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A Mulher que Caminhava Sobre as Nuvens

Julinha nunca foi leve por falta de peso. Foi leve por excesso de sonho. Quem a via andando pela rua — a bolsa pendendo do ombro, o vestido simples, os cabelos presos às pressas — talvez não percebesse nada de extraordinário. Mas havia um detalhe: ela não pisava exatamente no chão. Havia entre seus pés e o asfalto uma distância invisível, como se o mundo não conseguisse retê-la por completo. Julinha já sofrera. Sofrera o amor que parte sem aviso, a amizade que esfria, a palavra que machuca mais do que deveria. Sofrera também as pequenas perdas: a xícara favorita quebrada, o domingo que termina cedo demais, o silêncio depois de uma casa cheia. Mas, em vez de endurecer, ela aprendera outra coisa. Aprendera a subir. Não era fuga. Era escolha. Quando a tristeza vinha — e ela vinha, sempre vinha — Julinha não a negava. Sentava-se ao lado dela como quem conversa com uma visita inconveniente, mas necessária. Chorava quando precisava. Sentia o peso no peito, a garganta apertada...

Do Outro Lado da Própria Vida

Quando Marina começou a atravessar a rua mais devagar, ninguém percebeu. Ela também não percebeu de imediato. Não era medo dos carros. Era outra coisa. Uma espécie de desaceleração interna, como se os passos precisassem acompanhar algo que dentro dela tinha mudado de ritmo. A cidade seguia igual. O jornaleiro levantava a porta de metal às sete. A farmácia mantinha a luz branca acesa a qualquer hora. O cheiro de pão quente escapava da padaria da esquina. Tudo no lugar. Só Marina parecia ligeiramente deslocada — como um móvel que foi arrastado alguns centímetros durante a noite e, pela manhã, ninguém sabe explicar por que o espaço parece diferente. No armário, vestidos que ainda serviam, mas já não diziam. Na gaveta, cartas dobradas com uma letra firme demais para o que ela agora sentia. No espelho, um rosto conhecido, mas com um silêncio novo nos olhos. Não era tristeza aguda. Não era alegria. Era um intervalo. Durante anos, Marina viveu no lado que resolve, que responde,...

Bem Próximo da Janela

Ela ficava bem próximo da janela, como se aquele pedaço de parede fosse o único lugar da casa onde o ar ainda circulava inteiro. A moldura de alumínio já perdera o brilho de anos atrás. Havia pequenas marcas no vidro — respingos de chuva antiga, poeira que o pano não alcançava totalmente, um risco fino quase invisível que só aparecia quando o sol batia de lado. A cortina, leve demais para ser cortina, ondulava com a fresta sempre aberta, mesmo no frio. Ela mantinha a fresta. Vestia uma blusa de linho bege, já macia de tanto uso, marcada nos punhos como se ali repousassem seus cotovelos todas as tardes. A saia azul descia até os tornozelos, discreta, com a barra um pouco gasta. Os pés descalços buscavam o chão frio como quem confirma que ainda há chão. O cabelo estava preso sem intenção de ficar bonito. Algumas mechas escapavam e tocavam o rosto, e ela não as afastava. Deixava que o vento resolvesse. O semblante era amplo. Não era o rosto de quem espera, nem o de quem desistiu...

O Mundo Está Muito Ordinário

Ordinário. No dicionário, significa comum. Aquilo que acontece todos os dias. O que é habitual, corriqueiro, simples. Mas, na boca das pessoas, ordinário quase sempre vira ofensa. Algo vulgar. Sem nobreza. De má qualidade. Pequeno. Talvez o problema não esteja na palavra. Talvez esteja no nosso olhar. O mundo está muito ordinário, dizem. E está mesmo. Acordamos, rolamos a tela, repetimos opiniões prontas, nos irritamos com desconhecidos, julgamos em quinze segundos aquilo que não entenderíamos em quinze anos. As conversas estão mais rasas. As indignações, mais baratas. O afeto, apressado. O mundo anda ordinário no pior sentido: perdeu delicadeza. Mas também está ordinário no melhor sentido possível. O padeiro abre a porta às seis da manhã como sempre abriu. A senhora rega as plantas na varanda. Um pai leva a filha à escola segurando a mochila maior que ela. O ônibus passa no mesmo horário. A chuva insiste em cair nos mesmos meses. O café continua quente quando a gente pre...

A Dor Tira o Brilho dos Olhos

Helena não chorou no velório. As pessoas interpretaram aquilo como força. Comentavam baixo: “Que mulher firme.” Ela ouvia como quem escuta uma conversa em outro cômodo. Apertava mãos, agradecia presenças, aceitava abraços demorados. Repetia “obrigada” como quem aprende uma nova profissão. O corpo sabia o que fazer. O corpo sempre sabe. A dor, quando é grande demais, não faz cena. Foi dias depois que algo mudou. Não no jeito de andar. Não na voz. No olhar. Ela acordava cedo. Lavava o rosto. Preparava café para uma xícara só. Sentava à mesa e ficava alguns minutos olhando a cadeira vazia à frente. Não pensava nada específico. Só permanecia. O mundo continuava funcionando com uma eficiência irritante. O padeiro abria às seis. A vizinha regava as plantas às sete. O ônibus passava no mesmo horário. Crianças iam para a escola arrastando mochilas maiores do que o corpo. Helena participava de tudo como quem cumpre uma tarefa. Mas os olhos não acompanhavam. Não estavam vermelh...

Oito Andares Acima do Juizo

O toc-toc na porta se manteve insistente por alguns minutos. Forte. Decisivo. De alguém que não aceitaria um “não vou abrir” como resposta. Ela acordou num susto que lhe colocou o coração na boca. Sentou-se na cama, arrumou os cabelos que se espalhavam pelo rosto. Sentiu um gosto amargo subir pela garganta até alcançar a boca. Pigarreou. Entendeu que as incessantes batidas eram algo sério. Correu até a porta, seguida pelo eco que se dilatava na cozinha de ladrilhos azuis e brancos. Abriu. Estendeu a mão. Puxou-o para dentro e o agasalhou num abraço. Era o rapaz do 201. O cheiro dele — sabonete barato misturado a algo mais quente, mais masculino — entrou primeiro, antes mesmo do corpo. Ela sentiu a respiração dele ainda acelerada contra o seu pescoço. Jovem demais, pensou. Jovem demais para o que acordava nela. Morava no 804 havia quinze anos. O apartamento alto, com janelas abertas para a cidade que não dormia, era seu território seguro. Separada havia tempo suficiente para q...

Levanta os Ombros e Segue

Levanta os ombros e segue. Ela escutou isso numa manhã comum demais para comportar qualquer milagre. A água do café ainda não tinha fervido. A casa estava naquela suspensão entre o silêncio da madrugada e o barulho do dia que começa. Levanta os ombros e segue. Ela ficou parada diante da pia. Não sabia se era delírio ou realidade. Não sabia se tinha sonhado acordada. Mas a voz estava ali — não no ouvido, não no ar — estava dentro da memória dos ossos. A voz do marido. Clara. Direta. Sem dramatização. Ele sempre dizia isso quando algo quebrava, quando o carro não pegava, quando a conta vinha mais alta, quando a vida parecia maior do que as forças. Levanta os ombros e segue. Ela encostou as mãos na borda da pia. Olhou o reflexo no vidro escuro da janela. Os ombros estavam curvados. Pesados. Como se sustentassem não só o corpo, mas o tempo inteiro que viveram juntos. Anos e anos sempre juntos. O tempo tinha dilatado naquela vida. Cresceu em risadas na cozinha, em domingos de ...