Joga a Chave Fora
Quando Adélia jogou a chave fora, não foi por raiva. Foi por higiene. A chave estava ali, em cima da mesa da cozinha, ao lado de um limão cortado ao meio e de um copo esquecido com restos de gin aguado. A mesma mesa onde, por anos, eles dividiram cafés apressados, listas de mercado rabiscadas em guardanapos, silêncios confortáveis de domingo. Tudo parecia simbólico demais naquele instante, então Adélia empurrou o pensamento para debaixo do tapete e focou no gesto prático: pegar a chave, abrir a janela, mirar o pátio interno e tlim. Um som curto, seco, metálico. Como se algo tivesse finalmente decidido cair. Ela e Rafael já tinham rido daquela janela. Já tinham jogado ali migalhas de pão para pássaros que nunca voltaram. Já tinham ficado nus, apoiados no parapeito, inventando futuros improváveis. A chave sempre voltava para o mesmo lugar depois disso. Sempre. Rafael dizia “calma” como quem joga água num incêndio achando que é vela. Dizia “depois a gente vê”. Dizia “não é bem assi...