O Dia Em Que o Silêncio Falou
Quando o telefone tocou, Laura não atendeu. Ficou olhando para o aparelho sobre a mesa da cozinha enquanto ele insistia. Um toque. Dois. Três. Depois parou. Ela continuou olhando. Nos últimos oito meses, aprendera que algumas ligações mudam uma vida inteira. A que recebeu numa tarde de setembro dividira sua existência em duas partes: antes e depois. Desde então, passou a desconfiar dos telefones. Levantou-se, colocou água para ferver e foi até a janela. Na casa da frente, uma mulher sacudia um tapete. Um menino corria atrás de uma bola. Dois homens conversavam junto ao portão da oficina. A cidade seguia vivendo. Como se nada tivesse acontecido. Como se Eduardo nunca tivesse existido. Como se o coração dela não tivesse ficado preso naquele quarto de hospital onde se despedira dele. Laura fechou os olhos. Dentro dela não havia revolta. Nem perguntas. Nem a conversa interminável que mantinha com a ausência. Nada. Apenas silêncio. Um silêncio...