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A Primavera Que Chegava Pela Porta

Ele chegava como chega uma brisa de primavera… leve, suave e refrescante. Não fazia barulho ao entrar na casa. Era como se o próprio silêncio o reconhecesse antes da chave tocar a porta. Trazia consigo o cheiro da rua depois da chuva, um perfume discreto de sabonete barato misturado ao vento, e aquela maneira calma de ocupar os espaços sem empurrar nada para fora do lugar. A menina sempre sabia quando ele estava chegando. Mesmo pequena, corria até a janela antes de qualquer aviso. Não porque ouvisse seus passos, mas porque certas pessoas deixam um movimento diferente no mundo quando se aproximam. Como árvores que se mexem antes da tempestade. Como cortinas que respiram antes da janela abrir. O pai sorria ao vê-la esperando. — Já sabia que eu vinha? Ela nunca respondia. Apenas se jogava em seus braços com a força das crianças que ainda acreditam que o amor impede qualquer partida. Ele trabalhava demais. As mãos tinham marcas de ferramentas, pequenos cortes esquecidos e um c...

Pisando em Ovos

Beatriz costumava dizer que a vida já lhe tinha ensinado quase tudo. O quase era importante. Sempre aparecia alguém ou alguma situação para desmentir a frase. Professora aposentada, dona de um riso fácil e de uma coleção de histórias acumuladas em décadas de salas de aula, ela atravessara doenças, dificuldades financeiras, separações inesperadas e despedidas dolorosas. Sobrevivera a todas elas com uma mistura curiosa de teimosia e bom humor. Mas bastava encontrar Jussara no corredor do prédio para perder a desenvoltura. E isso a divertia e a irritava na mesma medida. As duas eram vizinhas havia mais de trinta anos. Jussara era o tipo de pessoa que parecia ter assinado um contrato vitalício com a reclamação. Se fazia calor, era um absurdo. Se fazia frio, uma tragédia. Se chovia, a cidade estava abandonada. Se fazia sol, vinha uma seca sem precedentes. Quando o elevador funcionava, demorava demais. Quando chegava rápido, devia estar estragado. Nada escapava. — B...

Falando Com as Estrelas

Naquela noite, Ludmila não procurava respostas. A idade lhe ensinara que elas costumam chegar quando já não são tão necessárias. Sentou-se na varanda com uma manta sobre os ombros. A cidade se espalhava em pequenas luzes pelas colinas. Acima dela, o céu exibia sua antiga coleção de estrelas. Havia quem falasse com santos. Havia quem falasse com fotografias. Ludmila falava com as estrelas. Não porque acreditasse que elas respondiam. Gostava apenas da sensação de poder dizer qualquer coisa sem ser interrompida. Durante a vida inteira, acumulou perguntas. Por que algumas pessoas partem cedo? Por que certos amores permanecem mesmo quando já não têm presença? Por que a memória guarda o cheiro de uma tarde distante e esquece fatos acontecidos ontem? As estrelas nunca responderam. Ainda assim, ela voltava. Naquela noite, falou de coisas simples. Contou que o ipê da rua florescia menos do que antigamente. Que as crianças do bairro haviam crescido. Que os rostos ...

Vem Que Te Enfrento

  A placa estava ali havia anos. Pequena, enferrujada, presa a um mourão torto na beira da estrada. VEM QUE EU TE ENFRENTO Os que passavam inventavam histórias. Briga de vizinhos. Disputa por terras. Desafio de alguém que já nem estava vivo. Laura também inventara as suas. Durante muito tempo acreditou que aquelas palavras pertenciam a alguém. Nunca lhe ocorreu que pudessem pertencer a ela. Naquela manhã de inverno, estacionou o carro sem saber exatamente por quê. O campo estava coberto por uma névoa fina. Os cavalos pareciam recortados no branco, imóveis como figuras esquecidas depois que a festa acaba. Ela caminhou até a cerca. O frio entrou pelas mangas do casaco. Leu a frase uma vez. Depois outra. E mais uma. Curioso como certas palavras passam anos diante dos nossos olhos sem conseguir entrar. Até o dia em que encontram uma fresta. Laura pensou na carta dobrada dentro de um livro que nunca teve coragem de enviar. Pensou no número de tele...

Ainda Havia Ela

Nada pior poderia ter acontecido na vida de Jussara. Pelo menos era o que ela pensava enquanto permanecia sentada no sofá, usando a mesma roupa do dia anterior, olhando para uma televisão desligada. Tudo começou numa terça-feira qualquer. Depois de quinze anos na mesma empresa, foi chamada ao setor de recursos humanos. Recebeu um sorriso sem emoção, um envelope e um "não foi uma decisão fácil". Em menos de dez minutos, estava na rua carregando uma caixa com uma caneca, algumas fotografias e uma pequena planta que insistia em sobreviver. Passou os dias seguintes enviando currículos e fingindo tranquilidade. — Vai dar tudo certo — repetia para os amigos. Mas não acreditava. Então veio a segunda queda. Numa noite em que o namorado deixou o celular sobre a mesa enquanto tomava banho, uma mensagem apareceu. Depois outra. E mais uma. Jussara não era de invadir a privacidade de ninguém. Nunca tinha sido. Mas havia frases que não deixavam espaço para dúvidas. El...

A Casa das Janelas Tortas

Diziam que aquela era a casa mais estranha da rua. As janelas não eram alinhadas. Algumas fechavam mal, outras deixavam entrar vento mesmo quando estavam trancadas. O telhado carregava marcas do tempo, e a pintura descascada denunciava anos de chuva, calor e tempestades. Ainda assim, havia flores na varanda. Quem morava ali era Aurora, uma mulher que já colecionara mais despedidas do que aniversários. Perdera sonhos, amores, oportunidades e pessoas que julgava insubstituíveis. Em alguns períodos da vida, acreditou que a felicidade fosse um endereço reservado aos outros. Certa tarde, uma jovem que passava pela rua perguntou: — A senhora nunca pensou em reformar essa casa? Aurora sorriu. — Pensei muitas vezes. — E por que não fez? Ela olhou para as paredes irregulares. — Porque cada rachadura me ensinou alguma coisa. A moça não entendeu. Aurora apontou para uma marca escura próxima à porta. — Ali foi o ano em que perdi meu marido. Depois indicou uma janela emp...

Sob o "Cabo do Medo"

Desde pequena, Sofia carregava um medo que não cabia no tamanho de seu corpo. Enquanto outras crianças temiam trovões, escuro ou monstros escondidos sob a cama, ela tinha medo das despedidas. Medo de perder quem amava. Medo de que a mãe demorasse demais para voltar do mercado. Medo de que o pai não retornasse de uma viagem. Medo de que os avós, tão velhos aos seus olhos de menina, desaparecessem durante a noite. Ninguém entendia completamente. Ela mesma não entendia. Às vezes acordava assustada e caminhava pela casa em silêncio apenas para ouvir a respiração das pessoas dormindo. Era uma forma de conferir se o mundo continuava no lugar. Os anos passaram. Sofia cresceu, estudou, trabalhou, apaixonou-se. Mas os medos cresceram junto com ela. Aprendeu a escondê-los sob sorrisos educados e uma aparente independência. Tornou-se aquela mulher que resolvia problemas, organizava a vida de todos, cuidava dos amigos, dos filhos e dos pais. Quem a observava de fora via força. Por ...