A Dor Tira o Brilho dos Olhos
Helena não chorou no velório. As pessoas interpretaram aquilo como força. Comentavam baixo: “Que mulher firme.” Ela ouvia como quem escuta uma conversa em outro cômodo. Apertava mãos, agradecia presenças, aceitava abraços demorados. Repetia “obrigada” como quem aprende uma nova profissão. O corpo sabia o que fazer. O corpo sempre sabe. A dor, quando é grande demais, não faz cena. Foi dias depois que algo mudou. Não no jeito de andar. Não na voz. No olhar. Ela acordava cedo. Lavava o rosto. Preparava café para uma xícara só. Sentava à mesa e ficava alguns minutos olhando a cadeira vazia à frente. Não pensava nada específico. Só permanecia. O mundo continuava funcionando com uma eficiência irritante. O padeiro abria às seis. A vizinha regava as plantas às sete. O ônibus passava no mesmo horário. Crianças iam para a escola arrastando mochilas maiores do que o corpo. Helena participava de tudo como quem cumpre uma tarefa. Mas os olhos não acompanhavam. Não estavam vermelh...