Entre o Primeiro Choro e o Último Silêncio
O primeiro sopro de vida é sempre um espanto. Um grito que inaugura a existência, rompendo o silêncio como um raio rasgando a noite. Não é dor, é anúncio. É como se o universo inteiro parisse junto conosco, entregando-nos ao mundo envoltos em claridade e promessas. Nascer é abrir-se para braços desconhecidos, é aceitar a festa dos começos. Cada gesto é uma alvorada, cada riso, uma descoberta que se acende como chama. A vida, no início, parece um palco limpo: cortinas erguidas, luz acesa, cenário em branco à espera da cena.
Mas o mesmo fio que se
estende no nascimento já carrega, invisível, o nó do fim. Como um tecido em que
a linha já conhece o arremate, trazemos desde o primeiro respiro a marca de
que, um dia, expiraremos. Ninguém entra no mundo sem carregar, oculto no peito,
o bilhete da partida. Entre a alegria da chegada e a sombra da despedida,
habitamos o intervalo — esse espaço suspenso que ousamos chamar de existência.
É nesse intervalo que a
tapeçaria da vida se borda: encontros, amores, perdas, esperanças. A infância é
feita de cores vivas, corre descalça pelos quintais e inventa mundos no sopro
do vento. A juventude é uma fogueira impaciente, que arde mesmo quando ninguém
a acende. A maturidade chega como rio mais sereno, mas ainda cheio de
redemoinhos ocultos. No meio da vida, descobrimos que o riso pode ser um abrigo
súbito, e a lágrima, uma oração silenciosa. São os abraços que prometem
eternidade, mesmo sabendo que a eternidade não cabe em nós. São as despedidas,
sempre mal aprendidas, que nos lembram de que tudo o que tem começo carrega em
si o prenúncio do fim.
E então chega a ausência.
Ela não bate à porta, atravessa a casa como vento frio, ocupando as frestas do
coração. É a cadeira posta que nunca mais será ocupada, a voz que se cala no
meio da memória, o perfume que insiste em permanecer no ar como se fosse corpo.
A morte é brusca, mesmo quando esperada: não pede licença, entra e leva. E nós
ficamos tentando costurar sentido num tecido que insiste em se rasgar.
Talvez a fé seja apenas a
agulha que borda esperança sobre o vazio, um lenço de renda delicada para
enxugar lágrimas que nunca secam por completo. Ou talvez seja só a coragem de
continuar, mesmo sem resposta, diante da pergunta que ninguém resolve.
Entre o primeiro choro e o
último silêncio, ficamos nós: trapezistas da vida, dançando sobre o intervalo,
sabendo que cada riso carrega escondido o germe do pranto, que cada encontro já
traz nas mãos a sombra da despedida. E, ainda assim, escolhemos viver. Porque
viver é esse milagre: celebrar no mesmo corpo a claridade e a sombra, o começo
e o fim, o instante e a eternidade.
Silvia Marchiori Buss
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