" Se Sabotar ao Contrário".... da série CADERNO DE LAUSANNE 6
Pedalar em Lausanne é como atravessar uma aquarela que não seca nunca: o lago Léman respira em azuis e pratas, as montanhas guardam segredos de séculos, e as ruas estreitas parecem inventadas para que o tempo caminhe devagar. Foi nesse cenário que um pensamento inesperado se infiltrou entre o sopro do vento e o giro das rodas: e se eu me sabotasse ao contrário?
A vida já havia me pregado
a maior das armadilhas: arrancar de mim o amor da minha vida. A sabotagem da
ausência é cruel — e todos os dias me empurrava para o abismo da saudade. Mas
ali, enquanto o sol escorria pelas águas e uma criança sorria ao longe, eu me
dei conta de que também posso armar contra a dor.
E se, quando a lágrima
ameaçar cair, eu inventar um riso pequeno, mesmo que tímido?
E se, quando a saudade me acorrentar, eu pedalar mais forte, como quem foge de
um cárcere invisível?
E se, quando o coração me puxar para trás, eu me empurrar para a frente com a
mesma teimosia com que as flores brotam no cimento?
Chamei isso de me sabotar
ao contrário. Não é negar o luto, não é varrer a tristeza para debaixo do
tapete da alma. É apenas conspirar contra o peso, armar uma pequena revolução
íntima. É escolher sorrir no momento em que tudo manda calar. É roubar da dor
um instante de beleza, nem que seja o reflexo breve do sol na água.
Continuei a pedalar. O
vento me vestia de coragem, Lausanne me emprestava sua serenidade, e por alguns
minutos, eu quase acreditei que era possível vencer a ausência com a mais
simples das manobras: não desistir.
Não sei se vou conseguir
sempre. Mas talvez tentar já seja uma vitória. Talvez tentar já seja vida.
Silvia Marchiori Buss
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