A Lente Entre o Mundo e Eu
Havia sempre algo entre ela e o que via. Não era exatamente um obstáculo, nem proteção — era uma lente. Invisível aos outros, presente demais para que ela pudesse esquecer. No início, pensou que fosse apenas distração. Um jeito próprio de olhar. Mas, com o tempo, percebeu: o mundo chegava até ela já alterado, ligeiramente deslocado do lugar onde todos pareciam encontrá-lo. As cores, por exemplo, nunca eram inteiras. O azul do céu vinha com um cansaço quase imperceptível. O verde das árvores carregava uma sombra que não vinha da luz, mas de dentro. Nada era falso — apenas não era exatamente o que diziam que era. As pessoas também atravessavam essa lente. Um sorriso, quando chegava até ela, já vinha com o eco do que não foi dito. Um gesto simples carregava camadas que ninguém parecia notar. Às vezes, ela invejava a leveza dos outros — a forma como aceitavam o mundo na superfície, sem a necessidade de tocar o fundo de tudo. Mas havia dias em que a lente se tornava mais den...