A Minha Metade
Eu sempre dizia que era inteira. Dizia com a convicção de quem havia aprendido cedo que ninguém deveria chegar à vida do outro para completá-lo. Eu era uma maçã inteira, uma laranja inteira. E, se um dia alguém quisesse caminhar ao meu lado, que viesse inteiro também. Nunca seria metade de ninguém. Eu gostava dessa ideia. Talvez porque houvesse nela uma espécie de liberdade. Uma mulher inteira não precisava de ninguém para existir. Podia escolher. Podia ficar. Podia partir. Podia amar sem se perder. E assim atravessei a vida. Até que o tempo, que não costuma dar explicações, me ensinou uma coisa que eu não sabia. Hoje me vejo dividida. Não porque tenha deixado de ser inteira. Mas porque descobri que há pessoas que, quando partem, levam consigo uma parte de nós que não estava em nós antes delas. E então entendi a metáfora que eu rejeitava. “A metade da laranja. A metade da maçã.” Aquela coisa que eu achava pequena demais para uma mulher que sempre se orgulhou de se...