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A Janela Aberta

Dizem que a vida gosta de surpreender. Eu, durante muito tempo, achei que isso fosse apenas uma frase bonita para confortar quem perdera o rumo. Depois descobri que era exatamente o contrário: a vida não avisa porque não precisa. Ela simplesmente acontece. Todas as manhãs, Helena abria a janela antes mesmo do café. Não esperava ninguém. Não havia cartas, visitas nem telefonemas. Ainda assim, olhava a rua como quem aguarda uma notícia capaz de mudar tudo. Os vizinhos imaginavam que ela vivia presa ao passado. Não sabiam que ela apenas aprendera a respeitar o futuro. Depois da morte do marido, quase cinquenta anos de casamento haviam se transformado em fotografias, receitas escritas à mão e uma cadeira vazia diante da mesa. A casa continuava inteira, mas o silêncio ocupava mais espaço do que os móveis. Ainda assim, Helena recusava-se a fechar a porta para a vida. Plantava flores novas a cada primavera. Lia livros de autores desconhecidos. Fazia caminhos diferentes para voltar...

Era Pra Ser Assim...

No armário da cozinha havia uma gaveta que nunca fechava direito. Ceci prometia arrumá-la todos os anos. Tirava algumas coisas, organizava outras, mas bastava uma semana para a bagunça voltar. Elásticos sem par, pilhas gastas, chaves de portas que já nem existiam, receitas amareladas, uma fita métrica quebrada. Naquela tarde de chuva, resolveu esvaziá-la completamente. Foi espalhando tudo sobre a mesa e estranhou a quantidade de objetos que um dia tinham sido importantes. Guardara quase tudo pensando que ainda serviria para alguma coisa. A vida fazia o mesmo. Mantinha culpas antigas, planos vencidos, promessas que já não combinavam com a mulher que havia se tornado. Conservava sonhos pelo simples hábito de não jogá-los fora. A gaveta ficou vazia pela primeira vez em muitos anos. Ela passou um pano no fundo de madeira, fechou-a devagar e sorriu ao notar que deslizava sem esforço. Não havia acontecido nada extraordinário. A chuva continuava caindo. O café ainda estava m...

Os Cinquenta Tons de Cinza de Dona Catarina

  Dona Catarina nunca tinha lido o famoso livro dos cinquenta tons de cinza. Na verdade, nem sabia exatamente do que se tratava. Quando as amigas comentavam sobre a história, ela apenas sorria e fingia entender. — Deve ser sobre decoração... — pensava. — Cinza combina com tudo. Mas um dia, aos sessenta e sete, aconteceu uma coisa que ela julgava impossível: apaixonou-se. Não foi por um galã de novela. Nem por um milionário elegante. Nem por um poeta de cabelos brancos olhando o pôr do sol. Apaixonou-se por seu Anselmo, um senhor de setenta e oito anos que frequentava a mesma praça onde ela alimentava os pombos todas as tardes. Ele tinha uma barriga respeitável, um joelho que estalava ao sentar e um aparelho auditivo que insistia em falhar nos momentos mais importantes. Foi amor mesmo assim. Ou talvez justamente por isso. No começo, Catarina tentou resistir. Achava ridículo. Apaixonar-se naquela idade parecia uma travessura que a vida não deveria permit...

Como é o Cheiro Daí..

  Ela nunca acreditou que a memória morasse apenas nas fotografias. As fotografias guardavam rostos, roupas, lugares. Mas havia lembranças que escolhiam outros endereços. Os cheiros, por exemplo. Bastava passar por alguém usando um perfume parecido para que   uma tarde inteira voltasse no tempo. O banco de uma praça. Um casaco esquecido sobre a cadeira. Um abraço dado às pressas porque havia um trem para pegar, um voo, uma vida chamando. Foi numa dessas tardes comuns que a música tocou baixinho no rádio. "Como é o cheiro daí? O seu eu não esqueci." Ela sorriu antes mesmo de perceber que os olhos estavam úmidos. Nunca tinha pensado que a saudade pudesse ter cheiro. Sempre imaginara que ela morasse nas palavras, nas fotografias amareladas, nas cartas guardadas dentro de livros. Mas não. A saudade era mais esperta. Escondia-se onde ninguém conseguia prender. No travesseiro recém-trocado. Na camisa esquecida atrás da porta. No café passado bem cedo. Na terra...

AS Bruxas e a Convenção do Tempo

Dizem que as bruxas se reúnem uma vez por século. Não numa noite específica, nem sob uma lua determinada. Elas simplesmente aparecem quando o mundo anda levando o relógio a sério demais. O lugar da convenção nunca é o mesmo. Há quem diga que acontece numa floresta. Outros juram que é numa biblioteca esquecida. Eu prefiro acreditar que seja numa casa antiga, dessas com varanda de madeira, chaleira sempre no fogo e janelas abertas para um jardim onde o alecrim cresce sem ninguém plantar. Naquela manhã, chegaram aos poucos. Uma vinha trazendo o cheiro de maresia preso ao vestido. Outra trazia folhas secas nos cabelos. Havia uma que parecia muito jovem e outra tão velha que ninguém saberia dizer sua idade. Talvez porque nenhuma delas tivesse idade. Ou talvez porque esse assunto jamais tivesse interessado às bruxas. Cumprimentaram-se como velhas amigas. — Como vai? — Muito bem. Faz apenas uns quarenta anos que não nos vemos. Responderam com naturalidade, como quem diz "at...

O Cérebro Aprende Caminhos

  Há alguns anos, a ciência começou a falar com mais clareza sobre a plasticidade do cérebro. Um nome complicado para uma ideia bastante simples: o cérebro muda. Ele cria novos caminhos, fortalece aqueles que usamos com frequência e vai se adaptando ao modo como vivemos, pensamos e sentimos. É como uma estrada de terra. Quanto mais carros passam por ela, mais marcada ela fica. Depois de algum tempo, quase ninguém pensa em abrir outro caminho. Todos seguem pelos mesmos sulcos. Com o cérebro acontece algo parecido. Se, todos os dias, alimentamos apenas a dor, a perda, a preocupação ou a solidão, não é que esses sentimentos sejam inventados. Eles existem, são legítimos. Mas o cérebro vai aprendendo que esse é o lugar para onde deve voltar. Ele passa a reconhecer esse território como familiar. E aquilo que era um sentimento começa, pouco a pouco, a ocupar espaço demais. É por isso que duas pessoas vivendo situações semelhantes podem reagir de maneiras tão diferentes. Não porque...

Olhos Verdes

Havia um tempo em que as pessoas comentavam sobre os olhos dela. Não eram apenas verdes. Eram vivos. Tinham o verde das folhas depois da chuva, das uvas ainda no pé, das águas rasas onde o sol consegue tocar o fundo. Quem conversava com ela tinha a impressão de que aqueles olhos sorriam antes da boca. Ela nunca deu importância a isso. Achava exagero. Os anos passaram carregando o que os anos sempre carregam. Vieram os filhos, o trabalho, as preocupações pequenas que ocupam dias inteiros e as grandes que ocupam noites. Vieram as despedidas. Algumas discretas, outras capazes de dividir a vida em antes e depois. Sem perceber, deixou de olhar demoradamente para as pessoas. Olhava para os relógios, para as contas, para o celular, para o chão. Continuava enxergando tudo, mas já não demorava o olhar em nada. Certa manhã, enquanto esperava sua vez no consultório, uma menina sentou-se ao seu lado. Devia ter uns seis anos. Observou-a por alguns segundos e perguntou, com a sinceridade...