O Filme Que Não Terminamos
A noite do dia 18 aconteceu como tantas outras fizemos nossa rotina, deitamos e, quase sem perceber, procuramos nossas mãos. Era assim que terminávamos os dias: encontrando um ao outro no escuro, como quem precisava confirmar que ainda estávamos ali. Assistimos a um filme que não terminamos. Um drama familiar, desses que misturam histórias, conflitos, afetos e pequenas tragédias. Algumas coisas nos pareciam tão conhecidas que comentávamos. Às vezes concordávamos, outras nem tanto. E estava tudo bem. Até nossas discordâncias faziam parte da intimidade que construímos. Nossas noites eram gostosas. Dormíamos agarrados. Às vezes eu te procurava durante a madrugada; outras, eras tu que me puxavas para perto. Havia uma espécie de conversa silenciosa entre nossos corpos, uma linguagem que quase cinquenta anos juntos haviam inventado sem que precisássemos aprender. O filme ficou pela metade. Não havia problema. Teríamos a noite do dia 19 para terminar. Amanhã, pensávamos. Sempre existe...