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O Mundo Está Muito Ordinário

Ordinário. No dicionário, significa comum. Aquilo que acontece todos os dias. O que é habitual, corriqueiro, simples. Mas, na boca das pessoas, ordinário quase sempre vira ofensa. Algo vulgar. Sem nobreza. De má qualidade. Pequeno. Talvez o problema não esteja na palavra. Talvez esteja no nosso olhar. O mundo está muito ordinário, dizem. E está mesmo. Acordamos, rolamos a tela, repetimos opiniões prontas, nos irritamos com desconhecidos, julgamos em quinze segundos aquilo que não entenderíamos em quinze anos. As conversas estão mais rasas. As indignações, mais baratas. O afeto, apressado. O mundo anda ordinário no pior sentido: perdeu delicadeza. Mas também está ordinário no melhor sentido possível. O padeiro abre a porta às seis da manhã como sempre abriu. A senhora rega as plantas na varanda. Um pai leva a filha à escola segurando a mochila maior que ela. O ônibus passa no mesmo horário. A chuva insiste em cair nos mesmos meses. O café continua quente quando a gente pre...

A Dor Tira o Brilho dos Olhos

Helena não chorou no velório. As pessoas interpretaram aquilo como força. Comentavam baixo: “Que mulher firme.” Ela ouvia como quem escuta uma conversa em outro cômodo. Apertava mãos, agradecia presenças, aceitava abraços demorados. Repetia “obrigada” como quem aprende uma nova profissão. O corpo sabia o que fazer. O corpo sempre sabe. A dor, quando é grande demais, não faz cena. Foi dias depois que algo mudou. Não no jeito de andar. Não na voz. No olhar. Ela acordava cedo. Lavava o rosto. Preparava café para uma xícara só. Sentava à mesa e ficava alguns minutos olhando a cadeira vazia à frente. Não pensava nada específico. Só permanecia. O mundo continuava funcionando com uma eficiência irritante. O padeiro abria às seis. A vizinha regava as plantas às sete. O ônibus passava no mesmo horário. Crianças iam para a escola arrastando mochilas maiores do que o corpo. Helena participava de tudo como quem cumpre uma tarefa. Mas os olhos não acompanhavam. Não estavam vermelh...

Oito Andares Acima do Juizo

O toc-toc na porta se manteve insistente por alguns minutos. Forte. Decisivo. De alguém que não aceitaria um “não vou abrir” como resposta. Ela acordou num susto que lhe colocou o coração na boca. Sentou-se na cama, arrumou os cabelos que se espalhavam pelo rosto. Sentiu um gosto amargo subir pela garganta até alcançar a boca. Pigarreou. Entendeu que as incessantes batidas eram algo sério. Correu até a porta, seguida pelo eco que se dilatava na cozinha de ladrilhos azuis e brancos. Abriu. Estendeu a mão. Puxou-o para dentro e o agasalhou num abraço. Era o rapaz do 201. O cheiro dele — sabonete barato misturado a algo mais quente, mais masculino — entrou primeiro, antes mesmo do corpo. Ela sentiu a respiração dele ainda acelerada contra o seu pescoço. Jovem demais, pensou. Jovem demais para o que acordava nela. Morava no 804 havia quinze anos. O apartamento alto, com janelas abertas para a cidade que não dormia, era seu território seguro. Separada havia tempo suficiente para q...

Levanta os Ombros e Segue

Levanta os ombros e segue. Ela escutou isso numa manhã comum demais para comportar qualquer milagre. A água do café ainda não tinha fervido. A casa estava naquela suspensão entre o silêncio da madrugada e o barulho do dia que começa. Levanta os ombros e segue. Ela ficou parada diante da pia. Não sabia se era delírio ou realidade. Não sabia se tinha sonhado acordada. Mas a voz estava ali — não no ouvido, não no ar — estava dentro da memória dos ossos. A voz do marido. Clara. Direta. Sem dramatização. Ele sempre dizia isso quando algo quebrava, quando o carro não pegava, quando a conta vinha mais alta, quando a vida parecia maior do que as forças. Levanta os ombros e segue. Ela encostou as mãos na borda da pia. Olhou o reflexo no vidro escuro da janela. Os ombros estavam curvados. Pesados. Como se sustentassem não só o corpo, mas o tempo inteiro que viveram juntos. Anos e anos sempre juntos. O tempo tinha dilatado naquela vida. Cresceu em risadas na cozinha, em domingos de ...

