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Desconstrução

Durante muitos anos, ela acreditou que uma casa era feita de paredes. Só depois entendeu que não. Uma casa era feita de ruídos: o portão abrindo no fim da tarde, a chave girando duas vezes na fechadura, o copo pousado sobre a mesa, o chuveiro ligado enquanto alguém cantava desafinado no banheiro. Era feita também das coisas que ninguém via — dos silêncios depois de uma discussão, das esperas, dos planos adiados, das pequenas concessões que, somadas, acabavam parecendo uma vida inteira. A casa deles estava sendo demolida numa terça-feira de setembro. Ela ficou do outro lado da rua, olhando. A primeira parede caiu às dez e vinte. Não sentiu nada. Ou talvez tenha sentido tudo de uma vez e, por isso, não tenha conseguido identificar coisa alguma. O homem que operava a máquina fez um gesto para o ajudante, e mais uma parte da sala desapareceu. Atrás dos tijolos, surgiu o papel de parede antigo, ainda preso em alguns pedaços. Era azul-claro. Ela quase sorriu. Tinha esco...

Nossos Setembros

Setembro tinha uma mania curiosa: nunca chegava sozinho. Trazia sempre alguma coisa debaixo do braço. Uma lembrança, uma ausência, uma fotografia que ninguém lembrava de ter tirado. Às vezes trazia apenas um cheiro — de terra molhada, de roupa guardada, de café passado cedo demais. Eu nunca sabia o que ele deixaria. Talvez por isso tivesse aprendido a desconfiar das manhãs de setembro. Naquele tempo, você ainda estava aqui. Nós não dizíamos “nossos setembros”. Não havia necessidade. Setembro era apenas setembro, como qualquer outro mês. A gente vivia dentro dele sem perceber que estava construindo alguma coisa que, muitos anos depois, teria nome. Havia setembro na toalha florida da mesa. No rádio ligado enquanto você fazia a barba. Na roupa estendida no quintal. Na janela que você esquecia aberta. Em certas tardes, havia setembro até no silêncio entre uma palavra e outra. E havia você. Principalmente você. Depois, os anos fizeram aquilo que os anos sabem faz...

Os Domingos Também Podem Ser Assim...

Às dez da manhã, ela ainda estava de pijama. Não havia pressa. Ninguém chegaria para o almoço, ninguém telefonaria perguntando a que horas a mesa estaria posta, ninguém precisava saber o que ela faria naquele dia. Abriu a geladeira. Havia meio mamão, dois ovos, um pedaço de queijo e uma garrafa de vinho aberta desde a quinta-feira. — Dá para o domingo — disse, falando sozinha. E deu. Comeu o mamão diretamente do prato, tomou café sem açúcar e deixou a louça na pia. Na casa ao lado, alguém já tinha começado o churrasco. A fumaça entrava pela janela e trazia aquele cheiro de domingo que ela conhecia tão bem. Por alguns minutos, ficou ali, respirando. Não sentiu saudade. Ou talvez sentisse, mas não daquela maneira que as pessoas imaginam quando falam em saudade. Era uma saudade sem lágrimas, quase doméstica, dessas que aparecem enquanto a gente procura alguma coisa numa gaveta. Ela fechou a janela. Tomou banho. Escolheu uma roupa bonita. Não porque fosse sair...

Os Dias Que Se Repetiam

  Naquela terça-feira, Helena acordou às 6h17. Não era uma terça-feira qualquer. Ela sabia disso porque o rádio, antes mesmo de o locutor dizer bom-dia, anunciou a temperatura: dezenove graus. Depois veio a música que ela não gostava, aquela em que uma mulher cantava sobre voltar para casa. Helena desligou o rádio. Na cozinha, encontrou uma xícara sobre a mesa. Não era a sua. Era uma xícara branca, pequena, com uma lasca na borda. Dentro havia café ainda morno. Ela ficou olhando. Morava sozinha havia onze anos. Jogou o café fora, lavou a xícara e não pensou mais no assunto. Às 8h40, saiu para o trabalho. Na esquina, um homem de camisa azul deixou cair uma pasta cheia de papéis. Helena ajudou a recolhê-los. Um dos papéis tinha uma fotografia de uma menina de vestido amarelo. — Obrigado — disse o homem. — Não há de quê. Às 12h15, no restaurante de sempre, o garçom colocou diante dela o prato errado. — Filé com batatas — disse ele. — Eu pedi peixe. O ...

Muro Baixo

— Cada um no seu quadrado — dizia dona Isa. — Senão a coisa enfeia. Dizia isso para tudo. Se uma vizinha reclamava que o marido passava tempo demais no bar: — Cada um no seu quadrado. Se a filha queria saber por que a cunhada não aparecia mais nas reuniões de família: — Cada um no seu quadrado. Se alguém perguntava por que ela nunca se metia na vida dos outros: — Porque eu gosto de dormir em paz. Dona Isa morava numa casa pequena, de muro baixo e portão de ferro, na mesma rua havia quarenta e três anos. Conhecia todo mundo. Sabia quem tinha trocado de carro, quem estava reformando a cozinha, quem tinha neto novo e quem estava devendo na padaria. Mas não perguntava. Esperava. Uma hora a informação chegava. Naquela terça-feira, ela estava sentada na cadeira de balanço da varanda, descascando laranjas, quando ouviu a voz de Marlene do outro lado da rua: — Isa! Tu soube? Dona Isa continuou descascando a laranja. — Se eu soube, não sei. Depende do que tu vais...

O Dia Que Não Tem Par

Havia uma coisa errada na semana. Ninguém sabia dizer exatamente o quê, mas havia. Segunda-feira vinha agarrada à terça, como duas irmãs que ainda tinham coisas para conversar. Quinta-feira já se encostava na sexta, porque a sexta tinha pressa de chegar. E sábado, quando aparecia, trazia o domingo consigo, feito sombra. Só a quarta-feira não tinha ninguém. Ficava ali, no meio. Sozinha. Durante muito tempo, ninguém se deu conta disso. Talvez porque a quarta-feira tivesse aprendido a não fazer barulho. Chegava sem promessas, sem despedidas, sem aquela alegria antecipada das sextas-feiras. Era apenas quarta. O dia em que a semana já havia ido longe demais para recomeçar e ainda estava longe demais para terminar. Foi por isso que certa noite ela perguntou ao Tempo: — Por que eu não tenho um par? O Tempo, que já tinha ouvido perguntas muito mais difíceis, demorou a responder. — Porque alguém precisava ficar sozinho. A quarta-feira não gostou da resposta. — Mas ...
  Quando envelhecemos, voltamos a precisar de mãos Hoje, a caminho do escritório, uma cena muito simples me fez diminuir o passo. Um senhor, já bastante idoso, tentava subir um pequeno degrau de um canteiro que separava a casa dele da casa do vizinho. Era apenas um degrau. Para quem passa apressado, talvez nem merecesse um olhar. Mas eu fiquei observando o esforço daquele homem para vencer uma altura que, alguns anos antes, provavelmente nem teria percebido. Ele apoiou o corpo, procurou equilíbrio, firmou os pés e, com aquela lentidão que a idade vai impondo sem pedir licença, conseguiu passar. Pensei que talvez ele estivesse indo à casa do vizinho para dar um bom-dia. E essa possibilidade me tocou. Porque, depois de certa idade, até mesmo um bom-dia pode exigir um pequeno esforço. Não apenas físico. Há uma espécie de mudança silenciosa que acontece quando envelhecemos. Aos poucos, deixamos de fazer tantas coisas sozinhos. Não necessariamente porque perdemos a vontade, mas porque o...