Aquela Parte da Vida Que Não Volta
Não começou com uma lembrança. Começou com um erro pequeno — desses que não pedem atenção. Ela abriu a gaveta errada. Dentro, não estavam os talheres. Nem as contas atrasadas. Nem os remédios organizados por dia da semana. Havia uma meia só, um ingresso dobrado, uma chave que não servia mais para porta alguma e um cheiro muito específico — não de coisa guardada, mas de coisa interrompida. Fechou a gaveta com cuidado, como se pudesse acordar alguém ali dentro. Naquela manhã, tudo parecia deslocado alguns centímetros. A mesa, o barulho da rua, até o próprio corpo, como se tivesse sido colocado de volta no lugar com leve imprecisão. Caminhou pela casa testando os objetos com a ponta dos dedos — a cadeira firme, o vidro frio, a borda conhecida da pia. Nada cedia. Era só ela que não encaixava. Foi então que percebeu: havia uma parte da vida que não estava mais disponível. Não ausente como quem sai de viagem, mas retirada — como uma página arrancada de um livro que continua sendo ...