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Aquilo Que o Tempo Não Consegue Segurar

  Há quem diga que o mais importante da vida é viver o presente. Mas talvez o presente seja justamente a única coisa que nunca conseguimos alcançar completamente. Porque agora… neste exato instante… enquanto esta frase termina de ser dita… ela já pertence ao passado. O tempo não espera sequer o fim de um pensamento. Desde o momento em que me sentei diante do computador para escrever este texto, aquele instante deixou de existir. O movimento das mãos, o silêncio da casa, a luz entrando pela janela, a respiração entre uma frase e outra… tudo já ficou para trás. E talvez seja por isso que a vida humana seja feita muito mais de lembranças do que de presente. Porque o presente escapa. Sempre escapou. Tentamos segurá-lo com fotografias, vídeos, cartas antigas, objetos guardados em gavetas, perfumes esquecidos em roupas antigas… mas nada impede o tempo de seguir adiante. O instante passa. O corpo envelhece. As pessoas partem. As vozes silenciam. E o que sobra? As l...

O Luto Tinha Barulho de Chaves...

 O Luto Tinha Barulho de Chaves... Não de portas abrindo. Nem de chegadas. Era o som pequeno de metal se encostando dentro de uma gaveta, de um bolso, de uma bolsa esquecida sobre a cadeira da cozinha. Um ruído quase sem importância, mas que fazia o peito dela se comportar como vidro fino dentro de água fervendo. Depois da morte dele, a casa começou a falar por ferragens. As chaves da garagem. As chaves do portão. As chaves que ele carregava penduradas numa argola velha, pesada demais para tão poucas portas. Durante anos, ela reclamara daquele barulho. — Precisa carregar o prédio inteiro contigo? Ele ria. Sempre ria antes de espalhar o som metálico pela casa como quem anunciava chuva no telhado. Agora o silêncio parecia um animal grande dormindo nos corredores. E o pior era que, às vezes, no fim da tarde, ela jurava escutar as chaves outra vez. Não como lembrança. Como presença. O elevador subia. Algum vizinho fechava a porta. O vento mexia em qualquer co...

Num Domingo Qualquer

Ela passou anos tentando entender o instante exato em que precisou entregá-lo para a morte. Não era uma frase bonita. Nem aceitável. Muito menos poética. Mas era a única verdade que conseguia sustentar sem cair. Porque foi ela quem segurou a mão dele quando os dedos começaram a perder a força. Foi ela quem ouviu o último ruído preso na garganta, como alguém tentando voltar atrás de uma viagem impossível. Foi ela quem disse, sem voz, sem coragem e sem acreditar: — Pode ir… E ele foi. Depois disso, o tempo não fez o que prometem nos livros. Não curou. Não fechou nada. O tempo apenas afastou os dois como continentes antigos que um dia se tocaram. Ela continuou vivendo. Aprendeu novos caminhos para o mercado. Mudou os móveis de lugar. Trocou de chaleira. Passou a dormir do lado errado da cama porque o lado certo parecia ocupado demais pela ausência dele. Os anos fizeram o rosto dela mudar devagar. Os cabelos. As mãos. E às vezes vinha um medo absurdo, quase infantil: e ...

No Reflexo dos Espelhos

Os espelhos daquela casa antiga nunca devolviam exatamente a mesma imagem. Talvez fosse por causa da prata gasta atrás do vidro, talvez pela umidade que subia das paredes nos invernos longos, ou talvez porque certas dores modificassem discretamente o jeito como o rosto repousa sobre os ossos. Havia dias em que Clara passava diante do espelho do corredor e se enxergava quase menina, com os cabelos ainda pesados de juventude e os olhos cheios daquela confiança absurda de quem acredita que o amor é um lugar aonde se chega e permanece. Em outros dias, bastava inclinar um pouco a cabeça para encontrar no reflexo uma mulher cansada, feita de silêncios acumulados e noites dormidas pela metade. Ela nunca comentou isso com ninguém. As pessoas têm medo de quem olha demais para dentro das coisas. O primeiro espelho estava no hall da entrada. Alto, estreito, cercado por madeira escura já rachada nos cantos. Fora presente de casamento. Clara ainda lembrava do caminhão descarregando os móvei...

Vestida de Chuva

A mulher vestida de chuva apareceu na cidade numa tarde em que os guarda-chuvas tinham desistido de proteger alguém. A água caía torta, empurrada pelo vento, escorrendo pelas vitrines, entrando pelas mangas das roupas, atravessando sapatos caros e chinelos baratos com a mesma intimidade. Havia quem corresse pelas calçadas como se pudesse vencer o tempo até a próxima marquise, e havia quem aceitasse o temporal com a resignação dos que já entenderam que certas coisas molham por dentro muito antes de alcançar a pele. Ela surgiu caminhando devagar. Não parecia perdida. Também não parecia procurar nada. Vestia um casaco longo da cor das nuvens antes do desabamento, e o tecido colava no corpo como se tivesse sido costurado pela própria tempestade. Os cabelos escuros escorriam pelos ombros sem esforço, e os olhos carregavam aquela distância comum em pessoas que aprenderam a sobreviver olhando para lugares onde ninguém mais consegue enxergar. Os moradores começaram a notar sua presença...

" O Anel Era de Vidro"...

O anel era vidro e se quebrou numa tarde tão silenciosa que até os móveis pareciam escutar alguma coisa. Não caiu de uma grande altura. Não houve grito. Nem aquelas cenas exageradas que os filmes gostam de usar quando querem convencer alguém de que o amor acabou. Foi apenas um pequeno som. Quase delicado. Como uma taça fina, aquela que conheceu tantos lábios, desistindo de continuar inteira. Ela ainda segurava a sacola de pão contra o peito quando percebeu os fragmentos espalhados no chão da cozinha. Alguns brilhavam perto da janela. Outros tinham deslizado para baixo da mesa, como bichos assustados procurando esconderijo. Curioso como certas coisas escolhem morrer exatamente em dias comuns. Do lado de fora, o céu tinha a cor das cartas antigas. O ônibus passava cheio. Uma mulher caminhava carregando flores amarelas. Em algum apartamento distante, alguém ria alto demais. E ali, entre migalhas invisíveis do cotidiano, estava o anel. Vidro. Nunca diamante. Nunca our...

Os Três Neurônios de Dona Josefa

Dona Josefa acordava todos os dias com apenas três neurônios disponíveis para uso imediato. Não era força de expressão. Eram literalmente três. E todos moravam na mesma cabeça apertada, como inquilinos de pensão antiga dividindo banheiro. O primeiro chamava-se Tico. O segundo, Teco. O terceiro ninguém sabia exatamente de onde tinha vindo. Surgira numa madrugada de insônia, depois de uma sopa requentada e um programa policial assistido até às duas da manhã. Chamava-se Sabotador. Tico era responsável pelas decisões básicas: — Não coloca o sal no café. Teco cuidava das emergências: — Josefa, isso não é o controle da televisão. É o telefone. Já o Sabotador não tinha função útil alguma. Era concursado da desgraça. Ele aparecia principalmente em situações humilhantes. Numa terça-feira, por exemplo, Dona Josefa entrou numa farmácia decidida a comprar laxante. Estava há cinco dias vivendo uma relação tóxica com o próprio intestino. Tico organizava a frase: — Boa tarde, eu ...