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A Lista das Criaturas

Um dia aprendemos que a vida tem três movimentos. Nascer. Viver. Morrer. Aprendemos isso tão cedo que parece uma informação simples, dessas que cabem numa frase de livro escolar. Mas, quando crescemos, descobrimos que não é uma regra feita para nós. É para tudo que vive. Uma árvore nasce de uma semente, cresce, enfrenta o sol, a chuva, o frio, produz flores ou frutos e, um dia, deixa de existir. Um pássaro nasce, aprende a voar, procura alimento, encontra outro pássaro, constrói um ninho. Vive o tempo que lhe foi dado. Uma formiga passa a vida inteira carregando coisas que, para nós, parecem insignificantes. Um cachorro envelhece ao nosso lado. Uma flor abre pela manhã e pode não estar mais ali alguns dias depois. E nós também. A diferença é que recebemos uma coisa que nenhum de nós sabe muito bem o que fazer com ela: a capacidade de pensar sobre tudo isso. Pensamos sobre a vida enquanto estamos vivos. Pensamos sobre a morte enquanto ela ainda não chegou. Guardamo...

A Donzela e o Pirilampo

A donzela tinha medo do escuro. Não era um medo que confessasse. Durante o dia, parecia uma mulher como outra qualquer. Trabalhava, conversava, ria das histórias das amigas e caminhava pelo jardim quando havia sol. Mas bastava a noite chegar. Fechava as janelas, conferia a porta duas vezes e deixava uma vela acesa ao lado da cama. Foi numa dessas noites que viu o pirilampo. Uma pequena luz apareceu perto da janela, apagou-se e voltou a acender. A donzela ficou olhando. Abriu a janela. O pirilampo deu uma volta no quarto e saiu novamente para o jardim. Ela não o seguiu. Na noite seguinte, ele voltou. E na outra também. Até que, certa noite, a luz apareceu mais longe, perto do velho caramanchão. A donzela olhou para a porta. Depois para o jardim. Vestiu um casaco, calçou os sapatos e saiu. Parou na soleira. O coração batia depressa. O jardim era o mesmo de todos os dias. Só que, à noite, as árvores pareciam maiores, os caminhos mais compridos e qualq...

Vento Morno

Ela chegou à janela da pequena casa ainda cedo. Abriu-a e sentiu um vento morno tocar seu rosto. Era o vento da primavera, chegando devagar, já nas primeiras horas da manhã. Por um instante, fechou os olhos. Sentiu-se abraçada. Acarinhada. Quase feliz. O vento passou pelo seu corpo e ela, sem perceber, abraçou a si mesma. Fez o movimento que tantas vezes fizera quando era envolvida pelos braços dele. Não era um abraço apertado. Era daqueles que protegiam. Quase paternal. Um abraço que dizia, sem palavras, que estava tudo bem. E ela se arrepiou. Desde que se conheceram, Paulo tinha esse jeito de cuidar dela. Um cuidado que não fazia barulho. Estava nas pequenas coisas, no modo de olhar, de perguntar se ela tinha comido, se estava com frio, se precisava de alguma coisa. Ela costumava dividir a própria vida em duas partes. AP e DP. Antes de Paulo. Depois de Paulo. Paulo tinha sido uma linha divisória. Antes dele, havia o pai. O homem do colo, do dengo, da proteção. O...

Muito Além de Rótulos

Detesto rótulos. Talvez porque nunca tenha conseguido caber direito em nenhum deles. Separado. Solteiro. Casado. Viúvo. Divorciado. Gordo. Magro. Bonito. Feio. Rico. Pobre. Bem-sucedido. Fracassado. Forte. Fraco. Alegre. Triste. Como se uma palavra pudesse dar conta de uma pessoa inteira. Basta alguém dizer que está separado e imediatamente aparecem as perguntas que ninguém fez: há quanto tempo? Por quê? Foi traição? Quem deixou quem? Está sozinho? Já encontrou outra pessoa? Se diz que é solteiro, logo vem a curiosidade sobre a idade, os namoros, a falta de compromisso. Casado parece ser um estado civil, mas quase nunca é apenas isso. Há casamentos felizes, outros suportados, outros que existem apenas no papel e outros que continuam vivos mesmo depois de uma separação. E há quem tenha perdido o marido ou a mulher e descubra que existe ainda outro rótulo para carregar: viúvo. Uma palavra curta para uma ausência enorme. Também não entendo os rótulos que damo...

Entre Lençóis

A noite havia chegado devagar, como se também soubesse que algumas coisas não deveriam ser apressadas. No quarto, apenas a luz amarelada do abajur atravessava a penumbra. A janela permanecia entreaberta, deixando entrar o perfume úmido da noite e um vento leve que fazia a cortina se mover. Ela estava deitada, coberta até a cintura pelo lençol branco. Não dormia. Ele entrou sem fazer barulho. Por alguns segundos, ficaram apenas se olhando. Havia naquele silêncio tudo o que já tinham dito e, sobretudo, aquilo que nunca precisaram dizer. Ele se aproximou da cama. — Ainda acordada? Ela sorriu. — Estava esperando você. Ele sentou-se ao lado dela e passou os dedos lentamente por seus cabelos. Um gesto simples, quase inocente, mas que fez seu corpo inteiro se lembrar de outras noites, de outros abraços, de uma intimidade que o tempo não havia conseguido apagar. Ela segurou sua mão e a levou aos lábios. Foi quando ele percebeu que ainda a desejava com a mesma intensidad...

Tente Esquecer Esses Anos

Foi numa tarde de domingo que ela pediu. Não houve discussão. Não havia ninguém chorando, nem portas batendo. Estavam sentadas na varanda, diante de duas xícaras de café, e o assunto vinha de longe, atravessando anos que nenhuma das duas tinha coragem de contar em voz alta. — Tente esquecer esses anos — disse a irmã. Ela olhou para o jardim. A roseira estava cheia de folhas, mas poucas rosas. Era assim havia algum tempo. A mãe costumava dizer que algumas plantas precisavam sofrer um pouco para voltar a florir. Ela nunca acreditou muito nessas explicações. Plantas tinham suas razões, pessoas tinham outras. — Quais anos? — perguntou. A irmã não respondeu. Talvez porque soubesse que não eram apenas aqueles anos de brigas, de silêncio, de doença, de dinheiro contado e de visitas que terminavam antes da hora. Eram também os outros. Os anos bons. Os aniversários. As viagens de carro. O pai vivo. A mãe fazendo bolo na cozinha. As crianças correndo pelo corredor. O irmão chegan...

Quando és Tua Própria Salvação

  Naquela manhã, ela acordou antes do despertador. Ficou alguns minutos olhando para o teto, sem vontade de levantar e sem conseguir voltar a dormir. A casa estava silenciosa. Na cozinha, havia uma xícara esquecida na pia desde a noite anterior e, sobre a mesa, um papel com duas coisas escritas: pagar a conta de luz e ligar para o banco. Era pouco. Naquele momento, parecia muito. Levantou devagar, abriu a janela e deixou entrar o ar frio da manhã. Fez café para uma pessoa. Durante anos, tinha feito café para duas. Ainda demorava alguns segundos para lembrar que não precisava mais colocar a segunda xícara. Sentou-se à mesa. O telefone tocou. Ela olhou, mas não atendeu. Sabia quem era. Sabia também o que ouviria: perguntas, conselhos, preocupação. Não estava com disposição para explicar como tinha passado a noite. Depois de alguns minutos, o telefone parou. Ela terminou o café, lavou a xícara e foi tomar banho. Vestiu uma calça antiga, uma blusa azul e penteou...