A Pele do Tempo
Ela percebeu que o tempo não andava no relógio. Andava na pele. Foi no instante em que ele tocou o dorso da sua mão — não um toque apressado, mas aquele toque que pergunta antes de existir. E ali o mundo falhou. Não parou. Falhou. Como se alguém tivesse puxado o fio invisível que sustenta os minutos. O bar continuava cheio. Copos tilintavam. Uma criança chorava ao longe. Mas entre os dois havia uma espécie de redoma morna onde o ar ficava mais espesso. Respirar exigia consciência. Sorrir exigia coragem. E o tempo… o tempo se dilatava. Cabiam décadas dentro de um olhar. Cabiam histórias nunca vividas dentro de um segundo que não terminava. Ele dizia alguma coisa simples — qualquer coisa sobre o frio da noite, sobre o vinho, sobre nada — e a voz dele atravessava nela como se tivesse sido esperada há anos. Ela riu. E quando riu, o minuto abriu-se como uma fruta madura. O tempo dilata quando o corpo reconhece antes da razão. A cada toque leve no braço, a cada sorriso que de...