A Bola e o Lago Falam a Mesma Língua Da Série CADERNO de LAUSANNE...número 4

Lausanne é uma cidade que respira diversidade. No calçadão, no metrô, nos cafés à beira do lago, escutam-se vozes que vêm dos quatro cantos do mundo. São sílabas que se cruzam sem se entenderem, sons que às vezes soam estranhos, outras vezes familiares. Francês, alemão, italiano, inglês, espanhol, árabe, português, idiomas que se sobrepõem como ondas do Léman. Mas, curiosamente, nesse lugar em que nem sempre a palavra alcança, é o gesto que se torna língua. E o sorriso, a mais certeira tradução.

Há uma delicadeza no povo daqui uma escolha silenciosa por receber o estrangeiro não com desconfiança, mas com amabilidade. Lausanne, apesar de sua imponência — montanhas que abraçam a cidade, um lago que parece não ter fim — guarda em si a intimidade de uma cidade segura, onde se pode caminhar sem medo e deixar as crianças brincarem soltas. Talvez por isso tantas famílias escolham este lugar para viver. Aqui a vida parece se abrir como um quintal imenso, onde o mundo inteiro cabe sem muros.

E no meio desse quintal, corre a bola.
Pequena, redonda, quase ingênua, ela desfaz em segundos o que adultos levariam anos para compreender. A bola não precisa de dicionário, não se perde em acentos, não conhece fronteiras. Vai de pé em pé como um pássaro que não se cansa de voar, carregando no seu giro a promessa de amizade.

As crianças entendem isso melhor do que ninguém. Não importa se o “passe” é gritado em francês, em árabe ou em português: o gesto do chute já diz tudo. Um drible tímido é um “olá”, um gol comemorado em coro é um tratado de paz. E os tropeços — inevitáveis — viram gargalhadas que valem por qualquer manual de boas maneiras.

E é bonito ver como, ao redor desses jogos improvisados, também os adultos aprendem. Pais de nacionalidades distintas, que talvez nunca se falariam em outro contexto, se encontram nas laterais do campo improvisado. Não precisam de longas frases: basta o olhar orgulhoso, o aceno cúmplice, o sorriso que traduz em silêncio. É nessa hora que Lausanne mostra o quanto é acolhedora: na dificuldade de se comunicar com palavras, o povo escolhe o sorriso como idioma comum.

Assim, entre chutes, quedas e gargalhadas, a cidade reafirma sua vocação: ser terra de encontros. A bola, simples e redonda, transforma-se em sol que ilumina os gramados das praças, em lua que vigia os fins de tarde no lago, em bússola que aponta sempre para a mesma direção: a da convivência.

E quando o olhar repousa sobre o Léman, é impossível não perceber: suas ondas também são bolas, brincando de rolar até a margem, traduzindo o mundo em movimento eterno. Cada onda que vem e volta é como um passe dado de uma margem a outra, como se o próprio lago participasse do jogo, ensinando que a vida, tal qual a bola, só faz sentido quando está em movimento, de encontro a alguém.

 

Silvia Marchiori Buss

 

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