A Alma Sentada à Mesa

A casa inteira parecia uma respiração suspensa. Não era a primeira manhã em que aquilo acontecia — o ar parado, a poeira fazendo galáxias mínimas no feixe de luz que escapava por entre as persianas, o cheiro de café que esfriava rápido demais sobre o aparador. Ela entrou na cozinha com passos de quem não quer acordar nem o próprio corpo. Serviu-se de uma xícara, olhou-a como quem consulta um oráculo, e se sentou. À frente, a cadeira vazia esperava.

— Você chegou cedo hoje — disse, sem levantar muito a voz, como se a palavra pudesse quebrar a porcelana.

A alma ocupou a madeira sem arrastar som. Não tinha rosto, mas havia um contorno de presença, uma nitidez leve como borda de sombra. Talvez sorrisse, talvez não. O que havia era cansaço.

— Eu nunca vou embora — respondeu. — É você que às vezes me fecha na despensa com as panelas e as caixas de louça dos domingos.

Ela passou o dedo pela borda da xícara. O café tinha um frio morno, um meio-termo que não servia nem para esquentar as mãos, nem para acordar.

— Você anda pesada — disse. — Com essa mala de dores, esses amores que já viraram data no calendário, esses nomes que eu falo só por dentro.

— E quem você acha que costura essa mala toda noite? — a alma perguntou sem rispidez, mas com uma firmeza velha. — Quem guarda as cartas que você não leu, os bilhetes esquecidos na gaveta do aparador, as mensagens que você escreve e apaga como quem ensaia um perdão?

Ela desviou os olhos para a janela. O céu andava com cor de ferro. O vento do lado de fora parecia um rumor que não chegava, como notícias atrasadas. A xícara tremia um pouco nas mãos, não de inverno, mas de um cansaço sem nome que dava preferência ao silêncio.

— Eu me cansei — disse, e a frase caiu no tampo de madeira. — De amar, de esperar, de inventar forças. De ser decente, às vezes.

A alma inclinou-se para a frente, os cotovelos invisíveis no verniz surrado.

— E você acha que eu não? — a voz vinha de um lugar sem garganta. — Você me deixa no escuro, pedindo que eu acalme os gritos que você não quer ouvir. Eu recolho cacos, sim. Mas cacos cortam. E sangram.

A geladeira, velha, fez um estalo que cruzou a cozinha como um pássaro assustado. Ela sorriu de leve, não do estalo, mas da coincidência: até o metal sabia estalar quando a conversa apertava.

— O que você quer de mim? — perguntou, como quem oferece a última moeda para a máquina que não devolve troco.

— Uma noite inteira sem lembranças. Um dia em que você não me despeje o peso da coleção. Um silêncio que não seja a tampa de uma panela, mas um campo aberto.

Ela riu, seco.

— Isso é impossível. Você sou eu.

— Justamente por isso. Se você afunda, eu afundo junto.

As duas ficaram quietas. O relógio de parede fazia um tic-tac tímido, como se pedisse desculpas por existir. Ela rodou a xícara devagar, e o líquido formou um pequeno redemoinho que morreu rápido. O ruído da rua começou a infiltrar-se: um vendedor de pão, um cão que latia para a própria sombra, uma criança que chorava sem saber o motivo. O dia se instalava.

— E se eu não souber viver sem você? — disse, e a pergunta ficou de pé na mesa, miúda, teimosa.

— Então aprenda a viver comigo sem me encher de mortos.

Ela inclinou a cabeça. A chuva riscou o vidro da janela numa diagonal fina. Havia uma vontade antiga de pedir desculpas, mas a palavra não encontrava boca. Em vez disso, estendeu a mão. A alma fez o mesmo. O toque não era quente, nem frio. Era um reconhecimento: encostar na própria sombra e ver que a sombra encosta de volta.

Ninguém selou acordo nenhum. Mas o gesto, sem título, ficou entre as duas como um objeto esquecido que, mais tarde, alguém vai procurar à casa inteira sem se dar conta de que sempre esteve ali.

