As Músicas Que Ficaram Sem Ele
Depois que ele morreu, a casa ficou sem som. Não foi decisão. Foi acontecendo. O rádio permaneceu desligado. A televisão muda. Até os ruídos pequenos — o arrastar de uma cadeira, o abrir de uma gaveta — pareciam exagerados dentro daquele espaço. Ela passou a se mover com cuidado, como se qualquer barulho pudesse quebrar alguma coisa que ainda restava. Mas o silêncio cresceu. Entrava pelos cantos, ficava mais tempo do que devia, acompanhava até os gestos mais simples. Havia momentos em que ele parecia maior do que a própria casa. Foi por isso que, um dia, ela ligou o som. Sem escolher muito. Sem procurar uma música específica. Apenas ligou. E deixou. A canção que veio não tinha nada de especial. Era uma dessas que já tinham passado tantas vezes que ninguém mais prestava atenção. Mas ela prestou. Sentou. Ficou. Antes, quando uma música começava, ele parava. Não importava o que estivesse fazendo. Havia um instante em que ele se entregava — inclinava a cabeça,...