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Como é o Cheiro Daí..

  Ela nunca acreditou que a memória morasse apenas nas fotografias. As fotografias guardavam rostos, roupas, lugares. Mas havia lembranças que escolhiam outros endereços. Os cheiros, por exemplo. Bastava passar por alguém usando um perfume parecido para que   uma tarde inteira voltasse no tempo. O banco de uma praça. Um casaco esquecido sobre a cadeira. Um abraço dado às pressas porque havia um trem para pegar, um voo, uma vida chamando. Foi numa dessas tardes comuns que a música tocou baixinho no rádio. "Como é o cheiro daí? O seu eu não esqueci." Ela sorriu antes mesmo de perceber que os olhos estavam úmidos. Nunca tinha pensado que a saudade pudesse ter cheiro. Sempre imaginara que ela morasse nas palavras, nas fotografias amareladas, nas cartas guardadas dentro de livros. Mas não. A saudade era mais esperta. Escondia-se onde ninguém conseguia prender. No travesseiro recém-trocado. Na camisa esquecida atrás da porta. No café passado bem cedo. Na terra...

AS Bruxas e a Convenção do Tempo

Dizem que as bruxas se reúnem uma vez por século. Não numa noite específica, nem sob uma lua determinada. Elas simplesmente aparecem quando o mundo anda levando o relógio a sério demais. O lugar da convenção nunca é o mesmo. Há quem diga que acontece numa floresta. Outros juram que é numa biblioteca esquecida. Eu prefiro acreditar que seja numa casa antiga, dessas com varanda de madeira, chaleira sempre no fogo e janelas abertas para um jardim onde o alecrim cresce sem ninguém plantar. Naquela manhã, chegaram aos poucos. Uma vinha trazendo o cheiro de maresia preso ao vestido. Outra trazia folhas secas nos cabelos. Havia uma que parecia muito jovem e outra tão velha que ninguém saberia dizer sua idade. Talvez porque nenhuma delas tivesse idade. Ou talvez porque esse assunto jamais tivesse interessado às bruxas. Cumprimentaram-se como velhas amigas. — Como vai? — Muito bem. Faz apenas uns quarenta anos que não nos vemos. Responderam com naturalidade, como quem diz "at...

O Cérebro Aprende Caminhos

  Há alguns anos, a ciência começou a falar com mais clareza sobre a plasticidade do cérebro. Um nome complicado para uma ideia bastante simples: o cérebro muda. Ele cria novos caminhos, fortalece aqueles que usamos com frequência e vai se adaptando ao modo como vivemos, pensamos e sentimos. É como uma estrada de terra. Quanto mais carros passam por ela, mais marcada ela fica. Depois de algum tempo, quase ninguém pensa em abrir outro caminho. Todos seguem pelos mesmos sulcos. Com o cérebro acontece algo parecido. Se, todos os dias, alimentamos apenas a dor, a perda, a preocupação ou a solidão, não é que esses sentimentos sejam inventados. Eles existem, são legítimos. Mas o cérebro vai aprendendo que esse é o lugar para onde deve voltar. Ele passa a reconhecer esse território como familiar. E aquilo que era um sentimento começa, pouco a pouco, a ocupar espaço demais. É por isso que duas pessoas vivendo situações semelhantes podem reagir de maneiras tão diferentes. Não porque...

Olhos Verdes

Havia um tempo em que as pessoas comentavam sobre os olhos dela. Não eram apenas verdes. Eram vivos. Tinham o verde das folhas depois da chuva, das uvas ainda no pé, das águas rasas onde o sol consegue tocar o fundo. Quem conversava com ela tinha a impressão de que aqueles olhos sorriam antes da boca. Ela nunca deu importância a isso. Achava exagero. Os anos passaram carregando o que os anos sempre carregam. Vieram os filhos, o trabalho, as preocupações pequenas que ocupam dias inteiros e as grandes que ocupam noites. Vieram as despedidas. Algumas discretas, outras capazes de dividir a vida em antes e depois. Sem perceber, deixou de olhar demoradamente para as pessoas. Olhava para os relógios, para as contas, para o celular, para o chão. Continuava enxergando tudo, mas já não demorava o olhar em nada. Certa manhã, enquanto esperava sua vez no consultório, uma menina sentou-se ao seu lado. Devia ter uns seis anos. Observou-a por alguns segundos e perguntou, com a sinceridade...

Feito Água Enfrentando Pedra

  Há quem imagine que a força faz barulho. Que chega batendo portas, levantando a voz, impondo presença. Mas a natureza nunca pareceu pensar assim. Basta olhar um rio. Ele não discute com a pedra. Não a desafia. Não tenta vencê-la de uma vez. Apenas continua. Lúcia demorou muitos anos para entender esse movimento. Durante boa parte da vida acreditou que viver era enfrentar tudo de frente, sem recuar um passo. Brigou pelo casamento, pelos filhos, pelo trabalho, pelos pais doentes. Defendia o que amava com unhas e dentes. Ceder, para ela, tinha gosto de derrota. Até aparecer uma pedra grande demais. Não havia argumento, coragem ou insistência que fosse capaz de tirá-la do caminho. Nos primeiros tempos, fez o que sempre soubera fazer: insistiu. Bateu contra aquela realidade até perder as forças. Quanto mais tentava mudar o que não dependia dela, mais se machucava. Com o passar dos meses, algumas atitudes foram mudando, quase sem que percebesse. Parou de empurrar ...

O Nome Que Faltava

A primeira palavra desapareceu numa terça-feira de chuva fina, dessas que deixam a cidade inteira com cheiro de pano úmido e café recém-passado. Helena percebeu por que o livro aberto sobre a mesa parecia ter engolido um pedaço da frase. “Ele a olhou como quem ______ pela última vez.” Ela piscou. Pensou que fosse cansaço. Aproximou os óculos do rosto, limpou as lentes na barra do casaco, voltou a ler. Nada. O espaço permanecia ali, branco e quieto, como um dente arrancado. Passou os dedos pela página. Procurou a palavra na memória. Sabia que existia uma palavra exata para aquilo. Uma palavra antiga, usada demais, talvez até desgastada. Ainda assim necessária. Mas não vinha. Tentou outra frase. “Minha mãe sempre dizia que ninguém morre enquanto for ______.” Vazio. Abriu um dicionário. As páginas estavam intactas, exceto por pequenas ausências que começavam a aparecer como ferrugem invisível. Verbos inteiros haviam sumido. Substantivos delicados tinham deixado apena...

Saiu à Francesa

Há pessoas que atravessam a vida fazendo   muito barulho. Outras, não. Trabalham, constroem, amam, erram, recomeçam e, quando se vão, deixam um silêncio que pesa mais do que qualquer discurso. Alberto era assim. Começou pequeno. O primeiro escritório cabia numa sala emprestada, os primeiros sonhos, num bolso apertado. Trabalhou mais horas do que contou, perdeu noites, ganhou respeito. Nunca fez questão de ser o homem mais conhecido da cidade; preferia ser aquele em quem se podia confiar. A empresa cresceu. Vieram funcionários, clientes, viagens, contratos. Vieram também as contas, as preocupações e as alegrias miúdas que só quem constrói conhece. Em casa, criou os filhos sem manual. Ensinou mais pelo exemplo do que pelas palavras. Mostrou que compromisso não se anuncia, se cumpre. Nunca foi de falar de si. Quando elogiavam seu sucesso, desviava a conversa. Achava que a vida seguia em frente rápido demais para perder tempo admirando o próprio caminho. Envelheceu sem perc...