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Joga a Chave Fora

Quando Adélia jogou a chave fora, não foi por raiva. Foi por higiene. A chave estava ali, em cima da mesa da cozinha, ao lado de um limão cortado ao meio e de um copo esquecido com restos de gin aguado. A mesma mesa onde, por anos, eles dividiram cafés apressados, listas de mercado rabiscadas em guardanapos, silêncios confortáveis de domingo. Tudo parecia simbólico demais naquele instante, então Adélia empurrou o pensamento para debaixo do tapete e focou no gesto prático: pegar a chave, abrir a janela, mirar o pátio interno e tlim. Um som curto, seco, metálico. Como se algo tivesse finalmente decidido cair. Ela e Rafael já tinham rido daquela janela. Já tinham jogado ali migalhas de pão para pássaros que nunca voltaram. Já tinham ficado nus, apoiados no parapeito, inventando futuros improváveis. A chave sempre voltava para o mesmo lugar depois disso. Sempre. Rafael dizia “calma” como quem joga água num incêndio achando que é vela. Dizia “depois a gente vê”. Dizia “não é bem assi...

Chão Firme

Ela pensou, por um instante, que endurecer fosse virar pedra. E pedra não sente saudade. Isso parecia uma vantagem injusta. O que ela queria não era frieza. Era alguma coisa parecida com um osso novo crescendo por dentro. Um apoio invisível. Algo que não se partisse a cada detalhe mínimo: o copo fora do lugar, a música que tocava no rádio, a palavra “nós” atravessando uma conversa qualquer. Queria endurecer para não cair de joelhos diante do cotidiano — esse território cheio de armadilhas que ninguém percebe. Endurecer por dentro não era deixar de amar. Nunca foi. Era aprender a sustentar o peso do amor quando ele vira ausência. Ela tentou caminhos práticos. Silêncios longos. Cafés fortes demais. Rotinas duras, quase militares. Tentou dobrar a saudade como quem dobra roupa: com cuidado, alinhando as bordas, fingindo que assim ela ocuparia menos espaço. Não ocupou. A saudade não se dobra. Ela encontra frestas. Então começou devagar. Em camadas. Primeiro, o corpo. Ombros mai...

Ela Disse, Ele Disse...

Ela disse: A gente precisa falar do que aconteceu. Ele disse: Eu sei. Ela disse: Você sempre sabe depois. Ele disse: Antes eu não consigo. Ela disse: Não foi só um erro. Ele disse: Eu nunca disse que foi. Ela disse: Você evitou dizer o nome. Ele disse: Dar nome torna definitivo. Ela disse: Já é. Ele disse: Pra você. Ela disse: Pra nós. Ele disse: Eu ainda estou tentando segurar o “nós”. Ela disse: Você segurou tarde demais. Ele disse: Mesmo assim, segurei. Ela disse: Não foi só o que você fez. Ele disse: Foi o que eu não fiz também. Ela disse: Foi o silêncio. Ele disse: Sempre ele. Ela disse: Você me deixou sozinha numa decisão que era nossa. Ele disse: Eu congelei. Ela disse: Congelar também escolhe. Ele disse: Eu sei agora. Ela disse: Agora não me devolve nada. Ele disse: Não. Mas talvez evite repetir. Ela disse: Evitar não apaga. Ele disse: Mas pode impedir de virar hábito. Ela disse: Você tem medo de quê? Ele disse: De não ser suficiente. E...

Viver e Morrer...

Há duas coisas na vida que não são transitórias: nascer e morrer. Todo o resto tenta passar. Às vezes passa mesmo. Outras vezes emperra, se arrasta, cria raízes onde não foi chamado. A vida é menos movimento do que insistência. Nascer não é começo — é ruptura. Um corpo arrancado de um estado onde não precisava decidir nada. O primeiro gesto já é esforço. Respirar dói. O mundo chega grande demais, barulhento demais, definitivo demais. Ninguém nasce pronto para existir; nasce exposto. Desde o início, viver é um desequilíbrio permanente entre dependência e resistência. Não há solenidade no nascimento. Há urgência. Há mãos que seguram, olhos que avaliam, expectativas que se acumulam antes mesmo do nome. A vida começa sem sentido e sem escolha. Tudo o que virá depois será tentativa. Viver, então, não se organiza como narrativa. Não avança em linha reta nem se sustenta em aprendizados claros. É feito de dias repetidos, de cansaços que não aparecem nas fotos, de pequenas decisões que n...

Nossos Dias de Domingo

  Tinha domingo que a gente falava demais. Começava cedo, ainda com o quarto meio escuro, o corpo quente da noite. Um acordava primeiro, o outro fingia que ainda dormia, mas já estava ouvindo. Uma frase puxava a outra. Comentários bobos, lembranças repetidas, opiniões que já tinham sido discutidas mil vezes. Às vezes nem concordávamos, mas falávamos mesmo assim. Falávamos porque era domingo. Porque dava tempo. Tinha domingo que não. Cada um no seu canto da casa. Ele no sofá, eu na mesa. O rádio ligado baixo, uma música que ninguém escolheu de verdade. O café esfriando aos poucos, esquecido. A luz entrando pela janela sem pedir licença. Nenhuma pergunta atravessando o ar. Nenhuma necessidade de explicar o silêncio. A casa respirava sozinha, e nós junto com ela. Não era afastamento. Era descanso. Tinha domingo que passava inteiro assim. Sem troca de palavras, sem troca de olhares. Cada um dentro do próprio pensamento. E ainda assim havia companhia. A presença não fazia baru...

O Amor Que Ficou Atrás

  Cristal não gostava da palavra superação. Soava como ordem. Como se a dor tivesse prazo, como se o amor pudesse ser encerrado com alguma dignidade administrável. Ela não superava. Ela acordava. E isso já era violento o suficiente. No começo, chamou de saudade. Era a palavra que cabia. Cabia nos olhares piedosos, nas mãos apertando as dela por segundos a mais, nas mensagens que diziam qualquer coisa. Saudade é uma palavra confortável para quem observa de fora. Mas não era só isso. A casa ficou errada depois que ele morreu. Não vazia — errada. Os objetos perderam a função exata. O sofá era grande demais. A mesa, longa demais. O silêncio não descansava. Ele rondava. Havia lugares onde o ar parecia mais pesado, como se a ausência tivesse densidade. Cristal seguia vivendo por automatismo. Levantava. Tomava banho. Vestia roupas limpas. O corpo fazia o que sabia fazer. A alma, não. A alma ficava sentada em algum canto interno, observando tudo com desconfiança. A raiva veio num...

A Dança Que Sustenta o Dia

Ela se movimenta pela casa com uma elegância que não pede plateia. Não anda: desliza. Cada passo faz a saia rodada desenhar um pequeno arco no ar, como se o tecido soubesse exatamente a hora de acompanhar o corpo. Há leveza ali, sim, mas não só. Há decisão. Há um jeito firme de ocupar o chão, mesmo quando tudo parece suave. Beleza sem esforço. Sutileza que não se explica. Uma compreensão silenciosa das coisas — do tempo, da casa, dele. Ele observa. Baixa devagar os óculos de leitura, mais para ganhar tempo do que para enxergar melhor. O que vê não precisa de foco. Aquilo acontece todos os dias, mas nunca se repete. O movimento dela tem algo de dança, embora não haja música. Ou talvez haja, mas só ele escute. Uma coreografia doméstica feita de gestos simples: virar-se para alcançar um objeto, ajeitar a saia, atravessar o corredor como quem sabe exatamente onde pisa. É quando entende — não com susto, mas com um peso manso — que aquela dança é a sua vida. Não a vida que se conta e...