Postagens

Depois de Tudo...

Havia coisas que ela já não conseguia explicar. Não era tristeza. Também não era exatamente saudade. Era uma espécie de deslocamento. Como se, depois de determinada idade, algumas certezas perdessem o direito de continuar sendo certezas. Ela percebeu isso num dia qualquer, ao preencher um formulário. Nome. Data de nascimento. Estado civil. Parou no terceiro item. Ficou olhando para aquelas duas palavras durante alguns segundos, como se fossem uma pergunta indevida. Viúva. Era uma palavra objetiva, quase administrativa. Cabia numa linha. Não dizia nada sobre os anos vividos, sobre os projetos interrompidos, sobre as brigas que terminavam em riso, sobre a intimidade de duas pessoas que aprenderam a se conhecer também pelo silêncio. Ainda assim, era a palavra correta. Assinalou-a. E continuou preenchendo o formulário. Foi somente depois que percebeu o absurdo. Durante décadas, ela havia sido tantas coisas: filha, mulher, mãe, profissional, amiga, amante, cúmp...

Domingos

Os domingos são dias de acordar de maneira complicada. Talvez porque a semana ainda não tenha começado, mas o silêncio já tenha chegado. É quando a casa parece maior, o café demora mais para fazer sentido e algumas lembranças aparecem sem pedir licença. Hoje é Dia dos Pais. E há pais que estão perto, outros que já partiram, alguns que foram presença constante e outros que, por suas próprias histórias, deixaram mais perguntas do que respostas. Ser pai não cabe em uma fotografia ou em uma data no calendário. Está nos gestos que ficaram, nas palavras que lembramos, nos costumes que aprendemos sem perceber e em tantas coisas que só entendemos depois de adultos. Aos pais que ainda podem receber um abraço, que ele seja dado sem pressa. Aos que estão longe, que recebam o carinho de quem os ama. E aos que já se foram, fica a lembrança. Às vezes bonita, às vezes difícil, mas sempre parte da nossa história. Que este domingo, como todos os domingos que parecem mais complicados par...

Quando a Desculpa é o Tempo...

Vivemos dizendo que o tempo está curto. Que o dia precisava ter mais horas. Que a semana voou. O tempo acabou virando o responsável por quase tudo o que deixamos de fazer. "Não tive tempo de ligar." "Não consegui passar aí." "Depois eu faço." Essas frases saem da boca com tanta facilidade que já nem pensamos no que realmente significam. É verdade que a vida exige muito. Trabalho, contas, compromissos, preocupações. Há dias em que mal conseguimos respirar entre uma tarefa e outra. Mas existe uma diferença entre não poder e não escolher. Todos recebemos as mesmas vinte e quatro horas. O que muda é a importância que damos às coisas. Encontramos tempo para o que realmente ocupa um lugar na nossa vida. Para uma série de televisão, para as redes sociais, para resolver assuntos que julgamos urgentes. Enquanto isso, uma ligação fica para amanhã. A visita aos pais espera o próximo fim de semana. O café prometido a um amigo vai sendo adiado de mês em...

A Vida Passou Por Aqui

Rosa encontrou a caixa quando procurava outra coisa. Era uma daquelas caixas de papelão reforçado que sobrevivem a mudanças, reformas, nascimentos, despedidas. Na tampa, escrito com uma caneta já desbotada, apenas duas palavras: Rosa e Edmundo. Sorriu sem perceber. Sentou-se no chão da sala e abriu. Em cima de tudo havia um mapa de estrada dobrado tantas vezes que já não obedecia às mãos. Depois vieram recibos de hotéis simples, ingressos de cinema, uma concha trazida de uma praia qualquer, um guardanapo com o nome de um restaurante onde haviam prometido voltar. Nunca voltaram. Também apareceu uma fotografia em que os dois riam de alguma coisa que ninguém mais seria capaz de explicar. Não era uma pose bonita. Ela estava com os cabelos bagunçados pelo vento. Ele tinha os olhos quase fechados de tanto rir. Era justamente por isso que era bonita. Rosa foi colocando cada lembrança sobre o tapete. Ali estava a vida. Não os grandes acontecimentos que costumam aparecer nos...

Isso Também Passará

Helena tinha vinte e poucos anos quando ganhou um pequeno medalhão de prata. Foi presente de uma tia muito querida, dessas mulheres que falam pouco, mas parecem enxergar um pouco mais longe que os outros. De um lado, a prata era lisa. Do outro, havia apenas três palavras gravadas: Isso também passará. — Não é um enfeite — disse a tia, ao prendê-lo em um cordão. — É para os dias em que você esquecer que o tempo nunca para. Helena sorriu, sem dar muita importância. Achou a frase bonita, embora um tanto enigmática. Colocou o cordão no pescoço e saiu para viver, como fazem os jovens quando acreditam que o futuro será sempre generoso. Os anos passaram. O medalhão estava ali no dia do casamento. Estava ali quando nasceu a primeira filha, entre o medo e o espanto de descobrir que um coração podia bater fora do próprio corpo. Aparecia, discreto, em algumas fotografias de férias, escondido sob um lenço ou refletindo um raio de sol. Às vezes Helena o segurava entre os dedos. Lia ...

A Janela Aberta

Dizem que a vida gosta de surpreender. Eu, durante muito tempo, achei que isso fosse apenas uma frase bonita para confortar quem perdera o rumo. Depois descobri que era exatamente o contrário: a vida não avisa porque não precisa. Ela simplesmente acontece. Todas as manhãs, Helena abria a janela antes mesmo do café. Não esperava ninguém. Não havia cartas, visitas nem telefonemas. Ainda assim, olhava a rua como quem aguarda uma notícia capaz de mudar tudo. Os vizinhos imaginavam que ela vivia presa ao passado. Não sabiam que ela apenas aprendera a respeitar o futuro. Depois da morte do marido, quase cinquenta anos de casamento haviam se transformado em fotografias, receitas escritas à mão e uma cadeira vazia diante da mesa. A casa continuava inteira, mas o silêncio ocupava mais espaço do que os móveis. Ainda assim, Helena recusava-se a fechar a porta para a vida. Plantava flores novas a cada primavera. Lia livros de autores desconhecidos. Fazia caminhos diferentes para voltar...

Era Pra Ser Assim...

No armário da cozinha havia uma gaveta que nunca fechava direito. Ceci prometia arrumá-la todos os anos. Tirava algumas coisas, organizava outras, mas bastava uma semana para a bagunça voltar. Elásticos sem par, pilhas gastas, chaves de portas que já nem existiam, receitas amareladas, uma fita métrica quebrada. Naquela tarde de chuva, resolveu esvaziá-la completamente. Foi espalhando tudo sobre a mesa e estranhou a quantidade de objetos que um dia tinham sido importantes. Guardara quase tudo pensando que ainda serviria para alguma coisa. A vida fazia o mesmo. Mantinha culpas antigas, planos vencidos, promessas que já não combinavam com a mulher que havia se tornado. Conservava sonhos pelo simples hábito de não jogá-los fora. A gaveta ficou vazia pela primeira vez em muitos anos. Ela passou um pano no fundo de madeira, fechou-a devagar e sorriu ao notar que deslizava sem esforço. Não havia acontecido nada extraordinário. A chuva continuava caindo. O café ainda estava m...