Retrato em Preto e Branco
Era uma tarde qualquer em Lausanne, dessas em que a cidade parece estar em repouso, ainda que o movimento nunca cesse. Caminhei sem destino, como costumo fazer, deixando que os paralelepípedos me guiassem. Há uma calma nessa cidade que não se explica em palavras — ela se instala, discreta, como quem puxa uma cadeira ao nosso lado sem pedir licença.
Naquele dia, parei diante
de uma fonte antiga. A água corria sem pressa, repetindo seu murmúrio desde
séculos atrás, indiferente às urgências modernas. Ao redor, algumas pessoas
descansavam no chão, como se o corpo pedisse trégua do sobe e desce das ladeiras.
Uma moça loira falava baixo ao telefone, outra fechava os olhos como quem
roubava segundos de paz. Eram anônimos, mas naquele instante faziam parte do
cenário que a cidade me oferecia.
Resolvi me fotografar. Não
para congelar a vaidade, mas para capturar a mim mesma dentro da cena. Lausanne
me ensinou a me ver assim: parte do quadro, mas também observadora dele.
Segurei o celular e registrei. O reflexo dos óculos guardou o que meus olhos
não puderam narrar: a arquitetura elegante, a loja de vitrine iluminada, o vai
e vem de quem passava sem se deter.
Não sorri. Não por
tristeza, mas porque não senti necessidade. Há uma idade em que o sorriso já
está implícito, mesmo quando não aparece. O rosto conta sua própria história, e
a seriedade pode ser apenas outra forma de repouso.
Vestia um lenço listrado
que herdei do hábito de gostar de pequenos luxos. Em Lausanne, aprendi que cada
detalhe importa: uma corrente simples pode se tornar armadura, um lenço pode
virar bandeira. Não me vesti para a foto — eu apenas estava, inteira, naquele
momento.
Enquanto a água caía na
fonte, pensei no quanto essa cidade acolhe. Lausanne não exige, não sufoca; ela
apenas abre espaço. As ruas estreitas nos convidam a nos perder sem medo, as
praças permitem silêncios, e até o comércio parece respeitar a cadência lenta
do relógio. Aqui, até o tempo parece caminhar comigo.
No preto e branco da
fotografia, talvez o olhar de quem vê imagine uma cena dura, sem cores. Mas eu
sei que dentro da imagem pulsa a intensidade de todos os tons que o clique não
capturou: o azul profundo do céu refletido nos óculos, o dourado discreto das
paredes antigas, o vermelho invisível da minha saudade. Porque trago comigo as
cores de quem já não está, mas ainda me acompanha em cada descoberta, em cada
rua que exploro sozinha e por nós dois.
Aquela foto não é só um
retrato. É um pedaço de Lausanne que guardarei comigo. É a cidade me devolvendo
a mim mesma, no meio de uma tarde banal que, por obra do acaso, se tornou
memória.
Silvia Marchiori Buss
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