Um Zíper no Peito
Havia dias em que Eduarda andava pela casa como quem carrega água dentro do corpo — qualquer movimento mais brusco e tudo parecia transbordar. Não era uma dor que começava em algum lugar exato. Não vinha do peito, nem da garganta, nem dos olhos. Era pior. Parecia morar entre os ossos, ocupando os espaços silenciosos que ninguém vê. Ela continuava fazendo café, dobrando roupas, respondendo mensagens com frases curtas demais para explicarem alguma coisa. As pessoas olhavam e viam uma mulher funcionando. Só Eduarda sabia do esforço absurdo que existia em conseguir abrir as janelas pela manhã sem desabar junto com elas. À noite, quando a casa finalmente silenciava, ela se sentava no chão do quarto e apoiava as costas na cama, como fazia desde menina quando alguma tristeza parecia maior que o próprio corpo. Havia algo quase infantil naquele hábito, mas também alguma espécie de sobrevivência. Porque o chão, ao menos, não fingia. Foi numa dessas noites que pensou no zíper. Imaginou um...