"Se Essa Rua Fosse Minha"
A rua não tinha nome raro. Chamava-se Rua das Acácias, embora nenhuma acácia resistisse inteira ao vento do sul. Era estreita, com casas de janelas baixas e cortinas que respiravam junto com a tarde. Helena morava na terceira casa à esquerda. Miguel, na última esquina, onde a rua parecia pensar duas vezes antes de continuar. Eles não sabiam exatamente quando começaram a se amar. Talvez tenha sido no dia em que ele segurou a bicicleta dela enquanto ela fingia não precisar de ajuda. Ou na tarde em que a chuva veio de repente e os dois se abrigaram sob a mesma marquise, rindo como se a vida fosse apenas aquilo: respingos e proximidade. A rua assistiu a tudo. Assistiu aos silêncios demorados no portão. Aos bilhetes dobrados quatro vezes, deixados sob a pedra solta perto do meio-fio. Aos domingos em que caminhavam devagar, inventando assuntos para que o trajeto nunca terminasse. Helena, às vezes, cantarolava distraída: — “Se essa rua, se essa rua fosse minha…” Miguel sorria. —...