A Mulher com Cheiro de Acácia
Havia dias em que a cidade parecia respirar mais devagar. Nessas manhãs, quando a neblina demorava a abandonar as árvores da praça e o sino da igreja chegava abafado às janelas, algumas pessoas comentavam que o perfume de acácia voltara a caminhar pelas ruas. Não era um aroma comum. Não vinha dos jardins, nem das poucas acácias que resistiam ao tempo. Era um perfume leve, fresco, impossível de prender na memória por inteiro. Bastava tentar descrevê-lo para que escapasse, como fazem os sonhos ao despertar. Quem sentia aquele cheiro costumava erguer a cabeça sem saber por quê. E quase sempre a via. Uma mulher atravessando a rua com passos tranquilos, vestida de tons claros, sem pressa, sem idade aparente. Os cabelos acompanhavam o vento mesmo quando não havia vento. O rosto nunca permanecia tempo suficiente para ser lembrado com exatidão. Uns diziam que ela sorria. Outros juravam que seus olhos carregavam uma tristeza muito antiga. As versões nunca coincidiam. A única cer...