O Homem Que Dançava no "Le Quartier du Flon" do caderno de Lausanne

Lausanne é uma cidade de precisão. Os trens não se atrasam, as lojas fecham religiosamente às 19h, e até o silêncio parece ser regido por uma partitura invisível. Tudo funciona, tudo se organiza como se o tempo fosse um relógio bem lubrificado.

Mas há lugares onde essa ordem se permite trincar. O bairro Flon é um deles. Antigos armazéns industriais transformaram-se em bares, galerias, restaurantes e clubes. De dia, o concreto guarda a memória da disciplina; de noite, se veste de cores, sons e passos. É ali que Lausanne aprende a se desorganizar sem culpa, a respirar fora do compasso.

Ontem, vi a prova disso. No meio da praça, um homem de certa idade dançava sozinho, freneticamente, como se o corpo fosse tambor e o coração, maestro. Não havia música aparente, mas seus movimentos desenhavam uma sinfonia de liberdade.

Fiquei perdida em pensamentos: que coragem era aquela de se expor, de se deixar atravessar pela vida sem medo dos olhos que o cercavam? Sim, porque ele estava se expondo — e ser visto é sempre um risco. Quis crer que, mesmo consciente dos julgamentos possíveis, esse homem havia escolhido o instante, havia escolhido o gozo de simplesmente dançar. E isso bastava.

Seus passos eram como rasgos na tela branca da cidade: cada giro uma provocação, cada salto um desafio ao conformismo. Quem o via talvez sorrisse, talvez franzisse o cenho, talvez o comparasse a um louco ou a um gênio — mas pouco importava. Ele era dono do próprio palco, e o chão frio da praça transformava-se em tablado sob seus pés.

Enquanto jovens o observavam com riso, velhos com nostalgia, e casacos de grife roçavam em sobretudos gastos pelo tempo, eu percebi que, no fundo, todos se reconheciam naquela ousadia. Afinal, quem nunca desejou dançar sua verdade em plena praça, sem pedir licença ao mundo?

Aquele homem não era apenas um corpo em frenesi: era um lembrete de que até a cidade mais organizada precisa, às vezes, se permitir um tropeço. Lausanne pode ser ordem, pode ser relógio, pode ser silêncio. Mas dentro de sua engrenagem existe o imprevisto — e ele, com seus passos descompassados, era o símbolo vivo dessa desordem organizada que também faz parte da vida.

E eu, que o olhava, entendi: dançar é, muitas vezes, o mais humano dos protestos.

 

Silvia Marchiori Buss

 

 

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