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"Se Essa Rua Fosse Minha"

A rua não tinha nome raro. Chamava-se Rua das Acácias, embora nenhuma acácia resistisse inteira ao vento do sul. Era estreita, com casas de janelas baixas e cortinas que respiravam junto com a tarde. Helena morava na terceira casa à esquerda. Miguel, na última esquina, onde a rua parecia pensar duas vezes antes de continuar. Eles não sabiam exatamente quando começaram a se amar. Talvez tenha sido no dia em que ele segurou a bicicleta dela enquanto ela fingia não precisar de ajuda. Ou na tarde em que a chuva veio de repente e os dois se abrigaram sob a mesma marquise, rindo como se a vida fosse apenas aquilo: respingos e proximidade. A rua assistiu a tudo. Assistiu aos silêncios demorados no portão. Aos bilhetes dobrados quatro vezes, deixados sob a pedra solta perto do meio-fio. Aos domingos em que caminhavam devagar, inventando assuntos para que o trajeto nunca terminasse. Helena, às vezes, cantarolava distraída: — “Se essa rua, se essa rua fosse minha…” Miguel sorria. —...

Entre Água e Pedra

  Quando Clara disse aquilo, foi quase num sussurro: — Se eu não te amasse tanto assim… Miguel não respondeu. Ele estava na varanda, apoiado no parapeito do apartamento antigo da Rua das Laranjeiras, olhando a cidade como se ela pudesse explicar alguma coisa. Era noite, mas não chovia. O mundo estava indeciso, como eles. Clara repetiu, agora mais firme: — Se eu não te amasse tanto assim, seria mais simples. Ele virou o rosto devagar. Não havia raiva. Havia cansaço. Eles não eram um casal de tempestades. Eram de silêncios. De café passado às seis da manhã. De dividir o último pedaço de pão como se fosse uma decisão diplomática. De lembrar datas que ninguém mais lembrava. O problema nunca foi falta de amor. O problema era excesso. Miguel tinha o hábito de ir embora antes de ir embora. Ficava distante mesmo sentado ao lado. Guardava medos em caixas invisíveis. Clara, ao contrário, queria abrir tudo, ventilar, mexer nas feridas até que cicatrizassem. Ele dizia: — N...

O Gosto Amargo Que Ficou

  O gosto apareceu tarde demais para ser associado a alguma coisa concreta. Não houve cena, nem marco, nem data. Apenas um dia em que ela percebeu que tudo o que levava à boca terminava igual: com um travo curto, persistente, impossível de localizar. Pensou em remédio. Depois em estômago. Depois em idade. Nada explicava. Continuou vivendo sem comentar com ninguém. Não parecia assunto. As pessoas falavam de dores maiores, de exames, de faltas mais evidentes. Um gosto estranho não justificava interrupções. No trabalho, mastigava devagar. Evitava balas, chicletes, qualquer coisa que prometesse disfarce. Aprendeu que o amargo não gostava de ser provocado. Quanto mais tentava combatê-lo, mais ele se fixava. Havia dias em que ele quase desaparecia. Nesses dias ela se permitia uma falsa normalidade: almoçava sem atenção, bebia café em goles largos, ria no tempo certo. Bastava um descuido — um silêncio prolongado, uma espera desnecessária — e lá estava ele de novo, discreto e f...

Meu Melhor "Namorado"

  Ele foi meu melhor namorado. Não o mais intenso, não o mais difícil, não o mais inesquecível no sentido exagerado da palavra. O melhor. Com ele, as coisas não precisavam de legenda. O silêncio não era vazio, o riso não era esforço, o cotidiano não era espera. Havia uma naturalidade rara, dessas que a gente só percebe depois, quando já passou. Eu fui sempre sua. Não por promessa, nem por medo de perder. Fui porque era simples ficar. Porque não havia disputa, nem dúvida, nem ensaio. Era presença sem vigilância. No passado, antes dele, houve outros, namoro e paixões “avassaladoras” da adolescência... Claro que houve. Mas quando penso neles agora, é como lembrar de sabores que não ficaram. Tinham gosto de nada — ou quase nada. Um amargor rápido, um azedo educado. Limão com gengibre: acorda a boca, mas não alimenta. Não sustenta. Não fica. Ele, não. Ele tinha gosto de coisa que se reconhece sem precisar nomear. Algo que não cansa o paladar, que não pede correção, que não p...

Mabel Na Cidade dos Sussurros

  A cidade não tinha nome nos mapas. Chamavam-na de Cidade dos Sussurros porque ninguém ali falava alto — as palavras eram ditas como quem sopra sobre a água para não formar ondas. Mabel chegou numa manhã fria, com uma mala pequena e um medo grande. Não sabia exatamente o que procurava, mas sabia o que havia perdido. E às vezes isso basta para que os pés escolham um caminho. As ruas eram estreitas, as janelas altas, e das frestas escapavam murmúrios. Não eram vozes claras. Eram quase lembranças. Um “fica”, um “volta”, um “ainda estou aqui”. Mabel parava diante das portas como se pudesse reconhecer, entre tantos sussurros, aquele que lhe pertencia. Desde pequena, Mabel aprendera a escutar o que os outros não ouviam. No orfanato onde cresceu — um prédio antigo que respirava à noite — ela distinguia o ranger das tábuas do suspiro do vento. E sabia quando o silêncio estava pesado demais para ser apenas silêncio. Na Cidade dos Sussurros, o silêncio era uma língua. No primeiro ...

Desassossego

O desassossego não chega fazendo estardalhaço. Ele se instala como um copo fora do lugar na pia. Como uma cadeira levemente torta na sala. Como um silêncio que respira mais alto do que deveria. A gente acorda e ele já está sentado à beira da cama, olhando. Não diz nada. Mas pesa. Tem dias em que o desassossego é quase elegante — uma inquietação fina, que nos faz rearrumar livros, trocar móveis de lugar, abrir janelas antes do café. Nesses dias, ele parece motor. Move. Empurra. Sussurra que ainda há algo por fazer, por escrever, por amar. Mas há dias em que ele é pedra. Nesses dias, tudo parece fora de eixo. O corpo anda, mas por dentro algo não acompanha. As conversas acontecem, mas chegam com atraso. A cidade segue seu ritmo — ônibus, mercados, gente comprando pão — e nós, levemente desalinhados, como se estivéssemos vivendo meio centímetro ao lado da própria vida. O desassossego não gosta de multidão. Ele prefere o entardecer. Gosta da hora em que a luz enfraquece e as som...

Raízes Que Ninguém Vê

  “O que a gente viveu, ninguém rouba”. Fica entranhado na pele, nos ossos, no jeito de olhar o mundo. Fica no modo como se segura uma xícara, como se dobra uma camisa, como se chama alguém pelo nome. A morte veio — e veio sem avisar, simplesmente chegou. Levou quem era casa. Levou quem era riso fácil na cozinha, quem sabia o caminho das minhas mãos no escuro, quem dividia o silêncio sem precisar preenchê-lo. Levou o pai dos meus filhos, o homem que me acompanhou na travessia inteira de quase meio século. Levou meu amor. E eu fiquei. Fiquei como árvore em terreno aberto depois da tempestade. A raiz principal arrancada, a terra revolvida, o ar entrando por dentro das fibras. Por alguns dias — ou meses, ou anos, porque o tempo depois da perda não sabe mais se organizar — pensei que tombaria também. Porque era daquela raiz grossa que eu retirava a seiva. Era dela que vinha o sustento invisível, a força silenciosa que me mantinha de pé sem que eu percebesse. Sem ela, o mu...