Destino Intermediário
O trem deslizava entre os Alpes suíços com a delicadeza de quem conhecia cada curva da montanha. Ora surgia um lago de um azul impossível, ora um túnel apagava tudo por alguns segundos. Depois, a luz voltava, como se alguém abrisse outra janela para o mundo. Ela observava a paisagem desde que embarcara. Não lia. Não ouvia música. Apenas acompanhava a sucessão de pinheiros, chalés e pequenos vilarejos espalhados pelas encostas. O homem sentado à sua frente fechou o livro que carregava havia quase uma hora. — Curioso... Sempre que passo por aqui tenho a impressão de que as montanhas mudaram de lugar. Ela sorriu. Levantou a mão esquerda para prender uma mecha de cabelo atrás da orelha. Duas alianças repousavam no mesmo dedo. — Tudo sempre muda de lugar. Ele acompanhou o movimento da mão por um instante e voltou o olhar para a janela. — Acho que somos nós. — Também. Mas, às vezes, somos nós que mudamos. Em outras, é a vida que resolve trocar os móveis da alma enquanto saímo...