Não Te Assusta! É a Saudade Chegando a Galope
Isabel estava na cozinha quando sentiu que alguém havia entrado na casa. Não ouviu a porta. Nenhum passo no corredor. Nem o rangido da madeira antiga, que sempre denunciava qualquer visita. Mesmo assim, ergueu os olhos da xícara de café. Sorriu de leve. — Não te assusta... é a saudade chegando a galope. Falava isso para si mesma havia alguns anos. Descobrira que a saudade não combina com relógios. Não marca horário nem avisa que está vindo. Às vezes aparece num domingo cheio de gente. Outras, escolhe uma terça-feira qualquer, quando tudo parece tão comum que ninguém esperaria ser atravessado por uma lembrança. Basta pouca coisa. O perfume de alguém no elevador. Uma camisa azul pendurada numa vitrine. Uma música esquecida tocando baixinho no rádio de um táxi. E pronto. A casa continua igual. A rua continua passando diante da janela. O café continua quente. Só quem muda é o coração, que por alguns minutos deixa o presente de lado e vai buscar um pedaço de outro te...