A segunda manhã começou antes da luz. Ela abriu os olhos e o teto ainda era uma sombra sólida. O corpo, deitado, parecia um móvel que não pertencia ao quarto. Levantou-se devagar, sem acender lâmpadas. O chão frio lhe devolveu a existência do corpo — os ossos, os calcanhares, a pele. Foi para a sala. A cortina, por algum capricho de ar, mexia-se sem vento.

— Você outra vez — disse.

— Eu nunca “outra vez”. Eu sempre — a alma respondeu, de pé, como quem visita um hospital, e o modo como ficou de pé era uma notícia.

Ela não sabia se aquilo era reproche ou aviso. Andou os dedos pelo braço do sofá até encontrar uma costura mal feita. Havia insistido para mudar o tecido, e desistira na última hora. A vida se parecia com aquele tecido: bom de longe, áspero de perto.

— Pensei no que você disse — começou.

— Você tentou jogar coisas fora — a alma adiantou —, mas errou o lixo.

— Joguei fotos, cartas, alguns recados de geladeira… — justificou-se, desajeitada.

— As boas lembranças não aceitam sumiço. As más você enterrou vivas. Elas gritam debaixo da terra, e eu escuto. Você põe terra por cima e diz que esqueceu. Eu fico por baixo, com os gritos.

Ela respirou, repetidas vezes, como quem ensaia um hábito que deveria ser óbvio.

— E se eu sumir por um tempo? — arriscou. — Se eu te deixar respirar sem mim?

— Se você vai, eu vou. Se você fica, eu fico. Você não me acende nem me apaga como a lâmpada do corredor. Não há distância possível, e esse é o nosso problema — e o que nos salva.

Ela ergueu os olhos para um ponto onde não havia nada. Percebeu, pela primeira vez, que não sabia quem falava com quem. Talvez a alma estivesse exausta dela. Talvez ela fosse a alma, e o corpo, um rumor.

A manhã não se apressava. O relógio insistia no mesmo minuto como se fosse um músico compondo uma nota única. De alguma casa vizinha vinha um rádio baixo, uma música antiga que ela sabia cantar sem lembrar a letra. Isso a divertiu e a feriu.

— O que fazemos agora? — perguntou.

A alma sorriu quase humano.

— Agora, respiramos. Não como quem enche pneu. Como quem abre janela.

Ficaram assim — duas ou uma, difícil dizer — ocupando a sala com um silêncio que não pedia desculpas. A luz entrou como um animal arisco, farejando as bordas dos móveis. Ninguém se levantou para fazer café. O mundo afora ensaiou suas sirenes suaves: o motor de um ônibus distante, uma gargalhada numa calçada, o som de uma tampa de panela. Dentro, a manhã não começou. Ou começou sem alarde, como começam as coisas que duram.

Na terceira manhã, a casa respirava por conta própria. Ela acordou com um barulho diferente, um recado: a correspondência empurrada por baixo da porta. Um envelope fino, um panfleto de supermercado, uma carta sem remetente. A letra, reconhecível como uma cicatriz. Ela levou a mão ao peito, como quem busca um bolso. A alma não precisou chegar: já estava ali, sentada na borda da mesa, como alguém que chega cedo demais e finge que veio a tempo.

— Não abre — disse, sem mandar.

Ela abriu. A carta tinha poucas linhas. As palavras eram simples como quem quer evitar palavras. Dizia um nome, um lugar, uma pergunta que não pedia resposta. A alma não leu com os olhos. Leu com aquele lugar onde a compreensão dói um pouco.

— Você sabia que um dia voltaria — a alma disse, sem ponto de exclamação.

— Sabia. E desejei que não.

— E então?

Ela dobrou a carta e não a colocou no envelope. Deixou-a sobre o aparador, ao lado de um vaso que já não cabia flores, mas aceitava água. O telefone tocou como um susto antigo. Ela não atendeu. O silêncio depois do toque durou o tempo exato de uma lembrança. Depois, o mundo retomou o barulho.

— Não vou — disse. — Nem pra ver, nem pra despachar. Deixo que a carta fique. Na mesa. Sem pedestal.

