Quem Não Sabe, Inventa
Dona Eulália tinha o raro dom de nunca deixar o silêncio vencer. Não importava o assunto — política, cirurgia de coração aberto, comportamento de pinguins ou receita de pão sem glúten — ela sempre tinha algo a dizer. E, se não sabia… ah, minha filha, inventava.
O falecido marido, Seu
Agenor, dizia que ela era “uma biblioteca cheia de livros sem páginas”. Quando
ele morreu, vítima de um aneurisma cerebral, Eulália contou para todos que fora
“desânimo”.
— Desânimo de quê? — quis
saber a vizinha Olindina, que não perdia um velório.
— De tudo. O homem já tinha feito tudo o que queria. Quem não tem mais o que
querer, vai embora. — respondeu Eulália, com ar de filósofa de boteco.
No bairro, ela era uma
espécie de “agência de notícias alternativa”. O problema é que as notícias dela
vinham com enfeites, bordados e, muitas vezes, até coreografia. Quando o filho
da padaria quebrou a perna, Eulália garantiu que ele tinha sido atropelado por
uma carroça de pôneis desgovernados. A verdade? Caiu da escada, carregando um
saco de farinha. Mas pôneis eram mais interessantes.
Um dia, na fila do açougue,
alguém perguntou sobre a neta dela, que fazia estágio em Medicina.
— Está se especializando em
doenças raras que só dá em milionário — disse Eulália, ajeitando a bolsa. — Se
você ficar rica, cuidado!
Na verdade, a neta passava
o dia medindo pressão de idosos e aplicando vacinas contra gripe, mas Eulália
achava que isso não dava assunto.
Quando não havia novidade
no bairro, ela criava. Certa vez, espalhou que a vizinha do 301 tinha fugido
com o entregador de gás.
— Mas, dona Eulália, a mulher foi só visitar a mãe no interior! — disse a
manicure Cida.
— Minha filha, “visitar mãe” é desculpa velha. Fogos de artifício saíram do
prédio no dia. Isso é coisa de romance proibido! — rebateu, convicta.
O trágico é que, de tanto
inventar, Eulália às vezes se esquecia da própria versão. No velório do irmão,
foi um festival. Para o grupo da direita da capela, contou que ele tinha
morrido de queda de cavalo. Para o da esquerda, que foi picado por uma cobra no
quintal. Quando encontrou a sobrinha, já cansada de sustentar enredos, disse
apenas:
— Foi dormindo, sereno.
Uma prima mais cética não
se aguentou:
— Mas, Eulália, afinal, o que aconteceu?
— Aconteceu que ele morreu, e isso é o importante. O resto, a gente inventa pra
dar cor à história.
Certa tarde, no ponto de
ônibus, Eulália estava entretida contando que um casal tinha se separado porque
“ele era obcecado por passarinhos empalhados” quando a filha apareceu para
buscá-la.
— Mãe! Isso não é verdade! — a repreendeu.
— Claro que não é — respondeu, sorrindo. — Mas veja se não é mais divertido que
dizer “eles não se davam mais”?
O cômico é que, de tanto
temperar a realidade, Eulália passou a acreditar em algumas invenções. Jurava
ter visto um OVNI sobrevoando o campanário da igreja, ter dançado um tango com
um embaixador uruguaio e ter sido confundida com atriz de novela numa viagem a
Santos.
O trágico é que ninguém
sabia mais onde terminava a realidade dela e começava a ficção. Nem ela mesma.
Um dia, ao se olhar no
espelho, murmurou para si:
— Será que eu sou mesmo eu ou inventaram essa tal de Eulália?
E riu sozinha, ajeitando o
chapéu, pronta para sair e encontrar alguém para contar que, segundo fontes
muito confiáveis (ela mesma), o bairro estava prestes a ser invadido por
flamingos cor-de-rosa fugitivos de um circo.
Porque, no fim das contas,
para Dona Eulália, tragédia sem graça era desperdício. E quem não sabe…
inventa.
Silvia Marchiori Buss
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