O Barulho do Meu Silêncio
Ela acordava às quatro e dezessete. Não precisava de despertador. O corpo abria os olhos como quem atende a um chamado que não vem de fora. A casa ainda estava inteira no escuro. O prédio, quieto. Só o elevador, às vezes, gemia lá embaixo, como se alguém também tivesse perdido o sono. Ela ficava deitada por alguns minutos, olhando o teto que mal se distinguia da sombra. Havia uma pequena rachadura perto do canto. Conhecia o desenho dela de memória. Seguia com os olhos aquela linha torta como se fosse um caminho. Quando levantava, o chão estava frio. A cozinha guardava o cheiro do café do dia anterior. Ela não acendia todas as luzes — deixava apenas a do fogão, fraca, suficiente para não tropeçar na própria rotina. O silêncio da casa não era vazio. Tinha pequenos ruídos: a madeira dilatando, a água descendo em algum encanamento distante, o motor da geladeira iniciando e parando. E, por baixo disso tudo, havia outra coisa. Uma vibração que não vinha dos objetos. Durante o dia...