A Mulher Que Pulou a Primavera CONTO
Dizem que a primavera é feita de recomeços. Flores que insistem. Cheiros que voltam. Cores que se espalham como promessas. Mas para Clarice, a primavera virou o atalho mais curto para a dor.
Foi numa manhã absurda de
setembro — dessas em que o sol beija as janelas como um velho conhecido — que
ela o perdeu. Não de repente. Nem brutalmente. Foi uma morte pequena, íntima,
feita de suspiro e rendição.
Ele morreu ali, entre suas
mãos, com a cabeça pousada em seu colo e os olhos ainda presos nela como se
quisesse ficar mais um pouco.
Não houve sirenes. Nem desespero.
Houve silêncio. E o tempo quebrando como porcelana.
Naquela manhã, a primavera
chegou com cheiro de flor cortada e um amor interrompido.
Durante os meses seguintes,
Clarice passou a viver no contrapé das estações. O verão, que antes era mar e
sandália leve, virou um forno de ausências. O inverno, que já era duro, passou
a ser castigo. E o outono, ah… o outono parecia o único capaz de compreendê-la.
Sóbrio. Silencioso. Um pouco triste, mas suportável. Como ela.
Mas a primavera…
A primavera era escárnio.
As flores brotavam como se
o mundo não tivesse desabado. Os ipês estouravam em amarelos indecentes. As
pessoas sorriam sem pudor.
E ela? Ela ainda o procurava no travesseiro, no armário, no espaço à mesa.
A primavera mentia. Prometia vida onde só havia ausência.
Foi então que decidiu:
pularia a primavera.
Na véspera do dia em que
completaria um ano desde que ele partiu, Clarice comprou uma passagem só de
ida. Nenhuma carta, nenhum aviso. Apenas a decisão de não florescer.
Voou para o hemisfério
norte. Chegou à Suíça quando o outono se espalhava pelas ruas com seu frio
ameno e folhas rendidas. Escolheu uma cidade pequena às margens do Lago
Genebra, onde ninguém a conhecia, e onde o idioma parecia mais um muro do que
uma ponte.
E era isso que ela precisava: um lugar onde a dor não tivesse tradução.
Hospedou-se numa casa de
pedra, com cortinas pesadas e cheiro de madeira antiga.
Os dias eram lentos. O lago a observava em silêncio.
Ela caminhava pelas margens sem pressa, sentia o vento bater nos ossos,
respirava fundo, como quem reaprende a ser.
Não chorou no dia exato.
Também não sorriu.
Sentou-se num banco à beira da água, segurando entre os dedos um retrato
pequeno dele, o último que tiraram juntos — ele sorrindo com a luz da primavera
nos olhos.
Ali, cercada por montanhas
e reflexos, Clarice sussurrou:
— Estou viva, meu amor… mas
ainda não sei como. Não estou pronta para florir.
Ficou ali por semanas. Lia
pouco. Lembrava muito. Escrevia linhas soltas como quem costura feridas com
agulha cega. O lago Genebra lhe oferecia o que mais precisava: espaço.
Quando finalmente voltou ao
seu país, a primavera já havia passado.
Na janela da casa, restavam flores secas e um cheiro distante de alfazema. Mas
ela não se importou. Voltou no tempo exato do recomeço que fazia sentido para
ela: o outono.
Desde então, Clarice segue
pulando primaveras.
Vai embora em setembro. Volta quando as flores já desistiram.
E ninguém mais estranha.
Dizem que ela é esquisita, solitária, excêntrica.
Mas ela apenas aprendeu a
respeitar o próprio tempo.
Algumas dores florescem ao contrário.
Algumas primaveras, é preciso deixar passar.
E quem a vê hoje, sentada à
beira de algum lago, com um livro aberto e os olhos fixos na bruma, talvez
pense: ela está melhor.
Mas Clarice sabe.
Ela apenas está no outono — onde as coisas caem devagar e não machucam tanto.
No fundo, continua amando.
Mas agora, com a delicadeza de quem já não exige retorno.
Silvia Marchiori Buss
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