Desassossego
O desassossego não chega fazendo estardalhaço. Ele se instala como um copo fora do lugar na pia. Como uma cadeira levemente torta na sala. Como um silêncio que respira mais alto do que deveria. A gente acorda e ele já está sentado à beira da cama, olhando. Não diz nada. Mas pesa. Tem dias em que o desassossego é quase elegante — uma inquietação fina, que nos faz rearrumar livros, trocar móveis de lugar, abrir janelas antes do café. Nesses dias, ele parece motor. Move. Empurra. Sussurra que ainda há algo por fazer, por escrever, por amar. Mas há dias em que ele é pedra. Nesses dias, tudo parece fora de eixo. O corpo anda, mas por dentro algo não acompanha. As conversas acontecem, mas chegam com atraso. A cidade segue seu ritmo — ônibus, mercados, gente comprando pão — e nós, levemente desalinhados, como se estivéssemos vivendo meio centímetro ao lado da própria vida. O desassossego não gosta de multidão. Ele prefere o entardecer. Gosta da hora em que a luz enfraquece e as som...