Oito Andares Acima do Juizo
O toc-toc na porta se manteve insistente por alguns minutos. Forte. Decisivo. De alguém que não aceitaria um “não vou abrir” como resposta. Ela acordou num susto que lhe colocou o coração na boca. Sentou-se na cama, arrumou os cabelos que se espalhavam pelo rosto. Sentiu um gosto amargo subir pela garganta até alcançar a boca. Pigarreou. Entendeu que as incessantes batidas eram algo sério. Correu até a porta, seguida pelo eco que se dilatava na cozinha de ladrilhos azuis e brancos. Abriu. Estendeu a mão. Puxou-o para dentro e o agasalhou num abraço. Era o rapaz do 201. O cheiro dele — sabonete barato misturado a algo mais quente, mais masculino — entrou primeiro, antes mesmo do corpo. Ela sentiu a respiração dele ainda acelerada contra o seu pescoço. Jovem demais, pensou. Jovem demais para o que acordava nela. Morava no 804 havia quinze anos. O apartamento alto, com janelas abertas para a cidade que não dormia, era seu território seguro. Separada havia tempo suficiente para q...