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A Vida, Segundo Clarice Lispector

  Falar sobre a vida, a partir de Clarice Lispector, é entrar num território onde as respostas nem sempre existem, onde as perguntas nos acompanham por muito tempo e onde sentir, muitas vezes, dói mais do que gostaríamos. Clarice não escrevia para explicar a vida. Escrevia para chegar mais perto dela. E, quanto mais se aproximava, mais descobria que viver é também conviver com aquilo que não compreendemos. Em seus romances, contos e crônicas, encontramos personagens que pensam demais, que sentem profundamente, que se interrogam sobre quem são e sobre o que fazem neste mundo. Pessoas aparentemente comuns, envolvidas nas tarefas de cada dia, mas que, de repente, diante de um gesto, de uma palavra ou de um silêncio, descobrem que há muito mais dentro delas do que imaginavam. Clarice nos mostra que pensar é uma forma de mergulho. Não aquele pensamento organizado, que procura respostas prontas, mas o pensamento que nos desacomoda, que nos obriga a olhar para dentro e reconhecer ...

A Felicidade é Um Trabalho de Formiguinha

  Tenho pensado muito sobre a felicidade. Talvez porque a gente passe boa parte da vida tentando descobrir o que ela é, onde se esconde e por que, quando parece estar tão perto, escapa das mãos. A felicidade é uma coisa abstrata. Cada um lhe dá um significado, veste-a com as próprias expectativas e a coloca num lugar diferente. Para alguns, ela mora nas grandes conquistas; para outros, está na tranquilidade de uma vida sem sobressaltos. Há quem passe anos esperando por uma viagem, uma casa, um amor, uma conta bancária que permita dormir sem preocupações. E há quem tenha tudo isso e ainda sinta que falta alguma coisa. Talvez o problema esteja na espera. Esperamos tanto por aquele acontecimento que vai mudar tudo, que nem sempre percebemos o que acontece enquanto esperamos. A vida, entretanto, não costuma ser feita de grandes acontecimentos. É feita de manhãs que se repetem, de compromissos, de pequenas contrariedades, de notícias boas e ruins, de conversas que se prolongam e...

As Palavras Que Não Obedecem

  Havia uma palavra que não queria morrer na boca de quem a pronunciava. Passara anos sendo dita sem ser sentida, oferecida sem ser entregue, escrita em cartões que acabavam no fundo de gavetas. Um dia, cansada de servir a tantas mentiras, escapou pela janela de uma carta e desapareceu na noite. Era a palavra amor. Ninguém percebeu sua partida. Na manhã seguinte, continuaram a usá-la nos mesmos lugares, com a mesma facilidade, entre promessas apressadas e despedidas que já estavam decididas antes mesmo de acontecerem. Mas alguma coisa havia mudado. As bocas diziam amor. Os ouvidos escutavam amor. E, ainda assim, havia um espaço vazio entre as duas coisas. A palavra caminhava pelos telhados, descalça, procurando abrigo. Passou por uma casa onde um homem dormia de costas para a mulher; por outra, onde uma mãe esperava o filho que prometera voltar cedo; por uma terceira, onde alguém relia uma mensagem antiga, tentando descobrir em que momento o afeto havia começado a se de...

Um Dia Comum Depois da Democracia

Há algo de extraordinário e, ao mesmo tempo, de absolutamente cotidiano na democracia. O povo vota, escolhe, decide. E, quando as urnas encerram seu trabalho, a vida continua. Talvez essa seja uma das suas maiores lições: compreender que a vontade popular não suspende o mundo, não interrompe o relógio, não nos dispensa das obrigações de todos os dias. Podemos gostar do resultado. Podemos lamentá-lo. Podemos sentir esperança ou apreensão diante dos caminhos que se anunciam. Cada um carrega suas convicções, seus receios, suas expectativas. Mas a democracia não existe apenas para confirmar aquilo em que acreditamos. Ela também exige que saibamos conviver com decisões diferentes das nossas. A decisão do povo é soberana dentro das regras democráticas. E respeitá-la é parte do compromisso que assumimos com a própria democracia. Isso não significa concordar, silenciar diante dos erros ou abandonar o direito de questionar. Significa entender que a discordância também tem seu lugar, que a...

Teus Olhos Verdes

Ela sabia o quanto eram enigmáticos os seus olhos. Não apenas pela cor, mas por tudo o que parecia morar dentro deles. Durante o curso de Biologia, aprendera que a cor dos olhos tinha explicações genéticas, relacionadas à quantidade e à distribuição de melanina na íris e à maneira como a luz era dispersada. Os olhos verdes, tão raros, não eram exatamente verdes. Havia neles uma combinação de fatores que produzia aquela tonalidade, um meio-termo entre o castanho e o azul, sem ser nenhum dos dois. Ela gostava de pensar que seus olhos eram de cor falsa. Mudavam conforme a luz, o lugar, a hora do dia. Sob o sol, podiam ficar claros, quase dourados. Na sombra, escureciam, ganhando uma profundidade que fazia as pessoas demorarem um pouco mais o olhar. Talvez por isso a chamassem de a moça dos olhos verdes enigmáticos. Ela nunca soube o que as pessoas procuravam descobrir quando a olhavam tão demoradamente(ou era ela que olhava ...- gostava de um olhar firme...) Se era a cor, se era...

SOU BRASILEIRA E SOU COLORADA

Sou brasileira e sou colorada. Gosto da bandeira do meu país, do vermelho da camiseta do Internacional, de música, de livros e de palavras. Gosto de tudo aquilo que desperta sentimentos, provoca lembranças e nos faz sentir parte de alguma coisa. Nunca imaginei que, um dia, gostar de determinadas cores pudesse exigir explicações. Tenho pensado nisso ultimamente. Não me lembro de ter visto tanta gente se desentendendo por causa de política. Ou talvez eu não prestasse tanta atenção. O fato é que hoje parece que precisamos descobrir de que lado uma pessoa está antes mesmo de ouvir o que ela tem a dizer. Direita ou esquerda? Qual partido? Em quem vota? Até as palavras parecem estar sendo examinadas. Algumas são pronunciadas e imediatamente classificadas. Outras despertam desconfiança, dependendo de quem as utiliza. E eu me pergunto: desde quando as palavras passaram a ter dono? As palavras estão nos dicionários, nos livros, nas conversas, nas canções e nos poemas. São instrumentos d...

Ela Sabia o Que Fazer

  Ela sabia o que fazer. Sempre soubera. Quando alguma coisa saía do lugar, procurava entender, organizar, encontrar uma saída. Não costumava esperar que a vida resolvesse por ela. Naquela manhã, porém, ficou parada diante da mesa da cozinha, com a xícara de café entre as mãos. Havia uma decisão a tomar, nada que parecesse importante aos olhos dos outros. Para ela, no entanto, pesava mais do que deveria. Olhou pela janela. Uma mulher caminhava apressada, segurando a mão de uma criança. O vento levantava as folhas da calçada, e alguém, no prédio ao lado, regava as plantas. A vida tinha essa maneira de continuar ocupando todos os espaços, mesmo aqueles que a gente gostaria de manter suspensos por algum tempo. Ela conhecia os argumentos a favor e contra. Já tinha pensado em todas as possibilidades, imaginado as consequências, consultado a própria experiência. Faltava apenas agir. Era estranho perceber que a razão podia estar tão convencida enquanto alguma coisa dentro dela c...