As "Meninas" do Trem
O trem saiu devagar, quase pedindo licença para deixar a estação para trás. Era uma manhã comum. Gente apressada, sacolas no colo, casacos mal fechados, o barulho metálico das portas e aquele cheiro de café que vinha de algum lugar da plataforma. Nada anunciava que, naquele vagão, quatro mulheres estavam prestes a reencontrar uma parte de suas próprias vidas. Sentaram-se próximas, como se ainda tivessem vinte e poucos anos. Não tinham. Havia cabelos brancos escondidos sob tinturas cuidadosas, joelhos que reclamavam nas mudanças de tempo e uma coleção de histórias que nenhuma delas contava inteira. — Faz quanto tempo? — perguntou Lúcia. Ninguém respondeu de imediato. Era uma pergunta grande demais para caber em uma resposta. Tinham estudado juntas. Depois vieram os casamentos, os filhos, os empregos, as mudanças de cidade, as mães envelhecendo, os maridos adoecendo, as contas, as separações, os netos. A vida foi acontecendo às vezes calma, às vezes atropelada... e, qua...