A Mulher que Caminhava Sobre as Nuvens
Julinha nunca foi leve por falta de peso. Foi leve por excesso de sonho. Quem a via andando pela rua — a bolsa pendendo do ombro, o vestido simples, os cabelos presos às pressas — talvez não percebesse nada de extraordinário. Mas havia um detalhe: ela não pisava exatamente no chão. Havia entre seus pés e o asfalto uma distância invisível, como se o mundo não conseguisse retê-la por completo. Julinha já sofrera. Sofrera o amor que parte sem aviso, a amizade que esfria, a palavra que machuca mais do que deveria. Sofrera também as pequenas perdas: a xícara favorita quebrada, o domingo que termina cedo demais, o silêncio depois de uma casa cheia. Mas, em vez de endurecer, ela aprendera outra coisa. Aprendera a subir. Não era fuga. Era escolha. Quando a tristeza vinha — e ela vinha, sempre vinha — Julinha não a negava. Sentava-se ao lado dela como quem conversa com uma visita inconveniente, mas necessária. Chorava quando precisava. Sentia o peso no peito, a garganta apertada...