Todos os Dias, Outra Vez
Acordar e não ter você é como nascer todos os dias — sem parteira, sem anúncio, sem ninguém ao lado para confirmar que é mesmo um começo. Ela já não esperava mais o milagre de abrir os olhos e encontrar o corpo dele ocupando o outro lado da cama. Ainda assim, havia um segundo — curto, quase invisível — em que o mundo hesitava. Um intervalo em que tudo podia ser como antes. Era nesse instante que ela permanecia imóvel, os olhos fechados, como quem segura a respiração para não espantar alguma presença que talvez ainda estivesse ali. Mas o quarto sempre acabava voltando a ser apenas um quarto. O lençol frio, o travesseiro sem marca, o silêncio inteiro. Levantar era outra coisa. Não tinha mais nada de automático naquele gesto. Não havia rotina que desse conta. Era escolha — dura, repetida, às vezes quase ofensa. Levantar significava aceitar que o dia viria mesmo assim, com ou sem ele, com sol atravessando a cortina ou com a chuva fina que riscava o vidro como se escrevesse ...