Os Três Neurônios de Dona Josefa
Dona Josefa acordava todos os dias com apenas três neurônios disponíveis para uso imediato. Não era força de expressão. Eram literalmente três. E todos moravam na mesma cabeça apertada, como inquilinos de pensão antiga dividindo banheiro. O primeiro chamava-se Tico. O segundo, Teco. O terceiro ninguém sabia exatamente de onde tinha vindo. Surgira numa madrugada de insônia, depois de uma sopa requentada e um programa policial assistido até às duas da manhã. Chamava-se Sabotador. Tico era responsável pelas decisões básicas: — Não coloca o sal no café. Teco cuidava das emergências: — Josefa, isso não é o controle da televisão. É o telefone. Já o Sabotador não tinha função útil alguma. Era concursado da desgraça. Ele aparecia principalmente em situações humilhantes. Numa terça-feira, por exemplo, Dona Josefa entrou numa farmácia decidida a comprar laxante. Estava há cinco dias vivendo uma relação tóxica com o próprio intestino. Tico organizava a frase: — Boa tarde, eu ...