Juntando os Pedaços
Ela chegou aos sessenta e cinco anos sem perceber exatamente quando a vida tinha passado da pressa para o silêncio. Não foi num aniversário específico. Não houve trombetas, nem conclusões definitivas. Apenas um dia em que, ao dobrar uma roupa já limpa, percebeu que havia vivido muitas vidas dentro de uma só. Algumas ficaram inteiras. Outras, espalhadas. Durante anos ela acreditou que a vida era uma linha contínua. Nascer, crescer, amar, perder, seguir. Mas aos sessenta e cinco entendeu outra coisa: A vida era mais parecida com uma mesa depois de uma longa viagem — cheia de objetos esquecidos. Havia ali a menina que corria descalça pela infância, convencida de que o mundo era grande demais para caber dentro de uma casa. Havia a jovem que acreditava que o amor resolvia tudo. Havia a mulher que trabalhou, cuidou, lutou, segurou muitas pontas ao mesmo tempo. E havia também as perdas. Algumas chegaram devagar. Outras atravessaram a vida como um vento que abre todas as ...