O Luto Tinha Barulho de Chaves...
O Luto Tinha Barulho de Chaves... Não de portas abrindo. Nem de chegadas. Era o som pequeno de metal se encostando dentro de uma gaveta, de um bolso, de uma bolsa esquecida sobre a cadeira da cozinha. Um ruído quase sem importância, mas que fazia o peito dela se comportar como vidro fino dentro de água fervendo. Depois da morte dele, a casa começou a falar por ferragens. As chaves da garagem. As chaves do portão. As chaves que ele carregava penduradas numa argola velha, pesada demais para tão poucas portas. Durante anos, ela reclamara daquele barulho. — Precisa carregar o prédio inteiro contigo? Ele ria. Sempre ria antes de espalhar o som metálico pela casa como quem anunciava chuva no telhado. Agora o silêncio parecia um animal grande dormindo nos corredores. E o pior era que, às vezes, no fim da tarde, ela jurava escutar as chaves outra vez. Não como lembrança. Como presença. O elevador subia. Algum vizinho fechava a porta. O vento mexia em qualquer co...