Postagens

Mostrando postagens de agosto, 2025

" Eu Não Nasci Com a Primeira Chuva"

Ainda é verão em Lausanne, mas já se percebe a cara do outono se insinuando nos cantos da cidade. O vento sopra mais fresco, as árvores hesitam entre o verde e o dourado, e a chuva — companheira diária — desenha véus sobre as ladeiras de paralelepípedo. Caminho protegida por uma capa e uma sombrinha, e foi justamente numa delas que encontrei uma frase que me fez parar: «Je ne suis pas né à la première pluie.» (Eu não nasci com a primeira chuva) A princípio, soou como um enigma. Quem teria dito isso? Ao procurar, descobri: Paulo Coelho e Raul Seixas. A frase faz parte de uma música nascida da parceria improvável de dois homens que, cada um a seu modo, souberam falar da alma humana. Deslizando pelas ruas molhadas, pensei no que aquelas palavras carregavam. Não nascer com a primeira chuva é recusar a ingenuidade de quem acredita que a vida se explica de uma vez só, é assumir que a existência é feita de tempestades sucessivas, de enxurradas que arrastam, mas também de chuviscos que aca...

A Virgula da Vida

A vida é uma vírgula. Um pequeno intervalo dentro da imensidão de um texto cósmico que não fomos nós quem escreveu. E, no entanto, nos comportamos como se fôssemos os autores do universo — arrogantes, prepotentes, convencidos de que somos a última palavra, quando, na verdade, não passamos de uma pausa, um respiro breve. Entre milhões de espécies que respiram — e tantas outras que sequer precisam de ar para existir — somos aqueles que se autodenominam “seres pensantes”. Criamos, mas também destruímos. Construímos mundos de vidro e ferro e, com a mesma rapidez, devoramos florestas, rios, céus. Somos paradoxos ambulantes: inventamos o poema e a bomba, a música e a guerra. Ontem, diante de um pôr do sol que dissolvia o dia no espelho líquido de um lago, percebi o tamanho do meu próprio absurdo. A boca me traiu, e eu disse, encantada: “parece um quadro”. Que soberba! Como se a obra-prima de milhões de anos de cosmos pudesse ser comparada a um pedaço de tela pintado por mãos humanas, po...

O Homem Que Dançava no "Le Quartier du Flon" do caderno de Lausanne

Lausanne é uma cidade de precisão. Os trens não se atrasam, as lojas fecham religiosamente às 19h, e até o silêncio parece ser regido por uma partitura invisível. Tudo funciona, tudo se organiza como se o tempo fosse um relógio bem lubrificado. Mas há lugares onde essa ordem se permite trincar. O bairro Flon é um deles. Antigos armazéns industriais transformaram-se em bares, galerias, restaurantes e clubes. De dia, o concreto guarda a memória da disciplina; de noite, se veste de cores, sons e passos. É ali que Lausanne aprende a se desorganizar sem culpa, a respirar fora do compasso. Ontem, vi a prova disso. No meio da praça, um homem de certa idade dançava sozinho, freneticamente, como se o corpo fosse tambor e o coração, maestro. Não havia música aparente, mas seus movimentos desenhavam uma sinfonia de liberdade. Fiquei perdida em pensamentos: que coragem era aquela de se expor, de se deixar atravessar pela vida sem medo dos olhos que o cercavam? Sim, porque ele estava se expon...

Entre o Primeiro Choro e o Último Silêncio

O primeiro sopro de vida é sempre um espanto. Um grito que inaugura a existência, rompendo o silêncio como um raio rasgando a noite. Não é dor, é anúncio. É como se o universo inteiro parisse junto conosco, entregando-nos ao mundo envoltos em claridade e promessas. Nascer é abrir-se para braços desconhecidos, é aceitar a festa dos começos. Cada gesto é uma alvorada, cada riso, uma descoberta que se acende como chama. A vida, no início, parece um palco limpo: cortinas erguidas, luz acesa, cenário em branco à espera da cena. Mas o mesmo fio que se estende no nascimento já carrega, invisível, o nó do fim. Como um tecido em que a linha já conhece o arremate, trazemos desde o primeiro respiro a marca de que, um dia, expiraremos. Ninguém entra no mundo sem carregar, oculto no peito, o bilhete da partida. Entre a alegria da chegada e a sombra da despedida, habitamos o intervalo — esse espaço suspenso que ousamos chamar de existência. É nesse intervalo que a tapeçaria da vida se borda: enc...

