Como Um Pássaro Sem Asa
Ela andava assim — como quem voa, mas arrasta o peito no chão.
Como um pássaro sem asa.
Não por escolha. Nem por
fraqueza. Mas porque havia coisas que se perderam no caminho. E quando a alma
se parte em duas, é difícil lembrar como era mesmo o gesto do voo.
Dizia pouco. Observava
muito.
Nos cafés da manhã, reparava no silêncio das torradas queimadas, na solidão das
xícaras emparelhadas por costume, não por afeto. Nos encontros com amigos, ria
no tempo certo, mas algo dentro dela não acompanhava. Como se existisse um
intervalo entre o que se vive e o que se sente — e ela habitasse esse
intervalo.
Nunca lhe faltaram
palavras, mas havia um tipo de cansaço que nem os melhores verbos alcançavam.
Aquele cansaço de quem tentou demais, quis demais, segurou tudo com tanta força
que, no fim, só sobrou o esforço.
A vida lhe pareceu, por um
tempo, um espetáculo ao qual ela assistia da coxia. Os risos, os beijos, os
sustos, os aplausos — tudo ali, tão perto, mas de alguma forma interditado.
Relacionar-se com a vida
exige mais do que presença. Exige entrega, mesmo quando ela vem aos pedaços. E
havia dias em que ela só conseguia oferecer fragmentos. Noutros, nem isso.
Não era tristeza o que a
habitava. Era um tipo de ausência que não sabia nomear. Não exatamente dor —
porque doía pouco, e isso era pior. Como se fosse uma ferida que já não lateja,
mas nunca cicatriza.
Como um pássaro sem asa,
ela não deixara de ser pássaro. Apenas esquecera o céu.
Acontece.
Às vezes, a vida cobra da
gente uma coreografia inteira, mesmo quando só temos um gesto. Ela já não
queria dançar para ninguém. Só desejava um canto onde pudesse deixar os
sapatos. E os dias.
Não buscava consolo,
tampouco conselheiros. Queria apenas que alguém, em algum momento, entendesse
sem dizer nada.
E então, numa tarde que não
prometia nada — dessas em que a luz mal se esforça — ela encostou na varanda,
ouviu o vento varrendo as folhas secas do quintal, e pensou:
"Não tenho asas,
mas ainda ouço o som do céu."
Não era consolo. Nem
esperança. Era só uma fresta.
E, talvez, por ora, isso era ar suficiente.
Silvia Marchiori Buss
Comentários
Postar um comentário