3- Música, Filmes e Café - Da Série Caderno De Lausanne
Há dias em que penso que Lausanne me acolheu como uma anfitriã discreta, dessas que não precisam de muitos gestos para dizer “fica”. Então tá! “fico”... Aqui, ao alcance de poucos passos, tenho três templos que me sustentam: o café com cheiro de chocolate, o cinema onde se apagam as luzes para que outra vida comece, e a música que escorre das salas da Ópera ou da Escola de Música como um rio que não conhece silêncio.
Não sigo uma ordem. Às
vezes me deixo levar pelo amargor doce do chocolate, que me aquece como um
segredo guardado na boca. Outras vezes me sento na poltrona escura do cinema e
espero a tela se acender como quem espera uma revelação. Amo o cinema francês,
talvez porque nele as pausas falem tanto quanto as palavras, e porque a vida,
ali, nunca se resolve — apenas se revela em fragmentos, como a própria vida
real.
Música, filmes, café...
Lausanne me oferece esses três convites e eu aceito cada um conforme a
necessidade do dia. É um luxo simples: sair de casa e estar perto de tudo
aquilo que me compõe.
Penso no contraste com o
passado: em Jaguari, minha cidadezinha, o cinema repetia por semanas o mesmo
filme, e ainda assim eu assistia como se fosse sempre estreia. O ritual
começava com a missa e terminava na matiné, quando as cortinas se abriam e eu
podia me tornar outra por algumas horas. Mais tarde, em Santa Maria, buscava
sozinha as salas escuras do Glória ou do Independência. Não era solidão; era
companhia silenciosa com as histórias que me ensinavam a sonhar.
E foi em Santa Maria também
que ele começou a caminhar comigo. Meu companheiro de vida, que tantas vezes se
sentou ao meu lado em poltronas de cinema, riu comigo em cafés e se deixou
atravessar pelas músicas que juntos ouvimos. Hoje, cada vez que escolho um
desses caminhos, é como se fôssemos nós dois que seguimos: eu com os pés, ele
com a memória. Sinto por nós, vejo por nós, vivo por nós — como se a cidade
fosse agora também a herança do amor que ficou.
É assim que caminho por
Lausanne: entre goles, acordes e imagens, me reinvento. Lausanne se torna o
palco onde posso viver a minha própria vida assistindo à vida dos outros como
espectadora que sou... e, no fundo, descubro que as histórias deles sempre foram
também as nossas — ecos de uma vida que continua a se contar em mim.
Silvia Marchiori Buss
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