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Respeito Tuas Lágrimas

  A praça ainda guardava o frio da madrugada. Os primeiros raios de sol atravessavam os galhos da velha árvore e desenhavam manchas de luz sobre o banco de madeira. Alguns passavam apressados. Outros diminuíam o passo apenas para sentir a sombra antes de seguir. Ela chegou quando a cidade já estava desperta. Sentou-se como quem conhece aquele banco havia muito tempo. Não trazia livro, celular nem sacolas. Apenas uma bolsa pequena, repousada ao lado, e um silêncio que parecia ocupar mais espaço do que seu próprio corpo. Ficou olhando o movimento. Um casal empurrava um carrinho de bebê. Um senhor caminhava com um cachorro que insistia em farejar cada canteiro. Dois adolescentes riam alto, como se o mundo lhes devesse muitos anos iguais àquele. A mulher acompanhava tudo com os olhos, mas estava longe dali. Quando a primeira lágrima escorreu, ela não fez esforço para escondê-la. Apenas deixou que seguisse seu caminho. Depois veio outra. E outra. Na mesma hora, uma folha des...

A Mulher Que Sabia Voar

Quando diziam que Clara sabia voar, muita gente ria. Quem a conhecia há pouco imaginava alguma história inventada pela vizinhança, dessas que atravessam gerações até perderem o sentido. Os mais velhos apenas davam de ombros. Não confirmavam nem desmentiam. Diziam que havia coisas que só podiam ser vistas por quem não estivesse com tanta pressa. Clara morava numa casa pequena, de janelas azuis, onde o vento parecia chegar antes das visitas. Nunca viveu cercada de grandes acontecimentos. Dava aulas durante muitos anos, regava as plantas antes do café e tinha o costume de conversar com os passarinhos sem esperar resposta. O curioso era que ela desaparecia. Não por dias. Às vezes por alguns minutos. Outras vezes por uma tarde inteira. Alguém passava em frente à casa e a encontrava vazia. O bule ainda morno, um livro aberto sobre a mesa, os óculos esquecidos ao lado da poltrona. Mais tarde, ela voltava como quem apenas havia ido até a esquina comprar pão. — Onde esteve? — Po...

O Tempo das Romãs

A romãzeira ficava no fundo do quintal. Não era a árvore mais bonita da rua. Também não fazia uma sombra daquelas que convidam para uma rede. Durante boa parte do ano passava despercebida. Só quando começavam a aparecer as flores e, mais tarde, as romãs, é que alguém comentava: — Este ano carregou bastante. Lúcia morava naquela casa havia quase quarenta anos. Quando chegou, o quintal era quase vazio. Plantou roseiras, uma jabuticabeira que nunca foi muito generosa e um canteiro de temperos. A romãzeira já estava ali. O antigo dono disse que era velha e produzia todos os anos. Produzia mesmo. Nunca faltaram romãs. Os filhos cresceram correndo entre as árvores. O cachorro costumava dormir perto do muro. O marido vivia dizendo que precisava podar alguns galhos, mas sempre encontrava outra coisa para fazer. Os anos passaram desse jeito. Sem muito alarde. Depois que ele morreu, a casa ficou grande demais para uma pessoa só. Os filhos começaram a insistir na mudança. — ...

O Dia Em Que Conversei Comigo

A conversa começou por um motivo banal. Enquanto procurava uma fotografia antiga, abri uma gaveta que há muito tempo servia apenas para guardar aquilo que ninguém tinha coragem de jogar fora. Havia recibos amarelados, uma agenda sem capa, botões de tamanhos diferentes e um pequeno espelho de bolsa, já com manchas nas bordas. Peguei o espelho por curiosidade. Não era um objeto bonito. Também não refletia com perfeição. Ainda assim, havia alguma honestidade naquela imagem imperfeita. As marcas do vidro impediam qualquer ilusão de juventude ou vaidade. Mostravam apenas uma mulher comum, com rugas desenhadas pelo riso, pelo choro e pelo tempo. Sentei-me na poltrona perto da janela. Lá fora, a rua seguia vivendo da forma como sempre foi. Um cachorro atravessou correndo, uma bicicleta passou devagar, alguém varria a calçada como fazia todas as manhãs. A vida mantinha sua rotina enquanto eu permanecia imóvel, olhando para um rosto que conhecia desde sempre, embora tivesse passado ta...

Dona Emília e o Circo

  Dona Emília nascera numa cidade pequena, dessas que crescem de costas para a estrada e de frente para um rio. O rio era largo, barrento no inverno, espelhado no verão, e parecia conhecer cada morador pelo nome. As casas baixas se alinhavam em ruas de chão batido, onde as crianças brincavam até o sino da igreja anunciar a hora de voltar. Naquele lugar, as novidades demoravam a chegar. Quando chegavam, tornavam-se assunto por meses. Por isso, bastava alguém avistar ao longe um caminhão carregando lonas coloridas para que a notícia corresse mais depressa que o vento. — O circo chegou! Era suficiente. Os meninos abandonavam as pescarias. As mulheres interrompiam as conversas nas calçadas. Os homens olhavam para o terreno vazio perto do rio, onde logo surgiriam mastros, cordas, carroças, trailers e a enorme lona listrada. Emília era a primeira a aparecer. Ainda menina, sentava-se na barranca do rio apenas para ver o circo nascer. Gostava de observar os homens erguendo a ...

Entre Lobos

  Quando comprou a pequena casa de madeira na beira da mata, disseram a Ernesto que, no inverno, os lobos desciam. Disseram como quem avisa sobre a chuva, sobre a geada ou sobre o preço da lenha. — Não faça barulho à noite. Eles escutam. Ernesto apenas sorriu. Tinha passado a vida inteira ouvindo avisos. Na infância, para não subir em árvores. Na juventude, para não amar demais. Na velhice, para não começar nada novo. Comprou a casa assim mesmo. A vila tinha pouco mais de cinquenta moradores. Gente que falava baixo, fechava as janelas cedo e conhecia o nome dos avós uns dos outros. Ernesto era o único desconhecido. Nos primeiros dias, caminhava pela floresta sem destino. Gostava do silêncio dali. Não era um silêncio vazio; era cheio de pequenos ruídos: galhos cedendo, folhas secas, água correndo invisível entre as pedras. Era um silêncio que respirava. Numa dessas caminhadas encontrou um velho pastor sentado sobre um tronco. — Procurando os lobos? — perguntou o ho...

A Mulher de Preto

A estrada de chão dividia os campos como uma cicatriz antiga. De um lado, eucaliptos altos conversavam com o vento; do outro, o capim balançava em ondas compridas, escondendo pedras, ninhos e pequenos silêncios. Quando a tarde começava a perder a cor, uma névoa fina descia das baixadas e transformava tudo em contorno. Era ali que ela surgia. Vestia um longo vestido preto, sem rendas, sem brilho, como se tivesse sido costurado com a própria sombra da noite. O tecido descia reto até cobrir os pés. Sobre os ombros repousava um xale escuro, sempre imóvel, mesmo quando o vento sacudia as árvores. Era alta. Muito alta. Os cabelos, grisalhos em algumas mechas e negros em outras, permaneciam presos num coque simples. O rosto era fino, de pele muito clara, quase translúcida. As maçãs do rosto eram marcadas e os olhos, grandes, possuíam um tom impossível de definir. À distância pareciam negros; quando alguém se aproximava, lembravam o cinza das tempestades. As mãos chamavam atenção. Lo...