A Mulher de Preto
A estrada de chão dividia os campos como uma cicatriz antiga. De um lado, eucaliptos altos conversavam com o vento; do outro, o capim balançava em ondas compridas, escondendo pedras, ninhos e pequenos silêncios. Quando a tarde começava a perder a cor, uma névoa fina descia das baixadas e transformava tudo em contorno. Era ali que ela surgia. Vestia um longo vestido preto, sem rendas, sem brilho, como se tivesse sido costurado com a própria sombra da noite. O tecido descia reto até cobrir os pés. Sobre os ombros repousava um xale escuro, sempre imóvel, mesmo quando o vento sacudia as árvores. Era alta. Muito alta. Os cabelos, grisalhos em algumas mechas e negros em outras, permaneciam presos num coque simples. O rosto era fino, de pele muito clara, quase translúcida. As maçãs do rosto eram marcadas e os olhos, grandes, possuíam um tom impossível de definir. À distância pareciam negros; quando alguém se aproximava, lembravam o cinza das tempestades. As mãos chamavam atenção. Lo...