O Prato no Chão
Ela dizia — e repetia como quem se convence — que estava “equilibrando os pratos”. Não era metáfora bonita. Era barulho mesmo. Porcelana fina, herdada, comprada em promoção, ganhada em casamento. Pratos de todo tipo girando sobre as mãos, os ombros, a ponta de uma disciplina que já não era escolha — era hábito. Três filhos adolescentes orbitando com suas urgências, um marido chamado Augusto que já não perguntava, apenas supunha, e ela no meio, corrigindo provas enquanto mexia a panela, enquanto respondia mensagens, enquanto sorria no lugar certo. Nada caía. E esse era o problema. Porque nada cair exigia um corpo inteiro em estado de alerta. Não havia pausa. Nem distração. Nem falha permitida. A perfeição, naquele caso, não era qualidade — era contenção. Foi numa tarde comum que algo deslocou. Não um grande acontecimento, nada que justificasse. Um atraso pequeno. Um esquecimento mínimo. Um prato — só um — que escorregou. Não quebrou. Mas fez um som. Um som seco, deslocad...