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Quando o Céu Escolhe a Mesma Cor da Saudade

Existem dias em que o sol pesa. Parece estranho dizer isso. Fomos ensinados a desejar manhãs claras, céu azul, janelas abertas, gente sorrindo. Como se a felicidade tivesse uma cor oficial e ela fosse sempre luminosa. Mas quem vive uma ausência profunda sabe que nem sempre. Há dias em que a saudade prefere as nuvens. Não porque a gente deseje tristeza para o mundo. Muito pelo contrário. Que todos tenham dias claros, alegres, cheios de risos e de encontros. A dor que carregamos já basta. Ela não precisa ser dividida nem multiplicada. Mas, às vezes, o coração procura um céu que se pareça com ele. Depois de tantos anos vivendo ao lado da pessoa que se ama, a ausência não ocupa apenas um lugar da casa. Ela ocupa o corpo. Caminha junto. Dorme ao lado. Senta-se à mesa. E há momentos em que ela se torna quase física. Dói nos ombros, aperta o peito, cansa as pernas, como se a saudade tivesse aprendido a morar nos músculos. Durante muito tempo, pensei que as lembranças seriam um r...

Às Vezes

Às vezes, ela tinha a impressão de viver na estreita faixa entre duas margens. Não porque acreditasse em milagres ou esperasse algum sinal extraordinário. Também não imaginava que um dia ouviria passos no corredor ou sentiria uma mão pousar sobre a sua. Era apenas uma sensação difícil de explicar. Como quem mora à beira de um rio e, mesmo nas manhãs em que a neblina escondia tudo, sabia que a outra margem continuava existindo. A casa permanecia quase igual. Os livros ocupavam as mesmas estantes. As fotografias continuavam espalhadas pelos móveis, sem ordem alguma. A xícara preferida dele seguia no armário, misturada às demais, como sempre estivera. Ela nunca transformou a ausência em altar. Aprendera, aos poucos, que algumas lembranças respiram melhor quando permanecem no lugar de onde vieram. Mesmo assim, conversava com ele. Nunca em voz alta. As palavras surgiam enquanto dobrava roupas recém-passadas, regava as plantas da varanda ou escolhia tomates na feira. — Hoje fez...

Um Lugar Chamado Nós

  Dizem que o amor mora no coração. Nunca acreditei muito nisso. O coração é inquieto. Acelera, desacelera, se assusta, se engana. O amor parece preferir lugares menos barulhentos. Talvez ele more na cadeira que continua voltada para a janela porque ninguém teve coragem de mudá-la de lugar. Na caneca fantasiada de coelhinho que atravessou tantas manhãs que já não combina com a louça nova. Na árvore que alguém plantou sem imaginar que um dia faria sombra para quem viesse depois. Há lugares que não aparecem nos mapas. São feitos de vozes, de esperas, de risos interrompidos pelo cheiro do café, de silêncios que nunca pesaram. Chamam-se "nós". É uma palavra pequena para abrigar tanta coisa. Dentro dela cabem os invernos que enfrentamos de mãos dadas e os verões em que abríamos as janelas antes do amanhecer. Cabem as perdas, porque elas também aprendem o caminho de casa. Cabem as chegadas inesperadas, as despedidas breves, os reencontros que fingem acontecer por ...

Desejos

Quando criança, Clara acreditava que os desejos tinham peso. Os pequenos cabiam no bolso do casaco: um par de sapatos novos, um sorvete de domingo, uma bicicleta azul igual à da vizinha. Os grandes precisavam ser carregados com as duas mãos. Eram desajeitados, escorregavam, ocupavam espaço dentro da gente. Com o tempo descobriu que ninguém deixava de desejar. Apenas aprendia a esconder. Seu pai desejava chuva e olhava o céu como quem esperava uma resposta. A mãe desejava silêncio. A vizinha da esquina desejava vender a casa, mas continuava regando as roseiras todas as manhãs. O rapaz da padaria desejava ir embora da cidade e, enquanto servia os pães, perguntava aos fregueses como estava o movimento na praça, como se aquilo ainda lhe bastasse. Clara também colecionava desejos. Alguns se realizaram tão depressa que quase não deixaram lembrança. Outros ficaram esquecidos em alguma dobra da vida. Havia ainda aqueles que mudaram de nome sem que ela percebesse. Numa tarde, limpan...

Não Te Assusta! É a Saudade Chegando a Galope

Isabel estava na cozinha quando sentiu que alguém havia entrado na casa. Não ouviu a porta. Nenhum passo no corredor. Nem o rangido da madeira antiga, que sempre denunciava qualquer visita. Mesmo assim, ergueu os olhos da xícara de café. Sorriu de leve. — Não te assusta... é a saudade chegando a galope. Falava isso para si mesma havia alguns anos. Descobrira que a saudade não combina com relógios. Não marca horário nem avisa que está vindo. Às vezes aparece num domingo cheio de gente. Outras, escolhe uma terça-feira qualquer, quando tudo parece tão comum que ninguém esperaria ser atravessado por uma lembrança. Basta pouca coisa. O perfume de alguém no elevador. Uma camisa azul pendurada numa vitrine. Uma música esquecida tocando baixinho no rádio de um táxi. E pronto. A casa continua igual. A rua continua passando diante da janela. O café continua quente. Só quem muda é o coração, que por alguns minutos deixa o presente de lado e vai buscar um pedaço de outro te...

A Cidade Nem Tão Maravilhosa

  Dizem que algumas cidades nasceram para encantar. Têm avenidas largas, árvores antigas, cafés cheios, praças onde o tempo parece andar mais devagar. E há aquelas cuja beleza começou antes mesmo das casas: montanhas desenhando o horizonte, ora nítidas, ora escondidas por uma névoa fina; o mar se abrindo adiante, mudando de cor conforme o céu, azul nas manhãs claras, cinzento nos dias de chuva, dourado quando a tarde começa a cair. Entre as curvas dos morros, o movimento das águas e a luz pousada sobre os telhados, a cidade se oferece inteira aos olhos, como se soubesse o quanto é bonita. Talvez seja mesmo. Mas as cidades nunca são apenas ruas, prédios, montanhas ou mar. São também as pessoas que as habitam dentro de nós. Desde que você partiu, ela perdeu um pouco da sua vocação para a beleza. O sol continua encontrando as fachadas pela manhã. As montanhas ainda recortam o céu, firmes e silenciosas. O mar permanece ali, respirando em ondas, recebendo barcos, devolvend...

Metáforas Da Casa Que Sabia Respirar

Havia uma casa antiga no fim de uma rua tranquila. Não era bonita nem feia. Era apenas uma dessas casas que parecem guardar mais silêncios do que móveis. As janelas passavam dias fechadas. O relógio da parede ainda marcava as horas, mas ninguém sabia dizer se era ele quem acompanhava o tempo ou se era o tempo que insistia em visitar aquele relógio. Todas as manhãs, uma mulher varria a varanda. Fazia isso com o mesmo cuidado de quem penteia uma lembrança. As folhas voltavam no dia seguinte, como se as árvores escrevessem cartas que o vento nunca deixava chegar ao destinatário. Ela não brigava com as folhas. Apenas as recolhia. Dentro da casa havia uma cristaleira. Os copos permaneciam alinhados havia anos. Pareciam soldados que sobreviveram a uma guerra sem nunca terem saído do lugar. Às vezes, ela abria uma das janelas. O ar entrava devagar, desconfiado, como um visitante que bate à porta de alguém que não vê há muito tempo. E a casa mudava um pouco. As cortinas se mexiam...