A Sapatilha Cor-de-Rosa

Imagem
No apartamento 201 vivia uma mulher que parecia ter sido esquecida de um palco. Não se sabia seu nome, talvez porque ela mesma não fizesse questão de pronunciá-lo. Carregava sempre sobre os ombros um par de sapatilhas cor-de-rosa, como quem leva a memória de uma vida inteira costurada em fitas de cetim. Caminhava como se estivesse no intervalo de um ensaio ou na véspera de um espetáculo. Era magra, com ossos tão delicados que lembravam galhos de um salgueiro, daqueles que se curvam ao vento, mas nunca se partem. O cabelo, sempre preso em um coque rígido, parecia puxar-lhe os olhos para dentro de um segredo oriental, estreitando o olhar em direção a algum ponto que ninguém mais enxergava. Vestia-se de maneira exótica, como se tivesse saído de uma cena suspensa entre o real e o imaginário, entre a rua e o palco. Os vizinhos a observavam de longe. Não falava com ninguém, como se a língua comum tivesse sido esquecida junto com o tempo das cortinas abertas. Sua linguagem era outra: o si...

Retrato em Preto e Branco

Era uma tarde qualquer em Lausanne, dessas em que a cidade parece estar em repouso, ainda que o movimento nunca cesse. Caminhei sem destino, como costumo fazer, deixando que os paralelepípedos me guiassem. Há uma calma nessa cidade que não se explica em palavras — ela se instala, discreta, como quem puxa uma cadeira ao nosso lado sem pedir licença. Naquele dia, parei diante de uma fonte antiga. A água corria sem pressa, repetindo seu murmúrio desde séculos atrás, indiferente às urgências modernas. Ao redor, algumas pessoas descansavam no chão, como se o corpo pedisse trégua do sobe e desce das ladeiras. Uma moça loira falava baixo ao telefone, outra fechava os olhos como quem roubava segundos de paz. Eram anônimos, mas naquele instante faziam parte do cenário que a cidade me oferecia. Resolvi me fotografar. Não para congelar a vaidade, mas para capturar a mim mesma dentro da cena. Lausanne me ensinou a me ver assim: parte do quadro, mas também observadora dele. Segurei o celular e ...

O Assoalho Que Falava

O assoalho da casa rangia como um corpo cansado, mas vivo. No início ela se assustava, agora esperava por ele. Sabia que a cada noite viriam confidências, recados de um mundo que não se vê. — Não entendi... fala de novo. O som repetiu-se, mais lento. — Ah... o padeiro? Sim, lembro dele. Vendia sonhos em forma de pão. Então a morte veio buscá-lo... O silêncio voltou, mas não durou muito. Outro estalo, outra notícia. — A costureira também? Meu vestido azul... ainda o guardo no baú. Costurou pedacinhos da minha vida, aquela mulher. Ela ajeitou a manta sobre as pernas e esperou o próximo sussurro. — O violinista? Pobre homem... sempre pensei que sua música era mais forte que a morte. Parece que não era. Um estalo longo, arrastado. Ela franziu a testa. — Como é? Não entendi direito. O barulho se repetiu. — Ah... então era ele mesmo. Pois é, nunca mais o vi na rua. A morte recolheu até sua bengala. Os dias foram passando, e ela já não se sentia só. O assoalho era sua companh...

