Depois da Ferida
A ferida “apareceu” num dia comum, exatamente como todos. Daquelas que não prometem nada e cumprem o que prometem. Olga estava na cozinha quando sentiu que alguma coisa tinha saído do lugar. Não foi uma dor que se aponta com o dedo, não foi um susto. Foi um vazio repentino — como quando a luz apaga e a gente demora alguns segundos para entender que não é noite. O telefone ainda estava na mão. Do outro lado, a voz já tinha parado de falar. Ela desligou sem perceber e se sentou. Ficou olhando para a mesa como se ali estivesse escondida a parte que faltava do mundo. O copo com água tinha marcas de dedos. A toalha tinha uma dobra torta. O relógio, na parede, seguia no mesmo som de sempre, e isso era quase ofensivo. Nos dias seguintes, Olga fez o que precisava ser feito. Banho, roupa, rua, compras, respostas curtas. Dizia “tudo bem” com a mesma boca que não acreditava. Existia um atraso dentro dela, como se a vida estivesse sempre dois passos à frente. As pessoas falavam, as buzina...