Melancolia

 A melancolia é algo que gruda.

Não se anuncia, não faz barulho. Surge devagar, quando ousamos atravessar o corredor estreito que leva às gavetas esquecidas dentro de nós.

Essas gavetas, deixadas à sombra, são lugares de risco. Sabemos que estão lá, fechadas, e ainda assim fingimos não perceber. Algumas carregam cheiros de infância, outras escondem cartas que nunca escrevemos, gestos que não tivemos coragem de fazer, abraços que não demos. Há gavetas que guardam restos de amor, e há aquelas em que se acumulam arrependimentos como poeira grossa.

O ato de abri-las é sempre um mergulho. Nunca sabemos o que vai se soltar — uma saudade que parecia adormecida e acorda com pressa, um silêncio que vira grito por dentro, ou a lembrança incômoda do que poderia ter sido e nunca foi. Ao puxar a alça dessas gavetas, não estamos apenas mexendo no passado: estamos mexendo em quem nos tornamos.

E é nesse instante que a melancolia chega.
Não como visita breve, mas como substância pegajosa, que se infiltra nos poros e nos acompanha sem pressa de partir. Ela se mistura ao café da manhã, à pressa das horas, ao gesto automático de abrir uma janela. É uma presença que não pede atenção, mas se impõe: cola nos pensamentos, encosta no corpo, e fica.

Não adianta apressar a partida dela. A melancolia não sabe de despedidas. Carrega consigo uma fidelidade estranha, quase teimosa: quanto mais tentamos nos livrar, mais ela insiste em nos lembrar que existe. É chiclete grudado no sapato da alma, rangendo a cada passo, tornando os dias mais lentos, mais densos, mais silenciosos.

E ainda assim, há algo de revelador nesse incômodo. Talvez a melancolia seja apenas o rastro do que resistiu ao esquecimento. Talvez ela exista para nos recordar que o tempo não é capaz de engolir tudo. Que certas dores, certos nomes, certos olhares, ainda se assentam em nós como marcas fundas, e não pretendem arredar.

Seguimos, então, carregando essa colagem invisível.
Às vezes dói. Outras vezes apenas pesa. Mas, em silêncio, ela continua nos lembrando que viver é também conviver com o que não se dissolve.

 

Silvia Marchiori Buss

 

 

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