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Vamos Ver o Que a Vida Nos Reserva

Eva andava em volta do novo namorado como quem aprende de novo a caminhar depois de muito tempo parada. Não era exatamente amor ainda. Era uma espécie de incêndio tranquilo. Ela ria mais do que de costume. Tocava o próprio cabelo sem perceber. Às vezes passava diante de um vidro qualquer — vitrine, porta, espelho esquecido — e se olhava com surpresa, como se estivesse reencontrando uma mulher que havia ficado guardada em alguma gaveta da vida. Sentia-se desejada. E esse sentimento tinha uma força antiga. Como uma maré que retorna. Caminhavam perto da água naquele fim de tarde. Eva tirou os sapatos e deixou os pés entrarem no mar raso. A água fria subia pelos tornozelos enquanto o vento desarrumava seus cabelos. Ela tinha os pés na água. E a cabeça em fogo. O namorado falava qualquer coisa — histórias, planos, frases soltas — mas Eva escutava apenas metade. A outra metade dela estava longe, vagando por um céu imaginário onde tudo parecia possível. Sua cabeça andava n...

Nossas Vidas

Há quem pense que a vida começa no grito. Mas talvez ela comece na luz. O amanhecer da vida é um quarto meio escuro, alguém abrindo a janela devagar, um choro que não sabe ainda o que significa. Não é sempre claro. Há amanhecer com sol filtrado pela cortina, cheiro de leite morno e colo. Mas há também amanhecer com temporal — incubadoras, sustos, mães exaustas, pais aprendendo a ter medo. A primeira infância é essa claridade instável. A criança ri como se o mundo fosse uma promessa, mas também cai, rala o joelho, descobre que o não existe. O céu pode estar azul e, de repente, trovejar. Ainda assim, ela insiste. Anda cambaleando. Aprende a falar. Aprende que a ausência dói e que o abraço resolve quase tudo. Depois vem o entardecer — que é a juventude e também a fase adulta. É quando o sol não está mais nascendo, mas ainda está alto o suficiente para nos fazer acreditar que temos tempo. A juventude tem a luz dourada dos planos. Amores que parecem definitivos. Revoltas que parece...

Um Ruido Dentro de Mim

Na terceira madrugada seguida, acordei com o barulho. Não era sonho. Também não era insônia. Era um som miúdo, metálico, como se alguém, do lado de dentro do peito, estivesse desmontando uma máquina antiga peça por peça. Fiquei imóvel. O quarto escuro parecia respirar junto comigo. O ponteiro do relógio avançava com sua disciplina indiferente. Mas o ruído não obedecia a horário. Vinha em ondas. Pequenos estalos, como gelo rachando sob um lago invisível. Passei a mão sobre o peito, como quem verifica um bolso esquecido. Nada. No dia seguinte, fui ao médico. Ele auscultou, franziu a testa, pediu para eu inspirar fundo. Não encontrou defeito algum. Meu coração estava regular, meus pulmões obedientes. “Ansiedade”, disse, com a delicadeza dos que nomeiam o que não veem. Voltei para casa com uma palavra e o ruído intacto. À tarde, enquanto descascava uma maçã, ele reapareceu — um clique seco, depois outro. A faca escorregou da minha mão e caiu na pia. Por um segundo tive certez...

A Mulher que Caminhava Sobre as Nuvens

Julinha nunca foi leve por falta de peso. Foi leve por excesso de sonho. Quem a via andando pela rua — a bolsa pendendo do ombro, o vestido simples, os cabelos presos às pressas — talvez não percebesse nada de extraordinário. Mas havia um detalhe: ela não pisava exatamente no chão. Havia entre seus pés e o asfalto uma distância invisível, como se o mundo não conseguisse retê-la por completo. Julinha já sofrera. Sofrera o amor que parte sem aviso, a amizade que esfria, a palavra que machuca mais do que deveria. Sofrera também as pequenas perdas: a xícara favorita quebrada, o domingo que termina cedo demais, o silêncio depois de uma casa cheia. Mas, em vez de endurecer, ela aprendera outra coisa. Aprendera a subir. Não era fuga. Era escolha. Quando a tristeza vinha — e ela vinha, sempre vinha — Julinha não a negava. Sentava-se ao lado dela como quem conversa com uma visita inconveniente, mas necessária. Chorava quando precisava. Sentia o peso no peito, a garganta apertada...

Do Outro Lado da Própria Vida

Quando Marina começou a atravessar a rua mais devagar, ninguém percebeu. Ela também não percebeu de imediato. Não era medo dos carros. Era outra coisa. Uma espécie de desaceleração interna, como se os passos precisassem acompanhar algo que dentro dela tinha mudado de ritmo. A cidade seguia igual. O jornaleiro levantava a porta de metal às sete. A farmácia mantinha a luz branca acesa a qualquer hora. O cheiro de pão quente escapava da padaria da esquina. Tudo no lugar. Só Marina parecia ligeiramente deslocada — como um móvel que foi arrastado alguns centímetros durante a noite e, pela manhã, ninguém sabe explicar por que o espaço parece diferente. No armário, vestidos que ainda serviam, mas já não diziam. Na gaveta, cartas dobradas com uma letra firme demais para o que ela agora sentia. No espelho, um rosto conhecido, mas com um silêncio novo nos olhos. Não era tristeza aguda. Não era alegria. Era um intervalo. Durante anos, Marina viveu no lado que resolve, que responde,...

Bem Próximo da Janela

Ela ficava bem próximo da janela, como se aquele pedaço de parede fosse o único lugar da casa onde o ar ainda circulava inteiro. A moldura de alumínio já perdera o brilho de anos atrás. Havia pequenas marcas no vidro — respingos de chuva antiga, poeira que o pano não alcançava totalmente, um risco fino quase invisível que só aparecia quando o sol batia de lado. A cortina, leve demais para ser cortina, ondulava com a fresta sempre aberta, mesmo no frio. Ela mantinha a fresta. Vestia uma blusa de linho bege, já macia de tanto uso, marcada nos punhos como se ali repousassem seus cotovelos todas as tardes. A saia azul descia até os tornozelos, discreta, com a barra um pouco gasta. Os pés descalços buscavam o chão frio como quem confirma que ainda há chão. O cabelo estava preso sem intenção de ficar bonito. Algumas mechas escapavam e tocavam o rosto, e ela não as afastava. Deixava que o vento resolvesse. O semblante era amplo. Não era o rosto de quem espera, nem o de quem desistiu...

O Mundo Está Muito Ordinário

Ordinário. No dicionário, significa comum. Aquilo que acontece todos os dias. O que é habitual, corriqueiro, simples. Mas, na boca das pessoas, ordinário quase sempre vira ofensa. Algo vulgar. Sem nobreza. De má qualidade. Pequeno. Talvez o problema não esteja na palavra. Talvez esteja no nosso olhar. O mundo está muito ordinário, dizem. E está mesmo. Acordamos, rolamos a tela, repetimos opiniões prontas, nos irritamos com desconhecidos, julgamos em quinze segundos aquilo que não entenderíamos em quinze anos. As conversas estão mais rasas. As indignações, mais baratas. O afeto, apressado. O mundo anda ordinário no pior sentido: perdeu delicadeza. Mas também está ordinário no melhor sentido possível. O padeiro abre a porta às seis da manhã como sempre abriu. A senhora rega as plantas na varanda. Um pai leva a filha à escola segurando a mochila maior que ela. O ônibus passa no mesmo horário. A chuva insiste em cair nos mesmos meses. O café continua quente quando a gente pre...