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A Cidade Nem Tão Maravilhosa

  Dizem que algumas cidades nasceram para encantar. Têm avenidas largas, árvores antigas, cafés cheios, praças onde o tempo parece andar mais devagar. E há aquelas cuja beleza começou antes mesmo das casas: montanhas desenhando o horizonte, ora nítidas, ora escondidas por uma névoa fina; o mar se abrindo adiante, mudando de cor conforme o céu, azul nas manhãs claras, cinzento nos dias de chuva, dourado quando a tarde começa a cair. Entre as curvas dos morros, o movimento das águas e a luz pousada sobre os telhados, a cidade se oferece inteira aos olhos, como se soubesse o quanto é bonita. Talvez seja mesmo. Mas as cidades nunca são apenas ruas, prédios, montanhas ou mar. São também as pessoas que as habitam dentro de nós. Desde que você partiu, ela perdeu um pouco da sua vocação para a beleza. O sol continua encontrando as fachadas pela manhã. As montanhas ainda recortam o céu, firmes e silenciosas. O mar permanece ali, respirando em ondas, recebendo barcos, devolvend...

Metáforas Da Casa Que Sabia Respirar

Havia uma casa antiga no fim de uma rua tranquila. Não era bonita nem feia. Era apenas uma dessas casas que parecem guardar mais silêncios do que móveis. As janelas passavam dias fechadas. O relógio da parede ainda marcava as horas, mas ninguém sabia dizer se era ele quem acompanhava o tempo ou se era o tempo que insistia em visitar aquele relógio. Todas as manhãs, uma mulher varria a varanda. Fazia isso com o mesmo cuidado de quem penteia uma lembrança. As folhas voltavam no dia seguinte, como se as árvores escrevessem cartas que o vento nunca deixava chegar ao destinatário. Ela não brigava com as folhas. Apenas as recolhia. Dentro da casa havia uma cristaleira. Os copos permaneciam alinhados havia anos. Pareciam soldados que sobreviveram a uma guerra sem nunca terem saído do lugar. Às vezes, ela abria uma das janelas. O ar entrava devagar, desconfiado, como um visitante que bate à porta de alguém que não vê há muito tempo. E a casa mudava um pouco. As cortinas se mexiam...

Destino Intermediário

O trem deslizava entre os Alpes suíços com a delicadeza de quem conhecia cada curva da montanha. Ora surgia um lago de um azul impossível, ora um túnel apagava tudo por alguns segundos. Depois, a luz voltava, como se alguém abrisse outra janela para o mundo. Ela observava a paisagem desde que embarcara. Não lia. Não ouvia música. Apenas acompanhava a sucessão de pinheiros, chalés e pequenos vilarejos espalhados pelas encostas. O homem sentado à sua frente fechou o livro que carregava havia quase uma hora. — Curioso... Sempre que passo por aqui tenho a impressão de que as montanhas mudaram de lugar. Ela sorriu. Levantou a mão esquerda para prender uma mecha de cabelo atrás da orelha. Duas alianças repousavam no mesmo dedo. — Tudo sempre muda de lugar. Ele acompanhou o movimento da mão por um instante e voltou o olhar para a janela. — Acho que somos nós. — Também. Mas, às vezes, somos nós que mudamos. Em outras, é a vida que resolve trocar os móveis da alma enquanto saímo...

Tinha Dias...

Tinha dias em que ela acordava desapaixonada pela vida. Não era tristeza. Também não era desespero. Era só uma espécie de silêncio por dentro. O despertador tocava, ela levantava, escovava os dentes, abria a janela e olhava a rua como quem olha uma fotografia antiga. Tudo estava no lugar, mas nada parecia chamá-la. Nesses dias, até o café da manhã era preparado por hábito. A chaleira fervia, o pão ia para a torradeira, e ela seguia os mesmos movimentos de sempre, sem esperar que alguma coisa mudasse. Curiosamente, mudava. Não de uma vez. Nunca de uma vez. Era a primeira xícara de café, ainda quente entre as mãos, que parecia devolver um pouco de cor à manhã. Depois vinha uma música qualquer tocando no rádio. Nem precisava ser sua preferida. Bastava uma melodia conhecida para que alguma lembrança abrisse uma fresta. Mais tarde, uma árvore carregada de flores no caminho. O riso alto de duas crianças saindo da escola. O senhor da banca de jornais desejando um bom dia como fazi...

O Lado Errado da Montanha

Quando comprou a pequena casa ao pé da montanha, Antônio ouviu o mesmo comentário de quase todo mundo. — Você foi escolher justo o lado errado. Ele sorria, agradecia a preocupação e mudava de assunto. Diziam que o sol demorava mais a aparecer por ali, que o inverno parecia mais comprido, que a umidade entrava pelas paredes e que as flores nunca tinham o mesmo colorido das que cresciam do outro lado. Quem podia escolher, escolhia o lado ensolarado. Mas Antônio não tinha ido atrás da vista perfeita. Procurava apenas um lugar onde o silêncio coubesse dentro dos seus dias. As manhãs começavam devagar. Enquanto o outro lado da montanha já brilhava, o quintal dele ainda permanecia coberto por uma sombra fria. Ele preparava café, abria a janela e esperava. Sem pressa. Com o tempo, passou a conhecer as pequenas coisas daquele lugar. Sabia em que pedra os lagartos apareciam primeiro. Conhecia o cheiro da terra antes da chuva. Descobriu que algumas flores preferiam justamente a sombr...

Nossos Dias Cinzentos

Quando os dias ficavam cinzentos, Teresa abria a janela mesmo sem vontade. Não esperava que o sol aparecesse. Era apenas um hábito antigo, desses que permanecem quando tantas outras coisas já foram embora. O céu tinha uma cor só. As árvores da rua pareciam mais quietas. Até o padeiro, que sempre cumprimentava os vizinhos, falava mais baixo. Ela nunca acreditou que a tristeza viesse apenas das perdas. Às vezes ela chegava sem motivo claro. Instalava-se na casa como a poeira fina que se acomoda sobre os móveis. A gente passa um pano, vive normalmente, mas sabe que ela continua voltando. Numa dessas manhãs, encontrou uma caixa de fotografias enquanto procurava uma toalha. Sentou-se no chão e foi olhando uma por uma. Havia aniversários, viagens, uma festa de escola, um cachorro que já nem lembrava o nome. Em algumas fotos, tentou descobrir o que fazia aquelas pessoas parecerem tão leves. Não encontrou resposta. Guardou tudo de novo. Nem sempre as lembranças servem para matar a sa...

Queria Poder Te Dizer

Queria poder te dizer que a vida ficou mais simples. Não ficou! Ainda tropeço em lembranças como quem esbarra num móvel antigo durante a noite. Conheço o caminho, mas, de vez em quando, esqueço que alguma coisa continua no mesmo lugar. Há dias em que acordo leve. Faço café, abro a janela, converso com as plantas, reclamo do frio ou do calor. A vida parece cumprir seu dever de seguir adiante. Em outros, basta uma música tocando ao longe, um perfume conhecido ou um casal caminhando devagar para que tudo mude de lugar por dentro. Queria poder te dizer que aprendi a aceitar as ausências. A verdade é que a gente apenas aprende a conviver com elas. É diferente. Outro dia, encontrei uma xícara que ninguém usava além de ti. Estava no fundo do armário, como se esperasse uma manhã qualquer. Passei os dedos na borda lascada e sorri. Não porque aquilo doesse menos, mas porque havia uma vida inteira escondida naquele pequeno defeito. É curioso como as pessoas imaginam que a saudade mora n...