O Que Ficou nos Caminhos
Não foi de repente que ela começou a procurar. Também não havia um ponto exato de partida — como se a busca tivesse nascido antes dela, e apenas a tivesse escolhido para continuar. Ela caminhava muito. Não por gosto. Por necessidade de não ficar. Havia ruas que já sabiam seu passo, vitrines que refletiam sempre a mesma figura um pouco deslocada, e bancos de praça onde o corpo pousava sem descanso. Dizia para si mesma que procurava alguém. Mas nunca soube descrever quem. Às vezes, era um rosto entrevisto no reflexo de uma janela à noite. Outras, um gesto — a forma como alguém segurava uma xícara, ou virava o rosto ao ouvir o próprio nome. Pequenos sinais que faziam o coração avançar um passo à frente do corpo. E então, nada. Ela seguiu assim por estações inteiras. Aprendeu o frio que não vem do clima, o calor que não consola. Guardava detalhes inúteis: o som de uma porta fechando ao longe, o cheiro de roupa limpa em um corredor desconhecido, a cor exata de um fim de ta...