Um Brinco de Pérola

Naquela manhã, ao abrir a gaveta onde guardava papéis esquecidos, moedas antigas e pequenos objetos que nunca jogara fora, ele encontrou uma caixinha de veludo azul. Não lembrava de tê-la visto antes, ou talvez apenas tivesse se acostumado a ignorar sua presença silenciosa entre tantas quinquilharias.

Abriu-a. Dentro, repousava um único brinco de pérola.

Era simples, redondo, sem adornos ao redor. Uma esfera de luz discreta, como se o mar tivesse guardado em segredo um fragmento de eternidade e agora, de repente, o entregasse a ele.

Segurou-o entre os dedos e ficou parado, como se o mundo inteiro tivesse encolhido para caber naquele ponto de brilho. A pérola refletia a claridade da manhã que entrava pela janela, mas parecia, ao mesmo tempo, retê-la em sua superfície lisa. Tudo se resumia àquele mínimo detalhe que, ainda assim, continha um oceano.

Pensou em colocá-lo na própria orelha. Não o fez. Apenas aproximou-o do rosto e sentiu o frio da esfera contra a pele. Estranhamente, percebeu-se desigual: como se a ausência de um par, ainda que nunca lhe pertencesse, tivesse um peso próprio. A falta pesa mais que a presença.

Deixou-se afundar em memórias. Quando menino, recolhia conchas na praia. Encostava-as ao ouvido e jurava ouvir o mar, mesmo sabendo que era só o rumor do próprio corpo. Agora, adulto, segurava em mãos não a promessa do mar, mas o que dele restava transformado em matéria: uma paciência mineral, uma dor envolvida por camadas até se tornar beleza.

No espelho do corredor, viu-se ridículo, talvez, segurando um brinco de mulher. Mas logo percebeu que não se tratava de ridículo, e sim de revelação. Aquela pérola solitária não era apenas ornamento: era metáfora. Um pedaço de mar disfarçado em joia. Um pedaço de ausência tornado presença.

Saiu à rua com o brinco no bolso. Caminhou pelas pedras da calçada, ouvindo o ritmo desigual de seus passos, e a cada vez que tocava o bolso sentia-se guardando não apenas um objeto, mas um segredo. Imaginava o destino do outro brinco: poderia ter se perdido sob um móvel, poderia ter caído num rio, poderia estar agora na orelha de alguém que jamais saberia do seu par.

E quanto mais imaginava histórias para o brinco ausente, mais entendia que o que se perde não deixa de existir — apenas continua vivendo em outro lugar.

No café, pediu um expresso. Enquanto o líquido escuro se agitava dentro da xícara, ele retirou o brinco do bolso e o observou contra a luz. Pensou na sua origem: um corpo estranho que fere, um grão que incomoda até ser envolvido, protegido, transformado. Uma cicatriz que vira joia. Sorriu com um certo espanto: talvez fosse isso que o tempo também fazia com os homens — cobrir as farpas da vida em camadas até que brilhassem, redondas e silenciosas.

Quando voltou para casa, tornou a abrir a caixinha de veludo. O espaço vazio ali dentro já não lhe pareceu acusação, mas lembrança de que nem tudo precisa ser completado para ter valor.

Naquele instante, compreendeu: o brinco de pérola não era um par perdido, mas um espelho de si mesmo — que também aprendera a ser inteiro com suas faltas. O vazio na caixinha deixava de ser ausência para tornar-se promessa: ali repousava o brilho do que nunca se perde, mesmo quando se vai.

 

Silvia Marchiori Buss

 

 

 

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