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Falando Com as Estrelas

Naquela noite, Ludmila não procurava respostas. A idade lhe ensinara que elas costumam chegar quando já não são tão necessárias. Sentou-se na varanda com uma manta sobre os ombros. A cidade se espalhava em pequenas luzes pelas colinas. Acima dela, o céu exibia sua antiga coleção de estrelas. Havia quem falasse com santos. Havia quem falasse com fotografias. Ludmila falava com as estrelas. Não porque acreditasse que elas respondiam. Gostava apenas da sensação de poder dizer qualquer coisa sem ser interrompida. Durante a vida inteira, acumulou perguntas. Por que algumas pessoas partem cedo? Por que certos amores permanecem mesmo quando já não têm presença? Por que a memória guarda o cheiro de uma tarde distante e esquece fatos acontecidos ontem? As estrelas nunca responderam. Ainda assim, ela voltava. Naquela noite, falou de coisas simples. Contou que o ipê da rua florescia menos do que antigamente. Que as crianças do bairro haviam crescido. Que os rostos ...

Vem Que Te Enfrento

  A placa estava ali havia anos. Pequena, enferrujada, presa a um mourão torto na beira da estrada. VEM QUE EU TE ENFRENTO Os que passavam inventavam histórias. Briga de vizinhos. Disputa por terras. Desafio de alguém que já nem estava vivo. Laura também inventara as suas. Durante muito tempo acreditou que aquelas palavras pertenciam a alguém. Nunca lhe ocorreu que pudessem pertencer a ela. Naquela manhã de inverno, estacionou o carro sem saber exatamente por quê. O campo estava coberto por uma névoa fina. Os cavalos pareciam recortados no branco, imóveis como figuras esquecidas depois que a festa acaba. Ela caminhou até a cerca. O frio entrou pelas mangas do casaco. Leu a frase uma vez. Depois outra. E mais uma. Curioso como certas palavras passam anos diante dos nossos olhos sem conseguir entrar. Até o dia em que encontram uma fresta. Laura pensou na carta dobrada dentro de um livro que nunca teve coragem de enviar. Pensou no número de tele...

Ainda Havia Ela

Nada pior poderia ter acontecido na vida de Jussara. Pelo menos era o que ela pensava enquanto permanecia sentada no sofá, usando a mesma roupa do dia anterior, olhando para uma televisão desligada. Tudo começou numa terça-feira qualquer. Depois de quinze anos na mesma empresa, foi chamada ao setor de recursos humanos. Recebeu um sorriso sem emoção, um envelope e um "não foi uma decisão fácil". Em menos de dez minutos, estava na rua carregando uma caixa com uma caneca, algumas fotografias e uma pequena planta que insistia em sobreviver. Passou os dias seguintes enviando currículos e fingindo tranquilidade. — Vai dar tudo certo — repetia para os amigos. Mas não acreditava. Então veio a segunda queda. Numa noite em que o namorado deixou o celular sobre a mesa enquanto tomava banho, uma mensagem apareceu. Depois outra. E mais uma. Jussara não era de invadir a privacidade de ninguém. Nunca tinha sido. Mas havia frases que não deixavam espaço para dúvidas. El...

A Casa das Janelas Tortas

Diziam que aquela era a casa mais estranha da rua. As janelas não eram alinhadas. Algumas fechavam mal, outras deixavam entrar vento mesmo quando estavam trancadas. O telhado carregava marcas do tempo, e a pintura descascada denunciava anos de chuva, calor e tempestades. Ainda assim, havia flores na varanda. Quem morava ali era Aurora, uma mulher que já colecionara mais despedidas do que aniversários. Perdera sonhos, amores, oportunidades e pessoas que julgava insubstituíveis. Em alguns períodos da vida, acreditou que a felicidade fosse um endereço reservado aos outros. Certa tarde, uma jovem que passava pela rua perguntou: — A senhora nunca pensou em reformar essa casa? Aurora sorriu. — Pensei muitas vezes. — E por que não fez? Ela olhou para as paredes irregulares. — Porque cada rachadura me ensinou alguma coisa. A moça não entendeu. Aurora apontou para uma marca escura próxima à porta. — Ali foi o ano em que perdi meu marido. Depois indicou uma janela emp...

Sob o "Cabo do Medo"

Desde pequena, Sofia carregava um medo que não cabia no tamanho de seu corpo. Enquanto outras crianças temiam trovões, escuro ou monstros escondidos sob a cama, ela tinha medo das despedidas. Medo de perder quem amava. Medo de que a mãe demorasse demais para voltar do mercado. Medo de que o pai não retornasse de uma viagem. Medo de que os avós, tão velhos aos seus olhos de menina, desaparecessem durante a noite. Ninguém entendia completamente. Ela mesma não entendia. Às vezes acordava assustada e caminhava pela casa em silêncio apenas para ouvir a respiração das pessoas dormindo. Era uma forma de conferir se o mundo continuava no lugar. Os anos passaram. Sofia cresceu, estudou, trabalhou, apaixonou-se. Mas os medos cresceram junto com ela. Aprendeu a escondê-los sob sorrisos educados e uma aparente independência. Tornou-se aquela mulher que resolvia problemas, organizava a vida de todos, cuidava dos amigos, dos filhos e dos pais. Quem a observava de fora via força. Por ...

Um Nome Escrito no Espelho

Quando Helena percebeu o nome pela primeira vez, pensou que fosse uma brincadeira da própria imaginação. Estava saindo do banho. O vapor ainda cobria o espelho do banheiro quando ela viu as letras surgirem aos poucos, como se alguém as desenhasse por trás da névoa. Miguel. Ela ficou imóvel. Passou a mão sobre o vidro e o nome desapareceu junto com a umidade. Sorriu de si mesma. Aos sessenta e cinco anos, morando sozinha havia quase uma década, conhecia bem as peças que a memória pregava. Às vezes acordava certa de ter ouvido a voz da mãe chamando da cozinha. Outras vezes jurava ter visto o marido sentado na poltrona da sala. Miguel. O nome, porém, não lhe dizia nada. Não conhecia nenhum Miguel importante. Nenhum amor antigo, nenhum parente esquecido. No dia seguinte, o nome apareceu novamente. E no outro também. Sempre da mesma forma. Miguel. Durante uma semana, Helena tentou ignorar. Na segunda semana, começou a fotografar. Na terceira, decidiu investig...

Até Quando..

Às 22h15, Agnes morreu. Pelo menos era o que dizia o papel amarelado que segurava entre os dedos. Seu nome completo estava ali. O número do registro também. E, logo abaixo, numa letra firme e inquestionável: Hora da morte: 22h15. Ela leu uma vez. Leu outra. Depois uma terceira. Mas não se sentia morta. Passou a mão pelo próprio rosto. Sentiu a pele. Tocou os cabelos. Ouviu o som da própria respiração. Se estava morta, por que ainda sentia o peso do corpo? E se ainda sentia o corpo, por que alguém havia decretado sua morte? Ao levantar os olhos, percebeu que não estava sozinha. Havia uma discussão. Uma discussão antiga, feroz, quase cansada. De um lado, vozes afirmavam: — Ela merece o céu. Do outro: — Não. Ela merece o inferno. Agnes olhou em volta procurando quem falava. Não viu rostos. Apenas presenças. — Posso saber do que estão falando? — perguntou. Ninguém respondeu diretamente. Em vez disso, começaram a surgir cenas. Uma após outra. Como...