O Nome Que Faltava
A primeira palavra desapareceu numa terça-feira de chuva fina, dessas que deixam a cidade inteira com cheiro de pano úmido e café recém-passado. Helena percebeu por que o livro aberto sobre a mesa parecia ter engolido um pedaço da frase. “Ele a olhou como quem ______ pela última vez.” Ela piscou. Pensou que fosse cansaço. Aproximou os óculos do rosto, limpou as lentes na barra do casaco, voltou a ler. Nada. O espaço permanecia ali, branco e quieto, como um dente arrancado. Passou os dedos pela página. Procurou a palavra na memória. Sabia que existia uma palavra exata para aquilo. Uma palavra antiga, usada demais, talvez até desgastada. Ainda assim necessária. Mas não vinha. Tentou outra frase. “Minha mãe sempre dizia que ninguém morre enquanto for ______.” Vazio. Abriu um dicionário. As páginas estavam intactas, exceto por pequenas ausências que começavam a aparecer como ferrugem invisível. Verbos inteiros haviam sumido. Substantivos delicados tinham deixado apena...