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A Última Carta Nunca Lida

A carta estava dentro da gaveta de baixo, entre um lenço de cambraia e três fotografias que já tinham perdido a coragem das cores. Não era uma carta bonita. O envelope, amarelado nas bordas, tinha uma mancha de café no canto esquerdo e o nome escrito com uma firmeza antiga, dessas que não pedem licença. — Joga isso fora — disse Rosa, a irmã mais prática, encostada na porta do quarto. — Papel velho só serve para juntar pó e fantasma. Celina não respondeu. Estava sentada na beira da cama, com os pés no chão frio, olhando para aquele envelope como se ele respirasse. A casa inteira cheirava a armário aberto, cera de chão e chuva parada. Do lado de fora, as folhas da pitangueira batiam no vidro, insistentes, como dedos miúdos chamando alguém. A mãe morrera havia quatro dias. Aos noventa e dois anos, Laura ainda guardava coisas com a teimosia de quem não confia na memória dos outros. Guardava recibos, botões, santinhos, cartões de aniversário, bilhetes de farmácia, listas de supe...

O Último Trem das Cinco

Às quatro e quarenta e cinco, a plataforma começava a mudar de humor. Os bancos ainda estavam ocupados por quem esperava o trem das quatro, vendedores recolhiam carrinhos de café, um funcionário passava a vassoura sem qualquer pressa e os pombos, donos antigos da estação, caminhavam entre os trilhos como se conhecessem todos os horários. O trem das cinco tinha fama de carregar histórias discretas. Não era o mais cheio, nem o mais confortável. Levava gente que voltava do trabalho, estudantes com mochilas cansadas, senhoras com sacolas de mercado, homens de mãos ásperas e olhos distraídos. Havia também aqueles passageiros que pareciam viajar por necessidade de pensamento, não de destino. Entre eles estava Ernesto. Sentava-se sempre no mesmo banco, perto da última coluna da plataforma. Carregava uma pasta de couro já sem brilho e um jornal dobrado que raramente lia. Olhava mais para os relógios do que para as manchetes. O bilheteiro sabia seu nome. O rapaz da limpeza conheci...

Antas de Dormir

Todas as noites, antes de dormir, Teresa encontrava alguma coisa para fazer. Lavava uma xícara que já estava limpa, alinhava os sapatos perto da porta, passava um pano na pia da cozinha, mesmo sem uma gota de água. Não era capricho. Era um jeito de adiar o momento de entrar no quarto. Morava sozinha havia alguns anos. Os filhos telefonavam quase todos os dias. Aos domingos, um deles aparecia para o almoço. Os netos deixavam a casa de pernas para o ar e iam embora carregando um pedaço do bolo que ela fazia questão de assar. Mas, quando a noite chegava, a casa voltava ao tamanho de uma pessoa só. Foi numa quarta-feira que ela ouviu uma gargalhada no apartamento ao lado. Não prestou muita atenção. Na noite seguinte, ouviu de novo. Depois vieram vozes, uma panela caindo, alguém cantando desafinado enquanto lavava a louça. Eram barulhos comuns, desses que atravessam a parede sem pedir licença e acabam fazendo parte da rotina de um prédio. Sem perceber, Teresa passou a reco...

Foi Então Que Nasci

Quando lhe perguntavam a idade, Silvana respondia com duas datas. A primeira era a do registro, escrita numa certidão já amarelada pelo tempo. A segunda ninguém encontraria em documento algum. Era o dia em que conheceu Miguel. Antes disso, havia uma menina que cumpria horários, tirava boas notas, ajudava em casa, sorria quando esperavam que sorrisse. Cresceu como crescem tantas meninas: aprendendo a ocupar pouco espaço, a pedir licença até para existir. Não era infeliz. Mas também não sabia que estava viva. O mundo lhe parecia uma sala onde as janelas nunca eram abertas por inteiro. Havia luz suficiente para enxergar os móveis, nunca o horizonte. Foi Miguel quem, sem perceber, escancarou uma delas. Não porque fosse um herói. Não porque tivesse respostas. Apenas porque caminhava pela vida com a estranha mania de notar o que quase ninguém via. Via o desenho das nuvens antes da chuva. O perfume do café que escapava da cozinha da vizinha. As árvores que mudavam de cor...

Quando Tudo Se Torna Ilusão

  Havia dias em que Marina tinha a impressão de morar dentro de uma casa feita de vidro. Não porque as paredes fossem transparentes, mas porque tudo o que parecia sólido acabava revelando pequenas rachaduras. Começou devagar. Uma amizade que jurava eternidade desapareceu sem uma explicação que coubesse numa conversa. Um amor que prometia atravessar tempestades desistiu ao primeiro vento mais forte. O trabalho ao qual entregara anos de dedicação mudou de mãos e de prioridades, como se sua história pudesse ser guardada numa caixa qualquer. Até os lugares mudavam. A padaria onde o padeiro sabia seu nome fechou. A árvore da praça foi derrubada depois de uma tempestade. A casa da infância ganhou outra cor, outro portão, outras vozes. Era estranho descobrir que até as lembranças podiam perder o endereço. Marina passou a desconfiar das certezas. Quando alguém dizia "para sempre", ela escutava apenas o eco de uma palavra bonita. Quando lhe prometiam que nada mudaria, sorr...

O Que Sobrou do Dia

O leilão terminava sempre do mesmo jeito. As vozes iam diminuindo, os caminhões eram carregados às pressas e alguém, inevitavelmente, perguntava o que fazer com aquilo que ninguém quis. Era a parte menos interessante para quem comprava e a mais curiosa para Eduardo, que nunca levantava a placa para disputar um lance. Gostava de ficar até o fim. Os objetos pareciam mudar de   personalidade quando deixavam de despertar interesse. Enquanto estavam sobre o estrado, eram antigos, valiosos, raros. Bastava o martelo anunciar o último lote para se transformarem em estorvo. Naquela tarde, um funcionário arrastou uma mala de couro escurecida pelo tempo. — Essa vai embora junto com o resto. Eduardo olhou sem muita atenção. A mala tinha riscos profundos, um fecho torto e uma etiqueta quase ilegível presa à alça. Não chamava a atenção pela beleza. Chamava pelo abandono. Comprou-a por um valor simbólico. Levou-a para casa e a deixou no escritório, perto da janela. Durante dias,...

A Lua Que Parecia Sol

Às duas da madrugada, a praça estava iluminada como uma manhã de verão. Não havia postes acesos nem refletores ligados. A claridade vinha do céu. Quem saiu à rua primeiro ficou parado, sem entender. Acima dos telhados, pairava uma esfera dourada tão intensa que fazia as sombras se esconderem debaixo dos bancos, das árvores e das marquises. Era a lua. Ou pelo menos ocupava o lugar onde a lua deveria estar. As portas começaram a se abrir. Surgiram pessoas de roupão, de chinelos, com os cabelos ainda marcados pelo travesseiro. Algumas apontavam para o céu. Outras apenas observavam, como quem teme quebrar um encanto ao dizer qualquer palavra. Os cachorros latiam sem descanso. Um ou outro galo arriscava um canto confuso. Nos jardins, flores acostumadas à escuridão abriram as pétalas antes da hora. A cidade levou algum tempo para aceitar o que via. Aquela não era uma lua mais brilhante que o normal. Parecia um sol perdido no meio da noite. As horas passaram devagar. Nin...