Como é o Cheiro Daí..
Ela nunca acreditou que a memória morasse apenas nas fotografias. As fotografias guardavam rostos, roupas, lugares. Mas havia lembranças que escolhiam outros endereços. Os cheiros, por exemplo. Bastava passar por alguém usando um perfume parecido para que uma tarde inteira voltasse no tempo. O banco de uma praça. Um casaco esquecido sobre a cadeira. Um abraço dado às pressas porque havia um trem para pegar, um voo, uma vida chamando. Foi numa dessas tardes comuns que a música tocou baixinho no rádio. "Como é o cheiro daí? O seu eu não esqueci." Ela sorriu antes mesmo de perceber que os olhos estavam úmidos. Nunca tinha pensado que a saudade pudesse ter cheiro. Sempre imaginara que ela morasse nas palavras, nas fotografias amareladas, nas cartas guardadas dentro de livros. Mas não. A saudade era mais esperta. Escondia-se onde ninguém conseguia prender. No travesseiro recém-trocado. Na camisa esquecida atrás da porta. No café passado bem cedo. Na terra...