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SOU BRASILEIRA E SOU COLORADA

Sou brasileira e sou colorada. Gosto da bandeira do meu país, do vermelho da camiseta do Internacional, de música, de livros e de palavras. Gosto de tudo aquilo que desperta sentimentos, provoca lembranças e nos faz sentir parte de alguma coisa. Nunca imaginei que, um dia, gostar de determinadas cores pudesse exigir explicações. Tenho pensado nisso ultimamente. Não me lembro de ter visto tanta gente se desentendendo por causa de política. Ou talvez eu não prestasse tanta atenção. O fato é que hoje parece que precisamos descobrir de que lado uma pessoa está antes mesmo de ouvir o que ela tem a dizer. Direita ou esquerda? Qual partido? Em quem vota? Até as palavras parecem estar sendo examinadas. Algumas são pronunciadas e imediatamente classificadas. Outras despertam desconfiança, dependendo de quem as utiliza. E eu me pergunto: desde quando as palavras passaram a ter dono? As palavras estão nos dicionários, nos livros, nas conversas, nas canções e nos poemas. São instrumentos d...

Ela Sabia o Que Fazer

  Ela sabia o que fazer. Sempre soubera. Quando alguma coisa saía do lugar, procurava entender, organizar, encontrar uma saída. Não costumava esperar que a vida resolvesse por ela. Naquela manhã, porém, ficou parada diante da mesa da cozinha, com a xícara de café entre as mãos. Havia uma decisão a tomar, nada que parecesse importante aos olhos dos outros. Para ela, no entanto, pesava mais do que deveria. Olhou pela janela. Uma mulher caminhava apressada, segurando a mão de uma criança. O vento levantava as folhas da calçada, e alguém, no prédio ao lado, regava as plantas. A vida tinha essa maneira de continuar ocupando todos os espaços, mesmo aqueles que a gente gostaria de manter suspensos por algum tempo. Ela conhecia os argumentos a favor e contra. Já tinha pensado em todas as possibilidades, imaginado as consequências, consultado a própria experiência. Faltava apenas agir. Era estranho perceber que a razão podia estar tão convencida enquanto alguma coisa dentro dela c...

Vivendo Em Sonhos Aleatórios

  Tenho sonhado com coisas que não fazem sentido quando acordo. Lugares onde nunca estive, pessoas que não sei de onde vieram, conversas que parecem importantes enquanto duram e que desaparecem quase por inteiro quando abro os olhos. Às vezes, sonho que estou viajando. Levo uma bolsa pequena, caminho por ruas desconhecidas e tenho a impressão de que alguém me espera em algum lugar. Não sei quem é, nem onde devo chegar. Sigo andando, tranquila, com aquela estranha certeza que só os sonhos conseguem oferecer. Em outras noites, volto a casas antigas. Algumas existem apenas na minha memória. Outras parecem ter sido inventadas durante o sono. Abro portas, mexo em gavetas, encontro fotografias sem rostos e objetos que reconheço sem nunca os ter visto. Há sempre alguma coisa familiar naquele desconhecido. O mais curioso é que, dentro dos sonhos, não costumo fazer perguntas. Aceito que uma rua termine dentro de um quarto, que o mar apareça atrás de uma janela ou que alguém distante...

Eu Quero Crer

Não sei exatamente quando comecei a conversar com a ausência. Talvez tenha sido numa manhã qualquer, diante de duas xícaras de café, quando percebi que uma delas já não precisava ser colocada sobre a mesa. A casa continuava a mesma. Os móveis, os quadros, os objetos que escolhemos juntos ao longo de tantos anos. Até o silêncio parecia conhecer os nossos hábitos. Mas havia alguma coisa diferente no ar, uma espécie de espera que não terminava. Passei boa parte da vida confiando na ciência. Sou bióloga, aprendi sobre a vida, sobre as transformações da matéria, sobre os ciclos que começam e acabam. Sei que o corpo tem seus limites, que a morte faz parte da existência. Sei tudo isso. Ou penso que sei. Porque uma coisa é estudar a morte. Outra, muito diferente, é segurar nos braços a pessoa com quem dividimos quase cinquenta anos e compreender que aquele corpo amado já não responde ao nosso toque. Naquele momento, nenhum conhecimento me preparou. Os dias passaram. As pessoas vo...

O homem Que Garimpava Pensamentos

Ele garimpou a sua mente como homens garimpam o ouro. Não tinha pressa. Sabia que as coisas de maior valor raramente ficam expostas à luz do dia. Ela estava acostumada a conversar sem entregar muito. Tinha respostas para quase tudo, opiniões bem construídas, histórias que contava com graça e outras que preferia guardar. Aprendera, ao longo da vida, que nem toda curiosidade merece uma confidência. Ele parecia saber disso. Não fazia perguntas em sequência, tampouco insistia quando ela mudava de assunto. Escutava. Às vezes, ficava quieto por tanto tempo que ela chegava a pensar que havia perdido o interesse. Mas, dias depois, ele retomava uma frase esquecida no meio de uma conversa, lembrava um detalhe que ela própria já não considerava importante, e alguma coisa dentro dela se deslocava. Como aquele episódio da infância, por exemplo. Ela o havia contado entre uma xícara de café e outra, sem qualquer intenção de revelar o que ainda doía. Ele não comentou na hora. Meses depois, q...

A Visita

Naquele dia em especial, Flora se fez bonita. Não havia festa marcada, convite sobre a mesa, nem qualquer compromisso que justificasse aquele cuidado diante do espelho. Mesmo assim, naquela manhã, ela quis. Tomou banho com calma, passou creme no corpo e escolheu um perfume que há muito tempo permanecia esquecido no fundo da gaveta. Sentou-se diante do espelho. Pegou o batom vermelho. Passou devagar sobre os lábios. O vermelho fazia aparecer um pouco mais as pequenas rugas ao redor da boca. Flora aproximou o rosto do espelho e ficou olhando. Não tentou escondê-las. Depois escolheu uma sombra azul-clara e passou sobre as pálpebras. Um pouco de blush rosado nas faces. Olhou novamente. Gostou. Havia muito tempo não se arrumava daquele jeito. A rotina tinha feito com que maquiagem, perfume e vestidos bonitos fossem ficando para depois. Depois de quê, ela já nem sabia. Naquela manhã, resolveu não deixar para depois. Arrumou o cabelo num coque banana. Soltou uma me...

E Assim, Meu Anjo Voltou

  Ele já tinha estado ali. Por muito tempo, fez morada em mim sem que eu precisasse perguntar de onde vinha. Estava no coração, no espírito, na alma, naquele lugar que não se explica e onde algumas presenças parecem pertencer desde sempre. Depois, um dia, foi embora. Não sei exatamente quando, mas desconfio porque... Talvez tenha saído devagar, enquanto eu estava ocupada demais tentando entender outras coisas. Talvez tenha levado consigo uma parte da luz que havia dentro de mim. Só percebi sua ausência quando aquele espaço começou a parecer grande demais. Fiquei com o vazio. E com a lembrança de que, um dia, ele estivera ali. Não houve despedida. Nenhuma porta bateu. Nenhum sinal avisou que era hora de partir. Apenas ficou o silêncio. Durante algum tempo, pensei que meu anjo não voltaria. Mas certas ausências não significam partida definitiva. Um dia, quase sem perceber, senti alguma coisa diferente. Não era ainda a presença inteira. Era apenas uma pequena...