— Eu aceito — a alma respondeu, e aceitação, ali, não era rendição, mas um gesto de deixar as coisas no chão até que percam o costume de pedir colo.

Nos dias seguintes, ela organizou gavetas. O ato de organizar gavetas é uma maneira de dizer que se tem medo de morrer. Não do fim, mas da bagunça que fica. Separou pilhas de roupas, abriu caixas de sapatos, revisou talheres como quem escolhe armas. A alma acompanhou de cadeira em cadeira, como uma supervisora distraída.

— Vai doer — avisou, sem aviso.

Doía. Cada objeto tinha uma frase. O guardanapo bordado lembrava uma festa que não aconteceu, a colher de cabo verde lembrava uma sopa num dia de febre, o lenço com cheiro de pele lembrava um rosto que já só existia no lenço. Ela se pegou rindo num canto, porque o corpo é mal-educado e encontra comicidade no que não pode. Riu da quantidade de sacolas guardadas dentro de outras sacolas, riu do recibo antigo que provava um domingo inexistente, riu de si rindo. A alma riu junto, por educação e por susto.

— Você sempre foi boa de inventar utilidade — a alma comentou. — Até pro que rasgou.

— Não quero ser boa — ela respondeu. — Quero só saber onde ponho as mãos quando não há nada a segurar.

A tarde trouxe um vento de corredores. As portas bateram devagar, como quem lembra que existe. Ela deixou o pano de pó sobre a mesa e foi até a janela que dava para o quintal. As nuvens corriam, mas não sabiam pra onde. No varal, prendedores presos sem roupa eram uma imagem excessiva. A alma encostou-se ao batente e ficou lá, como ficam as pessoas que entendem. Não houve conselho, houve presença. E presença, naquele dia, era o suficiente que nunca basta.

Certa noite, sem nenhuma solenidade, a cidade perdeu a luz. A rua se apagou como um bicho que se finge de morto. Ela acendeu uma vela no pires. O círculo de claridade era pequeno, como um elogio sem adjetivos. Sentou-se à mesa e pensou se deveria ter medo. Não teve. A alma sentou-se à sua frente com a compostura das coisas que não podem cair.

— Você lembra de quando rezava? — a alma perguntou, não para cobrar.

Ela ergueu os olhos e, num gesto automático, procurou o teto que não se via.

— Rezar era um modo de conversar com você sem admitir — respondeu. — Eu dizia “Deus” para não dizer “minha alma”.

— E Deus dizia “vai”, e você não ia.

— Às vezes eu fui — ela sorriu. — Eu só não contava.

O vento penteou a chama, e a sombra das duas dançou na parede. A linha do sorriso, no rosto dela, durou quase nada. O suficiente para não ser mentira. Ela pegou um caderno antigo, desses de capa dura que resistem às mudanças de casa, e abriu numa página em branco. A alma inclinou-se como quem olha um abismo curioso.

— Vai escrever? — a pergunta não trazia pressão. Era coisa de quem pergunta à beira de um rio se o outro vai entrar.

— Vou. Talvez uma lista de coisas que deixo de insistir. Talvez um mapa de lugares que não preciso voltar. Talvez só palavras que gostam de ouvir a própria voz.

Escreveu devagar, como quem aprende outra vez a usar garfo depois de meses de sopa. Não havia literatura ali, nem projeto. Havia uma caligrafia cansada que tentava se levantar. A vela chorou um pouco de cera. A cidade, do lado de fora, respirava no escuro. Dentro, o escuro respirava sem a cidade.

Quando a luz voltou, não foi espetáculo. A lâmpada acendeu-se como uma coisa que cumpre um contrato. Ela fechou o caderno. Não leu o que escrevera. A alma também não. Não precisava.

Um domingo chegou com cheiro de pão e de botões de camisa. Ela desceu para comprar frutas. Tinha uma lista mental: laranjas para o suco, mangas de cheiro que lembravam tardes esquecidas, três maçãs porque sempre acabam por último. Na calçada, o mundo parecia ter sido lavado durante a madrugada. Pela primeira vez em semanas, ela percebeu as pessoas como pessoas e não como ruídos. Um homem puxava um cachorro que se recusava a ser domingo, uma senhora discutia o preço do tomate sem raiva, duas jovens riam de um segredo que não humilhava ninguém. A alma foi junto, como vai a sombra em dias de sol paciente.

