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Até Quando..

Às 22h15, Agnes morreu. Pelo menos era o que dizia o papel amarelado que segurava entre os dedos. Seu nome completo estava ali. O número do registro também. E, logo abaixo, numa letra firme e inquestionável: Hora da morte: 22h15. Ela leu uma vez. Leu outra. Depois uma terceira. Mas não se sentia morta. Passou a mão pelo próprio rosto. Sentiu a pele. Tocou os cabelos. Ouviu o som da própria respiração. Se estava morta, por que ainda sentia o peso do corpo? E se ainda sentia o corpo, por que alguém havia decretado sua morte? Ao levantar os olhos, percebeu que não estava sozinha. Havia uma discussão. Uma discussão antiga, feroz, quase cansada. De um lado, vozes afirmavam: — Ela merece o céu. Do outro: — Não. Ela merece o inferno. Agnes olhou em volta procurando quem falava. Não viu rostos. Apenas presenças. — Posso saber do que estão falando? — perguntou. Ninguém respondeu diretamente. Em vez disso, começaram a surgir cenas. Uma após outra. Como...

Deixa Eu Te Abraçar de Novo

— Deixa eu te abraçar de novo... Ela pedia baixinho, como quem teme que a própria voz espante o milagre. — Não te afasta... não me deixa... E ele sorria. Os braços dele tinham o cheiro das manhãs tranquilas, dos cafés demorados, das estradas percorridas sem pressa. Quando a envolvia, o mundo parecia caber naquele espaço exato entre um coração e outro. Viveram anos. Ou talvez dias. Ou talvez apenas o tempo que os sonhos permitem. Viajaram. Riram de coisas sem importância. Discutiram sobre bobagens e fizeram as pazes antes que a noite terminasse. Envelheceram um pouco. Depois rejuvenesceram nas fotografias imaginárias que nunca foram tiradas. Ela conheceu cada curva do rosto dele. Aprendeu o som dos seus passos no corredor. Sabia quando ele estava feliz apenas pelo jeito como colocava as chaves sobre a mesa. Às vezes acordava dentro daquele sonho e encontrava-o olhando pela janela. — O que foi? — perguntava. — Nada. Estou guardando este momento. E ela acredi...

O Brilho dos Outros

  Durante muito tempo, Selminha acreditou que não tinha brilho. Não dizia isso para ninguém. Guardava aquela impressão como quem guarda uma fotografia antiga dentro de um livro. Estava lá, entre as páginas dos dias, aparecendo de vez em quando. Via brilho em toda parte. Na amiga que chegava a uma festa e logo reunia gente ao redor. Na irmã que parecia saber exatamente o que fazer da vida. Na vizinha que estudava, viajava, aprendia coisas novas e tinha sempre uma história interessante para contar. Selminha admirava essas pessoas. E, sem perceber, colocava-se um degrau abaixo delas. Afinal, o que tinha para mostrar? Levava uma vida comum. Criou filhos, trabalhou durante anos, ajudou os pais quando envelheceram, acompanhou amigos em momentos difíceis, fez bolos para aniversários, cuidou de plantas, acolheu visitas inesperadas, ofereceu café e escutou desabafos. Mas aquilo lhe parecia apenas a vida acontecendo. Nada que merecesse destaque. Nada que pudesse ser cha...

Enquanto Você Não Vem

  Desde os cinquenta anos, Helena tinha adquirido um hábito estranho. Conversava com a morte. Não em voz alta. Não em cemitérios. Não diante de fotografias antigas. Conversava com ela enquanto dobrava roupas, regava plantas, esperava o café passar ou observava a chuva bater na janela. — Ainda não — dizia às vezes. E a morte, em sua imaginação, sentava-se numa cadeira qualquer da cozinha, cruzava as pernas e respondia: — Não estou com pressa. Helena gostava daquela resposta. Não porque desejasse a visita, mas porque lhe dava a sensação de que ainda havia tempo. Tempo para organizar gavetas. Não as da casa. As da vida. Havia pessoas com quem precisava conversar. Pessoas que não lhe deviam desculpas, mas explicações. Pessoas a quem ela própria devia perdão. Também precisava terminar algumas coisas. Não livros nem projetos grandiosos. Precisava terminar silêncios. Fechar perguntas. Arrumar lembranças que continuavam espalhadas dentro dela como roupas...

A Vida Depois do Horário Comercial

Quando era jovem, Augusto acreditava que a vida adulta começava em algum lugar muito específico. Talvez no primeiro salário. Talvez na compra da casa própria. Talvez no dia em que alguém o chamasse de senhor sem hesitar. Mas os anos foram passando e nenhuma dessas coisas aconteceu exatamente como ele imaginava. Recebeu o primeiro salário e continuou se sentindo o mesmo rapaz que esquecia onde havia deixado as chaves. Comprou uma casa e descobriu que telhados envelhecem, canos estouram e paredes criam rachaduras tão naturalmente quanto as pessoas criam rugas. Passou a ser chamado de senhor e, por dentro, continuava se surpreendendo ao se ver refletido nos espelhos. A verdade é que ninguém lhe contou que a vida adulta não chega de uma vez. Ela vai ocupando espaço aos poucos. Primeiro uma conta para pagar. Depois uma decisão que ninguém pode tomar por você. Mais tarde, a descoberta de que existem perguntas sem respostas e que, mesmo assim, a manhã seguinte continua c...

A Cor dos Dias Comuns

  Dona Celina nunca tinha atravessado oceanos, escalado montanhas ou vivido grandes aventuras. Aos setenta e três anos, sua vida cabia em uma casa simples de esquina, duas roseiras na frente e uma rotina que se repetia há tanto tempo que os dias pareciam feitos da mesma matéria. Acordava às seis. Colocava água para o café. Abria a janela da cozinha. Cumprimentava o sol quando ele aparecia e a chuva quando era ela quem chegava primeiro. Depois, alimentava os passarinhos. Era uma vida tão comum que ninguém escreveria um livro sobre ela. Ou pelo menos era o que Celina pensava. Naquela manhã de terça-feira, enquanto organizava uma gaveta, encontrou uma fotografia antiga. Estava amarelada pelo tempo. Na imagem, ela aparecia ao lado do marido, Augusto, diante da primeira casa que haviam comprado. A casa era pequena. Os dois eram jovens. E sorriam como quem acreditava que o mundo inteiro cabia dentro de um abraço. Celina sentou-se à mesa e ficou olhando para a foto. Augu...

" O Que a Vida Fez de Nossa Vida"...

  Havia uma pergunta que Clarice carregava sem nunca dizer inteira. Ela aparecia enquanto dobrava roupas ainda mornas do varal, enquanto esperava a água ferver, enquanto apagava as luzes da casa antes de dormir. Não vinha como desespero. Nem como revolta. Era pior. Vinha mansa. O que a vida fez da nossa vida? Porque um dia existira uma vida que parecia ter sido escolhida pelos dois. Ela e Augusto haviam começado pequenos. Pequenos de dinheiro, pequenos de certezas, pequenos até de móveis. O primeiro sofá afundava no meio. A geladeira fazia um barulho de motor cansado. Chovia dentro da lavanderia. E ainda assim, naquela época, tudo parecia maior do que o mundo. Eles falavam sobre cidades onde nunca estiveram. Sobre livros que fingiam entender. Sobre filhos que talvez viessem. Sobre envelhecer juntos sem virar aquelas pessoas silenciosas nos restaurantes. E então a vida aconteceu. Não de uma vez. A vida nunca destrói de uma vez. Ela vai apertando. Uma conta. Dep...