Um Nome Escrito no Espelho
Quando Helena percebeu o nome pela primeira vez, pensou que fosse uma brincadeira da própria imaginação. Estava saindo do banho. O vapor ainda cobria o espelho do banheiro quando ela viu as letras surgirem aos poucos, como se alguém as desenhasse por trás da névoa. Miguel. Ela ficou imóvel. Passou a mão sobre o vidro e o nome desapareceu junto com a umidade. Sorriu de si mesma. Aos sessenta e cinco anos, morando sozinha havia quase uma década, conhecia bem as peças que a memória pregava. Às vezes acordava certa de ter ouvido a voz da mãe chamando da cozinha. Outras vezes jurava ter visto o marido sentado na poltrona da sala. Miguel. O nome, porém, não lhe dizia nada. Não conhecia nenhum Miguel importante. Nenhum amor antigo, nenhum parente esquecido. No dia seguinte, o nome apareceu novamente. E no outro também. Sempre da mesma forma. Miguel. Durante uma semana, Helena tentou ignorar. Na segunda semana, começou a fotografar. Na terceira, decidiu investig...