Saudades do Que Ainda Não Foi

Ela tinha apenas oito anos, mas já conhecia um medo que muitos adultos passavam a vida inteira tentando esconder: o medo de crescer. Naquela idade em que os vestidos rodados ainda pareciam abrigar mundos inteiros, em que o cheiro de pão recém-saído do forno era a maior segurança da vida, ela já sofria pelo que ainda não tinha acontecido. Não queria crescer. Não suportava a ideia de que, crescendo, seus pais envelheceriam. E se o tempo, esse ladrão silencioso, os levasse antes que ela tivesse decorado todos os seus gestos? Às vezes, chorava escondida, debruçada na janela, olhando as estrelas como se fossem lanternas que guardassem segredos do futuro. E perguntava em silêncio: Será que crescer é perder? Na manhã seguinte, fazia pequenas tentativas de enganar o mundo. Parava os ponteiros do despertador da sala, como se isso pudesse frear o tempo inteiro da casa. Caminhava nas pontas dos pés para que o corpo não se esticasse depressa demais. Guardava suas bonecas no fundo do armário,...

" Se Sabotar ao Contrário".... da série CADERNO DE LAUSANNE 6

Pedalar em Lausanne é como atravessar uma aquarela que não seca nunca: o lago Léman respira em azuis e pratas, as montanhas guardam segredos de séculos, e as ruas estreitas parecem inventadas para que o tempo caminhe devagar. Foi nesse cenário que um pensamento inesperado se infiltrou entre o sopro do vento e o giro das rodas: e se eu me sabotasse ao contrário? A vida já havia me pregado a maior das armadilhas: arrancar de mim o amor da minha vida. A sabotagem da ausência é cruel — e todos os dias me empurrava para o abismo da saudade. Mas ali, enquanto o sol escorria pelas águas e uma criança sorria ao longe, eu me dei conta de que também posso armar contra a dor. E se, quando a lágrima ameaçar cair, eu inventar um riso pequeno, mesmo que tímido? E se, quando a saudade me acorrentar, eu pedalar mais forte, como quem foge de um cárcere invisível? E se, quando o coração me puxar para trás, eu me empurrar para a frente com a mesma teimosia com que as flores brotam no cimento? Cha...

Dois Silêncios Que se Reconhecem

Eles não se procuravam. Ninguém procura quando já desistiu. E, no entanto, foi justamente nesse cansaço do mundo que se encontraram. Não houve anúncio, não houve clarim. Apenas um olhar que tropeçou no outro, como quem esbarra numa porta que sempre esteve aberta sem saber. Ele se dizia inteiro, mas vivia incompleto. Carregava a alma como um mapa manchado, onde rotas haviam sido apagadas pelo tempo. Ela, por sua vez, trazia nos olhos o desassossego de quem busca e não sabe o quê. Caminhavam pela vida como quem atravessa uma feira deserta depois da chuva: passos úmidos, vestígios de algo que passou, o eco de um riso que poderia ter sido. E, de repente, o encontro. Foi simples. Tão simples que parecia irreal. Ele lhe ofereceu uma frase banal, dessas que se dizem para preencher o vazio. Ela respondeu com um sorriso que não pedia licença. E naquele gesto breve, ambos sentiram um estremecimento suave, como quando o vento levanta de leve a cortina e deixa entrar um sopro de vida. A pa...

A Distância Entre o Parapeito e o Chão

  A distância entre a grande tristeza e o fim de tudo cabia em alguns passos até a janela do sexto andar. Ele sabia disso. Bastava estender a mão, apoiar-se no parapeito, inclinar o corpo e esperar o ar fazer o resto. O chão estava ali, impaciente, pronto para receber o peso de uma vida cansada. Mas o tempo, esse cúmplice ou inimigo, não corre igual quando se caminha rumo ao abismo. Cada passo parecia arrastar décadas, como se seus pés guardassem lembranças presas nas solas. Naquele curto trajeto até a janela, a cabeça se encheu de vozes. Lembrou-se do riso das filhas ainda pequenas, dos domingos de cuca e café que sua ex-mulher preparava, do cheiro de sabonete barato que impregnava a casa simples em que começaram a vida. Lembrou-se também das noites em que a insônia lhe fazia companhia, noites em que, no fundo, só queria que alguém lhe perguntasse: “O que está acontecendo contigo?”. E se perguntou: o que havia acontecido, afinal? Tinha família, tinha uma ex-companheira que s...

