O Muro e a Luz

Eles chegavam todos os dias ao mesmo lugar.

Ninguém sabia dizer quando aquilo começara, mas já não lembravam de outro destino possível. O caminho era sempre o mesmo: passos arrastados, corpos curvados, olhares que evitavam o horizonte. E então, de repente, lá estava ele — o paredão cinzento, erguido como se fosse a própria continuação da terra.

Não era apenas concreto.
O muro parecia respirar uma frieza mineral, exalando um cheiro úmido de pedra molhada. Quem se aproximava sentia a aspereza rasgar a pele, como se fosse feito para repelir qualquer toque. Mas era contra ele que todos se reuniam, dia após dia, como quem participa de um culto que não compreende.

O motivo estava no alto: uma fresta minúscula por onde escapava um raio de luz.
A claridade descia fina, quase insolente, sem se deter em rosto algum. E era suficiente. Bastava aquele facho distante para que homens e mulheres se amontoassem na base do muro, tentando tocá-lo.

As mulheres, murchas como flores secas, estendiam os braços em súplica, acreditando que o brilho lhes devolveria o frescor perdido. Os homens, rudes e barulhentos, riam uns dos outros enquanto se empurravam, certos de que a luz os tornaria fortes, invencíveis.

E assim, todos os dias, repetia-se a mesma coreografia grotesca.
Montavam torres humanas, pés sobre ombros, unhas cravadas em costas alheias. Subiam, cambaleantes, até desmoronarem em queda. Os corpos batiam no chão com ruídos secos — estalos de ossos, suspiros cortados, gargalhadas estúpidas para disfarçar a dor. Depois, o silêncio. E logo, de novo, a escalada.

Era como um ritual interminável:
o empurrão, a queda, o riso nervoso, a súplica.
O muro assistia a tudo em silêncio, imóvel, impassível.

Foi então que uma mulher se afastou do tumulto. Não porque tivesse mais forças, mas porque o cansaço lhe pesava nos olhos. Deixou de mirar o raio inalcançável e baixou o olhar para a base. Tocou a parede. Sentiu a frieza. Percorreu com os dedos as pequenas rachaduras. Ali havia algo diferente: fendas mínimas, quase invisíveis, como se o muro guardasse uma fraqueza oculta.

Enquanto os outros repetiam a dança do desespero, ela começou a raspar. Primeiro com as unhas, depois com fragmentos de pedra. Seus dedos se abriram em sangue, mas ela persistiu. Ninguém percebeu — o barulho das quedas e das gargalhadas abafava qualquer outro som.

Não se sabe quanto tempo passou. O muro parecia não conhecer o tempo. Até que um pedaço cedeu.
Atrás dele, surgiu uma claridade baixa, próxima, um brilho diferente do raio que todos disputavam.

Ela parou.
As mãos sujas de pó, o corpo arqueado de fadiga, ficou imóvel diante daquela nesga. Não sorriu, não comemorou. Apenas olhou. Do outro lado, não se via nada: uma luz difusa, quase um vazio.

Atrás dela, os homens seguiam com seus risos estúpidos, as mulheres com seus olhos murchos. O muro sustentava em silêncio a cegueira coletiva. A fresta no alto ainda brilhava, alimentando a mesma disputa.

E a mulher permaneceu ali, encostada à pedra, sem saber se diante dela havia um caminho — ou apenas mais uma ilusão do concreto.

 

 

Silvia Marchiori Buss

 

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