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Inteira Demais para Caber no Agora

Nossa vida foi tão boa que doía — não enquanto acontecia, mas agora, que sobra inteira dentro de mim. Não era perfeita. Nunca foi. Havia dias ásperos, silêncios que demoravam mais do que deviam, pequenas impaciências espalhadas pela casa como objetos fora do lugar. Mas nada disso pedia conserto. Era só o modo como a vida respirava entre nós. Eu não tiraria nada. Nem os atrasos, nem as discussões bobas sobre coisas que hoje nem lembro direito. Nem o jeito como você deixava a luz acesa no corredor, como se a casa precisasse de vigília. Nem as manhãs em que o café esfriava porque a conversa tinha mais urgência do que o tempo. Tudo cabia. Talvez seja isso que pesa. Porque agora não há mais onde colocar o que ainda vive. As lembranças não diminuem com o tempo — elas se organizam melhor, ocupam menos espaço visível, mas ficam mais densas. Como se cada detalhe aprendido ao seu lado tivesse criado raiz. Tem dias em que quase não penso. Sigo. Faço o que precisa ser feito. Abro janel...

O Lugar Onde a Dor Não se Delega

Há um ponto em que a dor deixa de procurar saída nos outros e começa a pedir lugar dentro de quem a carrega. Não acontece de forma nobre. Nem clara. É mais como um cansaço de explicar o que não cabe em palavra nenhuma. A pessoa percebe, aos poucos, que repetir a história não muda o que foi perdido — seja uma morte, uma separação, um futuro que não chegou a existir, uma decepção que ficou aberta como uma porta que ninguém fecha. É aí que o amor-próprio deixa de ser ideia e passa a ser gesto. Um gesto pequeno, quase invisível: parar de se abandonar no meio da própria dor. Não é se consolar com frases prontas. Não é se convencer de que “vai passar”. É algo mais duro e mais honesto: ficar. Ficar com o que dói sem tentar se trair para caber melhor no entendimento dos outros. Sem diminuir o que sente para não incomodar. Sem exagerar para ser visto. Ficar. Nesse ficar, nasce uma força que não aparece para fora. Não é a força de quem supera. É a de quem sustenta. Quem entende que c...

Onde o Instante se Basta

  Chamam de autotélio(autotélico) aquilo que não precisa ir além de si para existir. Mas, fora da palavra, isso quase não tem nome. Acontece quando alguém permanece um pouco mais do que o necessário. Quando a mão não larga o livro mesmo depois da última linha. Quando a música termina e ninguém corre para a próxima. Há um tipo de gesto que não se oferece a ninguém. Não pede retorno, não se organiza em função de um depois. Ele acontece e fica — inteiro no próprio instante. Num tempo em que tudo parece precisar servir para alguma coisa, o que não serve causa estranheza. Como se fosse desperdício. Como se fosse falha. Mas não é. Há um valor quieto em fazer algo que não se transforma em resultado. Em sustentar um momento que não será contado, nem repetido, nem provado. Algo que não se arquiva. Talvez seja por isso que certos instantes passam quase despercebidos: porque não deixam marcas úteis. Não constroem narrativa. Não melhoram nada. E, ainda assim, ficam. ...

Somos Sós Dentro da Própria Pele

  Somos sós dentro da própria pele... Sim. E o pior não é a solidão. É a impossibilidade de fuga. Somos sós dentro da própria pele — não como quem está abandonado, mas como quem está irremediavelmente contido. Não há porta. Não há intervalo. Não há descanso de si. O mundo inteiro pode encostar em você — mãos, vozes, promessas, corpos — e ainda assim há um núcleo onde ninguém chega. Um ponto mudo, fechado, que não se traduz. É ali que a vida realmente acontece. E é ali que ninguém testemunha. O amor tenta. Chega perto, às vezes muito perto. Aprende os contornos, decora gestos, antecipa silêncios. Mas sempre esbarra nesse limite invisível onde tudo se desfaz em superfície. Não por falha. Por natureza. Penso que existir é uma experiência sem compartilhamento total. Uma travessia que até pode ser acompanhada, mas nunca dividida. E o corpo sabe. Por isso há momentos em que tudo irrita — a conversa, o toque, a presença do outro — não porque o outro seja insuficien...

Preenchendo Silêncios

A gente foi ensinada a preencher espaços. Responder rápido, sustentar a conversa, não deixar cair. Como se o silêncio fosse sempre um descuido, um intervalo mal resolvido. Mas nem todo silêncio precisa de resgate. Há momentos em que qualquer palavra chega menor do que aquilo que já está ali. Forçar uma frase é quase desrespeitar o que o silêncio conseguiu dizer sozinho. Como interromper uma música antes da última nota se dissipar no ar. Porque o silêncio diz. Diz no olhar que não desvia, no gesto que não se apressa, na pausa que não pede explicação. Diz na respiração que desacelera quando já não há nada a provar. Diz o que não cabe em frase organizada, o que não se deixa traduzir sem perder alguma coisa pelo caminho. E, às vezes, é mais honesto deixar assim. A gente nem sempre percebe, mas existe uma pressa em nomear tudo. Em explicar o que sente, em organizar o que vive, em dar forma imediata ao que ainda está em trânsito. Como se o mundo só fosse legítimo depois de dito....

O Prato no Chão

Ela dizia — e repetia como quem se convence — que estava “equilibrando os pratos”. Não era metáfora bonita. Era barulho mesmo. Porcelana fina, herdada, comprada em promoção, ganhada em casamento. Pratos de todo tipo girando sobre as mãos, os ombros, a ponta de uma disciplina que já não era escolha — era hábito. Três filhos adolescentes orbitando com suas urgências, um marido chamado Augusto que já não perguntava, apenas supunha, e ela no meio, corrigindo provas enquanto mexia a panela, enquanto respondia mensagens, enquanto sorria no lugar certo. Nada caía. E esse era o problema. Porque nada cair exigia um corpo inteiro em estado de alerta. Não havia pausa. Nem distração. Nem falha permitida. A perfeição, naquele caso, não era qualidade — era contenção. Foi numa tarde comum que algo deslocou. Não um grande acontecimento, nada que justificasse. Um atraso pequeno. Um esquecimento mínimo. Um prato — só um — que escorregou. Não quebrou. Mas fez um som. Um som seco, deslocad...

Enquanto a Coruja pia

Havia uma demora dentro da casa que não vinha do relógio. Como se alguma coisa tivesse sido interrompida no meio de um gesto — e ninguém tivesse voltado para terminar. A luz seguia acesa sem motivo claro. O livro aberto sobre a mesa não era lido havia tempo, embora permanecesse ali, obediente, como se ainda esperasse olhos que já não se demoravam. Um copo pela metade, um prato limpo demais. Pequenos excessos de silêncio ocupando os lugares do que antes era uso. Yvi estava sentada, mas não exatamente presente. O corpo alinhado à cadeira, as mãos próximas do livro, tudo no lugar — menos ela. Foi então que o som atravessou a noite. Um som seco, repetido, como quem marca um tempo que ninguém pediu para contar. Não era alto, mas insistia. De algum ponto da árvore — a mais antiga do terreno, de tronco grosso e casca ferida — vinha aquele chamado que atravessava a noite sem pedir licença. Dentro da casa, nada reagiu de imediato. A luz permaneceu acesa. O livro aberto. O copo pel...