A Primavera Que Chegava Pela Porta
Ele chegava como chega uma brisa de primavera… leve, suave e refrescante. Não fazia barulho ao entrar na casa. Era como se o próprio silêncio o reconhecesse antes da chave tocar a porta. Trazia consigo o cheiro da rua depois da chuva, um perfume discreto de sabonete barato misturado ao vento, e aquela maneira calma de ocupar os espaços sem empurrar nada para fora do lugar. A menina sempre sabia quando ele estava chegando. Mesmo pequena, corria até a janela antes de qualquer aviso. Não porque ouvisse seus passos, mas porque certas pessoas deixam um movimento diferente no mundo quando se aproximam. Como árvores que se mexem antes da tempestade. Como cortinas que respiram antes da janela abrir. O pai sorria ao vê-la esperando. — Já sabia que eu vinha? Ela nunca respondia. Apenas se jogava em seus braços com a força das crianças que ainda acreditam que o amor impede qualquer partida. Ele trabalhava demais. As mãos tinham marcas de ferramentas, pequenos cortes esquecidos e um c...