As Coisas Que Não Dizemos
O jantar já tinha esfriado quando Laís percebeu que Vitor não viria à mesa. Não era atraso. Era ausência — dessas que começam pequenas, quase educadas, e vão ficando mais largas com o tempo. Ele estava no outro cômodo, ela sabia. O som baixo da televisão atravessava o corredor, junto com aquela sensação antiga de que havia algo entre eles que não cabia mais em palavra nenhuma. Ela não chamou. Antes, chamava. Dizia o nome dele com uma naturalidade que hoje parecia pertencer a outra casa, outra mulher. Agora, ficou sentada, olhando o prato, como se ainda esperasse que o gesto de esperar resolvesse alguma coisa. Vitor, do outro lado, também sabia que ela estava ali. Pensou em levantar. Pensou em dizer qualquer coisa simples — “já vou”, “me espera”, “estou cansado hoje”. Não disse. Ficou onde estava, com o controle remoto na mão, mudando de canal sem realmente ver nada. Não era falta de assunto. Era o contrário. Havia coisas demais acumuladas entre eles. O dia em que ele es...