O Assoalho Que Falava

O assoalho da casa rangia como um corpo cansado, mas vivo. No início ela se assustava, agora esperava por ele. Sabia que a cada noite viriam confidências, recados de um mundo que não se vê.

— Não entendi... fala de novo.
O som repetiu-se, mais lento.
— Ah... o padeiro? Sim, lembro dele. Vendia sonhos em forma de pão. Então a morte veio buscá-lo...

O silêncio voltou, mas não durou muito. Outro estalo, outra notícia.
— A costureira também? Meu vestido azul... ainda o guardo no baú. Costurou pedacinhos da minha vida, aquela mulher.

Ela ajeitou a manta sobre as pernas e esperou o próximo sussurro.
— O violinista? Pobre homem... sempre pensei que sua música era mais forte que a morte. Parece que não era.

Um estalo longo, arrastado. Ela franziu a testa.
— Como é? Não entendi direito.
O barulho se repetiu.
— Ah... então era ele mesmo. Pois é, nunca mais o vi na rua. A morte recolheu até sua bengala.

Os dias foram passando, e ela já não se sentia só. O assoalho era sua companhia. Conversava com ele como quem conversa com um vizinho íntimo.

Certa noite, depois de uma pausa longa, o ranger veio grave, profundo. Ela demorou a responder.
— Eu? Agora é comigo?

Ficou em silêncio, respirou fundo e deixou as lembranças chegarem.
— Não, não tive filhos... talvez porque nunca apareceu um pai para eles. Quem sabe noutra vida.
Outro estalo.
— Sim, sempre dei aulas. Gastei minha voz ensinando os outros a escrever o próprio nome. Agora estou aposentada... e ainda falo sozinha, como vês.

Sorriu, um sorriso cansado.
— Vivi, sim. Não tudo o que sonhei, mas o que coube em mim. Às vezes penso que podia ter amado mais. Outras, que já amei demais.

O assoalho estremeceu sob seus pés, como se respirasse. Ela entendeu.
Levantou-se da poltrona, ajeitou o cabelo como quem se arruma para sair e caminhou até a porta. Antes de abrir, ainda murmurou:
— Pois então, vamos. A noite me espera.

A casa silenciou. Só o vento moveu as cortinas.

Na manhã seguinte, ao entrarem, juraram ouvir um estalo vindo das tábuas, um ranger tímido, como quem se prepara para uma nova conversa.

 

Silvia Marchiori Buss

 

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