Dois Estranhos Quase Reais
Eles se encontraram numa noite em que a casa estava silenciosa demais. Ela não buscava ninguém. Apenas clicava. Rolava a tela como quem passa os dedos numa estante de livros sem intenção de escolher. Ele escreveu primeiro — uma frase simples, quase burocrática. Mas havia um ritmo naquela frase. Um cuidado. Ela respondeu. No começo, eram horários desencontrados. Ele acordava quando ela já pensava em dormir. Ela escrevia quando ele estava no intervalo do trabalho. Eram mensagens que se cruzavam como aviões no céu noturno: não se viam, mas sabiam que o outro estava ali, em algum ponto da escuridão. Não trocaram fotos de imediato. Nem vozes. Era melhor assim. Havia uma liberdade no desconhecimento. Ele podia imaginá-la com o cabelo preso ou solto, rindo com a cabeça inclinada para trás. Ela podia inventar o timbre da voz dele — grave, talvez, ou com um riso contido no canto da frase. Falavam de coisas pequenas. Café forte demais. A chuva que demorava a chegar. Um filme antigo vis...