A Cor dos Dias Comuns
Dona Celina nunca tinha atravessado oceanos, escalado montanhas ou vivido grandes aventuras. Aos setenta e três anos, sua vida cabia em uma casa simples de esquina, duas roseiras na frente e uma rotina que se repetia há tanto tempo que os dias pareciam feitos da mesma matéria. Acordava às seis. Colocava água para o café. Abria a janela da cozinha. Cumprimentava o sol quando ele aparecia e a chuva quando era ela quem chegava primeiro. Depois, alimentava os passarinhos. Era uma vida tão comum que ninguém escreveria um livro sobre ela. Ou pelo menos era o que Celina pensava. Naquela manhã de terça-feira, enquanto organizava uma gaveta, encontrou uma fotografia antiga. Estava amarelada pelo tempo. Na imagem, ela aparecia ao lado do marido, Augusto, diante da primeira casa que haviam comprado. A casa era pequena. Os dois eram jovens. E sorriam como quem acreditava que o mundo inteiro cabia dentro de um abraço. Celina sentou-se à mesa e ficou olhando para a foto. Augu...