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O Dia Que Não Tem Par

Havia uma coisa errada na semana. Ninguém sabia dizer exatamente o quê, mas havia. Segunda-feira vinha agarrada à terça, como duas irmãs que ainda tinham coisas para conversar. Quinta-feira já se encostava na sexta, porque a sexta tinha pressa de chegar. E sábado, quando aparecia, trazia o domingo consigo, feito sombra. Só a quarta-feira não tinha ninguém. Ficava ali, no meio. Sozinha. Durante muito tempo, ninguém se deu conta disso. Talvez porque a quarta-feira tivesse aprendido a não fazer barulho. Chegava sem promessas, sem despedidas, sem aquela alegria antecipada das sextas-feiras. Era apenas quarta. O dia em que a semana já havia ido longe demais para recomeçar e ainda estava longe demais para terminar. Foi por isso que certa noite ela perguntou ao Tempo: — Por que eu não tenho um par? O Tempo, que já tinha ouvido perguntas muito mais difíceis, demorou a responder. — Porque alguém precisava ficar sozinho. A quarta-feira não gostou da resposta. — Mas ...
  Quando envelhecemos, voltamos a precisar de mãos Hoje, a caminho do escritório, uma cena muito simples me fez diminuir o passo. Um senhor, já bastante idoso, tentava subir um pequeno degrau de um canteiro que separava a casa dele da casa do vizinho. Era apenas um degrau. Para quem passa apressado, talvez nem merecesse um olhar. Mas eu fiquei observando o esforço daquele homem para vencer uma altura que, alguns anos antes, provavelmente nem teria percebido. Ele apoiou o corpo, procurou equilíbrio, firmou os pés e, com aquela lentidão que a idade vai impondo sem pedir licença, conseguiu passar. Pensei que talvez ele estivesse indo à casa do vizinho para dar um bom-dia. E essa possibilidade me tocou. Porque, depois de certa idade, até mesmo um bom-dia pode exigir um pequeno esforço. Não apenas físico. Há uma espécie de mudança silenciosa que acontece quando envelhecemos. Aos poucos, deixamos de fazer tantas coisas sozinhos. Não necessariamente porque perdemos a vontade, mas porque o...

O Setembro Que Ficou

Setembro costumava ser um dos melhores meses do ano. Apesar das minhas alergias primaveris, era por certo o nosso mês. Antecedia o verão, mas ainda deixava algumas noites em que puxávamos o edredom e dormíamos bem pertinho. Havia qualquer coisa de bom naquele intervalo entre o frio que ainda não queria ir embora e o calor que começava a chegar. Gostávamos desse tempo. Talvez porque não fosse inteiro. Talvez porque ainda guardasse um pouco de cada estação. Foram dias e noites inesquecíveis. Não porque soubéssemos que um dia seriam lembrados assim, mas porque a vida tem essa maneira quase perversa de transformar em preciosidade aquilo que, enquanto acontece, parece apenas mais um dia. Até aquela metade de semana de um setembro sem ano. Não sei mais dizer em que ano setembro deixou de ser apenas um mês. Sei que aconteceu. E talvez seja justamente isso que mais me intriga: não houve uma fronteira nítida. O mundo não mudou de cor. O calendário não parou. Ninguém anunciou que, a partir daque...

A Minha Metade

Eu sempre dizia que era inteira. Dizia com a convicção de quem havia aprendido cedo que ninguém deveria chegar à vida do outro para completá-lo. Eu era uma maçã inteira, uma laranja inteira. E, se um dia alguém quisesse caminhar ao meu lado, que viesse inteiro também. Nunca seria metade de ninguém. Eu gostava dessa ideia. Talvez porque houvesse nela uma espécie de liberdade. Uma mulher inteira não precisava de ninguém para existir. Podia escolher. Podia ficar. Podia partir. Podia amar sem se perder. E assim atravessei a vida. Até que o tempo, que não costuma dar explicações, me ensinou uma coisa que eu não sabia. Hoje me vejo dividida. Não porque tenha deixado de ser inteira. Mas porque descobri que há pessoas que, quando partem, levam consigo uma parte de nós que não estava em nós antes delas. E então entendi a metáfora que eu rejeitava. “A metade da laranja. A metade da maçã.” Aquela coisa que eu achava pequena demais para uma mulher que sempre se orgulhou de se...

Ela Decidiu Esquecer

Ela dizia, com a autoridade de quem já havia vivido o bastante para não precisar pedir licença às próprias escolhas, que certas doenças dos velhos eram criadas. Não todas. Não era ingênua. Sabia que havia doenças que chegavam com a idade, que os joelhos reclamavam, que a vista diminuía, que o corpo começava a cobrar antigas imprudências. Mas aquela outra doença, a que fazia as pessoas esquecerem nomes, perderem o fio das conversas, repetirem histórias e, pouco a pouco, deixarem escapar pedaços inteiros da própria vida, essa ela dizia que tinha sido inventada. — Inventada por quem não entende o que é ter vivido muito. Dizia isso sem revolta. Era quase uma constatação. E ninguém discutia. Ela tinha o costume de falar assim, com uma segurança que não vinha de livros nem de médicos. Vinha dos anos. De tudo o que havia visto desaparecer. Havia vivido uma vida cheia. Casa cheia, durante muito tempo. Filhos entrando e saindo, netos espalhando brinquedos, amigos chegando sem av...

As "Meninas" do Trem

O trem saiu devagar, quase pedindo licença para deixar a estação para trás. Era uma manhã comum. Gente apressada, sacolas no colo, casacos mal fechados, o barulho metálico das portas e aquele cheiro de café que vinha de algum lugar da plataforma. Nada anunciava que, naquele vagão, quatro mulheres estavam prestes a reencontrar uma parte de suas próprias vidas. Sentaram-se próximas, como se ainda tivessem vinte e poucos anos. Não tinham. Havia cabelos brancos escondidos sob tinturas cuidadosas, joelhos que reclamavam nas mudanças de tempo e uma coleção de histórias que nenhuma delas contava inteira. — Faz quanto tempo? — perguntou Lúcia. Ninguém respondeu de imediato. Era uma pergunta grande demais para caber em uma resposta. Tinham estudado juntas. Depois vieram os casamentos, os filhos, os empregos, as mudanças de cidade, as mães envelhecendo, os maridos adoecendo, as contas, as separações, os netos. A vida foi acontecendo às vezes calma, às vezes atropelada... e, qua...

Te Querendo Mais e Mais

  Ela disse isso numa terça-feira, enquanto descascava uma laranja. Não havia música tocando, ninguém havia ido embora, nenhuma fotografia sobre a mesa, nenhuma lembrança especialmente bonita naquele instante. Apenas uma laranja. E ela. Com os dedos molhados de sumo, percebeu de repente que ainda queria. Aquilo a surpreendeu. Depois de certa idade, a gente aprende a diminuir o verbo querer. Queremos menos açúcar, menos barulho, menos explicações, menos gente entrando em nossa casa sem avisar. Aprendemos a escolher o restaurante, a cadeira mais confortável, o caminho mais curto. Ela também havia aprendido. Mas naquela manhã alguma coisa dentro dela se recusava a envelhecer no mesmo ritmo do corpo. Queria mais. Não sabia exatamente o quê. Talvez fosse isso que a deixava tão inquieta. Durante anos, imaginara que conhecer a vida era finalmente saber nomear as coisas. Agora descobria o contrário: havia uma liberdade enorme em não saber. Vestiu uma roupa que n...