Os Ouvidos Que Não Queriam Escutar
Foi numa terça-feira que ela percebeu. O marido falou alguma coisa durante o café, mas ela não ouviu. Não era novidade. Às vezes ele falava baixo, distraído, enquanto lia o jornal. Ela pediu: — O quê? Ele repetiu. Nada. Ela olhou para ele. Os lábios se mexiam, mas nenhum som chegava. — Acho que estou ficando surda. Ele riu. — Só quando interessa. Ela também riu. Naquele dia, porém, os ouvidos continuaram estranhos. Na rua, escutava perfeitamente o barulho dos carros, o salto de uma mulher batendo na calçada, o vento mexendo nas árvores. Ouvia até o cachorro do apartamento ao lado, que latia duas vezes antes de começar a chorar. Mas não ouvia algumas pessoas. A vizinha do terceiro andar dizia bom-dia e ela via sua boca se mexer sem ouvir uma palavra. O telefone tocava. Ela atendia. A pessoa do outro lado falava, mas havia apenas silêncio. Depois desligava. Curiosamente, algumas vozes continuavam chegando. O padeiro. A moça do caixa do superm...