" Eu Não Nasci Com a Primeira Chuva"
Ainda é verão em Lausanne, mas já se percebe a cara do outono se insinuando nos cantos da cidade. O vento sopra mais fresco, as árvores hesitam entre o verde e o dourado, e a chuva — companheira diária — desenha véus sobre as ladeiras de paralelepípedo. Caminho protegida por uma capa e uma sombrinha, e foi justamente numa delas que encontrei uma frase que me fez parar: «Je ne suis pas né à la première pluie.» (Eu não nasci com a primeira chuva)
A princípio, soou como um
enigma. Quem teria dito isso? Ao procurar, descobri: Paulo Coelho e Raul
Seixas. A frase faz parte de uma música nascida da parceria improvável de dois
homens que, cada um a seu modo, souberam falar da alma humana.
Deslizando pelas ruas
molhadas, pensei no que aquelas palavras carregavam. Não nascer com a primeira
chuva é recusar a ingenuidade de quem acredita que a vida se explica de uma vez
só, é assumir que a existência é feita de tempestades sucessivas, de enxurradas
que arrastam, mas também de chuviscos que acalmam. É aceitar que não somos
estreantes nesse palco de perdas e ganhos, mas aprendizes constantes.
A vida, afinal, não é
difícil porque se complica sozinha — é difícil porque nós a complicamos.
Inventamos urgências, acumulamos pesos, nos esquecemos de que viver deveria
caber na simplicidade de um céu que se abre depois da tormenta. Talvez seja
isso que o outono sussurra a Lausanne antes mesmo de chegar: que há beleza no
desprendimento, que não precisamos florescer o tempo todo, que a queda também
ensina.
Enquanto caminho, a chuva
insiste em cair, e percebo que, de certo modo, somos todos feitos dessa água
antiga que retorna em ciclos. Talvez viver seja justamente isso: não nascer com
a primeira chuva, mas aprender a dançar com todas as que vierem.
E assim sigo, ouvindo o
compasso suave da cidade e das águas, certa de que cada estação guarda sua
própria recompensa. Porque no fim, quando a chuva cessa, o que permanece é
apenas a simplicidade de estar vivo — e isso já é milagre suficiente.
Silvia Marchiori Buss
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