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A Velocidade do Amor

Eram muito jovens quando decidiram assistir a uma corrida em San Marino. Para ele, era quase uma peregrinação. Gostava de motores, de curvas fechadas, do cheiro de combustível e daquele instante em que os carros pareciam desafiar as leis da natureza. Ela gostava de acompanhá-lo. Talvez porque, naquela época, ainda estivesse descobrindo que algumas paixões acabam se tornando nossas também. San Marino os recebeu com sua beleza de outros tempos. As ruas de pedra, as torres medievais erguidas sobre o Monte Titano, as pequenas praças, as casas antigas e, ao longe, uma paisagem que parecia não ter pressa. Havia qualquer coisa de encantador naquele lugar, onde a história permanecia nas paredes e a vida seguia pelas ruas estreitas. Ele, entretanto, tinha pressa. Não a pressa de chegar a algum lugar, mas aquela de quem queria experimentar tudo. Na arquibancada, acompanhava cada ultrapassagem com os olhos brilhando. Explicava detalhes dos motores, apontava os pilotos, antecipava as curvas....

Se Eu Soubesse O Que Sei Agora...

Ela descobriu que existem ausências que não se deixam preencher. Nem com gente dentro de casa, nem com abraços demorados, nem com telefonemas, nem com as mãos estendidas de quem deseja, sinceramente, fazer companhia. Havia aprendido isso depois que ele partiu. Antes, pensava que a solidão era coisa de quem não tinha ninguém. Uma casa vazia, uma cadeira sem companhia, uma tarde comprida demais. Agora sabia que não era bem assim. Podia estar rodeada de filhos, netos, amigos, receber beijos, ouvir histórias, rir de alguma bobagem e, ainda assim, sentir uma espécie de desencontro com o mundo. As pessoas a amavam. Ela sabia. Não precisava que lhe dissessem tantas vezes. Havia carinho nos pequenos cuidados, nas perguntas sobre o almoço, nas mensagens perguntando se tinha dormido bem, nas mãos que procuravam as suas. E ela recebia tudo. Com gratidão, com ternura, às vezes até com uma alegria que a surpreendia. Mas o toque era outro. O abraço tinha outro peso, outra temperatura. A ...

Engarrafando as Lágrimas em Pequenos Frascos

Há dias em que a alma transborda. Não avisa, não procura uma razão suficientemente importante para justificar o choro. Simplesmente transborda. E a gente chora. Chora de saudade, de ausência, de cansaço, de amor que não encontrou onde pousar. Chora até por aquilo que não consegue explicar. Foi num desses dias, em que eu precisava de um abraço que não sabia de onde viria, que uma amiga me disse uma coisa que guardei num lugar muito particular do coração: — Sabe, o Espírito Santo é o anjo que Deus deixou na Terra para nos abraçar enquanto choramos. Fiquei pensando naquilo. Que imagem bonita! Um anjo que não vem necessariamente para enxugar nossas lágrimas, tampouco para explicar nossas dores ou resolver os desacertos da vida. Ele vem para ficar. Para nos envolver num abraço invisível enquanto fazemos aquilo que, às vezes, é tudo o que nos resta: chorar. Desde então, comecei a imaginar que talvez existam pequenos frascos espalhados pelo céu. Frascos de vidro delicado, daqueles a...

A Temperatura do Teu Toque

Ela andava distraída pelas ruas de Mônaco, olhando as vitrines sem realmente enxergá-las, quando sentiu uma mão pousar em seu ombro. Não se virou imediatamente. Havia algo naquele toque que lhe atravessou o corpo antes mesmo que pudesse pensar. A temperatura da mão. A pressão delicada dos dedos. Uma intimidade que o tempo não conseguira apagar. Era ele. Não havia dúvidas. Reconheceria aquela mão em qualquer lugar do mundo. Virou-se devagar, com o coração desobedecendo à idade, à razão e a tudo o que aprendera sobre as ausências. Ele estava ali. Com aquele sorriso que conhecia tão bem, o mesmo que tantas vezes a esperara do outro lado da mesa do café, que a encontrara no meio de uma conversa e que, durante quase cinquenta anos, lhe dissera tantas coisas sem precisar de palavras. Ela não perguntou como. Não quis saber de onde viera, nem por que demorara tanto. Apenas o olhou, tentando guardar cada detalhe daquele rosto que a memória insistia em devolver, embora já não pudes...

A Vida, Segundo Clarice Lispector

  Falar sobre a vida, a partir de Clarice Lispector, é entrar num território onde as respostas nem sempre existem, onde as perguntas nos acompanham por muito tempo e onde sentir, muitas vezes, dói mais do que gostaríamos. Clarice não escrevia para explicar a vida. Escrevia para chegar mais perto dela. E, quanto mais se aproximava, mais descobria que viver é também conviver com aquilo que não compreendemos. Em seus romances, contos e crônicas, encontramos personagens que pensam demais, que sentem profundamente, que se interrogam sobre quem são e sobre o que fazem neste mundo. Pessoas aparentemente comuns, envolvidas nas tarefas de cada dia, mas que, de repente, diante de um gesto, de uma palavra ou de um silêncio, descobrem que há muito mais dentro delas do que imaginavam. Clarice nos mostra que pensar é uma forma de mergulho. Não aquele pensamento organizado, que procura respostas prontas, mas o pensamento que nos desacomoda, que nos obriga a olhar para dentro e reconhecer ...

A Felicidade é Um Trabalho de Formiguinha

  Tenho pensado muito sobre a felicidade. Talvez porque a gente passe boa parte da vida tentando descobrir o que ela é, onde se esconde e por que, quando parece estar tão perto, escapa das mãos. A felicidade é uma coisa abstrata. Cada um lhe dá um significado, veste-a com as próprias expectativas e a coloca num lugar diferente. Para alguns, ela mora nas grandes conquistas; para outros, está na tranquilidade de uma vida sem sobressaltos. Há quem passe anos esperando por uma viagem, uma casa, um amor, uma conta bancária que permita dormir sem preocupações. E há quem tenha tudo isso e ainda sinta que falta alguma coisa. Talvez o problema esteja na espera. Esperamos tanto por aquele acontecimento que vai mudar tudo, que nem sempre percebemos o que acontece enquanto esperamos. A vida, entretanto, não costuma ser feita de grandes acontecimentos. É feita de manhãs que se repetem, de compromissos, de pequenas contrariedades, de notícias boas e ruins, de conversas que se prolongam e...

As Palavras Que Não Obedecem

  Havia uma palavra que não queria morrer na boca de quem a pronunciava. Passara anos sendo dita sem ser sentida, oferecida sem ser entregue, escrita em cartões que acabavam no fundo de gavetas. Um dia, cansada de servir a tantas mentiras, escapou pela janela de uma carta e desapareceu na noite. Era a palavra amor. Ninguém percebeu sua partida. Na manhã seguinte, continuaram a usá-la nos mesmos lugares, com a mesma facilidade, entre promessas apressadas e despedidas que já estavam decididas antes mesmo de acontecerem. Mas alguma coisa havia mudado. As bocas diziam amor. Os ouvidos escutavam amor. E, ainda assim, havia um espaço vazio entre as duas coisas. A palavra caminhava pelos telhados, descalça, procurando abrigo. Passou por uma casa onde um homem dormia de costas para a mulher; por outra, onde uma mãe esperava o filho que prometera voltar cedo; por uma terceira, onde alguém relia uma mensagem antiga, tentando descobrir em que momento o afeto havia começado a se de...