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Os Ouvidos Que Não Queriam Escutar

  Foi numa terça-feira que ela percebeu. O marido falou alguma coisa durante o café, mas ela não ouviu. Não era novidade. Às vezes ele falava baixo, distraído, enquanto lia o jornal. Ela pediu: — O quê? Ele repetiu. Nada. Ela olhou para ele. Os lábios se mexiam, mas nenhum som chegava. — Acho que estou ficando surda. Ele riu. — Só quando interessa. Ela também riu. Naquele dia, porém, os ouvidos continuaram estranhos. Na rua, escutava perfeitamente o barulho dos carros, o salto de uma mulher batendo na calçada, o vento mexendo nas árvores. Ouvia até o cachorro do apartamento ao lado, que latia duas vezes antes de começar a chorar. Mas não ouvia algumas pessoas. A vizinha do terceiro andar dizia bom-dia e ela via sua boca se mexer sem ouvir uma palavra. O telefone tocava. Ela atendia. A pessoa do outro lado falava, mas havia apenas silêncio. Depois desligava. Curiosamente, algumas vozes continuavam chegando. O padeiro. A moça do caixa do superm...

As Mãos Que Não Queriam Tocar

As mãos começaram a recusar, ninguém percebeu no primeiro dia... Ela colocou a xícara sobre a mesa, abriu a janela, penteou os cabelos. Tudo parecia igual. Só havia uma pequena dificuldade quando alguém estendia a mão para cumprimentá-la. Os dedos dela permaneciam junto ao corpo. Não era vergonha. Não era medo. Era uma recusa silenciosa, quase educada. Com o passar dos dias, as mãos passaram a evitar outras coisas. Não queriam segurar o corrimão do ônibus, apertar botões, escolher frutas na feira. Quando precisava pegar alguma coisa, esperava que estivesse suficientemente perto para alcançá-la sem encostar em outra pessoa. Começou a usar mangas compridas. Uma manhã, diante do espelho, percebeu que suas mãos estavam diferentes. Não na aparência. Continuavam sendo as mesmas mãos grandes, de dedos finos, com pequenas marcas que o tempo havia deixado. O que havia mudado era a distância. Elas pareciam morar alguns centímetros longe do resto do corpo. Ela levantou a mão dir...

O Coração Que Não Queria Sentir

  Havia um coração cansado de sentir. Não era tristeza. Tristeza ele conhecia bem. Também conhecia a saudade, o medo, a espera, aquelas pequenas alegrias que chegam nem mais nem menos, e vão embora antes que a gente consiga segurá-las. O problema era outro. Ele estava farto de sentir tudo. Um dia, resolveu se esconder. Não dentro do peito, porque ali seria fácil demais encontrá-lo. Escondeu-se atrás de uma costela, num lugar estreito e escuro onde nem o próprio dono costumava prestar atenção. Ali ficou. Parou de responder às lembranças. Quando alguém dizia um nome conhecido, ele permanecia quieto. Quando uma música antiga atravessava a casa, não acelerava. Quando uma mão procurava outra no meio da noite, ele não fazia nada. Era quase confortável. Quase. Com o passar dos dias, o corpo percebeu que alguma coisa estava errada. Caminhava, comia, conversava, dormia. Fazia tudo o que se esperava de uma pessoa. Mas havia um vazio estranho entre uma coisa e outr...

O Vento Que Ficou

Ele chegou como uma rajada de vento. Eu estava em um lugar qualquer, entre pessoas que não conhecia direito, quando ele apareceu. Não houve anúncio, nem aquela cena bonita que às vezes inventamos depois que uma história dá certo. Ele simplesmente chegou. Falava com alguém, ria, gesticulava. De vez em quando olhava para o meu lado. Eu também olhei. Naquele dia, não aconteceu nada de extraordinário. Conversamos pouco. Eu nem lembro direito sobre o que. Lembro que, quando fui embora, pensei nele. No dia seguinte, ele apareceu de novo. Depois, encontramos um motivo para conversar. E outro. E outro. Aos poucos, os encontros foram ficando mais frequentes. Um café depois do trabalho. Um jantar que deveria ser rápido e terminava tarde. Uma caminhada sem destino. Um telefonema que começava com uma pergunta qualquer e, quando percebíamos, já tinha passado uma hora. Eu gostava de ouvi-lo falar. Ele tinha um jeito próprio de contar as coisas. Às vezes exagerava, às ve...

A Mágica das Mãos

Acho que uma das partes mais bonitas do corpo humano são as mãos. Talvez eu ache isso porque as minhas nunca foram bonitas. São grandes, finas, compridas. “Mãos de gringa”, dizia minha mãe. Nunca consegui ter aquelas unhas longas, bem-feitas, pintadas de vermelho, vinho, azul, essas cores que deixam as mãos tão femininas. As minhas unhas quase sempre foram cor de unha mesmo. E eu nunca tive muita paciência para transformá-las em outra coisa. Mas gosto de olhar para as mãos. Gosto de reparar nelas. Há alguma coisa de mágico naquele conjunto de dedos que se movimenta e, sem dizer uma palavra, consegue conversar. As mãos inventaram uma espécie de idioma que não precisa de tradução. Um aceno pode dizer “oi”, “tchau”, “vem”, “vai embora”. Um polegar levantado pode significar que está tudo bem. Dois dedos podem formar um V, e dependendo do lugar, da época e da intenção, aquilo pode dizer coisas diferentes. Uma mão sobre o peito pode agradecer. Duas mãos juntas podem pedir...

Rosa e Espinho

Dizem que uma roseira sabe mais da vida do que muita gente. Ela nasce pequena, quase sem chamar atenção. Depois cresce. Um galho. Dois. E começam a aparecer os espinhos. Ninguém conta quantos são. Eles simplesmente estão lá. Há épocas em que a roseira parece esquecer das flores. Só espinhos. Espinhos nos galhos, entre as folhas, escondidos onde a mão não espera. São os dias difíceis. Os dias de perda. De medo. De espera. De silêncio. Depois, sem aviso, aparece uma rosa. Uma. Depois outra. E mais uma. E a gente se aproxima devagar, porque já sabe dos espinhos. Mas a rosa está ali. Vermelha. Aberta. Inteira. Há anos em que a roseira fica carregada de flores. A vida também. Amores que chegam. Filhos que crescem. Netos. Amizades. Uma casa cheia. Uma viagem esperada. Uma notícia boa. Um café tomado sem pressa. Há outros anos em que quase não há rosas. E os espinhos parecem ocupar tudo. Mas eles não duram para sempre...

Quase Feliz

Há lugares em que a gente percebe que está em outro país antes mesmo de sair do aeroporto. Na Suíça, a organização chama atenção. Não sei dizer exatamente o que é. Talvez o silêncio. Talvez o jeito tranquilo de as pessoas se movimentarem, sem aquela pressa que parece fazer parte dos aeroportos. Pessoas elegantes passam com suas malas e mochilas, numa finesse que dá gosto de ver. Não vou comparar com outros lugares. Nem precisa. Depois vem o saguão de saída. E logo ali, o trem. Um trem de primeira. Silencioso, cheiroso, confortável. As pessoas falam baixo. Algumas olham o celular, outras conversam, outras simplesmente ficam olhando pela janela. E há nos rostos uma espécie de leveza. Pode ser impressão minha. Mas parecem felizes. O fim de semana está chegando. O sol também. Os últimos dias de um possível veranico se anunciam por aqui e, pelo jeito, vai dar praia. Eu gosto dessas pequenas promessas do tempo. Chego em casa e volto a respirar feliz. Quase feliz. ...