A Última Carta Nunca Lida
A carta estava dentro da gaveta de baixo, entre um lenço de cambraia e três fotografias que já tinham perdido a coragem das cores. Não era uma carta bonita. O envelope, amarelado nas bordas, tinha uma mancha de café no canto esquerdo e o nome escrito com uma firmeza antiga, dessas que não pedem licença. — Joga isso fora — disse Rosa, a irmã mais prática, encostada na porta do quarto. — Papel velho só serve para juntar pó e fantasma. Celina não respondeu. Estava sentada na beira da cama, com os pés no chão frio, olhando para aquele envelope como se ele respirasse. A casa inteira cheirava a armário aberto, cera de chão e chuva parada. Do lado de fora, as folhas da pitangueira batiam no vidro, insistentes, como dedos miúdos chamando alguém. A mãe morrera havia quatro dias. Aos noventa e dois anos, Laura ainda guardava coisas com a teimosia de quem não confia na memória dos outros. Guardava recibos, botões, santinhos, cartões de aniversário, bilhetes de farmácia, listas de supe...