Num Domingo Qualquer
Ela passou anos tentando entender o instante exato em que precisou entregá-lo para a morte. Não era uma frase bonita. Nem aceitável. Muito menos poética. Mas era a única verdade que conseguia sustentar sem cair. Porque foi ela quem segurou a mão dele quando os dedos começaram a perder a força. Foi ela quem ouviu o último ruído preso na garganta, como alguém tentando voltar atrás de uma viagem impossível. Foi ela quem disse, sem voz, sem coragem e sem acreditar: — Pode ir… E ele foi. Depois disso, o tempo não fez o que prometem nos livros. Não curou. Não fechou nada. O tempo apenas afastou os dois como continentes antigos que um dia se tocaram. Ela continuou vivendo. Aprendeu novos caminhos para o mercado. Mudou os móveis de lugar. Trocou de chaleira. Passou a dormir do lado errado da cama porque o lado certo parecia ocupado demais pela ausência dele. Os anos fizeram o rosto dela mudar devagar. Os cabelos. As mãos. E às vezes vinha um medo absurdo, quase infantil: e ...