Às Vezes
Às vezes, ela tinha a impressão de viver na estreita faixa entre duas margens. Não porque acreditasse em milagres ou esperasse algum sinal extraordinário. Também não imaginava que um dia ouviria passos no corredor ou sentiria uma mão pousar sobre a sua. Era apenas uma sensação difícil de explicar. Como quem mora à beira de um rio e, mesmo nas manhãs em que a neblina escondia tudo, sabia que a outra margem continuava existindo. A casa permanecia quase igual. Os livros ocupavam as mesmas estantes. As fotografias continuavam espalhadas pelos móveis, sem ordem alguma. A xícara preferida dele seguia no armário, misturada às demais, como sempre estivera. Ela nunca transformou a ausência em altar. Aprendera, aos poucos, que algumas lembranças respiram melhor quando permanecem no lugar de onde vieram. Mesmo assim, conversava com ele. Nunca em voz alta. As palavras surgiam enquanto dobrava roupas recém-passadas, regava as plantas da varanda ou escolhia tomates na feira. — Hoje fez...