Por Baixo dos Panos
Na pequena cidade onde todos se conheciam mais pelo sobrenome do que pelo rosto, havia um segredo compartilhado: a lavanderia da Dona Alzira. Oficialmente, ela lavava roupas. Extraoficialmente, era o centro nervoso das fofocas mais frescas, das transações mais discretas e, sobretudo, do que ficava escondido — por baixo dos panos.
Dona Alzira tinha mãos
rápidas. Em menos de cinco minutos, separava roupas íntimas das camisas
sociais, embrulhava o que precisava desaparecer e entregava o que precisava
aparecer, como se nunca tivesse saído dali.
— Aqui é lavanderia, não
confessionário! — dizia sempre que alguém arriscava chorar em cima do balcão.
Mas ouvia tudo, guardava tudo e, claro, lavava a alma junto da roupa.
Um dia, Seu Gentil, o
farmacêutico, entrou aflito. Não trazia lençóis, mas um embrulho mal
disfarçado. O pano escondia uma batina.
— Por favor, Alzira... não
diga a ninguém. Caiu vinho... vinho de missa — justificou-se, vermelho até as
orelhas.
— Missa em boteco agora,
Seu Gentil? — ela arqueou a sobrancelha, mas aceitou. Sabia que rir de padre e
vinho era esporte da cidade, mas o verdadeiro espetáculo estava ali, na mancha
púrpura.
Na mesma semana, Dona
Teresa, a mais recatada da praça, deixou um vestido vermelho decotado, pedindo
pressa:
— É para... para uma peça teatral.
Alzira piscou, sem
acreditar em nada. Quem precisava de teatro quando a vida real já dava o
espetáculo?
A lavanderia virou palco
invisível. Panos escondiam mais do que manchas: escondiam encontros proibidos,
dívidas mal explicadas, desejos que não podiam sair à rua. Cada trouxa de roupa
parecia uma carta anônima que ela recebia e jamais respondia.
O tragicômico era ver como
todos fingiam que nada acontecia. O padre, amigo íntimo de Seu Gentil, continuava
pregando moralidades, Dona Teresa continuava desfilando com seu rosário na mão,
e o farmacêutico ainda vendia aspirinas com ar de santo.
No fundo, Dona Alzira
pensava: “Se um dia esses panos resolvessem falar, não sobraria pedra sobre
pedra nessa cidade”.
E, enquanto esfregava um
lençol encardido, ria sozinha. Porque só ela sabia: a vida, assim como a roupa,
só parece limpa quando a gente olha de longe. Por baixo dos panos, todo mundo
tem suas manchas.
Silvia Marchiori Buss
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