O Reencontro

 Quando a porta se abriu, não havia dobradiças rangendo nem vento entrando pela fresta. Era um limiar de silêncio.

Do outro lado, ele esperava — não como quem retorna de uma longa viagem, mas como quem nunca tivera ido.

Ela não correu, não gritou, não caiu em pranto. Apenas estendeu o braço, simples e humano, como tantas vezes fizera em manhãs que já pareciam distantes. E ele recebeu o gesto como sempre recebera: com a naturalidade de quem guarda um lugar que jamais foi desfeito.

Não houve espaço de ausência entre os dois. O tempo, caprichoso como rio que se desdobra em mil curvas, de repente se endireitou. E as margens, antes apartadas, se tocaram.

— Estás aqui? — perguntou ela, sem saber se precisava da resposta.
— Estou, como sempre estive — disse ele, e a voz parecia feita de lembrança e promessa ao mesmo tempo.

Caminharam lado a lado por uma rua que não estava em nenhum mapa. O chão era feito de um material indecifrável: ora parecia pedra antiga, ora espuma de nuvem. As árvores se curvavam ao vento, mas em vez de folhas deixavam cair palavras luminosas. Algumas se prendiam nos cabelos dela, outras se dissolviam no ar, perfumando a caminhada com histórias.

Ela começou a contar:
Do dia em que comprou flores só para não chorar no mercado.
Do riso das crianças, que sempre vinham lembrar que a vida tem sede de seguir.
Do silêncio das noites, quando conversava com o vazio apenas para manter a voz viva.

Ele ouvia, atento. Não interrompia. Apenas segurava o braço dela com firmeza, como quem ancora.

— E agora? — perguntou ela, quando a rua começou a se transformar em campo aberto, iluminado por uma lua que não obedecia ao céu.
— Agora, caminhamos. Não há passado nem futuro, apenas este presente que é todo nosso.

Ele disse isso, e ela percebeu que não era mais preciso falar de ausência. Não havia contas a acertar, nem lágrimas a explicar. Estavam de volta ao começo, onde o amor é só gesto: um braço dado, um passo após o outro.

No horizonte, erguiam-se portas feitas de luz. Talvez fossem entradas para mundos novos, talvez apenas miragens. Não importava. Importava o movimento: o seguir.

E assim foram. Conversando como quem colhe estrelas no caminho, falando da vida que ainda os esperava — não atrás, mas adiante. Uma vida em outro lugar, tecido de metáforas e encantos, onde nada se perde porque tudo, de algum modo, permanece.

 

Silvia Marchiori Buss

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