Ranhuras do que Permanece
Nada se repete — nem quando parece. Há uma tendência em tratar as coisas como se voltassem ao lugar exato de antes. Como se houvesse um ponto fixo esperando pacientemente por nós. Não há. O que existe é uma aproximação, às vezes bem feita, às vezes torta, quase sempre silenciosa. O vaso caiu numa manhã qualquer. Não houve dramatização, nem gesto largo. Caiu como caem certas coisas: por um descuido mínimo, uma distração que ninguém consegue nomear depois. O som foi seco, breve, e terminou rápido demais para caber arrependimento. Juntar os cacos não foi difícil. Difícil foi reconhecer cada pedaço como parte de algo que já não existia inteiro. Havia bordas que não encaixavam mais com a precisão de antes, pequenas falhas que exigiam um pouco de insistência, outras que pediam desistência imediata. Nem tudo voltou. Nem tudo quis voltar. Ainda assim, colado, ele permaneceu vaso. Não o mesmo — isso fica evidente quando a luz bate de lado e revela as linhas finas atravessando a ...