Do Outro Lado do Espelho
Helena tinha o hábito de conversar com os espelhos. Não porque acreditasse em magia. Nem porque esperasse respostas. Apenas havia dias em que o reflexo parecia mais disposto a escutar do que as pessoas. O espelho do corredor era antigo. Herdado da mãe, carregava pequenas manchas escuras nos cantos e uma moldura de madeira marcada pelo tempo. Quem o observasse diria que precisava ser restaurado. Helena pensava o contrário. Gostava das marcas. Elas lhe pareciam honestas. Numa tarde de chuva, enquanto a água deslizava pelos vidros da janela, ela parou diante dele por mais tempo que o costume. A mulher refletida tinha os mesmos olhos castanhos, os mesmos cabelos já rendidos aos fios prateados. E, no entanto, parecia outra. Talvez porque ninguém seja exatamente o mesmo depois de atravessar certas tempestades. Helena passou a mão pela moldura. Lembrou-se da menina que queria ser bailarina. Da jovem que acreditava que o amor resolveria tudo. Da mulher que correu contra relóg...