Os Cinquenta Tons de Cinza de Dona Catarina
Dona Catarina nunca tinha lido o famoso livro dos cinquenta tons de cinza. Na verdade, nem sabia exatamente do que se tratava. Quando as amigas comentavam sobre a história, ela apenas sorria e fingia entender. — Deve ser sobre decoração... — pensava. — Cinza combina com tudo. Mas um dia, aos sessenta e sete, aconteceu uma coisa que ela julgava impossível: apaixonou-se. Não foi por um galã de novela. Nem por um milionário elegante. Nem por um poeta de cabelos brancos olhando o pôr do sol. Apaixonou-se por seu Anselmo, um senhor de setenta e oito anos que frequentava a mesma praça onde ela alimentava os pombos todas as tardes. Ele tinha uma barriga respeitável, um joelho que estalava ao sentar e um aparelho auditivo que insistia em falhar nos momentos mais importantes. Foi amor mesmo assim. Ou talvez justamente por isso. No começo, Catarina tentou resistir. Achava ridículo. Apaixonar-se naquela idade parecia uma travessura que a vida não deveria permit...