— Você está aqui? — ela perguntou, como quem checa a carteira.

— Estou — a alma respondeu, e o timbre tinha um contentamento que não se exibiu. — E não pesa.

— Por quê?

— Porque hoje você não está tentando provar nada.

No retorno, um vizinho a cumprimentou com um “bom dia” que não perguntava nada. Ela respondeu e continuou. Em casa, lavou as mangas com cuidado de quem tira areia de uma concha. Colocou uma música baixa. O café voltou a esquentar. E, sem que houvesse combinado, a casa aprendeu de novo a ordem de algumas coisas: pia, prato, pano, janela. A alma circulou como uma visita que ajuda sem fazer barulho.

— Sabe — ela disse, cortando a primeira manga —, tem horas em que o passado parece um filme com trilha sonora exagerada. E tudo o que eu quero é o som da faca encontrando o caroço.

— Haverá dias em que você vai querer a trilha — a alma respondeu. — E tudo bem. Só não suba o volume para não ouvir as suas mãos.

Ela sorriu de verdade, um sorriso transparente. Achou graça do caroço, grande como uma lembrança que não cabe no bolso. Colocou as fatias num prato, levou à mesa e comeu. Havia suco escorrendo pelos dedos. Ela lambeu os dedos. Às vezes a vida lembra a gente disso: dedos.

As noites continuaram a trazer os barulhos de sempre. Às vezes, o sono vinha como um animal cansado e que se deitava ao pé da cama. Outras, não vinha e deixava recados: a lista do mercado, o remendo na barra da cortina, a visita que deveria ter feito. Em certas madrugadas, a alma acordava antes dela e ficava deitada no peito, pesando leve, como crianças fazem com gatos. A respiração de uma ajustava-se à respiração da outra em poucos minutos. E esse pequeno acerto era um país inteiro.

Houve, como era inevitável, um telefonema de voz conhecida. Não veio com número oculto, não veio com truque. Veio com a simplicidade das coisas que chegam na hora errada e, por isso mesmo, parecem certas. Ela ouviu o toque. A alma não interferiu. O telefone tocou até cansar. Parou. Tocou outra vez. Ela não atendeu. Não porque se proibia, mas porque naquele minuto, exatamente naquele, estava mexendo o molho da panela para que não queimasse. Havia urgências que o coração aprende. A panela não queimou. O telefone desistiu. A alma sorriu como quem assiste um espetáculo de rua.

— Você escolheu — disse, sem diploma.

— Escolhi o molho — ela respondeu, com um humor que cabia em si.

— Às vezes é isso que sustenta.

— Às vezes — ela concordou, sabendo que “às vezes” era a parte honesta da frase.

Quando a estação virou, não houve datas redondas, nem aniversários sob a pele. O vento passou a carregar um frio que vinha de baixo. As roupas do varal dançavam menos. Os sapatos na porta pediam meia. A cidade, com sua coreografia de folhas, parecia repetir uma história que nunca aprende. Ela trocou a manta do sofá. Abriu um cobertor e estendeu no chão para arejar. Remexeu nos livros e descobriu um que jurava ter perdido para sempre. Fez um chá ruim e bebeu até o fim. A alma assistiu o espetáculo modesto com interesse de plateia íntima.

— Você sente saudade? — ela perguntou, não do livro, não do chá.

— Sim — respondeu a alma. — Mas não inteira. A saudade mora melhor quando não ocupa todos os cômodos.

— Eu ainda ocupo?

— Menos.

Ela aceitou o advérbio como quem aceita um presente que não queria, mas precisava. À noite, abriu a janela. O céu fez questão de mostrar duas estrelas que se davam a ver. Ela ficou alguns minutos reconhecendo constelações inventadas. Depois, fechou a janela com cuidado para não assustar os bichos da madrugada. Trancou a porta. A alma encostou a chave na mesa. Não disseram nada.

