Os Equilibristas

No centro do picadeiro, a lona estendida como céu de pano abrigava a respiração suspensa da plateia. Não havia palmas ainda, tampouco música: apenas o silêncio expectante de quem sabe que algo frágil e grandioso está prestes a acontecer.

Dois equilibristas entraram. Não se deram as mãos, mas seus passos carregavam a memória de outros passos, de outras travessias. Olhavam para a corda esticada como quem encara um destino inevitável: fina, tensa, vibrando com o ar da noite.

Ela subiu primeiro. Os pés descalços reconheceram a textura áspera do fio, e cada centímetro percorrido lembrava o risco da queda. Ele veio logo atrás, mas não para alcançá-la — caminhava ao seu próprio compasso, como se a corda fosse longa o bastante para abrigar duas solidões paralelas.

A plateia prendia o fôlego. Os corpos lá embaixo queriam aplaudir, mas sabiam que o menor gesto poderia desviar o passo, a mínima interrupção bastaria para que tudo se desfizesse. Assim, observavam em silêncio, como quem vigia um segredo.

No alto, entre o início e o fim da corda, o tempo se dissolvia. Cada passo era uma pergunta sem resposta: até onde vai a coragem, até onde aguenta o corpo, até onde pode o coração suportar o vazio sob os pés?

Não houve explosão de palmas, nem festa de chegada. Apenas o sopro da lona, o farfalhar distante de uma bandeira, e o olhar deles perdido no meio do caminho. Como se o verdadeiro espetáculo não estivesse no ponto de partida, nem no ponto de chegada — mas na corda estendida, sempre à espera.

 

 

Silvia Marchiori Buss

 

 

 

 

 

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