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Saudades e Bilhetes Perdidos

Não era falta de alguém. Era a ausência exata dele — com o peso do nome, do jeito, das pequenas manias que não se substituem. Ela descobriu isso aos poucos, enquanto a casa ainda insistia em parecer inteira. No primeiro dia, escreveu um bilhete curto e deixou sobre a mesa da cozinha, preso sob o copo que ele costumava usar. “Voltei mais cedo hoje.” A frase não fazia sentido sozinha, mas fazia sentido para quem conhecia a rotina interrompida. Para quem saberia que, naquele dia, ela tinha inventado um motivo qualquer para não ficar mais tempo fora. No segundo dia, deixou outro, dobrado ao meio, apoiado no braço da poltrona. “Comprei aquele pão que você gosta.” Não comprou. Escreveu como se tivesse. Como se a escrita pudesse antecipar a realidade, ou talvez corrigir o que já não podia ser corrigido. Os bilhetes começaram a se espalhar pela casa com uma disciplina silenciosa. Na beira da pia, ao lado do espelho, entre as páginas de um livro que ele nunca terminou. Ela escre...

A Lente Entre o Mundo e Eu

  Havia sempre algo entre ela e o que via. Não era exatamente um obstáculo, nem proteção — era uma lente. Invisível aos outros, presente demais para que ela pudesse esquecer. No início, pensou que fosse apenas distração. Um jeito próprio de olhar. Mas, com o tempo, percebeu: o mundo chegava até ela já alterado, ligeiramente deslocado do lugar onde todos pareciam encontrá-lo. As cores, por exemplo, nunca eram inteiras. O azul do céu vinha com um cansaço quase imperceptível. O verde das árvores carregava uma sombra que não vinha da luz, mas de dentro. Nada era falso — apenas não era exatamente o que diziam que era. As pessoas também atravessavam essa lente. Um sorriso, quando chegava até ela, já vinha com o eco do que não foi dito. Um gesto simples carregava camadas que ninguém parecia notar. Às vezes, ela invejava a leveza dos outros — a forma como aceitavam o mundo na superfície, sem a necessidade de tocar o fundo de tudo. Mas havia dias em que a lente se tornava mais den...

Na Alegria e na Tristeza

O dia do casamento amanheceu com uma luz quase indecisa, como se o céu também hesitasse diante do que viria. Na igreja, as flores tentavam organizar a beleza, e havia um cuidado excessivo em cada detalhe — o véu alinhado, os bancos ocupados por expectativas, o padre repetindo com serenidade palavras antigas que atravessaram gerações. “Na alegria e na tristeza” não soava como promessa difícil naquele instante; era apenas uma sequência natural de sons, acolhida por quem acredita que o amor, uma vez declarado diante de testemunhas e de Deus, encontra sozinho o caminho de permanecer. Ele a observava como quem tenta guardar uma paisagem antes que a noite caia. Havia nela uma tranquilidade que não parecia ensaiada, um modo de segurar o próprio nome quando o padre o pronunciou, como se já o tivesse dito muitas vezes em silêncio. Quando respondeu “sim”, não houve tremor — e isso, naquele dia, foi tomado como força. A vida, depois, se encarregou de desfazer a ideia de que as promessas camin...

Pecado Compartilhado

Na rua de trás do mercado, aonde o movimento chegava cansado e sem pressa, havia um banco de madeira encostado num muro baixo. Era ali que tudo acontecia — sem nunca parecer que acontecia nada. Ela costumava chegar primeiro. Não olhava o relógio, mas sabia a hora exata em que o sol começava a escorregar pela parede descascada ao lado. Sentava-se sempre na mesma ponta, como se deixasse um espaço calculado para algo que ainda não tinha forma. Ele vinha depois. Sem anúncio. Sem atraso. Apenas surgia, como se tivesse estado ali o tempo todo e só agora se deixasse ver. No começo, não conversavam. Dividiam o banco como quem divide sombra. Cada um ocupado com o próprio silêncio, sem a obrigação de torná-lo leve. Às vezes, ele acendia um cigarro. Às vezes, ela observava o movimento mínimo das folhas no chão. E isso bastava. Havia uma espécie de acordo mudo naquela convivência: não perguntar, não explicar, não avançar. Foi por isso que, quando começaram a falar, demoraram a perc...

O Outro Lado da Moeda

A moeda ficou esquecida no fundo da bolsa, entre um lenço amarrotado e um papel onde já não se distinguia o que fora escrito. Não era rara, nem antiga, nem brilhava mais do que qualquer outra. Ainda assim, havia nela um peso que não vinha do metal. Sofia a encontrou por acaso, procurando algo que não lembrava exatamente o que era. Tirou-a com dois dedos, como quem recolhe um pequeno resto de mundo, e deixou-a repousar na palma da mão. Girou-a uma vez, sem olhar. O gesto automático de quem já decidiu tantas coisas no ar. Cara. Ou talvez não. A luz da tarde entrava enviesada pela janela, tocando o relevo gasto. De um lado, um rosto que já perdera a nitidez. Do outro, números quase apagados. Era difícil saber onde começava um e terminava o outro — como certas lembranças que, com o tempo, deixam de ter borda. Sofia apoiou a moeda na mesa. Ficou olhando, como se ela pudesse devolver alguma resposta que não havia sido feita em voz alta. Havia dias em que tudo parecia resolvido de...

Aquela Parte da Vida Que Não Volta

Não começou com uma lembrança. Começou com um erro pequeno — desses que não pedem atenção. Ela abriu a gaveta errada. Dentro, não estavam os talheres. Nem as contas atrasadas. Nem os remédios organizados por dia da semana. Havia uma meia só, um ingresso dobrado, uma chave que não servia mais para porta alguma e um cheiro muito específico — não de coisa guardada, mas de coisa interrompida. Fechou a gaveta com cuidado, como se pudesse acordar alguém ali dentro. Naquela manhã, tudo parecia deslocado alguns centímetros. A mesa, o barulho da rua, até o próprio corpo, como se tivesse sido colocado de volta no lugar com leve imprecisão. Caminhou pela casa testando os objetos com a ponta dos dedos — a cadeira firme, o vidro frio, a borda conhecida da pia. Nada cedia. Era só ela que não encaixava. Foi então que percebeu: havia uma parte da vida que não estava mais disponível. Não ausente como quem sai de viagem, mas retirada — como uma página arrancada de um livro que continua sendo ...

Não Lhe Prometo Sol Nem Lua Cheia

Ele disse isso sem levantar a voz, como quem coloca um copo na mesa e sabe que alguém vai encontrar depois. Não lhe prometo sol nem lua cheia. Ela não respondeu. Havia coisas que, quando ditas assim, sem enfeite, não pediam resposta — pediam espaço. E ela ficou ali, ocupando o espaço entre as palavras dele, como se coubesse inteira naquele intervalo. Era fim de tarde, mas não daquele tipo bonito que se descreve. A luz vinha meio atravessada, pegando os móveis de lado, revelando poeiras antigas que ninguém mais limpava direito. A casa tinha esse cansaço de quem já foi muito habitada. Ele estava de pé, perto da janela que não fechava bem. O vento entrava fino, insistente, mexendo na cortina como se procurasse alguma coisa que não estava mais ali. — E o que você promete? — ela perguntou depois de um tempo que não dava para medir. Ele demorou. Não porque pensasse muito, mas porque parecia escutar outra coisa antes de responder. Talvez o rangido do assoalho, talvez o próprio pei...