Mundo Que se Desfaz
O mundo dela não começou a desaparecer de forma visível. Nada caiu no chão com estrondo. Não houve diagnóstico acompanhado de música triste, nem um instante exato capaz de ser apontado no calendário como o início da ruína. O que aconteceu foi mais silencioso — e justamente por isso mais cruel. Primeiro vieram as pequenas falhas. Uma palavra esquecida no meio da frase. Uma panela no fogo. O nome da vizinha desaparecendo por segundos longos demais. No início todos trataram aquilo com delicadeza. A idade, diziam. O excesso de preocupação. O cansaço acumulado. E ela própria ajudava a encobrir os buracos. Ria quando confundia objetos. Inventava desculpas rápidas. Desenvolveu uma habilidade silenciosa para mudar de assunto antes que percebessem que sua memória começava a falhar como uma lâmpada antiga. Mas havia momentos em que o mundo se tornava estranho. Não triste. Estranho. A disposição dos móveis parecia levemente alterada, como se alguém entrasse na casa durante a ma...