Foi Então Que Nasci
Quando lhe perguntavam a idade, Silvana respondia com duas datas. A primeira era a do registro, escrita numa certidão já amarelada pelo tempo. A segunda ninguém encontraria em documento algum. Era o dia em que conheceu Miguel. Antes disso, havia uma menina que cumpria horários, tirava boas notas, ajudava em casa, sorria quando esperavam que sorrisse. Cresceu como crescem tantas meninas: aprendendo a ocupar pouco espaço, a pedir licença até para existir. Não era infeliz. Mas também não sabia que estava viva. O mundo lhe parecia uma sala onde as janelas nunca eram abertas por inteiro. Havia luz suficiente para enxergar os móveis, nunca o horizonte. Foi Miguel quem, sem perceber, escancarou uma delas. Não porque fosse um herói. Não porque tivesse respostas. Apenas porque caminhava pela vida com a estranha mania de notar o que quase ninguém via. Via o desenho das nuvens antes da chuva. O perfume do café que escapava da cozinha da vizinha. As árvores que mudavam de cor...