As Meninas do Metrô Numero 2 da série CADERNO DE LAUSANNE
Voltava do meu passeio pelo Lago Léman como quem retorna de um sonho azul. A superfície da água ainda me acompanhava nos olhos, com as montanhas pairando como sentinelas no horizonte. O dia tinha sido generoso em calor, quase quarenta graus, e eu me sentia derretendo por dentro até entrar no metrô, onde o ar refrigerado era um sopro de clemência.
Sentei-me num canto, de
frente para o corredor, e foi ali que elas surgiram — duas meninas que pareciam
ter acabado de sair de um espelho. Vestidos brancos, tão justos que denunciavam
a juventude sem pedir licença. Cabelos alisados com paciência e laquê,
sobrancelhas no arco perfeito, batom escolhido a dedo. Tinham no máximo dezoito
anos.
Entraram rindo baixo,
carregando na fala aquele brilho que não vem de maquiagem. Eu entendia pouco
francês, mas o suficiente para espiar, pelas frestas das palavras, a história
que tramavam:
— Il m’a dit qu’il m’attend à dix heures, devant le bar... — disse a de
cabelos mais escuros, e havia no sorriso um gosto de vitória antecipada.
— Et moi, je veux voir sa tête quand il me verra... — a outra respondeu,
ajeitando a alça do vestido como se já estivesse diante do rapaz.
Riram de novo. — Ce soir, ça va être incroyable.
O metrô deslizava pelas
entranhas da cidade, e eu imaginava o antes: o banho demorado, as mensagens
trocadas no celular, a música alta no quarto, o perfume borrifado duas, três
vezes, para que o cheiro chegasse antes delas.
Naquele instante, eram
heroínas do próprio roteiro. Não importava se o destino fosse um bar pequeno ou
uma festa monumental — a noite, para elas, seria grandiosa de qualquer forma.
Eu, do meu canto, me deixei
ficar como espectadora silenciosa, colhendo fragmentos de um filme que nunca
veria até o fim. E talvez fosse melhor assim: cada uma de nós seguindo viagem,
guardando para si o mistério do que aconteceria depois da próxima estação.
Silvia Marchiori Buss
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