Um fim de tarde de domingo — o tipo que sempre a deixara melancólica desde criança, quando as roupas do colégio esperavam sobre a cadeira — trouxe uma visita inesperada: um homem que vendia panos de prato na rua gritou seu pregão. Era um pregão antigo, desses que sobrevivem por teimosia. Ela desceu. Comprou dois panos que não precisava. O homem agradeceu com uma educação antiga. Ela subiu com um sorriso que não devia aos panos. Na cozinha, abriu um deles. Tinha um bordado malfeitor: um abacaxi de duas cores, extravagante. A alma riu, riso curto.

— Às vezes você compra coisas feias só porque alguém gritou bonito.

— Eu sei — ela disse. — O grito merecia.

Estendeu o pano no varal. Por um instante, teve vontade de telefonar para alguém e dizer que havia comprado um pano de prato feio. Guardou a vontade como quem dobra um lenço e põe no bolso do casaco para mais tarde. A alma se aproximou, encostou-se nas costas dela como um casaco que não pesa.

— Hoje você vai dormir cedo — disse, adivinhando uma coisa e desejando outra.

— Talvez. Talvez eu fique um pouco sentada na escada ouvindo o barulho do prédio.

— O barulho do prédio é uma oração sem palavras.

— E sem padres.

— E sem perdões.

As duas sorriram do mesmo jeito, um sorriso que as parentes fariam num velório de gente boa. O riso ficou ali, encostado no vão da porta, até perder a pose.

Chegou, enfim, uma manhã em que ela acordou tarde. O corpo e a alma tinham se entendido em silêncio durante a noite, e o acordo foi generoso. Quando se levantou, a luz já estava inteira dentro da casa, como um convidado à vontade. O café, feito sem prestidigitação, aquecia as mãos. Ela se sentou à mesa. A cadeira à frente estava ocupada. Não precisou dizer “você chegou cedo”; não cabia mais esse tipo de registro entre as duas.

— Hoje tenho quase nada para te dizer — ela falou, e o “quase” fez tudo brilhar.

— Eu também — a alma disse, satisfeita por existir sem pauta.

Ficaram muito tempo sem inventar assunto. A geladeira não estalou. O relógio fez seu serviço. Um vizinho bateu porta, outro cantou desafinado no chuveiro, e ali dentro havia uma respiração comum, sem esforço. Em um momento, ela lembrou da carta sobre o aparador. Não se levantou para pegá-la. Nem para rasgá-la. Deixou que fosse objeto entre objetos. Em outro, lembrou do telefonema. Não ensaiou respostas. Deixou que fosse vento velho.

— Você ainda dói? — perguntou à alma, mais por curiosidade honesta do que por hábito.

— Dores têm seu orgulho. Às vezes se ofendem quando paramos de nomeá-las. Hoje, elas estão ocupadas.

— Com o quê?

— Com o barulho que a colher faz ao encostar na borda da xícara.

Ela mexeu o café só para conferir. O som ocupou a cozinha com uma delicadeza que beirava o ridículo. E, no entanto, funcionou: a pele do instante afinou, deu passagem.

— Vou sair — ela disse de repente. — Sem destino.

— Eu vou junto — a alma levantou-se sem levantar-se.

Ela pegou a chave, atravessou o corredor, abriu a porta. O hall tinha o cheiro de sempre, mistura de produtos de limpeza e histórias que não se cruzam. Desceu as escadas lentamente, como quem aprende de novo o tamanho dos degraus. Na rua, o sol fazia sombra no chão com o desenho das árvores do outro lado. Caminhou sem pressa, vendo vitrines que ofereciam coisas que nenhum corpo precisa, ouvindo línguas que vinham de outras cozinhas. A alma se mantinha a um passo, não à frente nem atrás, ao lado, onde ficam os que não pedem justificação.

Na praça, crianças corriam na direção errada, o que é a única direção de correr. Um casal discutia com uma gentileza incrível. Um rapaz tocava violão sem saber que desafinava do mundo e afinava alguém. Ela se sentou num banco e ficou. Não pensou coisas grandes. Não ofereceu biografias ao vento. Apenas ficou. A alma também. Depois, quando o sol já ensaiava um cansaço, elas se levantaram e voltaram.