Pedalar às 3h33 da série CADERNO DE LAUSANNE

  Acordei às 3h33 da manhã no Brasil — aqui já eram quase nove. A casa dormia ainda, afinal era sábado, e eu me vi com um tempo vazio entre as mãos. Tempo com cheiro de outono, mesmo que o calendário insistisse em chamar de verão. O lago já avisava: seus reflexos perdiam a vibração azulada do calor e se deixavam cobrir por tons mais sóbrios, quase prateados. Ao redor, as montanhas sopravam um friozinho discreto, um ar refrigerado gratuito, sem gasto para o bolso, sem ferida para a natureza. É curioso como Lausanne parece impor um silêncio quase obrigatório, desses que não pesam — ao contrário, envolvem. Um silêncio que deixa espaço para o som do pedal girando, para o coração batendo em compasso com o lago. E pedalar aqui é um gesto de confiança: não há medo de ser atropelada, nem a preocupação de voltar e não encontrar a bicicleta. Há uma segurança tão rara que parece sonho, como se a cidade me dissesse: “vai, pode se distrair, que eu cuido de ti”. Segui sem rumo e, quando perc...

As 4 Verdades de Amélia

Amélia nunca se considerou corajosa. Não era dessas mulheres que falam alto ou que impressionam pela ousadia. Mas havia nela um território secreto, feito de quatro verdades guardadas como pedras preciosas costuradas no forro de um vestido. Não mostrava a ninguém. Preferia carregá-las no silêncio, porque sabia que eram, ao mesmo tempo, seu abrigo e sua condenação. A primeira verdade Às vezes, quando estava sozinha, abria a gaveta da cômoda e tirava de lá uma fotografia antiga. O rosto dele sorria ainda jovem, como se o tempo tivesse congelado antes da despedida. Amélia olhava a imagem como quem acaricia uma ferida que já não sangra, mas nunca cicatriza. Poderia ter refeito a vida, poderia ter emprestado seu nome a outro amor, mas preferiu deixá-lo fechado como um relicário. Amava-o não com a urgência da juventude, mas com a persistência de um fogo que nunca se apaga — aquele que arde sob as cinzas, invisível, mas vivo. Aos outros, oferecia sorrisos inteiros; a ele, dedicava o silên...

A Bola e o Lago Falam a Mesma Língua Da Série CADERNO de LAUSANNE...número 4

Lausanne é uma cidade que respira diversidade. No calçadão, no metrô, nos cafés à beira do lago, escutam-se vozes que vêm dos quatro cantos do mundo. São sílabas que se cruzam sem se entenderem, sons que às vezes soam estranhos, outras vezes familiares. Francês, alemão, italiano, inglês, espanhol, árabe, português, idiomas que se sobrepõem como ondas do Léman. Mas, curiosamente, nesse lugar em que nem sempre a palavra alcança, é o gesto que se torna língua. E o sorriso, a mais certeira tradução. Há uma delicadeza no povo daqui uma escolha silenciosa por receber o estrangeiro não com desconfiança, mas com amabilidade. Lausanne, apesar de sua imponência — montanhas que abraçam a cidade, um lago que parece não ter fim — guarda em si a intimidade de uma cidade segura, onde se pode caminhar sem medo e deixar as crianças brincarem soltas. Talvez por isso tantas famílias escolham este lugar para viver. Aqui a vida parece se abrir como um quintal imenso, onde o mundo inteiro cabe sem muros. ...

