Postagens

O Café que Esfriava por Nós Dois

  Havia uma parte da casa que continuava esperando por ele. Não era o quarto, nem a poltrona perto da janela, nem o lado vazio da cama onde ela aprendera a dormir encolhida para não tocar o espaço que sobrara. Era algo menos visível. Um tipo de silêncio que só existia porque um dia alguém respirou ali durante muitos anos. Lívia descobriu isso numa manhã comum, enquanto colocava água para o café e separava duas xícaras sem perceber. Ficou olhando para elas sobre a mesa como quem encara um erro impossível de corrigir. Não chorou. O choro já não vinha com facilidade. A dor antiga, quando envelhece dentro da gente, perde o escândalo. Aprende a andar pela casa devagar, quase sem barulho, como alguém que conhece cada canto. Lavou uma das xícaras e abriu a janela. Lá fora, a cidade seguia acontecendo com uma crueldade distraída. Ônibus passavam. Pessoas discutiam ao telefone. Um rapaz corria atrás do cachorro que escapara da guia. Uma mulher equilibrava flores amarelas no braço c...

A Mulher Que Foi Conversar com as Nuvens

Durante semanas, ela passou a subir o morro no fim da tarde carregando uma cadeira de madeira que rangia como joelhos antigos. Não era um morro bonito desses de cartão-postal. Tinha pedras tortas, mato seco em alguns trechos e um silêncio interrompido apenas pelos cachorros distantes e pelas roupas batendo nos varais lá embaixo. Ainda assim, era ali que o céu parecia mais próximo da pele. As pessoas começaram a comentar. Diziam que a mulher estava perdendo o juízo. Outros achavam que era luto. Havia quem dissesse que ela esperava alguém. Mas ninguém perguntou diretamente, porque certas tristezas obrigam até os curiosos a falar baixo. Ela subia sempre no mesmo horário. Sentava-se na cadeira virada para o horizonte e ficava olhando as nuvens como quem tenta reconhecer rostos numa multidão antiga. Às vezes movia os lábios discretamente. Às vezes ria sozinha. Noutras, apenas apertava as mãos no colo, como se segurasse alguma coisa invisível para que não escapasse. As crianças...

A Última Respiração da Casa

O lugar era tão silencioso que ela escutava seu pensamento respirar. Não como metáfora — respirava mesmo. Curto, cansado, às vezes com uma falha pequena no meio, como se até os pensamentos envelhecessem. A casa surgira no meio da estrada pouco antes do anoitecer, embora ela conhecesse aquele caminho desde menina e jamais houvesse existido construção alguma ali. Nem árvores. Nem cerca. Apenas o campo úmido e a neblina baixa que parecia esquecer de ir embora. Parou o carro porque viu luz atrás das cortinas. Depois já não soube explicar por que descera. As janelas eram altas demais. As portas estreitas demais. Tudo parecia construído a partir da memória imperfeita de alguém. Quando tocou a maçaneta, sentiu uma estranha calma — a sensação de quem chega atrasado a um lugar onde já o esperavam há muito tempo. A porta abriu sozinha. O corredor tinha cheiro de chuva guardada em gavetas antigas. Quadros pendurados mostravam paisagens que mudavam devagar quando ela desviava os olho...

Um Zíper no Peito

Havia dias em que Eduarda andava pela casa como quem carrega água dentro do corpo — qualquer movimento mais brusco e tudo parecia transbordar. Não era uma dor que começava em algum lugar exato. Não vinha do peito, nem da garganta, nem dos olhos. Era pior. Parecia morar entre os ossos, ocupando os espaços silenciosos que ninguém vê. Ela continuava fazendo café, dobrando roupas, respondendo mensagens com frases curtas demais para explicarem alguma coisa. As pessoas olhavam e viam uma mulher funcionando. Só Eduarda sabia do esforço absurdo que existia em conseguir abrir as janelas pela manhã sem desabar junto com elas. À noite, quando a casa finalmente silenciava, ela se sentava no chão do quarto e apoiava as costas na cama, como fazia desde menina quando alguma tristeza parecia maior que o próprio corpo. Havia algo quase infantil naquele hábito, mas também alguma espécie de sobrevivência. Porque o chão, ao menos, não fingia. Foi numa dessas noites que pensou no zíper. Imaginou um...

Bolha de Sabão

Havia alguma coisa de teimoso naquela mulher que continuava voltando ao mesmo banco da praça, sempre no fim da tarde, quando o sol já começava a desistir devagar das fachadas antigas e os pombos caminhavam como velhos donos do mundo. Sentava-se com cuidado, ajeitando a saia sobre os joelhos, e carregava na bolsa um pequeno frasco de plástico azul, desses baratos, comprados em lojas de brinquedo. As crianças já a conheciam. — A senhora das bolhas. Ela sorria sem mostrar todos os dentes. Depois mergulhava a haste no líquido e soprava devagar, enchendo o ar de bolhas de sabão que subiam tortas, frágeis, coloridas por um arco-íris que só existia por segundos. Algumas explodiam imediatamente. Outras viajavam mais longe, atravessando pedaços de luz, ombros distraídos, bicicletas, cachorros, pensamentos. E ela observava cada uma como quem acompanha destinos. Ninguém sabia exatamente por que fazia aquilo todos os dias. Havia quem dissesse que perdera um filho. Outros juravam que ...

Mundo Que se Desfaz

O mundo dela não começou a desaparecer de forma visível. Nada caiu no chão com estrondo. Não houve diagnóstico acompanhado de música triste, nem um instante exato capaz de ser apontado no calendário como o início da ruína. O que aconteceu foi mais silencioso — e justamente por isso mais cruel. Primeiro vieram as pequenas falhas. Uma palavra esquecida no meio da frase. Uma panela no fogo. O nome da vizinha desaparecendo por segundos longos demais. No início todos trataram aquilo com delicadeza. A idade, diziam. O excesso de preocupação. O cansaço acumulado. E ela própria ajudava a encobrir os buracos. Ria quando confundia objetos. Inventava desculpas rápidas. Desenvolveu uma habilidade silenciosa para mudar de assunto antes que percebessem que sua memória começava a falhar como uma lâmpada antiga. Mas havia momentos em que o mundo se tornava estranho. Não triste. Estranho. A disposição dos móveis parecia levemente alterada, como se alguém entrasse na casa durante a ma...

Várias Dentro de Uma

A mulher é um “bicho” estranho mesmo, como escreveu Fabrício Carpinejar. Sangra todos os meses e continua. O corpo avisa dor, cansaço, mudança, peso, cólica, silêncio… e ainda assim ela levanta, prende o cabelo, coloca um curativo invisível na própria vulnerabilidade e sai para o mundo como quem não teve escolha além de seguir. E segue. Vai dirigir ônibus, pilotar avião, dar aula, operar alguém numa sala cirúrgica, limpar corredores de hospital, vender pão, julgar processos, recolher lixo da cidade, escrever livros, atender telefone, cuidar de idosos, apagar incêndios, servir café, administrar empresas, cuidar dos filhos das outras, estudar madrugada adentro, carregar filhos no colo e preocupações na alma. Há mulheres que salvam vidas. Há mulheres que organizam vidas. Há mulheres que sustentam vidas inteiras sem que ninguém perceba o peso que carregam nos ombros. E mesmo quando o mundo diminui tudo isso à palavra “sensibilidade”, quase nunca enxergam o quanto existe de resi...