A Sapatilha Cor-de-Rosa

No apartamento 201 vivia uma mulher que parecia ter sido esquecida de um palco. Não se sabia seu nome, talvez porque ela mesma não fizesse questão de pronunciá-lo. Carregava sempre sobre os ombros um par de sapatilhas cor-de-rosa, como quem leva a memória de uma vida inteira costurada em fitas de cetim. Caminhava como se estivesse no intervalo de um ensaio ou na véspera de um espetáculo.

Era magra, com ossos tão delicados que lembravam galhos de um salgueiro, daqueles que se curvam ao vento, mas nunca se partem. O cabelo, sempre preso em um coque rígido, parecia puxar-lhe os olhos para dentro de um segredo oriental, estreitando o olhar em direção a algum ponto que ninguém mais enxergava. Vestia-se de maneira exótica, como se tivesse saído de uma cena suspensa entre o real e o imaginário, entre a rua e o palco.

Os vizinhos a observavam de longe. Não falava com ninguém, como se a língua comum tivesse sido esquecida junto com o tempo das cortinas abertas. Sua linguagem era outra: o silêncio dos passos medidos, o arco das costas, a leveza de quem atravessa calçadas como quem desliza sobre tablados invisíveis.

Diziam que, à noite, quando as janelas se acendiam, era possível vê-la dançando sozinha. Um vulto delicado que se movia na sala pequena, transformando o chão gasto em cenário. Ali, a mulher que ninguém conhecia pelo nome era a bailarina principal, reverenciada por plateias inventadas, aplaudida por mãos invisíveis.

E havia também os rumores da madrugada. Certa vez, um morador do térreo jurou que ouvira, ao amanhecer, uma música atravessando as paredes. Não era rádio, não era televisão: eram os passos dela. Compassados, quase suspensos, soavam como se um piano invisível os acompanhasse, compondo uma melodia secreta entre o chão gasto e o ar suspenso. Desde então, muitos passaram a acreditar que a mulher do 201 não apenas dançava, mas fazia nascer do silêncio a própria música.

As sapatilhas cor-de-rosa, gastas na ponta, eram mais que calçado: eram as asas que a sustentavam quando a realidade pesava. Sobre os ombros, lembravam-lhe que ainda havia dentro dela a leveza de um voo, mesmo que o corpo já não obedecesse à mesma destreza.

No bairro, corria a lenda de que ela jamais fora vista comprando pão, pegando ônibus ou carregando sacolas. Existia apenas para a dança, mesmo quando apenas caminhava pelas escadas. Alguns acreditavam que fosse uma ex-bailarina, exilada de sua própria glória. Outros, que nunca tivera palco algum, e que o espetáculo era apenas invenção de dentro — mas invenção tão inteira que bastava para existir.

E assim, a mulher do 201 continuava sua existência: bailando para dentro, como quem guarda na pele a eternidade de um último aplauso.

 


Silvia Marchiori Buss

 

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