Dois Silêncios Que se Reconhecem
Eles não se procuravam. Ninguém procura quando já desistiu. E, no entanto, foi justamente nesse cansaço do mundo que se encontraram. Não houve anúncio, não houve clarim. Apenas um olhar que tropeçou no outro, como quem esbarra numa porta que sempre esteve aberta sem saber.
Ele se dizia inteiro, mas
vivia incompleto. Carregava a alma como um mapa manchado, onde rotas haviam
sido apagadas pelo tempo. Ela, por sua vez, trazia nos olhos o desassossego de
quem busca e não sabe o quê. Caminhavam pela vida como quem atravessa uma feira
deserta depois da chuva: passos úmidos, vestígios de algo que passou, o eco de
um riso que poderia ter sido.
E, de repente, o encontro.
Foi simples. Tão simples
que parecia irreal. Ele lhe ofereceu uma frase banal, dessas que se dizem para
preencher o vazio. Ela respondeu com um sorriso que não pedia licença. E
naquele gesto breve, ambos sentiram um estremecimento suave, como quando o vento
levanta de leve a cortina e deixa entrar um sopro de vida.
A partir dali, não foi mais
possível desencontrar-se.
Não era paixão de urgência, dessas que queimam rápido e deixam cinza. Era fogo
de lareira — lento, paciente, capaz de aquecer sem consumir.
Ele gostava de pensar alto,
de perder-se em labirintos de palavras, tentando decifrar sentidos escondidos
no cotidiano. Ela preferia silêncios, acreditava que a vida também se explicava
no intervalo entre uma frase e outra. E quando estavam juntos, descobriam que
suas diferenças não os afastavam — ao contrário, era nesse contraste que
encontravam a harmonia. Ele era o rio que corre; ela, a margem que o sustenta.
Viviam de pequenos rituais:
o café fumegante nas manhãs frias, os passeios sem destino, a cumplicidade dos
olhares quando a rua parecia demasiado ruidosa. Às vezes brigavam, é verdade —
mas até no desalinho havia música. Porque, no fundo, sabiam: discutir não era
perder-se, era apenas lembrar um ao outro que ambos existiam.
E assim, feito duas almas
perdidas, passaram a caminhar juntos.
Não como quem se aprisiona, mas como quem se liberta.
Não como quem se completa, mas como quem se expande.
Ele pensava: “Se um dia
eu partir, levarei comigo o perfume dela nos ombros, como quem guarda um
talismã.”
Ela pensava: “Se um dia ele se for, saberei ainda reconhecê-lo no silêncio,
porque é dele a voz que ecoa dentro de mim.”
Mas não falavam de
partidas. Preferiam falar de agora.
Do instante em que a tarde os envolvia, do milagre de poder atravessar o mundo
e, ainda assim, escolher sempre o mesmo destino: o abraço um do outro.
E assim seguiam, sem
pressa, sem roteiro, sem garantias. Apenas sendo. Apenas existindo um no outro.
Dois silêncios que se
reconhecem, e que, ao se reconhecerem, aprendem que talvez o amor não precise
de mais nada além disso: o eterno gesto de continuar caminhando lado a lado,
como se cada passo fosse o primeiro.
Silvia Marchiori Buss
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