Tinha Dias...
Tinha dias em que ela acordava desapaixonada pela vida. Não era tristeza. Também não era desespero. Era só uma espécie de silêncio por dentro. O despertador tocava, ela levantava, escovava os dentes, abria a janela e olhava a rua como quem olha uma fotografia antiga. Tudo estava no lugar, mas nada parecia chamá-la. Nesses dias, até o café da manhã era preparado por hábito. A chaleira fervia, o pão ia para a torradeira, e ela seguia os mesmos movimentos de sempre, sem esperar que alguma coisa mudasse. Curiosamente, mudava. Não de uma vez. Nunca de uma vez. Era a primeira xícara de café, ainda quente entre as mãos, que parecia devolver um pouco de cor à manhã. Depois vinha uma música qualquer tocando no rádio. Nem precisava ser sua preferida. Bastava uma melodia conhecida para que alguma lembrança abrisse uma fresta. Mais tarde, uma árvore carregada de flores no caminho. O riso alto de duas crianças saindo da escola. O senhor da banca de jornais desejando um bom dia como fazi...