O Reencontro

  Quando a porta se abriu, não havia dobradiças rangendo nem vento entrando pela fresta. Era um limiar de silêncio. Do outro lado, ele esperava — não como quem retorna de uma longa viagem, mas como quem nunca tivera ido. Ela não correu, não gritou, não caiu em pranto. Apenas estendeu o braço, simples e humano, como tantas vezes fizera em manhãs que já pareciam distantes. E ele recebeu o gesto como sempre recebera: com a naturalidade de quem guarda um lugar que jamais foi desfeito. Não houve espaço de ausência entre os dois. O tempo, caprichoso como rio que se desdobra em mil curvas, de repente se endireitou. E as margens, antes apartadas, se tocaram. — Estás aqui? — perguntou ela, sem saber se precisava da resposta. — Estou, como sempre estive — disse ele, e a voz parecia feita de lembrança e promessa ao mesmo tempo. Caminharam lado a lado por uma rua que não estava em nenhum mapa. O chão era feito de um material indecifrável: ora parecia pedra antiga, ora espuma de nuvem...

3- Música, Filmes e Café - Da Série Caderno De Lausanne

Há dias em que penso que Lausanne me acolheu como uma anfitriã discreta, dessas que não precisam de muitos gestos para dizer “fica”. Então tá! “fico”... Aqui, ao alcance de poucos passos, tenho três templos que me sustentam: o café com cheiro de chocolate, o cinema onde se apagam as luzes para que outra vida comece, e a música que escorre das salas da Ópera ou da Escola de Música como um rio que não conhece silêncio. Não sigo uma ordem. Às vezes me deixo levar pelo amargor doce do chocolate, que me aquece como um segredo guardado na boca. Outras vezes me sento na poltrona escura do cinema e espero a tela se acender como quem espera uma revelação. Amo o cinema francês, talvez porque nele as pausas falem tanto quanto as palavras, e porque a vida, ali, nunca se resolve — apenas se revela em fragmentos, como a própria vida real. Música, filmes, café... Lausanne me oferece esses três convites e eu aceito cada um conforme a necessidade do dia. É um luxo simples: sair de casa e estar pert...

Mãos Vazias

Há onze meses, um silêncio se instalou no meu peito. Não um silêncio leve, desses que repousam. Foi um silêncio áspero, cheio de farpas, que arranha quando tento respirar fundo. Não escolhi a dor como companheira, nem a elegi como fonte de inspiração. Eu preferia falar de flores, de manhãs que começam com gargalhadas, de mãos que se procuram no escuro, de amores que se celebram no dia comum. Preferia escrever sobre vida, não sobre ausência. Mas o universo, com sua estranha lógica, te levou. E aqui fiquei eu — com as mãos abertas, vazias. Há dias em que estendo os dedos no ar, como se pudesse tocar o contorno do teu rosto. Em outros, me surpreendo tentando te encaixar no espaço do travesseiro. Nenhum gesto traz de volta o que se foi, mas todos eles me lembram que um dia existiu: tua presença, teu riso, teu corpo ao lado do meu. É curioso quando a vida arranca alguém de nós, ficamos cheios e vazios ao mesmo tempo. Cheios de lembranças que queimam e confortam. Vazios de futuro, por...

As Meninas do Metrô Numero 2 da série CADERNO DE LAUSANNE

Voltava do meu passeio pelo Lago Léman como quem retorna de um sonho azul. A superfície da água ainda me acompanhava nos olhos, com as montanhas pairando como sentinelas no horizonte. O dia tinha sido generoso em calor, quase quarenta graus, e eu me sentia derretendo por dentro até entrar no metrô, onde o ar refrigerado era um sopro de clemência. Sentei-me num canto, de frente para o corredor, e foi ali que elas surgiram — duas meninas que pareciam ter acabado de sair de um espelho. Vestidos brancos, tão justos que denunciavam a juventude sem pedir licença. Cabelos alisados com paciência e laquê, sobrancelhas no arco perfeito, batom escolhido a dedo. Tinham no máximo dezoito anos. Entraram rindo baixo, carregando na fala aquele brilho que não vem de maquiagem. Eu entendia pouco francês, mas o suficiente para espiar, pelas frestas das palavras, a história que tramavam: — Il m’a dit qu’il m’attend à dix heures, devant le bar... — disse a de cabelos mais escuros, e havia no sorriso ...