Entre o Doce e o Amargo

  — Você sempre chega primeiro — disse o Amargo. — Não é verdade — respondeu o Doce. — Eu só fico mais tempo na memória. — Fica porque eu te preparo. Sem mim, você seria raso. — E sem mim, você seria insuportável. O Amargo riu baixo. Tinha riso de café forte, de casca de laranja mordida sem aviso. — As pessoas me evitam — ele disse. — Fazem careta quando me encontram. — Mas voltam — respondeu o Doce. — Sempre voltam. Porque você ensina. — Ensinar dói. — Nem sempre. Às vezes só acorda. O Amargo caminhou até a borda da xícara. Era madrugada. Havia uma mulher sozinha na cozinha, olhando para o nada enquanto segurava o café ainda quente. — Ela me conhece bem — murmurou o Amargo. — Eu moro na garganta dela desde aquele telefonema. O Doce encostou ao lado, silencioso. — Eu também moro ali — disse baixinho. — Só que apareço menos. Sou lembrança de risada antiga. Sou cheiro de bolo de domingo. Sou a mão que ainda aperta outra mão, mesmo que não esteja mais ali. O ...

A Pele do Tempo

Ela percebeu que o tempo não andava no relógio. Andava na pele. Foi no instante em que ele tocou o dorso da sua mão — não um toque apressado, mas aquele toque que pergunta antes de existir. E ali o mundo falhou. Não parou. Falhou. Como se alguém tivesse puxado o fio invisível que sustenta os minutos. O bar continuava cheio. Copos tilintavam. Uma criança chorava ao longe. Mas entre os dois havia uma espécie de redoma morna onde o ar ficava mais espesso. Respirar exigia consciência. Sorrir exigia coragem. E o tempo… o tempo se dilatava. Cabiam décadas dentro de um olhar. Cabiam histórias nunca vividas dentro de um segundo que não terminava. Ele dizia alguma coisa simples — qualquer coisa sobre o frio da noite, sobre o vinho, sobre nada — e a voz dele atravessava nela como se tivesse sido esperada há anos. Ela riu. E quando riu, o minuto abriu-se como uma fruta madura. O tempo dilata quando o corpo reconhece antes da razão. A cada toque leve no braço, a cada sorriso que de...

"Se Essa Rua Fosse Minha"

A rua não tinha nome raro. Chamava-se Rua das Acácias, embora nenhuma acácia resistisse inteira ao vento do sul. Era estreita, com casas de janelas baixas e cortinas que respiravam junto com a tarde. Helena morava na terceira casa à esquerda. Miguel, na última esquina, onde a rua parecia pensar duas vezes antes de continuar. Eles não sabiam exatamente quando começaram a se amar. Talvez tenha sido no dia em que ele segurou a bicicleta dela enquanto ela fingia não precisar de ajuda. Ou na tarde em que a chuva veio de repente e os dois se abrigaram sob a mesma marquise, rindo como se a vida fosse apenas aquilo: respingos e proximidade. A rua assistiu a tudo. Assistiu aos silêncios demorados no portão. Aos bilhetes dobrados quatro vezes, deixados sob a pedra solta perto do meio-fio. Aos domingos em que caminhavam devagar, inventando assuntos para que o trajeto nunca terminasse. Helena, às vezes, cantarolava distraída: — “Se essa rua, se essa rua fosse minha…” Miguel sorria. —...