A Distância Entre o Parapeito e o Chão

 A distância entre a grande tristeza e o fim de tudo cabia em alguns passos até a janela do sexto andar. Ele sabia disso. Bastava estender a mão, apoiar-se no parapeito, inclinar o corpo e esperar o ar fazer o resto. O chão estava ali, impaciente, pronto para receber o peso de uma vida cansada.

Mas o tempo, esse cúmplice ou inimigo, não corre igual quando se caminha rumo ao abismo. Cada passo parecia arrastar décadas, como se seus pés guardassem lembranças presas nas solas.

Naquele curto trajeto até a janela, a cabeça se encheu de vozes. Lembrou-se do riso das filhas ainda pequenas, dos domingos de cuca e café que sua ex-mulher preparava, do cheiro de sabonete barato que impregnava a casa simples em que começaram a vida. Lembrou-se também das noites em que a insônia lhe fazia companhia, noites em que, no fundo, só queria que alguém lhe perguntasse: “O que está acontecendo contigo?”.

E se perguntou: o que havia acontecido, afinal? Tinha família, tinha uma ex-companheira que seguia sendo amiga leal, tinha filhas realizadas e netos que corriam até ele com os braços abertos. Mas, dentro de si, havia um deserto. Uma secura de sentido. Uma dor que não vinha de falta de amor, mas de um vazio inexplicável — talvez o vazio que chega quando todas as metas já foram alcançadas e não sobra mais um norte claro a seguir.

“É isso, então? O que se faz depois que tudo foi feito?”, pensou.

Encostou-se ao parapeito. Do alto, via as luzes da rua piscarem como vaga-lumes elétricos. E lhe ocorreu: talvez a vida fosse justamente isso, uma sucessão de luzes acesas e apagadas, sem aviso. Um tempo em que rimos, outro em que choramos, outro em que apenas suportamos.

Teve vontade de rir, de repente, lembrando da ex-mulher brigando porque ele esquecia sempre de fechar a torneira do banheiro. “Vai inundar a casa, homem distraído!”, dizia ela. Naquele momento, percebeu que a cabeça insistia em lhe oferecer pequenas cenas, como se tentasse segurá-lo pela gola da camisa, impedindo-o de cair.

“E se eu fosse embora agora, quem vai contar aos meus netos aquela história inventada do dragão que só tinha um dente e mesmo assim conseguia assustar o vilarejo todo?” — pensou, e a lembrança o fez sorrir por dentro.

Ele não queria morrer. Queria apenas que a dor morresse dentro dele. Queria que a tristeza arrumasse as malas e fosse embora como uma visita indesejada. Mas a tristeza é insolente: entra sem bater, deita-se na melhor poltrona e demora o quanto quer.

Ficou ali, suspenso. Entre o parapeito e a sala, entre o peso e a memória. Não avançou, não recuou de imediato. Apenas respirou.

E nesse respirar, descobriu que a tristeza, mesmo quando parece eterna, também se cansa. Se demorar demais, acaba se tornando menos afiada, mais opaca. Talvez ela não fosse embora naquela noite, mas quem sabe, amanhã, resolvesse se afastar um pouco, dar-lhe trégua, deixá-lo ouvir melhor os risos que ainda ecoavam ao seu redor.

Não havia resposta. Não havia lição. Apenas um homem diante da janela, entendendo que entre a dor e a vida existe sempre uma distância: poucos passos.

E ele, por ora, escolheu não atravessá-los.

 

Silvia Marchiori Buss

 

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