Cartas na Manga

  Dona Leonor tinha o dom de nascer em pé de vento. Nunca ficava parada, nunca deixava um nó por desfazer — ou por dar em alguém. A vida, para ela, era como uma partida interminável de truco: sempre sobrava uma carta escondida na manga, uma piscadela atravessada no tempo certo, uma mentira despretensiosa que virava verdade antes de qualquer desconfiança. Aos olhos do bairro, era viúva. Aos olhos do cartório, solteira. No fundo das gavetas, guardava alianças diferentes, cada uma com um nome gravado — nenhuma coincidia com o seu. Quando alguém tentava confrontá-la, ela sorria com a calma de quem conhece as falhas humanas melhor do que os manuais de etiqueta: — Ora, meu filho, todos têm direito a uma coleção. Uns colecionam selos, outros moedas. Eu, maridos. Na padaria, comprava pão “fiado” como quem fazia caridade ao padeiro. Convencia-o de que estava apenas testando sua paciência cristã. No açougue, jurava que carne vermelha fazia mal ao fígado e só levava frango, “promessa de ...

Tragédia e Comédia

A vida, se a gente parar para pensar, nada mais é do que uma peça encenada em palcos improvisados. Umas vezes o riso é inevitável, outras, o choro não pede licença. Tragédias que parecem cômicas. Comédias que se revelam trágicas. Há quem chore lágrimas sentidas porque quebrou uma unha na véspera de uma festa. O drama se instala como se fosse um acidente nuclear: como sair em público com a mão mutilada? O salão não tinha vaga, a manicure parecia cúmplice do destino, e a porcelana quebrou no ponto exato da vaidade. Tragédia! Mas é inevitável rir de tanto exagero, como se o mundo fosse desmoronar entre esmaltes e acetona. Há também quem viva a tragédia do espelho: o cabeleireiro, vilão da noite, ousou cortar um centímetro a mais do que o combinado. Um centímetro, apenas, mas suficiente para transformar o dia em luto. O cabelo cresce, sim, mas não na velocidade do desespero. E enquanto isso, fotos de perfil precisam ser revistas, festas adiadas e sorrisos sustentados sob o peso de gra...

1 - O Homem do Chapéu Preto da série Caderno de Lausanne

Os sinos da Catedral de Lausanne, erguidos desde o século XIII, bateram dez vezes. Cada badalada soou como um coração antigo que não cansa de pulsar, ecoando pelas pedras e descendo às ruas estreitas, onde a noite se estendia em silêncio. Então, de repente, ele surgiu. Uma figura solitária no campanário, recortada contra a lua cheia, como se tivesse saído de um sonho medieval para lembrar ao mundo que as horas não passam em vão. Sua voz atravessou o vento: — C’est le guet! Il a sonné dix… il a sonné dix! Era o vigia noturno. O guardião da cidade que adormecia. O homem do chapéu preto de feltro, que mantém viva uma tradição de séculos. Renato Hauster — nome que soa como pedra gravada, nome que carrega a honra de ser o último elo entre o passado e o presente. Sua função nasceu em tempos de medo, quando incêndios eram monstros que devoravam cidades inteiras. O vigia era os olhos da noite, o ouvido atento que protegia contra perigos invisíveis. Foi ele quem aprendeu a cantar as hora...

