Muro Baixo
— Cada um no seu quadrado — dizia dona Isa. — Senão a coisa enfeia. Dizia isso para tudo. Se uma vizinha reclamava que o marido passava tempo demais no bar: — Cada um no seu quadrado. Se a filha queria saber por que a cunhada não aparecia mais nas reuniões de família: — Cada um no seu quadrado. Se alguém perguntava por que ela nunca se metia na vida dos outros: — Porque eu gosto de dormir em paz. Dona Isa morava numa casa pequena, de muro baixo e portão de ferro, na mesma rua havia quarenta e três anos. Conhecia todo mundo. Sabia quem tinha trocado de carro, quem estava reformando a cozinha, quem tinha neto novo e quem estava devendo na padaria. Mas não perguntava. Esperava. Uma hora a informação chegava. Naquela terça-feira, ela estava sentada na cadeira de balanço da varanda, descascando laranjas, quando ouviu a voz de Marlene do outro lado da rua: — Isa! Tu soube? Dona Isa continuou descascando a laranja. — Se eu soube, não sei. Depende do que tu vais...