No alto da escada, antes de a chave encontrar a fechadura, ela parou. Havia uma vontade de dizer alguma coisa que não estragasse o silêncio construído a muitas mãos. Procurou a frase e não a encontrou. Abriu a porta assim mesmo. Entrou. Pousou a bolsa, encostou os dedos na mesa como quem cumprimenta a madeira, abriu a janela. O ar veio. Não tinha perfume de nada. Era ar. A alma aproximou-se e encostou o ombro onde um ombro deveria estar.

— Eu não sei dar nome a isso — ela disse, e não havia pena de si na voz. Havia apenas o reconhecimento de uma fruta que não se conhece, mas se come.

— Não precisa — a alma respondeu. — Nomes às vezes atrapalham.

— Vai ficar?

— Vou. E quando você esquecer que eu existo, eu fico também. Não como fantasma. Como mobília.

— E quando eu lembrar demais?

— Eu fico do mesmo jeito. Mas mudo de lugar.

Ela assentiu. Era o bastante por aquele dia. Pôs água para ferver, sem cerimônia. A chaleira apitou numa alegria discreta. O som encheu a cozinha como um recado escrito a lápis: “estamos”. Ela apagou o fogo, serviu o chá, sentou-se outra vez. A tarde inclinava o corpo na direção da noite, e aquela inclinação era bonita. A alma, de frente, pegou a xícara invisível e soprou sobre o que não se via.

— Sabe — ela disse, e havia um conforto triste —, às vezes me assusta a ideia de um futuro sem acontecimentos grandiosos.

— O grandioso, quando vem, quase sempre chega atrasado ao próprio convite — a alma respondeu. — O resto é a cadeira ocupada. É o pano feio no varal. É o molho que não queima. É a carta esquecida sem altar.

— E a saudade?

— Essa aprendeu a usar sapatos mais baixos.

O céu, do lado de fora, buscava uma cor. Não encontrou. O que encontrou foi suficiente: um azul incerto que não prometia nada. Ela apreciou essa honestidade. Levantou-se, lavou a xícara, pousou-a ao contrário no escorredor. Apagou a luz da cozinha. Andou até o quarto. A alma veio junto, sem pressa, como se andasse descalça sobre um chão recém-varrido.

No quarto, ela passou a mão sobre o lençol. Havia um vinco que por muito tempo lhe lembrara um nome. Agora lembrava um vinco. Deitou-se. A alma deitou-se também, um pouco acima do peito, pesando leve. A janela aberta deixava entrar um pedaço de rua, uns passos, uma conversa sussurrada. Nada pedia resposta.

— Boa noite — ela disse.

— Boa — disse a alma.

Não houve garantia de sonhos. Não houve promessa de não-doer. Houve, apenas, o exercício de uma respiração que coincide. E isso, naquela casa, naquela hora, era um modo de ficar.

A noite demorou a fechar a porta. Talvez por delicadeza. Talvez por costume. A dúvida, como sempre, ficou sentada na poltrona — mas pela primeira vez, sem os sapatos. E a casa, sem saber se esperava alguém, resolveu apenas ser casa. A cadeira seguia ocupada. A janela, entreaberta. E a alma, deitada, parecia entender que, quando o silêncio aprende o próprio tamanho, os fantasmas passam a falar baixo.

Se havia um acordo, ninguém soube escrever. Se havia uma despedida, ninguém quis dar nome. O que havia era o entre — esse corredor sem placas, esse lugar onde se aprende a andar no escuro sem ofender os móveis. E, enquanto o relógio trabalhava sem vaidade, ela e a alma — ou uma e a mesma — permaneceram. Não por heroísmo. Por falta de alternativa melhor. E por uma espécie de amor que não se anuncia, mas fica.

Parte superior do formulário

 

 

Silvia Marchiori Buss

 

 

 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Energia na Parede

Navegando na Ausência

O Silêncio da Professora