Quem Não Sabe, Inventa

Dona Eulália tinha o raro dom de nunca deixar o silêncio vencer. Não importava o assunto — política, cirurgia de coração aberto, comportamento de pinguins ou receita de pão sem glúten — ela sempre tinha algo a dizer. E, se não sabia… ah, minha filha, inventava. O falecido marido, Seu Agenor, dizia que ela era “uma biblioteca cheia de livros sem páginas”. Quando ele morreu, vítima de um aneurisma cerebral, Eulália contou para todos que fora “desânimo”. — Desânimo de quê? — quis saber a vizinha Olindina, que não perdia um velório. — De tudo. O homem já tinha feito tudo o que queria. Quem não tem mais o que querer, vai embora. — respondeu Eulália, com ar de filósofa de boteco. No bairro, ela era uma espécie de “agência de notícias alternativa”. O problema é que as notícias dela vinham com enfeites, bordados e, muitas vezes, até coreografia. Quando o filho da padaria quebrou a perna, Eulália garantiu que ele tinha sido atropelado por uma carroça de pôneis desgovernados. A verdade? C...

Como Um Pássaro Sem Asa

Ela andava assim — como quem voa, mas arrasta o peito no chão. Como um pássaro sem asa. Não por escolha. Nem por fraqueza. Mas porque havia coisas que se perderam no caminho. E quando a alma se parte em duas, é difícil lembrar como era mesmo o gesto do voo. Dizia pouco. Observava muito. Nos cafés da manhã, reparava no silêncio das torradas queimadas, na solidão das xícaras emparelhadas por costume, não por afeto. Nos encontros com amigos, ria no tempo certo, mas algo dentro dela não acompanhava. Como se existisse um intervalo entre o que se vive e o que se sente — e ela habitasse esse intervalo. Nunca lhe faltaram palavras, mas havia um tipo de cansaço que nem os melhores verbos alcançavam. Aquele cansaço de quem tentou demais, quis demais, segurou tudo com tanta força que, no fim, só sobrou o esforço. A vida lhe pareceu, por um tempo, um espetáculo ao qual ela assistia da coxia. Os risos, os beijos, os sustos, os aplausos — tudo ali, tão perto, mas de alguma forma interditad...

A Mulher Que Pulou a Primavera CONTO

  Dizem que a primavera é feita de recomeços. Flores que insistem. Cheiros que voltam. Cores que se espalham como promessas. Mas para Clarice, a primavera virou o atalho mais curto para a dor. Foi numa manhã absurda de setembro — dessas em que o sol beija as janelas como um velho conhecido — que ela o perdeu. Não de repente. Nem brutalmente. Foi uma morte pequena, íntima, feita de suspiro e rendição. Ele morreu ali, entre suas mãos, com a cabeça pousada em seu colo e os olhos ainda presos nela como se quisesse ficar mais um pouco. Não houve sirenes. Nem desespero. Houve silêncio. E o tempo quebrando como porcelana. Naquela manhã, a primavera chegou com cheiro de flor cortada e um amor interrompido. Durante os meses seguintes, Clarice passou a viver no contrapé das estações. O verão, que antes era mar e sandália leve, virou um forno de ausências. O inverno, que já era duro, passou a ser castigo. E o outono, ah… o outono parecia o único capaz de compreendê-la. Sóbrio. Silen...

A Alma Sentada à Mesa

A casa inteira parecia uma respiração suspensa. Não era a primeira manhã em que aquilo acontecia — o ar parado, a poeira fazendo galáxias mínimas no feixe de luz que escapava por entre as persianas, o cheiro de café que esfriava rápido demais sobre o aparador. Ela entrou na cozinha com passos de quem não quer acordar nem o próprio corpo. Serviu-se de uma xícara, olhou-a como quem consulta um oráculo, e se sentou. À frente, a cadeira vazia esperava. — Você chegou cedo hoje — disse, sem levantar muito a voz, como se a palavra pudesse quebrar a porcelana. A alma ocupou a madeira sem arrastar som. Não tinha rosto, mas havia um contorno de presença, uma nitidez leve como borda de sombra. Talvez sorrisse, talvez não. O que havia era cansaço. — Eu nunca vou embora — respondeu. — É você que às vezes me fecha na despensa com as panelas e as caixas de louça dos domingos. Ela passou o dedo pela borda da xícara. O café tinha um frio morno, um meio-termo que não servia nem para esquentar as...