A Última Respiração da Casa
O lugar era tão silencioso que ela escutava seu pensamento respirar. Não como metáfora — respirava mesmo. Curto, cansado, às vezes com uma falha pequena no meio, como se até os pensamentos envelhecessem. A casa surgira no meio da estrada pouco antes do anoitecer, embora ela conhecesse aquele caminho desde menina e jamais houvesse existido construção alguma ali. Nem árvores. Nem cerca. Apenas o campo úmido e a neblina baixa que parecia esquecer de ir embora. Parou o carro porque viu luz atrás das cortinas. Depois já não soube explicar por que descera. As janelas eram altas demais. As portas estreitas demais. Tudo parecia construído a partir da memória imperfeita de alguém. Quando tocou a maçaneta, sentiu uma estranha calma — a sensação de quem chega atrasado a um lugar onde já o esperavam há muito tempo. A porta abriu sozinha. O corredor tinha cheiro de chuva guardada em gavetas antigas. Quadros pendurados mostravam paisagens que mudavam devagar quando ela desviava os olho...