Quando Acordamos os Anjos
Havia uma casa onde os anjos dormiam. Não eram aqueles anjos de asas brancas, cabelos dourados e rostos de porcelana que enfeitavam os presépios. Eram outros. Moravam nos pequenos intervalos da vida, escondidos entre uma xícara de café e uma conversa interrompida, no gesto de ajeitar a coberta de alguém, no cuidado de deixar a luz acesa para quem ainda não chegou. Dormiam profundamente, esses anjos. A humanidade andava ocupada demais para acordá-los. As pessoas tinham pressa. Corriam atrás de coisas que brilhavam, discutiam por razões que já não lembravam, guardavam palavras bonitas para ocasiões especiais e economizavam abraços como quem teme gastar alguma coisa preciosa. Os anjos assistiam a tudo, quietinhos. Um deles, particularmente inquieto, costumava passear pelas ruas durante a madrugada. Sentava-se nos bancos das praças, observava os casais nos restaurantes, espiava pelas janelas e se demorava nas casas onde alguém chorava baixinho para não acordar os outros. Cert...