala e o corredor — sem lembrar exatamente por que tinha saído de um lugar para chegar ao outro. Não era esquecimento. Era uma espécie de suspensão. Como se o tempo, al...

As Águas de Março e o Que Fica

As águas de março sempre chegam como quem sabe o caminho. Não pedem licença — apenas caem, escorrem, atravessam os dias e vão fechando o verão com uma espécie de despedida bonita, dessas que não fazem barulho, mas deixam tudo diferente. Eu aprendi a olhar para esse tempo como quem abre uma caixa antiga. Não qualquer caixa — uma dessas guardadas com cuidado, onde a gente coloca o que não pode perder. Um porta-joias da vida. Porque março, para mim, não é só chuva. É encontro. É quando percebo, com mais nitidez, quantas vidas caminham junto comigo. Filho. Filha. Amigo. Neta. Irmã. Nomes que não são apenas nomes — são presenças. São pequenos brilhos que, de tão habituais, às vezes a gente esquece de olhar com o devido espanto. E então chove. E é como se cada gota lembrasse: olha bem o que você tem. No meio desse cair manso, quase consigo ouvir — como um fundo antigo de rádio — “É pau, é pedra, é o fim do caminho…” e tudo parece fazer sentido dentro dessa mistura de co...

As Músicas Que Ficaram Sem Ele

Depois que ele morreu, a casa ficou sem som. Não foi decisão. Foi acontecendo. O rádio permaneceu desligado. A televisão muda. Até os ruídos pequenos — o arrastar de uma cadeira, o abrir de uma gaveta — pareciam exagerados dentro daquele espaço. Ela passou a se mover com cuidado, como se qualquer barulho pudesse quebrar alguma coisa que ainda restava. Mas o silêncio cresceu. Entrava pelos cantos, ficava mais tempo do que devia, acompanhava até os gestos mais simples. Havia momentos em que ele parecia maior do que a própria casa. Foi por isso que, um dia, ela ligou o som. Sem escolher muito. Sem procurar uma música específica. Apenas ligou. E deixou. A canção que veio não tinha nada de especial. Era uma dessas que já tinham passado tantas vezes que ninguém mais prestava atenção. Mas ela prestou. Sentou. Ficou. Antes, quando uma música começava, ele parava. Não importava o que estivesse fazendo. Havia um instante em que ele se entregava — inclinava a cabeça,...