" Eu Não Nasci Com a Primeira Chuva"
Ainda é verão em Lausanne, mas já se percebe a cara do outono se insinuando nos cantos da cidade. O vento sopra mais fresco, as árvores hesitam entre o verde e o dourado, e a chuva — companheira diária — desenha véus sobre as ladeiras de paralelepípedo. Caminho protegida por uma capa e uma sombrinha, e foi justamente numa delas que encontrei uma frase que me fez parar: «Je ne suis pas né à la première pluie.» (Eu não nasci com a primeira chuva) A princípio, soou como um enigma. Quem teria dito isso? Ao procurar, descobri: Paulo Coelho e Raul Seixas. A frase faz parte de uma música nascida da parceria improvável de dois homens que, cada um a seu modo, souberam falar da alma humana. Deslizando pelas ruas molhadas, pensei no que aquelas palavras carregavam. Não nascer com a primeira chuva é recusar a ingenuidade de quem acredita que a vida se explica de uma vez só, é assumir que a existência é feita de tempestades sucessivas, de enxurradas que arrastam, mas também de chuviscos que aca...