O Mundo Em Suas Asas
Ivete sempre teve um mapa-múndi pendurado na parede da cozinha. Não era um mapa bonito. As pontas estavam amareladas, havia marcas de fita adesiva nos cantos e algumas manchas de café denunciavam os anos passados diante dele. Mesmo assim, era o objeto mais precioso da casa. Todas as manhãs, antes de sair para o trabalho, ela parava alguns segundos diante daquele pedaço de papel. Percorria com os dedos cidades de nomes sonoros, mares de azul profundo, cordilheiras que pareciam desenhadas por artistas distraídos. Mas a vida de Ivete acontecia em outro lugar. Acordava cedo, cuidava da mãe idosa, trabalhava o dia inteiro, resolvia contas, consultas médicas, pequenos consertos domésticos e todas aquelas tarefas invisíveis que ocupam uma existência inteira. Viajar era um sonho guardado na gaveta das coisas improváveis. Numa noite de inverno, depois de mais um dia comum, adormeceu na poltrona da sala. Foi então que ouviu uma voz suave. — Você continua olhando o mapa. Ao ergu...