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" O Imperativo Espiritual do Desejo"

Durante muito tempo ela acreditou que o desejo era apenas uma forma de querer alguma coisa. Querer um vestido novo, querer viajar, querer que o dia fosse mais leve que o anterior. Depois entendeu que não. O desejo verdadeiro não tem nada a ver com essas pequenas vontades que passam como vento em cortina aberta. O desejo verdadeiro permanece. Silencioso, teimoso, quase invisível — mas permanece. Foi numa manhã sem importância que ela percebeu isso. A casa estava quieta demais. Não havia nada urgente para fazer, nenhum compromisso marcado, nenhuma visita esperada. A chaleira fervia devagar no fogão, espalhando aquele vapor fino que parecia subir sem pressa para o teto. Ela sentou-se à mesa e ficou olhando a xícara vazia. Havia dias assim. Dias em que a vida parecia suspensa, como um trem parado entre duas estações. Nesses dias ela se perguntava para que continuar fazendo tantas coisas. Arrumar a casa, dobrar roupas, caminhar pelas mesmas ruas, dizer bom dia às mesmas ...

Juntando os Pedaços

Ela chegou aos sessenta e cinco anos sem perceber exatamente quando a vida tinha passado da pressa para o silêncio. Não foi num aniversário específico. Não houve trombetas, nem conclusões definitivas. Apenas um dia em que, ao dobrar uma roupa já limpa, percebeu que havia vivido muitas vidas dentro de uma só. Algumas ficaram inteiras. Outras, espalhadas. Durante anos ela acreditou que a vida era uma linha contínua. Nascer, crescer, amar, perder, seguir. Mas aos sessenta e cinco entendeu outra coisa: A vida era mais parecida com uma mesa depois de uma longa viagem — cheia de objetos esquecidos. Havia ali a menina que corria descalça pela infância, convencida de que o mundo era grande demais para caber dentro de uma casa. Havia a jovem que acreditava que o amor resolvia tudo. Havia a mulher que trabalhou, cuidou, lutou, segurou muitas pontas ao mesmo tempo. E havia também as perdas. Algumas chegaram devagar. Outras atravessaram a vida como um vento que abre todas as ...

Alma!

Sabe aquele dia em que acordamos sentindo que falta um pedaço? Pois bem… hoje é um desses dias. Nada aconteceu de especial. A casa está no mesmo lugar, os móveis obedientes ao silêncio, a manhã entrou pela janela como entra todos os dias. Ainda assim, há uma pequena ausência circulando pelo ar, como se alguma coisa tivesse saído durante a noite sem avisar. Não é dor exatamente. É mais como um espaço. Um espaço dentro do peito onde antes havia alguma coisa — talvez uma alegria distraída, talvez uma certeza qualquer, talvez apenas aquela sensação simples de estar inteiro. E então a gente se pergunta: o que será que falta? Será que é um pedaço da alma? Ou, a alma inteira... Mas aí vem outra pergunta, dessas que ninguém responde com segurança: onde fica a alma? Alguns dizem que mora no coração, batendo junto com o sangue, escondida entre as lembranças e os afetos. Outros juram que ela não tem endereço fixo, que anda pelo corpo como um vento leve, passando pelos pensamento...

Essas Mulheres Encantadoras

Naquela terça-feira chovia fino, daquele jeito que não molha direito nem vai embora. O toldo da cafeteria pingava num balde de plástico colocado ali sem muita esperança de resolver o problema. O barulho era ritmado: uma gota, outra, depois duas juntas. Helena estava sentada perto da janela. Não esperava ninguém, mas também não parecia alguém que estivesse sozinha. Havia uma calma estranha no modo como ela segurava a xícara. Não bebia. Apenas deixava o café esfriar enquanto olhava a rua. As pessoas passavam rápido, como quem tem medo de perder alguma coisa que ainda não aconteceu. Helena tinha aprendido a não correr mais atrás de nada. Do outro lado da rua, uma mulher hesitou antes de atravessar. Parecia decidir se entrava ou se continuava caminhando. Acabou entrando. Ela sacudiu o guarda-chuva na porta, pediu um café curto e procurou lugar para sentar. Não havia mesas livres. Exceto a de Helena. — Posso? Helena levantou os olhos como se já soubesse. — Claro. A...

Todas as Mulheres Dentro de Mim

Há dias em que ela se percebe cheia. Não cheia de tarefas, nem de pensamentos — cheia de mulheres. Algumas aparecem de repente, sem aviso. Outras caminham com ela há tanto tempo que já se confundem com o próprio jeito de andar. De manhã, por exemplo, quando prende o cabelo ainda úmido e olha a cidade pela janela, surge a menina que um dia acordava cedo só para ver o mundo começar. Aquela que acreditava que cada dia escondia alguma coisa inédita. A menina ainda mora ali, curiosa, perguntando silenciosamente o que o dia pretende fazer com elas. Mais tarde, quando atravessa a rua distraída, aparece a jovem que caminhava sem medir as consequências. A que achava que tudo era possível, inclusive os amores que não duravam. Essa jovem ainda ri dentro dela — um riso meio ousado, meio ingênuo. Às vezes surge também a mulher que aprendeu a ficar em silêncio. Ela aparece quando a casa está calma demais ou quando alguém fala algo que não precisa de resposta. Essa mulher não tem pressa. ...

" E La Nave Va"

O mar estava quieto naquela manhã. Não quieto de ausência, mas quieto como quem pensa. Do cais, a nave parecia imensa. Não pelo tamanho — havia navios maiores —, mas pela quantidade de histórias que parecia carregar. Havia algo na pintura levemente descascada do casco, na corda grossa que ainda prendia o navio ao porto, no modo como as janelas refletiam o céu, que dava a impressão de que aquela nave já conhecia o mundo. As pessoas subiam a bordo com pressa. Carregavam malas, promessas, lembranças que não cabiam em lugar nenhum. Alguns falavam alto, como se quisessem convencer o destino de que estavam prontos. Outros caminhavam devagar, como quem atravessa uma despedida. Entre eles estava ela. Não trazia mala grande. Apenas uma bolsa de couro antigo e um silêncio dentro do peito. Parou um instante antes de subir a prancha. Olhou o mar como quem consulta um velho amigo. O horizonte estava distante e calmo, aquela linha onde o céu aprende a tocar a água sem fazer barulho. Su...

Vamos Ver o Que a Vida Nos Reserva

Eva andava em volta do novo namorado como quem aprende de novo a caminhar depois de muito tempo parada. Não era exatamente amor ainda. Era uma espécie de incêndio tranquilo. Ela ria mais do que de costume. Tocava o próprio cabelo sem perceber. Às vezes passava diante de um vidro qualquer — vitrine, porta, espelho esquecido — e se olhava com surpresa, como se estivesse reencontrando uma mulher que havia ficado guardada em alguma gaveta da vida. Sentia-se desejada. E esse sentimento tinha uma força antiga. Como uma maré que retorna. Caminhavam perto da água naquele fim de tarde. Eva tirou os sapatos e deixou os pés entrarem no mar raso. A água fria subia pelos tornozelos enquanto o vento desarrumava seus cabelos. Ela tinha os pés na água. E a cabeça em fogo. O namorado falava qualquer coisa — histórias, planos, frases soltas — mas Eva escutava apenas metade. A outra metade dela estava longe, vagando por um céu imaginário onde tudo parecia possível. Sua cabeça andava n...