O Outro Lado da Moeda
A moeda ficou esquecida no fundo da bolsa, entre um lenço amarrotado e um papel onde já não se distinguia o que fora escrito. Não era rara, nem antiga, nem brilhava mais do que qualquer outra. Ainda assim, havia nela um peso que não vinha do metal. Sofia a encontrou por acaso, procurando algo que não lembrava exatamente o que era. Tirou-a com dois dedos, como quem recolhe um pequeno resto de mundo, e deixou-a repousar na palma da mão. Girou-a uma vez, sem olhar. O gesto automático de quem já decidiu tantas coisas no ar. Cara. Ou talvez não. A luz da tarde entrava enviesada pela janela, tocando o relevo gasto. De um lado, um rosto que já perdera a nitidez. Do outro, números quase apagados. Era difícil saber onde começava um e terminava o outro — como certas lembranças que, com o tempo, deixam de ter borda. Sofia apoiou a moeda na mesa. Ficou olhando, como se ela pudesse devolver alguma resposta que não havia sido feita em voz alta. Havia dias em que tudo parecia resolvido de...