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Alguma Coisa Dormia Dentro de Mim

Naquela manhã, acordei antes do despertador. Não sabia por quê. A casa estava escura e silenciosa. Fiquei deitada, olhando para o teto, até ouvir três notas de uma música. Um assobio. Abri os olhos. As três notas vieram outra vez. Levantei. Na cozinha, nada. Abri a janela. A rua estava quase vazia. Um homem caminhava com um cachorro, um ônibus passou devagar e alguém, em algum apartamento, bateu uma porta. Fechei a janela. A música voltou. Não vinha de fora. Eu a conhecia. Isso foi o que me incomodou. Não consegui lembrar de onde. Preparei o café e fiquei sentada à mesa, esperando que a lembrança viesse. Não veio. Saí para caminhar. Na esquina, uma menina brincava com uma bola. Ela chutou com força demais e a bola atravessou a calçada até parar junto aos meus pés. Peguei. — Joga pra mim. Joguei. Ela correu. A bola voltou. Joguei novamente. — Você joga bem — ela disse. — Já joguei melhor. Ela ficou me olhando. — Você está triste?...

A Impressionante Leveza De Ser

Havia dias em que ela sentia o próprio corpo com uma nitidez quase incômoda. Os pés depois de uma caminhada, os ombros cansados, os joelhos, a respiração. A carne tinha seu peso. Os músculos também. Dentro dela, os órgãos trabalhavam em silêncio, cada um ocupando seu lugar, como se o corpo fosse uma casa cheia de quartos que ela nunca visitava. Mas o que era o ser? Ela pensava nisso enquanto caminhava. O corpo podia ser pesado. Podia envelhecer, adoecer, cansar. Podia carregar cicatrizes e marcas que o tempo deixava sem pedir licença. O ser parecia outra coisa. Uma criança atravessou a praça correndo atrás de uma bola. O corpo pequeno batia contra o chão a cada passo, mas havia qualquer coisa naquela corrida que não obedecia à gravidade. Pensou que fosse a alegria. Ela continuou andando. Passou por um homem sentado sozinho num banco. Ele tinha os cabelos brancos e as mãos apoiadas sobre uma bengala. Parecia carregar muitos anos sobre os ombros. Quando uma mulher pas...

Os Sentidos Que Não Queriam Sentir

  O Coração Que Não Queria Sentir Meu coração não queria sentir. Não queria entender que aquela manhã seria diferente de todas as outras. Não queria aprender o silêncio que ficaria depois da tua voz. Não queria saber que uma pessoa pode estar tão perto e, de repente, não estar mais. Durante quase cinquenta anos, meu coração teve endereço certo. Era ali, ao teu lado. Tinha o café da manhã, as conversas, os planos pequenos, as implicâncias bobas, as coisas que só nós dois entendíamos. Tinha teu jeito de olhar, tua mão procurando a minha, a certeza de que, no fim do dia, havia alguém esperando. Depois, o coração precisou aprender uma coisa que ele não queria aprender. A ausência. Ele tentou se proteger. Fechou algumas portas, diminuiu o ritmo, recusou algumas lembranças. Havia dias em que não queria ouvir falar de amor, nem lembrar dos dias bons. Parecia dizer: hoje não. Hoje eu não aguento. Mas havia outros dias. Dias em que ele queria. Queria lembrar. Queri...

Os Ouvidos Que Não Queriam Escutar

  Foi numa terça-feira que ela percebeu. O marido falou alguma coisa durante o café, mas ela não ouviu. Não era novidade. Às vezes ele falava baixo, distraído, enquanto lia o jornal. Ela pediu: — O quê? Ele repetiu. Nada. Ela olhou para ele. Os lábios se mexiam, mas nenhum som chegava. — Acho que estou ficando surda. Ele riu. — Só quando interessa. Ela também riu. Naquele dia, porém, os ouvidos continuaram estranhos. Na rua, escutava perfeitamente o barulho dos carros, o salto de uma mulher batendo na calçada, o vento mexendo nas árvores. Ouvia até o cachorro do apartamento ao lado, que latia duas vezes antes de começar a chorar. Mas não ouvia algumas pessoas. A vizinha do terceiro andar dizia bom-dia e ela via sua boca se mexer sem ouvir uma palavra. O telefone tocava. Ela atendia. A pessoa do outro lado falava, mas havia apenas silêncio. Depois desligava. Curiosamente, algumas vozes continuavam chegando. O padeiro. A moça do caixa do superm...

As Mãos Que Não Queriam Tocar

As mãos começaram a recusar, ninguém percebeu no primeiro dia... Ela colocou a xícara sobre a mesa, abriu a janela, penteou os cabelos. Tudo parecia igual. Só havia uma pequena dificuldade quando alguém estendia a mão para cumprimentá-la. Os dedos dela permaneciam junto ao corpo. Não era vergonha. Não era medo. Era uma recusa silenciosa, quase educada. Com o passar dos dias, as mãos passaram a evitar outras coisas. Não queriam segurar o corrimão do ônibus, apertar botões, escolher frutas na feira. Quando precisava pegar alguma coisa, esperava que estivesse suficientemente perto para alcançá-la sem encostar em outra pessoa. Começou a usar mangas compridas. Uma manhã, diante do espelho, percebeu que suas mãos estavam diferentes. Não na aparência. Continuavam sendo as mesmas mãos grandes, de dedos finos, com pequenas marcas que o tempo havia deixado. O que havia mudado era a distância. Elas pareciam morar alguns centímetros longe do resto do corpo. Ela levantou a mão dir...

O Coração Que Não Queria Sentir

  Havia um coração cansado de sentir. Não era tristeza. Tristeza ele conhecia bem. Também conhecia a saudade, o medo, a espera, aquelas pequenas alegrias que chegam nem mais nem menos, e vão embora antes que a gente consiga segurá-las. O problema era outro. Ele estava farto de sentir tudo. Um dia, resolveu se esconder. Não dentro do peito, porque ali seria fácil demais encontrá-lo. Escondeu-se atrás de uma costela, num lugar estreito e escuro onde nem o próprio dono costumava prestar atenção. Ali ficou. Parou de responder às lembranças. Quando alguém dizia um nome conhecido, ele permanecia quieto. Quando uma música antiga atravessava a casa, não acelerava. Quando uma mão procurava outra no meio da noite, ele não fazia nada. Era quase confortável. Quase. Com o passar dos dias, o corpo percebeu que alguma coisa estava errada. Caminhava, comia, conversava, dormia. Fazia tudo o que se esperava de uma pessoa. Mas havia um vazio estranho entre uma coisa e outr...

O Vento Que Ficou

Ele chegou como uma rajada de vento. Eu estava em um lugar qualquer, entre pessoas que não conhecia direito, quando ele apareceu. Não houve anúncio, nem aquela cena bonita que às vezes inventamos depois que uma história dá certo. Ele simplesmente chegou. Falava com alguém, ria, gesticulava. De vez em quando olhava para o meu lado. Eu também olhei. Naquele dia, não aconteceu nada de extraordinário. Conversamos pouco. Eu nem lembro direito sobre o que. Lembro que, quando fui embora, pensei nele. No dia seguinte, ele apareceu de novo. Depois, encontramos um motivo para conversar. E outro. E outro. Aos poucos, os encontros foram ficando mais frequentes. Um café depois do trabalho. Um jantar que deveria ser rápido e terminava tarde. Uma caminhada sem destino. Um telefonema que começava com uma pergunta qualquer e, quando percebíamos, já tinha passado uma hora. Eu gostava de ouvi-lo falar. Ele tinha um jeito próprio de contar as coisas. Às vezes exagerava, às ve...