Nas Curvas da Palavra
Há pessoas que dirigem bem. Outras escrevem bem. Júlia nunca teve certeza de qual das duas coisas fazia melhor. Gostava de estradas. Não das retas intermináveis, onde a paisagem parece desistir de surpreender, mas das curvas. Curvas obrigam a diminuir a velocidade. Fazem a gente prestar atenção. Exigem respeito. Com as palavras acontecia a mesma coisa. Quando era jovem, acreditava que escrever era chegar logo ao fim da história. Cortava caminho. Explicava sentimentos. Dava respostas antes mesmo que as perguntas terminassem de nascer. O tempo lhe ensinou outra coisa. As melhores palavras eram justamente as que faziam uma pequena curva antes de chegar ao destino. Numa tarde qualquer, enquanto organizava uma gaveta antiga, encontrou um maço de cartas. Algumas tinham mais de quarenta anos. Outras nunca haviam sido enviadas. Sorriu ao perceber que conhecia perfeitamente a mulher que escrevera aquelas páginas, mas já não falava como ela. Havia exageros. Promessas eternas. C...