Pedalar às 3h33 da série CADERNO DE LAUSANNE
Acordei às 3h33 da manhã no Brasil — aqui já eram quase nove. A casa dormia ainda, afinal era sábado, e eu me vi com um tempo vazio entre as mãos. Tempo com cheiro de outono, mesmo que o calendário insistisse em chamar de verão. O lago já avisava: seus reflexos perdiam a vibração azulada do calor e se deixavam cobrir por tons mais sóbrios, quase prateados. Ao redor, as montanhas sopravam um friozinho discreto, um ar refrigerado gratuito, sem gasto para o bolso, sem ferida para a natureza.
É curioso como Lausanne
parece impor um silêncio quase obrigatório, desses que não pesam — ao
contrário, envolvem. Um silêncio que deixa espaço para o som do pedal girando,
para o coração batendo em compasso com o lago. E pedalar aqui é um gesto de
confiança: não há medo de ser atropelada, nem a preocupação de voltar e não
encontrar a bicicleta. Há uma segurança tão rara que parece sonho, como se a
cidade me dissesse: “vai, pode se distrair, que eu cuido de ti”.
Segui sem rumo e, quando
percebi, estava quase na fronteira com a França. Lausanne tem disso: em poucas
pedaladas, aproxima a gente de outros países. A Suíça, pequenina e precisa,
divide-se com quatro vizinhos — França, Itália, Alemanha e Áustria — e cada um
parece estar logo ali, ao alcance de um desejo. É estranho pensar que, num
simples passeio de bicicleta, posso roçar outras culturas, ouvir outra língua,
sentir outro cheiro de pão saindo do forno e tomar um café “ importado”.
As ruas estreitas da cidade
alta me acompanharam com suas ladeiras que parecem não terminar nunca, cada
curva guardando uma igreja gótica, uma pracinha escondida ou um café que já
abre cedo, deixando o aroma de croissants escapar pelas portas. No porto de
Ouchy, o lago Léman parecia um espelho quebrado em mil pedacinhos de luz.
Famílias passeavam sem pressa, turistas fotografavam, e eu seguia — como se
fosse mais uma folha levada pelo vento.
O movimento das vinícolas
de Lavaux, ali pertinho, lembrava-me que a vida também se faz de paciência: as
videiras crescem devagar, mas guardam em si um vinho que só o tempo é capaz de
amadurecer. Penso que talvez viver seja exatamente isso: esperar a estação
certa e colher o que der, com alegria e sem pressa.
Pensei em Jaguari. Também
lá havia montanhas e um rio, e foi deles que nasceram meus primeiros devaneios.
A menina que eu era, pedalando pelas ruas de terra, jamais poderia imaginar que
um veículo de duas rodas me levaria um dia para fora do país — quem sabe até
para fora de mim mesma. Naquela bucólica cidade, sonhei em ser tantas coisas,
sonhei em partir, sonhei também em ficar. Alguns desses sonhos se
concretizaram, como quem risca palavras de uma lista guardada na gaveta. Outros
ficaram pelo caminho — não por falta de vontade, mas pela força da vida, que
sempre nos empurra em direções que nem suspeitávamos.
E aqui estou, tão longe da
menina de Jaguari e tão perto dela ao mesmo tempo. O pedal me devolve sua
leveza, o lago me oferece novos reflexos para inventar histórias, e as
montanhas continuam a ensinar que é preciso respeitar o tempo de cada subida.
Enquanto pedalo, penso que
talvez viver seja isso: seguir. Seguir até que a vida não me queira mais, até
que o universo decida encerrar meu ciclo por aqui. Até lá, sigo em movimento.
Porque, no fundo, pedalar é
a minha forma de rezar. É o jeito que encontrei de dizer: estou viva.
Silvia Marchiori Buss
Comentários
Postar um comentário