Aquela Coisa Estranha
Havia uma coisa estranha acontecendo naquela casa. Ninguém sabia explicar direito, mas, de uns tempos para cá, os objetos pareciam ter adquirido vontade própria. A xícara preferida aparecia sempre no lugar errado. O relógio atrasava justamente nos dias em que alguém tinha pressa. As flores duravam mais do que o esperado, e a cadeira da varanda rangia mesmo quando ninguém estava sentado. A princípio, atribuíram tudo à idade da casa. Casas antigas têm dessas coisas, assumem vida, disseram. Mas havia algo mais. Certa manhã, a mulher encontrou sobre a mesa um bilhete escrito com sua própria letra: — Não esqueça de viver hoje. Ficou olhando para o papel. Não se lembrava de tê-lo escrito. Tampouco reconhecia a intenção daquelas palavras, embora a caligrafia fosse inconfundível. Guardou o bilhete na gaveta e foi cuidar da vida. Na rua, um desconhecido sorriu para ela. No mercado, uma criança derrubou uma maçã e os dois riram da mesma maneira. Mais tarde, um passarinho entrou...