Saudades e Bilhetes Perdidos
Não era falta de alguém. Era a ausência exata dele — com o peso do nome, do jeito, das pequenas manias que não se substituem. Ela descobriu isso aos poucos, enquanto a casa ainda insistia em parecer inteira. No primeiro dia, escreveu um bilhete curto e deixou sobre a mesa da cozinha, preso sob o copo que ele costumava usar. “Voltei mais cedo hoje.” A frase não fazia sentido sozinha, mas fazia sentido para quem conhecia a rotina interrompida. Para quem saberia que, naquele dia, ela tinha inventado um motivo qualquer para não ficar mais tempo fora. No segundo dia, deixou outro, dobrado ao meio, apoiado no braço da poltrona. “Comprei aquele pão que você gosta.” Não comprou. Escreveu como se tivesse. Como se a escrita pudesse antecipar a realidade, ou talvez corrigir o que já não podia ser corrigido. Os bilhetes começaram a se espalhar pela casa com uma disciplina silenciosa. Na beira da pia, ao lado do espelho, entre as páginas de um livro que ele nunca terminou. Ela escre...