Dona Emília e o Circo
Dona Emília nascera numa cidade pequena, dessas que crescem de costas para a estrada e de frente para um rio. O rio era largo, barrento no inverno, espelhado no verão, e parecia conhecer cada morador pelo nome. As casas baixas se alinhavam em ruas de chão batido, onde as crianças brincavam até o sino da igreja anunciar a hora de voltar. Naquele lugar, as novidades demoravam a chegar. Quando chegavam, tornavam-se assunto por meses. Por isso, bastava alguém avistar ao longe um caminhão carregando lonas coloridas para que a notícia corresse mais depressa que o vento. — O circo chegou! Era suficiente. Os meninos abandonavam as pescarias. As mulheres interrompiam as conversas nas calçadas. Os homens olhavam para o terreno vazio perto do rio, onde logo surgiriam mastros, cordas, carroças, trailers e a enorme lona listrada. Emília era a primeira a aparecer. Ainda menina, sentava-se na barranca do rio apenas para ver o circo nascer. Gostava de observar os homens erguendo a ...