Os Espinhos e as Flores
Havia um jardim que parecia feito de contradições. As flores, abertas em cores vivas, exalavam perfumes que se espalhavam pelo ar como lembranças suaves. Mas, entre elas, erguia-se a rigidez dos espinhos, pontiagudos, prontos a ferir. Era como se a vida tivesse escolhido aquele lugar para revelar seu segredo: nada existe sem risco, nada se oferece por inteiro sem a marca da dor.
Clara descobrira aquele
jardim por acaso, numa manhã em que saiu sem rumo, apenas para escapar do peso
das paredes de casa. Desde então, passou a voltar todos os dias, quase num
ritual silencioso. O banco de madeira, gasto pelo tempo, tornou-se o espaço onde
repousava as horas que não cabiam em nenhum outro lugar.
Ali, Clara deixava que o
passado a alcançasse. Algumas vezes, vinham primeiro os espinhos: a lembrança
da última vez em que viu os olhos dele se fecharem, o telefonema que trouxe
notícias de uma amiga que não voltaria, as palavras que nunca disse aos filhos
por medo de fraquejar. Cada memória cravava-se como farpa, e ela aceitava a
dor, porque já sabia que fugir não a tornava menor.
Em outras manhãs, era o
perfume das flores que a envolvia. E então voltavam os sorrisos: a dança
improvisada na cozinha com os pés descalços, a voz dele cantando baixinho um
bolero desafinado, o cheiro do café que invadia a casa enquanto os filhos
pequenos corriam pelo corredor. Nessas horas, Clara fechava os olhos e
deixava-se embalar pela delicadeza daquilo que já não podia tocar, mas ainda
podia sentir.
Com o tempo, compreendeu
que seu coração era o espelho daquele jardim: feito de pares que não se
abraçam. Os espinhos não se rendem às flores, e as flores não conseguem
suavizar os espinhos. E, no entanto, juntos, constroem a essência. A dor não se
dissolve, a beleza não se apaga. Uma não anula a outra — coexistem.
Talvez seja isso a
maturidade, pensava Clara: não exigir que a vida seja apenas perfume, nem
permitir que se torne apenas ferida. Aceitar a contradição como se aceita a
respiração: inevitável, contínua, às vezes leve, às vezes dolorida.
Naquela manhã, Clara se
levantou do banco com um gesto simples e forte. Não colheu nenhuma flor, não
afastou nenhum espinho. Apenas respirou fundo, deixando o perfume e a ameaça
coexistirem dentro dela.
E caminhou, com passos
lentos, como quem leva consigo um segredo que nunca será totalmente dito.
Silvia Marchiori Buss
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