Quando a Chuva Molha e Machuca
A chuva começou sem muito barulho. Começou quase sem avisar... Fina, quase leve, dessas que parecem não pedir abrigo. A cidade seguiu — passos apressados, portas se fechando, gente se protegendo do que, à primeira vista, não parecia grande coisa. Ela não correu. Caminhava como quem não precisa chegar, apenas continuar. O casaco já escurecido pela água, o cabelo preso à testa, os sapatos absorvendo o dia com um desconforto lento. Foi numa rua comum que o corpo reconheceu antes do pensamento. Uma padaria ainda acesa, o banco de sempre, a calçada que já tinha sido cenário de outra coisa — riso, talvez, ou promessa. Nada ali indicava importância, mas havia. A chuva mudou ali. Não no céu. Nela. As gotas passaram a encontrar lugares mais fundos, onde o tempo não encosta com frequência. Não era dor grande. Era exata. Ela reduziu o passo. Ao redor, ninguém via. Cada um ocupado em atravessar o próprio dia, desviando da água como quem evita atraso. Havia uma pressa que não era dela. ...