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O Prato no Chão

Ela dizia — e repetia como quem se convence — que estava “equilibrando os pratos”. Não era metáfora bonita. Era barulho mesmo. Porcelana fina, herdada, comprada em promoção, ganhada em casamento. Pratos de todo tipo girando sobre as mãos, os ombros, a ponta de uma disciplina que já não era escolha — era hábito. Três filhos adolescentes orbitando com suas urgências, um marido chamado Augusto que já não perguntava, apenas supunha, e ela no meio, corrigindo provas enquanto mexia a panela, enquanto respondia mensagens, enquanto sorria no lugar certo. Nada caía. E esse era o problema. Porque nada cair exigia um corpo inteiro em estado de alerta. Não havia pausa. Nem distração. Nem falha permitida. A perfeição, naquele caso, não era qualidade — era contenção. Foi numa tarde comum que algo deslocou. Não um grande acontecimento, nada que justificasse. Um atraso pequeno. Um esquecimento mínimo. Um prato — só um — que escorregou. Não quebrou. Mas fez um som. Um som seco, deslocad...

Enquanto a Coruja pia

Havia uma demora dentro da casa que não vinha do relógio. Como se alguma coisa tivesse sido interrompida no meio de um gesto — e ninguém tivesse voltado para terminar. A luz seguia acesa sem motivo claro. O livro aberto sobre a mesa não era lido havia tempo, embora permanecesse ali, obediente, como se ainda esperasse olhos que já não se demoravam. Um copo pela metade, um prato limpo demais. Pequenos excessos de silêncio ocupando os lugares do que antes era uso. Yvi estava sentada, mas não exatamente presente. O corpo alinhado à cadeira, as mãos próximas do livro, tudo no lugar — menos ela. Foi então que o som atravessou a noite. Um som seco, repetido, como quem marca um tempo que ninguém pediu para contar. Não era alto, mas insistia. De algum ponto da árvore — a mais antiga do terreno, de tronco grosso e casca ferida — vinha aquele chamado que atravessava a noite sem pedir licença. Dentro da casa, nada reagiu de imediato. A luz permaneceu acesa. O livro aberto. O copo pel...

O Que o Vento Leva, o Inverno Reclama

Mudaram primeiro as coisas pequenas — o jeito de fechar a porta, a maneira de dobrar uma blusa, o silêncio entre uma palavra e outra. Não foi um anúncio, nem uma ruptura clara. Foi um deslocamento lento, quase elegante. Ela percebeu antes do nome, antes da explicação. Havia um pedaço novo nela — mais firme, talvez, mais decidido. Um pedaço que não aceitava mais certas esperas, certos atrasos, certas meias-presenças. Esse pedaço cresceu como quem encontra luz depois de muito tempo à sombra. E, junto dele, outros foram ficando para trás sem alarde. Não houve despedida. Só ausência. Era isso que a inquietava. Porque mudar não era só encontrar — era também perder sem saber exatamente o quê. Ele, por sua vez, não sabia dizer quando começou a não reconhecê-la completamente. Continuava sendo ela — o mesmo rosto, o mesmo modo de apoiar o queixo na mão quando pensava. Mas havia intervalos. Pequenos vazios onde antes existia continuidade. E esses vazios, ninguém sabia atravessar. O...

O Que Não é Maleável Quebra

Há coisas que nascem com a pretensão de durar para sempre. Não por força, mas por rigidez. Como se permanecer fosse sinônimo de não ceder, de não dobrar, de não escutar o movimento do mundo. Ela pensava assim — sem dizer em voz alta, mas vivendo como quem sustenta uma linha invisível dentro do peito. Gostava das certezas bem alinhadas, das respostas prontas, dos gestos que não mudam de direção. Havia um certo conforto em saber exatamente onde colocar os pés, mesmo quando o chão já não era o mesmo. Foi assim nas relações. Amou como quem constrói uma casa de paredes muito firmes. Bonita, por fora. Segura, aparentemente. Mas sem janelas largas o suficiente para o vento entrar. Sem espaço para que o outro pudesse, às vezes, ser diferente do que se esperava. E o mundo, como sempre faz, não pediu licença. Mudou os horários, os humores, os afetos. Trouxe silêncios onde antes havia palavras. Aproximou distâncias que pareciam definitivas e afastou presenças que pareciam eternas. Nada vi...

Quarto 317

O hotel não tinha nada de memorável à primeira vista. Carpete neutro, luz amarelada nos corredores, um silêncio que parecia treinado. Era o tipo de lugar onde as pessoas chegam com malas pequenas e histórias grandes demais para carregar à mostra. Ela chegou primeiro. Não por ansiedade — ainda que houvesse — mas por hábito. Gostava de chegar antes, observar o espaço, escolher o lado da cama mesmo quando a cama não lhe pertencia. Deixou a bolsa sobre a poltrona, abriu a janela apenas o suficiente para sentir o ar da rua e depois fechou de novo, como quem testa a possibilidade de ir embora antes mesmo de ficar. Ele atrasou dezessete minutos. O suficiente para que ela pensasse em sair duas vezes e desistisse nas duas. Quando a porta finalmente se abriu, não houve surpresa — apenas um reconhecimento silencioso, como se ambos soubessem que aquele encontro não começava ali. — Você veio — ele disse, baixo, sem entusiasmo ensaiado. Ela sorriu de um jeito quase lateral, sem pressa de...

A Lentidão das Coisas Vivas

O caminho não levava exatamente a lugar nenhum que pudesse ser nomeado. Era mais um intervalo entre pontos — uma faixa de terra batida que atravessava o campo como quem aceita passar sem permanecer. Ela o percorria com frequência suficiente para que o corpo já soubesse onde pisar, mas nunca a ponto de torná-lo hábito. Havia sempre um leve estranhamento, como se o campo mudasse de intenção a cada dia. Naquela manhã, o ar ainda guardava um resto de frio. Não o frio que afasta, mas o que se infiltra devagar pelas roupas, pedindo atenção ao próprio movimento. O sol estava presente, mas não se impunha — espalhava-se em camadas finas, como quem prefere tocar do que iluminar. Ela parou antes da curva. Ali, onde a terra se abria um pouco e deixava ver a extensão irregular do terreno, havia uma árvore. Não particularmente grande, nem bonita no sentido fácil. O tronco inclinado, os galhos mais baixos carregando marcas antigas — cortes, talvez, ou apenas o desgaste de estações repetidas. ...

O Que Ficou nos Caminhos

  Não foi de repente que ela começou a procurar. Também não havia um ponto exato de partida — como se a busca tivesse nascido antes dela, e apenas a tivesse escolhido para continuar. Ela caminhava muito. Não por gosto. Por necessidade de não ficar. Havia ruas que já sabiam seu passo, vitrines que refletiam sempre a mesma figura um pouco deslocada, e bancos de praça onde o corpo pousava sem descanso. Dizia para si mesma que procurava alguém. Mas nunca soube descrever quem. Às vezes, era um rosto entrevisto no reflexo de uma janela à noite. Outras, um gesto — a forma como alguém segurava uma xícara, ou virava o rosto ao ouvir o próprio nome. Pequenos sinais que faziam o coração avançar um passo à frente do corpo. E então, nada. Ela seguiu assim por estações inteiras. Aprendeu o frio que não vem do clima, o calor que não consola. Guardava detalhes inúteis: o som de uma porta fechando ao longe, o cheiro de roupa limpa em um corredor desconhecido, a cor exata de um fim de ta...